MANHATTAN FROM THE SKY II
Por:
Maddie Cáceres | Beta-reader: Duda Fletcher



Prólogo
Um violão e minha infância
A escola e minha primeira vez
Amigos que não voltarei a ver
Ficam para trás.

Trás de Mí — RBD

Olly Petroni’s POV


Roma, Itália.


Por dezessete anos, eu vivi em Roma. Por dezessete anos, a única família que eu tive foi minha mãe. Meus avós morreram quando eu ainda era pequena e a de meu pai, eu nunca soube muita coisa. Tudo o que mamãe contou a respeito dele — e não era muita coisa — foi que ele era americano, tinha uma situação econômica melhor que a nossa — não que fôssemos pobres, não éramos —, o que me fazia crer que ele era milionário.
Nós tivemos uma conversa sobre ele quando eu tinha mais ou menos catorze anos e quis dar uma de garota rebelde, porque não tinha um pai para me dizer o que fazer. Minha mãe falou dele com olhos frios, preferiu não dizer seu nome, e eu não ousei perguntar porque o jeito como ela falava me fazia ver que ele não era a melhor pessoa do mundo. Ele soube da gravidez e nunca a procurou, nunca me procurou e, a partir daí, parei de me importar com a ideia de ter um pai ou não.
Se me perguntassem, eu dizia que ele tinha morrido antes de eu nascer e que minha mãe não me falava dele porque ele a tinha abandonado. As pessoas diziam sentir muito, e eu dava risada, mudando o assunto para algo mais interessante.
Porém, quando eu fiz dezessete, poucas semanas antes, mais precisamente, minha mãe descobriu ter câncer num estágio avançado e acabou falecendo. Eu nunca senti uma dor tão grande em toda a minha vida. Mas, antes de morrer, por eu ser menor de idade, ela precisou me falar sobre o meu pai.
Lembro-me perfeitamente de suas palavras no hospital. “Seu pai se chama Jonas”, ela disse. E naquele mesmo instante, lembrei-me do trabalho sobre as profissões, onde Enrico Colucci, um garoto nerd com quem nunca me dei bem, falou sobre a Jonas & Co. E sobre como ele queria ter uma empresa tão importante como aquela. Eu vi a foto do tal no retroprojetor e, estranhamente, reconheci aquele nariz de algum lugar. Depois de minha mãe dizer a verdade, me dei conta de que conhecia aquele nariz da minha própria cara.
Depois do enterro da minha mãe, eu mal tive tempo de arrumar as malas, porque já tinha as passagens compradas para Nova York. Minha mãe pedira a uma amiga, antes de falar comigo, que comprasse as passagens e junto com elas deixou o telefone da Jonas & Co., dizendo-me para ligar e falar com antes de tudo. Só que a menina rebelde voltou, e eu não fiz nada disso. Subi no avião e deixei Roma para trás completamente raivosa.
O que eu ia fazer em Nova York?! Eu era italiana, que diabos eu ia fazer n’América? Droga nenhuma. Eu ia dar de cara com um executivo engomado que certamente foi um filhinho de papai que engravidou minha mãe e se mandou quando sua estadia em Roma precisou terminar. Ainda por cima, disse — através de amigos — que tinha certeza de que eu não era filha dele. E agora, teríamos que conviver e fingirmos ser uma família feliz.
E eu? O que eu queria não importava? O cara nunca se preocupou comigo, nunca quis saber de mim, me renegou quando eu mal era uma gosma dentro do útero da minha mãe e agora eu teria que viver com ele? Teria que me impor a ele como filha. Prende il bambino è tuo. Da maneira mais grosseira de falar. Mas o maior problema não é o Jonas descobrindo ser pai de uma adolescente de dezessete anos, o problema sou eu deixando minha terra e meus amigos para ir viver numa Nova York de gente esnobe e com o nariz empinado. Porque, se ele era um empresário rico da cidade, as séries na televisão me mostravam o tipo de pessoa que eu teria que encarar.
Merda! O que eu penso não importa, não é? Importam somente os dezoito anos que não tenho. Minha vontade que vá para o inferno.
Dentro do avião rumo à Nova York — minha sorte era o visto de turista que tirei para ir a Los Angeles como presente de dezesseis anos —, eu não consegui dormir ou ler. Tudo me lembrava de que eu estava indo embora da Itália para sempre.


Capítulo Um
Agora tudo está mudado.

Off The Chain — Selena Gomez & The Scene

Jonas’ POV


Os fracos raios de sol de fevereiro começavam a atravessar as cortinas do quarto quando eu abri meus olhos. Apesar de ser sábado, eu não conseguia dormir mais do que até 7h da manhã, por causa do horário do colégio. Eu precisava estar lá pontualmente às 7h30min da manhã e, como ficava longe de casa, eu precisava estar pronta para sair às 7h. Portanto, quando sábado chegava, era o máximo que eu conseguia dormir, por mais que lutasse para tentar dormir mais.
Levantei-me em silêncio, calçando os chinelos enquanto via de bruços, com um lado do rosto enterrado no travesseiro e os lábios numa espécie de beicinho. Sorri ao olhá-lo. Faria aniversário no próximo sábado; trinta e cinco anos exatamente. E passara a semana inteira reclamando no quanto se sentia velho do meu lado. Eu apenas ria e dizia que velho ele ficaria quando tivesse cabelos brancos, o que ainda não tinha acontecido.
Apesar de tudo, ele não mudara muito desde que nos conhecemos, já eu sim — pelo menos, de segunda à sexta. Não engordara, não deixara a barba crescer e, vez ou outra, trocava o corte de cabelo. Estava cada vez mais apegado aos perfumes e às novas lojas e stands da Jonas & Co. que abriam. Mas, nem por isso, eu podia me queixar da vida que tínhamos. Porque éramos tão ou mais felizes do que quando saíamos às escondidas.
Sentada no sofá da sala, com uma caneca de café nas mãos, eu fiquei observando as fotos no rack onde também ficava a televisão. Uma delas era de com os irmãos. Antiga, dos tempos que ainda aprontava. Eu olhava para ela todos os dias e me lembrava de . Lembrava-me da conversa que tivemos antes de ele decidir o que fazer da vida. Desde ali, cinco anos atrás, não esteve nos Estados Unidos de novo.
Ele ligava, mandava cartas, estivera na África, em vários países diferentes, estava cada vez mais apegado à ideia de ajudar quem precisasse. Em nada — nem mesmo na aparência física; o cabelo estava mais curto e ele usava barba — se parecia com o garoto de vinte e poucos anos que servia como ponte entre e eu. E eu ficava feliz por isso, muito feliz.
Lavei a caneca e deixei-a no escorredor de louça, enquanto, fazendo o mínimo de barulho possível, fui até o banheiro para tomar banho. Quando saí de lá, já estava de pé. O que era estranho, porque ele sempre dormia até às 10h.
— Bom dia — eu disse, estranhando vê-lo ali.
— Fez café para mim, mulher? — Ele brincou enquanto me abraçava.
Eu ri.
— Bom dia, amor — beijou meu rosto.
Eu o abracei, pressionando meus dedos contra seu cabelo.
— Por que acordou cedo? — Quis saber.
— Telefone — respondeu, mal-humorado. — E você não vai acreditar em quem era…
Ele falou de um jeito... Não consegui entender.
? — Chutei, numa careta. Tinha certeza de que não era ele.
— Joshua — ele rolou os olhos. — Ligou porque uns ingleses que querem fazer negócio conosco vão dar uma festa hoje à noite e me querem lá.
— Ele te ligou às 7h30min da manhã de sábado quando podia ter feito isso ao meio-dia? — falei, entediada.
Joshua era o vice-presidente da Jonas & Co. Assumiu o cargo depois que o pai morreu, há dois anos e, desde então, fez de tudo parar tirar a maioria das ações e a presidência de , travando uma espécie de guerra interna. O pior era que, às vezes, eu tinha a sensação de estar na mira dele também. Isso era insuportável.
— Ele quer é encher o saco — resmunguei. — Vou ter que pôr salto alto no sábado, é mesmo? — Fiz manha.
— Eu ia te dizer para não ir, mas eles são muito tradicionais e vão estranhar se minha mulher não me acompanhar — ele apertou os braços ao meu redor. — E sim, você vai ter que usar salto, sorrir e fazer todas aquelas coisas que odeia — riu.
Se havia uma coisa a que eu detestava ir, essa coisa era os coquetéis, almoços, jantares e todas essas frescuras de presidente de empresa em que me fazia acompanhá-lo. Algumas pessoas eram legais, mas outras estranhavam quando eu dizia que não cresci em Manhattan — ou qualquer outro lugar do gênero. Fora que, dificilmente, eu tinha assunto. Do que eu falaria com as pessoas? Sobre as provas que corrigi no St. Francis? Não mesmo…
— Você bebeu todo o café de novo, ? — reclamou da cozinha, me despertando.
— Bebi? — Fiz-me de desentendida, segurando o riso.
— E se esqueceu de colocar para passar — completou, abrindo o armário aéreo e pegando o pó de café, além do filtro de papel.
— Velhos hábitos nunca morrem — brinquei.

Eram 7h da noite quando cheguei com à casa onde os ingleses estavam hospedados. Era uma casa enorme, de arquitetura antiga e um belo jardim que tivera suas árvores castigadas pelo inverno da cidade. Todos estavam no salão principal; as mulheres usavam vestidos informais e os homens terno, como se fosse um dia de trabalho qualquer. Eu era capaz de jurar que — tirando a filha adolescente dos ingleses — era a mais jovem ali; com vinte e cinco anos.
— Prometa que não vamos ficar muito — sussurrei para enquanto andávamos até os ingleses.
— Tudo bem, amor — respondeu, doce como sempre. Ele também não gostava desses compromissos, ainda mais depois que Josh se tornou parte desse mundo.
O casal de ingleses que estava disposto a levar os produtos da Jonas & Co para suas lojas parecia simpático. Eram baixos, ela era loira e ele tinha cabelos castanhos.
— Sr. Jonas — o homem disse para , animado, cumprimentando-o com um aperto de mão.
— Mr. Wastes, como vai — lhe respondeu. — Mrs. Wastes — disse, referindo-se à esposa dele.
— Oh, Sr. Jonas, que bom vê-lo! É tão jovem! — Ela disse com um sorriso no rosto. — Não me diga que essa é sua esposa — Mrs. Wastes pareceu me analisar, de um jeito bom — estranhamente.
— Sim, esta é , minha mulher.
Sorri aos dois, estendendo minha mão para Mrs. Wastes.
— É um prazer conhecê-la — eu disse, fazendo uso do bom inglês que ensinava a meus alunos.
— Igualmente.
Cumprimentei Mr. Wastes também e pedi licença, alegando que vira uma conhecida. Uma mentirinha para não dizer que eu ia ao banheiro, porque eu não conhecia ninguém.
Quando saí de lá, dei de cara com Joshua em um dos corredores, seu cabelo castanho claro estava penteado para trás e seus olhos pretos me observaram daquele jeito que eu odiava. Ele estava parado diante de mim, praticamente bloqueando minha passagem.
— Boa noite, — pronunciou numa voz aveludada e completamente irritante.
— Boa noite, Sr. St. Monique — disse do jeito mais formal que fui capaz, buscando um jeito de sair de perto, mas não havia. Josh estava mesmo querendo me manter ali.
— Está com pressa? — Ele perguntou, me analisando.
— O ambiente está meio sufocante — respondi ríspida. — Se puder me dar licença, acho que Emma está procurando por você.
Emma era a coitada com quem Josh se casou. E quando digo coitada, é porque Josh não era flor que se cheirasse.
— Emma fica para depois, .
Eu senti nojo quando ele me chamou daquele jeito. Não era a primeira vez que Josh grudava em mim, mas eu nunca havia contado nada para . Uma vez, cheguei a conversar sobre isso com , mas o fiz jurar que ficaria calado.
deve estar me procurando. Com licença — insisti.
— Certamente está — finalmente, Josh me deu espaço. — Apareça na Jonas & Co, vai ser ótimo vê-la.
Comecei a andar.
— Ah, eu irei sim — respondi, parando e me virando para olhá-lo. — Só não esquece uma coisa: segundo lugar não é para mim, principalmente quando eu já experimentei da sala da presidência.
Não esperei uma resposta, eu simplesmente saí dali e voltei para onde estava. Vi Emma de longe, o cabelo claro preso num coque e os olhos pretos procurando por Josh. Eu não sabia por que diabos ela não dava um belo chute na bunda dele — literal e figuradamente falando.
Quando e eu chegamos ao apartamento, era quase meia-noite de domingo. Estendemos a noite fora porque passamos no Starbucks e ficamos conversando até fechar.
— Estou quebrada — falei, tirando os sapatos e andando descalça pelo tapete felpudo do quarto.
— O que Josh queria com você? — perguntou. Eu podia jurar que ele não nos vira.
— Nada que fosse importante, só me cumprimentou — desconversei. Se Josh e já não se davam bem, eu não queria pôr mais lenha na fogueira.
— Mesmo? De longe, pareceu que ele estava te importunando — ficou parado, me olhando com a gravata em mãos.
— Eu juro — ri, de nervoso, mas acho que não deu para notar. — Quero dormir, ‘tô um caco — falei.
— Não gosto do jeito que ele olha para você.
— Eu também não — respondi. — Mas você sabe que eu sei dar um bom soco — ri.
esfregou a boca.
— É, eu sei — e teve de rir também.

A semana passou tão depressa que, quando dei por mim, já era sábado novamente. Quando eu vi, o aniversário de havia chegado e nós havíamos combinado de jantar na casa dos Jonas, já que Denise pedira desse jeito. Estávamos todos sentados na sala, protegidos do frio noturno pela lareira que tinha algumas fotos de família como decoração na parte superior. Não éramos muitos: , eu, seus pais e — que estava sozinho depois de dois meses saindo com uma atriz de uma dessas séries que os adolescentes adoram.
— Hoje vocês não podem falar de trabalho! — Eu disse assim que vi e conversando num canto da sala.
— Tem certeza que vai pedir isso a ele? — me olhou, segurando uma risada.
— É. Tem razão. É como pedir a um fã que não fale no ídolo… — ri.
— Quem vê você falando, acha que eu vivo trabalhando — reclamou.
— Você vive trabalhando — confirmei. — Mas pelo menos hoje, ninguém ligou cedo me fazendo colocar sapatos de salto em pleno sábado.
e riram.
— Você ainda é a mesma pessoa que trabalhava na Lilac, se é isso que te preocupa — se pronunciou. — Não é mesmo, ?
— Só falta o boné — completou o outro.
Todo dia, antes de sair para trabalhar, quando eu me via usando roupas de corte perfeito, sapatos de saltos altos e maquiagem pesada, eu me perguntava se isso não escondia quem eu era. Não era muito bonito andar com meus jeans de bainhas “estouradas”, camisetas surradas com bandas, cidades ou derivados e aquele boné que odiava, mas, pelo menos, me fazia me sentir eu mesma diante do espelho ou de qualquer outra coisa que refletia minha imagem.
Eu comia porcarias no almoço, falava “cacete” a cada cinco segundos… Agora, era chamada de Sra. Jonas a cada minuto, por cada pessoa que me conhecia e que não era da minha família — ou da família de —, como se eu fosse alguém superior, o que eu não era. Eu não sentia que era e nem queria. Então, algumas vezes, parecia que quem eu era dormia dentro de mim e eu havia ativado alguma espécie de segunda personalidade ou alter ego. Na maioria das vezes, era desconfortável.



Capítulo Dois
Deixe-me bagunçar o seu mundo.

Good Girls Go Bad — Cobra Starship feat. Leighton Meester


Daquela vez sim, estendemos nossa estadia fora de casa. Deixamos a casa dos Jonas por volta da meia-noite. Não paramos para comprar café ou coisa assim, simplesmente voltamos para casa ouvindo música no rádio e conversando sobre coisas aleatórias, como as propagandas do Dia dos Namorados que víamos nas ruas. Estava frio, era verdade, mas tudo estava bem bonito lá fora.
Nova York era linda, fosse qualquer estação do ano.
— Gostou do presente? — Perguntei a , referindo-me à câmera fotográfica que eu havia lhe comprado.
— É incrível, obrigado — ele sorriu, olhando para mim rapidamente.
Adentramos o prédio onde vivíamos, indo direto ao estacionamento.
Enquanto passávamos no carro pela portaria, pude ver que havia uma garota na guarita do vigia com uma caneca, que eu acreditei ser de café nas mãos. Aquilo me deixou muito intrigada.
— Você viu a garota na guarita? — Perguntei a enquanto entrávamos em casa, livrando-me do casaco preto e pesado que eu usava.
— Garota? — A expressão de era confusa. — Não. Eu não reparei — completou.
— Ah, vai ver ela é filha dele — dei de ombros, caminhando para os fundos. Tudo o que eu queria era um banho quente e minha cama.
— Vou tentar falar com ! — gritou para mim da sala.
— Diga que mandei um abraço! — Gritei já do banheiro.

Jonas’ POV

Enquanto tomava banho, eu pretendia tentar falar com para saber se ele ainda andava pelo Brasil. Fazia quase dois anos que estava instalado numa cidade do Sul, colaborando com algumas creches, como voluntário. Ele disse que resolvera ficar naquela parte do país por causa do clima.
Quando o computador ligou, ouvi o interfone tocar. Corri para atender.
— Pronto — disse.
O porteiro me avisou que havia uma garota lá embaixo, esperando para falar comigo há algumas horas. Mandei que subisse, mesmo não imaginando quem pudesse ser.
Não demorou muito para que tocassem a campainha. Abri a porta, dando de cara com uma garota ruiva de olhos claros.
— Boa noite — eu falei, sem saber direito o que dizer a ela. Não a conhecia.
Ela me olhou e fixou-se no meu rosto, como se procurasse por alguma coisa. Aquilo me deixou meio desconfortável.
— Posso ajudá-la? — Insisti, com medo que ela não tivesse me ouvido.
Sei Jonas? — Perguntou ela, em italiano. — Desculpe — pediu já em inglês, com um sotaque pesado. — Você é Jonas?
— Sou eu, sim. O que traz uma garota italiana à minha porta? — Perguntei curioso. Será que ela era alguma modelo da Jonas & Co. ou coisa assim?
Se bem que não fazia sentido nenhum.
— Pois muito prazer — ela disse antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa. — Eu sou Olímpia Petroni, mas se puder me chamar de Olly…
— Tudo bem, Olly, mas eu ainda não entendi o que trouxe você até a minha porta.
— Simples: eu sou sua filha. Sua filha e filha de Giovanna Petroni, lembra-se dela? Sua namorada do último ano do Ensino Médio — de repente, a voz dela era irritada, irônica e raivosa.
— Minha o quê? — Perguntei surpreso.
— Sua filha. De quem você nunca soube a existência, ou seja lá o que mentiu para si mesmo — ela deu de ombros, me olhando. — Vai me deixar aqui fora, papai?
Continuei parado, olhando a garota.
— Minha… Minha filha? — Gaguejei. — Com Giovanna. Justamente Giovanna… — aquilo me pegou de surpresa.
Eu não ouvia falar de Giovanna desde os dezoito anos ou menos. E agora batia uma garota na minha porta dizendo que era minha filha com ela?! Isso parecia um quebra-cabeça que não tinha todas as suas pessoas. Para mim, tinha algo muito errado ali, fosse o que fosse.
— É, sua filha. Meu inglês é ruim, mas creio que você me entendeu, não é?
Assenti.
— Quer entrar? — Consegui oferecer. — Acho melhor você me explicar isso tudo do lado de dentro.
Dei-lhe espaço e ela passou; foi aí que notei que trazia malas consigo. Será que tinha planos de ficar?
Olly caminhou até um dos estofados cinza-claro e se sentou. Descansou os cotovelos sobre os joelhos e o rosto sobre as mãos.
— Eu ouvi a campainha tocar... — parou assim que viu Olly sentada na sala.
Olly a observou. usava uma camiseta larga e toalha na cabeça.
Lei è tua figlia troppo? – Olly perguntou numa careta, fitando .
No, non lo è! E non ho figlia! – Respondi.
— Será que dá para alguém falar inglês aqui? — reclamou.
— Ela perguntou se você é minha filha, eu disse que não — expliquei.
— E por que diabos essa garota desconhecida e cheia de malas ia perguntar se eu sou sua filha? — a olhou.
Perché — Olly parou, corrigindo-se: — Porque eu sou filha dele.
— Ah, você é... É o quê?! — arregalou os olhos. — Desde quando você tem uma filha?
— Desde cinco minutos atrás — respondi.
Pelo que eu conhecia dela, não estava nem um pouco feliz.
— E cadê a mãe dela? Veio junto, por acaso? — perguntou.
— Minha mãe faleceu, por isso que eu vim procurá-lo — Olly explicou. — Eu só fui saber dele há alguns anos, mas como ele nunca me procurou, nunca quis saber também.
— Nunca a procurei porque não sabia da sua existência! — Defendi-me.
— Se é o que diz para si mesmo… — Olly deu de ombros. — Olha, tudo o que eu preciso é que você me deixe dormir aqui essa noite. Eu passei o dia voando. Quero comer alguma coisa, tomar banho e dormir. Amanhã, se você quiser, me emancipa e me manda de volta para a Itália, ‘tá legal?
— Giovanna sempre foi uma doida — resmunguei.
— Não fala assim da minha mãe! — Olly respondeu entre dentes.
— Chega! — interveio. — Todos estão cansados e surpresos. Se você quer tomar um banho, o banheiro é no fim do corredor. Última porta.
— Obrigada — Olly não a olhou, simplesmente pegou uma pequena malinha de mão e foi para onde indicou.
... — comecei.
— Depois — seu tom não era bom. — Agora eu vou pegar o telefone e pedir uma pizza enquanto você arruma algum laboratório que faça um teste de DNA amanhã mesmo.
— Amanhã é domingo.
— Segunda, então, cacete! — Ela respondeu.
... — insisti.
De-pois — ela quase soletrou. — Agora, eu vou ver se tem coberta para a cabelo de fogo fabricada em Roma.
Enquanto arrumava o quarto de hóspedes onde geralmente a mãe dela e Maison dormiam, já que havia duas camas, eu pedi a pizza, dando de cara com uma Olímpia que usava moletom e calças frouxas.
— Obrigada pela ducha — ela disse.
— Por nada. Vai chegar uma pizza logo, ok? — Informei.
— Obrigada por ela também — Olly riu.
— Olly, eu acho que… — não sabia como começar aquilo. — Acho que, que nós precisamos conversar sobre sua mãe e sobre tudo o que passou quando nós fomos namorados…
Ela me interrompeu:
— Mamãe contou.
— Então ela se esqueceu de contar para mim — respondi. — De verdade, Olly, se eu soubesse que você tinha nascido, todas essas coisas, nós teríamos tido uma relação de pai e filha. Claro que teríamos.
— Mas não temos. Dificilmente iremos ter — suas respostas eram curtas e rápidas.
— Eu vou falar com alguns amigos e vou dar jeito para que façamos o teste de DNA. Caso dê positivo…
— Vai dar — Olly me interrompeu de novo.
Olhei para por um segundo e continuei falando como se não tivesse ouvido sua interrupção.
— Quero ajeitar sua documentação e ver a sua cidadania americana, matricular na escola. Você já está em que ano?
— No último — ela deu de ombros. — E eu não quero seu sobrenome.
— Não use — revidei. — Mas enquanto não terminar o colégio, você fica em Nova York.
— Vão ser os piores seis meses da minha vida — Olímpia reclamou.
O interfone tocou, cortando aquela conversa que parecia mais uma batalha de inimigos centenários. Corri e o atendi, dizendo ao vigia que deixasse o entregador de pizza subir.
— A pizza chegou — eu falei à Olly. — Tem refrigerante na geladeira, é só pegar.
Ela não disse nada, apenas se levantou, abriu a geladeira e pegou uma das pequenas garrafas de Coca-Cola, sentando-se numa das banquetas em frente ao balcão da cozinha. Abriu a tampa de lata com a mão mesmo — deixando-me surpreso — e deu um gole do gargalo. Olhando-a assim, querendo dar uma de garota rebelde, eu lembrei-me daquela de quando nos conhecemos. A diferença, era que tinha uma doçura incrível ao redor, era como se exalasse aquilo, já Olly parecia mal-humorada e fria, muito fria. Igualzinha à Giovanna. Sem tirar nem pôr.


Capítulo Três
Mas é um simples fato:
Eu ainda te protejo.

One and The Same — Selena Gomez ft. Demi Lovato>


Ok. tinha uma filha, e eu não conseguia entender por que era tão difícil digerir a maldita informação. Uma filha não é uma amante, uma filha que ele nem sabia que tinha. Mas ainda assim, algo não batia, algo não me deixava ficar bem e eu ainda tentava entender o que era. Eu tentava desesperadamente. Assim como eu tentava entender por que durante todos esses anos, a tal namorada italiana nunca o procurou para falar sobre a menina que eles tiveram. Que mulher é tão maníaca a ponto de não dizer para um cara que teve uma filha com ele? Ainda mais quando esse parto acontece aos dezoito anos de idade? Se fosse eu, eu iria atrás do cara que me engravidou, ainda mais se tratando de um namorado.
Acho que era aí que morava o meu maior problema: eu queria que fosse eu. Se existia uma coisa dormindo dentro de mim, essa coisa, não era a capacidade de ser feminina ou conseguir amar alguém do jeito que eu amava , não. Essa coisa era a vontade de ter um filho. Do cara que eu amava, que me amava também e que me fazia feliz. E esse cara, agora, tinha uma filha de dezessete anos que caiu de paraquedas na sala de casa. A filha de uma namorada de quem eu nunca ouvira falar direito. Não ouvira falar direito e suspeitava de por quê:
a) Ela não fora importante;
b) Ela fora importante demais — a ponto de não ser assunto.
E fora dela que nasceu uma filha — apesar de ser aquela adolescente irritada que eu sentia que causaria problemas em breve.
Eu não conseguia descascar esses abacaxis todos de uma vez. Não mesmo.
Quando finalmente entrou no quarto para dormir, vi, pelo rádio relógio de seu criado mudo, que eram quase 3h30min da manhã. E eu não pregara o olho enquanto não o via passar por aquela porta branca e sem detalhes.
— Ela foi dormir? — Eu perguntei, abaixando o livro que tentei ler.
— Foi — sentou-se na cama, no lado onde eu costumava deitar, descansou os cotovelos nos joelhos, enquanto abria os botões da camisa. Esfregou o rosto e os cabelos, respirando fundo até finalmente olhar para mim. — Estou nervoso.
Deixei o livro de lado, sentando-me também — ainda com as pernas protegidas pelas cobertas — e, de um jeito desconfortável como nunca, eu o abracei.
— Eu jamais poderia imaginar que ela teve uma filha — ele disse, talvez descarregando tudo o que estava engasgado, talvez sentindo que eu precisava de uma explicação.
Quem sabe, fossem os dois.
— É meio… Não sei, não tenho palavras, desculpe — foi só o que eu consegui responder.
— Tudo bem… Até você deve estar confusa — me olhou, eu sorri sem saber direito o que fazer.
Assenti com a cabeça porque confusa era a palavra certa. De repente, depois de anos sabendo pouco do que acontecera antes de mim, eu estava prestes a ouvir uma história do passado dele.
— A mãe da Olly foi sua namorada? — Perguntei baixinho. Dizia para mim mesma que era para não fazer barulho para a garota que dormia num quarto próximo, mas temia que fosse medo de ouvir sobre alguém que fora importante.
— Foi. Durante todo o ensino médio na Itália — respondeu no mesmo tom que eu. Eu podia ver por sua expressão que ele estava distante. — E eu achei que ela era a melhor coisa que tinha me acontecido, até descobrir que, nos últimos meses do último semestre, ela andava às escondidas com um universitário que ia até onde estudávamos para distribuir panfletos de manifestações e coisas do gênero. Nós rompemos e fui para a Universidade de Chicago no ano sSCRIPTbreguinte. Ela não terminou o semestre por causa da gestação, eu ouvi histórias, mas achei que o filho fosse do universitário. E olha só…
— Por isso você nunca a procurou?
— Exatamente! — O tom de subiu, mas logo voltou ao de antes. — E agora aparece essa garota na minha porta. , eu juro que não sabia dela e, sem querer ser cruel, não sei se ela é minha filha mesmo ou se Giovanna a jogou para cá.
— Não é por nada, mas ela tem seu nariz — de repente, a angústia aliviou. Meu tom até saiu mais divertido.
apertou o nariz. Aquilo me fez rir.
— Não é coisa da sua cabeça?
Neguei.
— Se ela for sua filha — falei. — Vai ficar vivendo aqui?
— Pelo menos até que conclua o ensino médio.
— Tem algo nela que não soa bem — observei.
— Olly acabou de perder a mãe, sabe Deus o que Giovanna disse a ela… E caiu de paraquedas aqui. Se ela for minha filha e ficar, teremos que ter paciência.
— Eu queria ser mãe, não madrasta — disse baixinho, pensando alto.
beijou minha testa.
— Vou tomar banho. Vai dormir, já é muito tarde e você acordou cedo — ele disse, levantando-se.
— Tem razão. Eu amo você, boa noite — respondi enquanto ajeitava os travesseiros.
— Amo você também.
Ao contrário do esperado, acordei cedo, cerca de 8h da manhã. dormia e eu fiquei tranquila quando vi que a expressão em seu rosto era melhor do que há quase cinco horas atrás; estava completamente relaxada.
Peguei uma muda de roupa no armário, evitando fazer barulho, e me vesti depressa. Peguei o celular e digitei uma mensagem de texto.

Por favor, esteja acordado. Devo chegar aí em meia hora.
De volta ao passado, eu preciso que você me escute.
Obrigada, .


Passei na Starbucks mais próxima, comprei um expresso e peguei o metrô. Mais tarde, caso eu não chegasse em casa antes de acordar, lhe mandaria uma mensagem de texto.
Parei em frente ao prédio onde morava há quase três anos — desde que deixara a casa dos pais — e pedi ao porteiro que avisasse que eu havia chegado, mas o mesmo, ao ouvir meu nome, disse que avisara que eu podia subir. Agradeci e entrei, pegando o elevador e indo para o quinto andar logo em seguida.
Toquei a campainha do 502 enquanto pensava no que ia falar. Não sabia se estava fazendo a coisa certa, não pelo fato de eu ir procurar e deixar sozinho com Olly, mas sim por contar algo que não era meu.
, o que houve? — Ele perguntou assim que viu.
Eu o abracei.
— Tudo está uma bagunça, e algo me diz que vai ficar pior — respondi.
— É melhor você entrar e me explicar o que houve — disse, me soltando, ao mesmo tempo em que me dava espaço para passar.
Entrei em seu apartamento, reparando rapidamente no quadro vanguardista que decorava uma parede preta onde ficava o módulo branco. Foi ali que me sentei, em frente à estante, onde tudo o que era possível sobre perfumes estava, em forma de livro.
— Aconteceu alguma coisa?
Comecei a contar tudo, desde o momento em que deixamos a casa dos pais deles até quando falei com pouco antes de dormir. pareceu atento a cada palavra minha, e eu me policiei, para que nada soasse egoísta demais da minha parte.
— Então era por isso que, sempre que via um de nós, Giovanna perguntava sobre ! — Concluiu surpreso. — Não acredito que ela tenha morrido. Era nova demais.
— E se essa menina for mesmo filha do seu irmão — recomecei. — Ele vai mantê-la aqui até julho.
— Se eu conheço bem você, a garota tem cara de poucos amigos e você está sem saber o que fazer, por isso veio.
Era incrível como sempre sabia de tudo.
— Você é o meu melhor amigo depois do seu irmão. Eu não tenho como dizer para ele que algo me avisa para não querer essa menina por perto.
— Se ela for filha dele, ela vai ficar — me advertiu.
— Ela é, eu sou capaz de jurar — falei.
me olhou, desconfiado.
— Será que você não está exagerando? , você anda com ciúmes da sua suposta enteada?
— Claro que não! — Praticamente gritei. — Mas… Você sabe como foi a história da mãe dela com , não sabe?
assentiu.
não a procurou porque achava que Olly não fosse filha dele… E, bom, Giovanna jurou à garota que nunca as procurou por que não tinha vontade, mesmo sabendo da gravidez. E ontem, Olly dizia coisas como: “seja lá o que você mentiu para si mesmo”.
— Ela acredita na mãe, nada vai mudar isso. Ainda mais sem Giovanna poder explicar.
— Ela não gosta dele porque se sente abandonada. Ela vai causar problemas, eu sei disso, e não sei o que fazer.
— Porque vai querer atingir meu irmão de um jeito ou de outro — completou baixinho.

Jonas’ POV

? — Chamei, enquanto ia andando para a cozinha.
Estranhei acordar e não tê-la visto na cama. Afinal, ela tinha acordado cedo e ido dormir depois das 3h da manhã.
— Acho que saiu — quando responderam, tudo o que ocorrera na noite passada era um filme na minha cabeça.
Olhei para a bancada e vi Olly sentada com uma caneca de café nas mãos e uma maçã mordida.
— Bom dia — falei.
— Para você também — ela deu de ombros, mordendo a maçã.
— Você a... — antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou na mesa de centro da sala.
Fui até lá ver quem me procurava e suspeitei que fosse uma mensagem de texto da operadora. Era de .

Espero não ter te acordado. Caso tenha levantado e não me encontrou, é porque fui conversar com .
Já estou a caminho de casa.
Amo você, .


— Tudo bem — falei para mim mesmo, sem dar muita importância. Deixei o celular no mesmo lugar e voltei para a cozinha.
— O que era? — Olly me olhou por cima do ombro.
avisando que foi falar com meu irmão — respondi, abrindo a geladeira à procura do que comer.
— Então sua mulher sai antes de você acordar para falar com seu irmão e fica por isso mesmo? — ela disparou. — Eu, hein. Se fosse você, abria meus olhos.
— O que você quer dizer? — Eu a olhei, um pouco incrédulo.
— Eu? Nada… — o tom de Olímpia era irônico.
— Melhor assim — respondi sem humor, voltando para a cozinha.
De repente, lembrei-me de dizendo que algo em Olly não “soava bem”.


Capítulo Quatro
Sim, você pode segurar minha mão,
Se quiser
Porque eu quero segurar a sua também
Nós seremos parceiros e amantes
E compartilharemos nossos mundos secretos

Big Girls Don’t Cry — Fergie


Eram quase 11h quando consegui chegar em casa. Para um domingo, eu pegara trânsito demais num táxi. Larguei a bolsa em cima do sofá e me livrei do casaco pesado que usara para sair. A sala estava vazia, mas eu ouvia música vinda do quarto onde Olly estava, então supus que devia estar em algum canto da casa.
Depois de pensar na cozinha — e dar uma espiadela por cima do ombro —, achei que era mais certeiro procurá-lo no escritório. Abri a porta devagar, logo depois de bater e o vi conversando pelo Skype com . Fiquei feliz quando ouvi a voz do meu “ex irresponsável” favorito.
— Aqui já são quase 6h da tarde — disse.
está aqui. Falo com você à noite — respondeu.
— Dê um abraço nela! — Ele pediu ao irmão.
— Sim, senhor — riu antes de desligar.
— Podia ter ficado falando com ele — eu disse, andando para perto da mesa.
riu.
— Contou ao ? Contou sobre o que estava acontecendo?
— Desculpe, eu precisava conversar com alguém… Sei que não fiz uma coisa muito certa.
— Não, não fez. E se estava desconfortável, seja lá o que for, tinha que ter dito para mim primeiro.
— Desculpe — eu pedi, estranhando aquela conversa. — E não vai falar para ninguém. Nós sabemos disso.
— Tem razão, desculpe. Estou nervoso — pediu.
— E não era para estar? Cacete, no seu lugar, acho que não ia conseguir dormir — respondi. ¬
— Fiz uma ligação para Phillip antes de falar com .
Phillip era um amigo da família Jonas e tinha um laboratório onde eles faziam todos os exames de rotina. Agora, pelo jeito, fariam um de DNA também.
— E aí? — Eu quis saber, entusiasmada.
— Irei com Olly até lá amanhã bem cedo. Depois, vou para a Jonas e Co.
— E a Olly?
— Pega um táxi e vem para casa. Enquanto não provarem o contrário, ela é parte da minha família.

Pelo que consegui entender do que me falou, o exame ficaria pronto na terça-feira, já que se tratava de uma situação especial. Enquanto isso, Olly passaria o dia dentro do apartamento, assistindo televisão.
Durante a manhã e um pedaço da tarde de segunda, eu dei aula com a cabeça noutro lugar. Eu tinha certeza de que o exame daria positivo, e sabia que tinha essa certeza consigo também, afinal, ele dizia que, caso Olly fosse sua filha, deveria ficar conosco em NY até terminar a escola, em junho.
— Sra. Jonas — chamou um dos alunos, Jimmy, me despertando do transe.
— Ahn? Que foi, Jimmy?
— A explicação sobre a questão sete — os olhos azuis dele sobre mim eram confusos.
— Ah, desculpe, eu me distraí. Vamos lá…
Tornei a explicar sobre a função sintática das frases que havia colocado na lousa no começo da manhã, voltando minha atenção à aula que devia dar e deixando de lado, por algum tempo, os problemas que começava a ter em casa.
A última aula antes do almoço era vaga, então, sentei-me na sala dos professores e comecei a corrigir alguns dos trabalhos que havia pedido aos alunos do quarto ano. Foi quando o meu telefone vibrou sobre a mesa.
Atendi sem ver quem era.
— Alô — falei sem tirar os olhos dos papéis.
Ocupada?
— Não, estou no período vago. Aconteceu alguma coisa?
Sinto muito pelas coisas bagunçadas dessa maneira, amor — o modo como falou, do outro lado da linha, fez com que eu me ajeitasse na cadeira e prestasse atenção somente no telefonema.
— Não precisa — respondi. — Foi ao laboratório?
Uhum, quando saímos, você estava tomando banho — ele explicou. — Mas não foi para isso que liguei.
— Ah, não? — De repente, eu me animei.
Não. Eu sei que você tem esse período vago e que depois tem uma hora de almoço… Então, minha vida, eu pensei que você podia pegar um táxi e vir me encontrar aqui na Jonas & Co. O que acha? Depois eu te dou uma carona até o colégio...
— Como quando eu andava de moto? — Aquilo era um sim disfarçado. A proposta de me deixou entusiasmada.
Exatamente. O certo seria você ir lá para casa, mas como Olly está lá...
Olly. Isso me fez rolar os olhos, impaciente.
— Vejo você na sua sala — respondi com um sorriso.
Até daqui a pouco, então. Eu te amo, .
— Amo você também — falei antes de desligar.
O táxi não demorou muito a parar em frente a Jonas & Co. Como eu tinha aquele horário vago, avisei na direção que sairia para comer mais cedo porque havia esquecido uma papelada em casa. A Sra. Patterson pareceu não gostar muito, mas eu a ignorei, já que não suportava aquela monitora rígida e sem nenhum apego aos alunos, e fui pegar um táxi na avenida que ficava atrás da entrada principal.
No elevador, eu comecei — como sempre — a me lembrar da primeira vez em que fui ali. Quando esbarrei com sem saber quem ele era, mas com meu coração na garganta simplesmente por olhá-lo nos olhos. Lembrei-me também de quando nos beijamos em sua sala e de como eu me senti especial depois das palavras dele naquele dia.
— Oi, ! — Disse à minha melhor amiga, que esperava o elevador para descer.
! — Ela me abraçou com um sorriso. — Estou indo comer, seu marido me liberou mais cedo. Eu devia ter desconfiado que era porque você vinha…
Eu ri.
— Você sempre pensando no que não deve — falei.
— Ah, qual é… Depois de cinco anos não pode ser muito diferente de quando vocês saiam escondido. E você vem aqui algumas vezes...
— Não é — confirmei. — Mas... Ah, eu não vou te contar o que você quer saber se eu fiz ou não na sala da presidência.
riu.
— Isso é um “sim” disfarçado — sua risada não parou.
— Eu vou falar com logo porque tenho que voltar para o colégio.
, antes de você entrar e eu descer...
— Diz.
— Tem notícias do ?
Os olhos dela ficaram sérios naquela hora. Todo seu rosto ficou. Eu sabia que ela gostava dele, mesmo saindo com um cara que conheceu num bar, mesmo sem nunca ter falado mais do que o necessário com , eu sabia que ela era completamente apaixonada por ele.
— No Sul do Brasil — contei. — Faz dois anos.
— Nada mais do que isso? Ele não falou em voltar? — Seus olhinhos eram suplicantes.
Fiz que não com a cabeça.
— Por enquanto não.
— Bom — ela balançou a cabeça como se aquilo fosse animá-la de novo. Pareceu fazer efeito. — Fiquei de encontrar Eric na hora do almoço. Não quero me atrasar nem atrasar o seu almoço com ...
— Então, divirta-se — eu a abracei.
— Obrigada. Sinto saudade, passe lá na lavanderia qualquer dia desses — ela pediu, já pegando o elevador.
— Sem falta. Assim que eu tiver tempo — prometi.
As portas se fecharam, levando com elas um aceno e o sorriso de .
! Vejo que cumpriu sua promessa.
Respirei fundo, completamente irritada quando reconheci a voz de Joshua.
— Sr. St. Monique — respondi sem vontade alguma. — Como vai? Se não se importa, como eu já falei antes, eu prefiro a sala da presidência. Com licença.
Comecei a andar para a sala de , mas antes que eu abrisse a porta, o mesmo apareceu parado junto a ela.
— Ouvi sua voz — ele me disse.
— Ah, eu estava falando com — respondi, parando de frente para ele.
— Algum problema, Josh? — o encarou.
— Acho que não, preciso tirar umas cópias. Foi um prazer revê-la, .
O modo como meu nome soou fez com que eu achasse que Josh sorriu do mesmo jeito insuportável que no último sábado.
— Filho de uma égua — falei, descarregando toda a repulsa que ele me causava.
— Algo me diz que ele anda te importunando e você não quer me dizer — me olhou.
— Não gosto dele. Emma é um amor, e ele a trata mal. E ele quer tirar seu lugar, sendo que seu pai construiu isso aqui sozinho... É só isso — tudo o que não precisávamos naquele momento era outra batalha entre e Josh. — Além do mais, vamos fazer como quando eu ia à sua casa...
— Problemas lá fora — nós dissemos em uníssono.
Dentro da sala, eu sentei numa das cadeiras de sempre, tendo uma vista incrível de Manhattan lá embaixo.
— Tinha até me esquecido do quanto a vista daqui é linda — falei, girando na cadeira por um segundo.
— Eu ainda prefiro a vista de casa — discordou, eu acho. Caminhou até perto de mim e descansou as mãos nos meus ombros. — Quando o sol nasce, é incrível.
Lembrei-me de quando fiquei lá da primeira vez e sorri.
— Quem sabe o mágico da vista seja a companhia — sugeri, deitando o pescoço no encosto da cadeira para olhar .
— Quem sabe não... É.
Ouvi uma leve batida na porta.
— Comida! — Pulei da cadeira como costumava fazer em sua casa e fui até a porta, abrindo-a.
— Nada mudou — riu, enquanto ia pagar o que havia pedido.
Peguei os dois sacos de papel na mão e espiei o que tinha dentro deles; fast food.
— Nada mesmo. Qualquer dia você vai fazer um perfume com aroma de Double-Double — brinquei assim que reconheci o sanduíche do IN-N-OUT.
— Ótima ideia! — riu assim que fechou a porta atrás de si. — Daí você vai ser a primeira a usar, então, eu posso te dar uma mordida…
Comecei a rir.
— Você e essa sua mente imunda. Depois é para mim que a pergunta o que eu faço ou deixo de fazer aqui dentro.
— Se ela quer tanto saber o que acontece… — se aproximou de mim, passando os braços pela minha cintura. — Você pode contar para ela daquele dia naquele sofá ali — ele apontou por cima do ombro.
— Nunca houve nada naquele sofá ali — afirmei, sem entender nada.
— Mas pode haver, não pode? — ele sorriu sugestivo.
— Não, não pode — escapei dele, rindo. — Eu quero comer, preciso trabalhar e não posso chegar no St. Francis de cabelo desgrenhado, maquiagem borrada… A jararaca da diretora é capaz de me jogar numa sala escura e fria e, ainda por cima, atirar a chave fora.
— Desde quando você é tão responsável?


Capítulo Cinco
Desta vez eu ganhei!

Bang Bang Bang — Selena Gomez & The Scene


Pelo resto da tarde — depois que eu comi e saí do escritório — eu só conseguia pensar no resultado do exame, que chegaria no dia seguinte. Eu sabia que ia dar positivo e era isso, que me deixava mais nervosa ainda.
Quando cheguei em casa, por volta de cinco e meia da tarde, Olly estava sentada na sala escrevendo alguma coisa num caderno. Parecia concentrada e tive de pigarrear para que ela notasse que eu estava ali.
— Já comeu? — Perguntei assim que ela me olhou.
Olímpia não respondeu, voltou para o caderno e eu deixei as chaves em cima da mesinha do corredor, perto da porta.
— O vai demorar? — Finalmente ouvi seu sotaque.
— Acho que sim. Parece que precisa aprovar umas fragrâncias novas… — expliquei, enquanto me sentava na poltrona perto da janela e me livrava dos sapatos de salto-alto e bico redondo.
Olly não respondeu, continuou escrevendo no caderno. Eu peguei meus sapatos e caminhei descalça mesmo pelo carpete até o quarto, deixando-os no armário. Quando voltei para a sala, Olly tinha deixado o caderno de lado e havia ligado a televisão.
— Não quer mesmo comer? — Insisti enquanto pegava um pacote de biscoito no armário aéreo.
— Não, eu passei a tarde comendo Doritos — explicou sem me olhar.
Dei de ombros, sem muita vontade de responder e enfiei um biscoito na boca, mastigando-o depressa.
— Como foi hoje de manhã? — Se aquele exame ia dar positivo, teríamos que aprender a conviver de uma maneira ou de outra, então, eu estava tentando.
— Nem doeu, se é isso que você quer saber — finalmente, Olly tirou os olhos da TV e olhou para mim.
— Na verdade, não era isso coisa nenhuma — respondi. — Quero saber como foi com .
— Ele ouve boa música, mas acho que isso você já sabe — Olly se levantou e pegou um biscoito. — Mas não ficamos próximos, se é isso que te interessa. Foi bem desconfortável. Tanto a ida quanto a volta — o som de sua mastigação foi alto, quase furioso. Voltou para o sofá e sua atenção foi toda da televisão novamente. — Consuelo — ela me olhou.
— É — corrigi.
— Essa merda mesmo — Olly deu de ombros. — Domingo de manhã, você saiu antes de todo mundo acordar, certo?
Não sei por quê, mas fiquei desconfiada.
— É… Eu tinha umas coisas para fazer na rua — o clima ia ficando mais e mais pesado. Como uma tempestade. Enfiei um biscoito na boca.
— Você foi ver outro cara, é isso que quer dizer.
Ali, eu me engasguei.
— De onde você tira essas coisas, Olívia? — Olhei-a.
— Olímpia — disse ela, entredentes.
— Essa merda mesmo — imitei-a. — Fui falar com , irmão do , se é isso que quer saber. Nós somos amigos há muitos anos, então, geralmente converso com ele quando preciso de alguém. Não é outro cara, é o meu cunhado. Aprenda a processar as informações, Cabeça de Fogo.
— Nunca vi disso. Mulheres desabafam com outras mulheres…
— É melhor de parar de insinuar coisas, ouviu bem? — avisei. — Não tem fundamento nenhum — levantei, deixando os biscoitos na cozinha.
Olly riu.
Debaixo do chuveiro, eu não conseguia parar de pensar no quanto os próximos seis meses seriam bagunçados. O exame daria positivo, eu tinha certeza, e isso começava a me deixar zonza. Completamente zonza. Porque estava claro que Olly não estava disposta a se juntar a nós. A se dar bem, pelo menos, com o pai. Isso era sinal de um princípio de catástrofe. Porque parecia ser isso o que Olly queria: uma catástrofe.
Uma verdadeira avalanche de confusão.

! ! Corre aqui, depressa! — Ouvi a voz de no corredor de entrada. Eu estava na cozinha, fritando frango. Larguei o pano de prato em cima do balcão e fui até onde ele estava.
— O que houve, cacete? Morreu alguém? — Perguntei.
riu. E quando pude olhá-lo melhor, vi que trazia uma caixa velha de papelão.
— Não morreu ninguém. Pelo contrário — ele respondeu.
— E essa caixa, o que é?
Quando percebi, Olly estava ao meu lado, curiosa também.
— É, o que é? — Eu também quis saber.
— Oi, Olly, ficou bem durante a tarde?
— Fiquei sim — com ele, ela era doce.
— Ok, eu quero saber o que tem na caixa — eu disse, mexendo na caixa e vendo que havia um pequeno filhote. — Awn, que lindo! — Falei, enquanto o pegava no colo. — Olha, Olly — virei-me na direção dela.
— Que fofo — naquele momento, enquanto Olly mexia na cabeça do animal, que acabara de acordar, eu vi um pouco de doçura nos olhos claros dela.
— Pega — sugeri.
Sem dizer nada, ela obedeceu e voltou para o sofá da sala.
— Esqueci que ela estava aqui — falou baixo, dando um beijo na minha testa.
— O resultado. Quando chega? — Questionei curiosa.
— Phillip disse que viria entregar mais tarde — ele contou.
— Vou voltar para a cozinha e terminar de cozinhar — falei, já andando.
Durante o jantar, as coisas foram tranquilas. Olly comeu e até se arriscou a dizer que estava bom. Eu ainda estava um pouco atordoada pelo jeito como ela insinuou as coisas entre e eu, mas evitei falar sobre isso com . Ela se ofereceu para tirar os pratos, e eu estranhei toda aquela boa vontade. Talvez, Olímpia estivesse tão segura quanto eu de que o exame daria positivo e estivesse tentando se dar bem, pelo menos, com o pai.
Coloquei a louça na lavadora e me sentei em frente à TV da sala para assistir qualquer série adolescente da ABC Family, por mais que alegasse que eu já era velha demais para me apegar a personagens na faixa dos dezessete anos.
Olly estava distraída com o cachorro.
— Temos que colocar um nome nele — sugeriu.
Eu fingi estar atenta somente à televisão para dar a eles um momento bom.
Não por ela, mas por .
— Acho que ele é da , ela devia escolher — Olly deu de ombros, mal-humorada de novo.
— Não é meu — interferi. Pelo jeito como se portara, ficara óbvio que ele não o trouxera para mim, mas sim para nós. E nós agora éramos três. — É de todo mundo. Coloque um nome nele.
— Hmmm. Não sei. Eu vou querer colocar um nome italiano nele.
— Pode ser — concordei. — Você o dá um nome e leva para passear, limpa a sujeira…
Olly riu. Pela primeira vez, Olly riu comigo.
— Tonny. Quero te chamar de Tonny — ela falou diretamente ao cão.
Ele pareceu entender, porque latiu.
Mas, no meio de toda aquela felicidade temporária, o telefone tocou. E eu tive certeza de que era o tal Phillip, avisando que estava chegando — ou que havia chegado — com o resultado do exame de DNA. Meu estômago apertou e, quando disse que já estava descendo, eu fiquei nervosa. Algo em mim gritava o resultado, mas, ainda assim, eu estava muito nervosa caso fosse positivo. Porque sabia que aquela paz não duraria para sempre. E, claro, tinha algo muito errado naquela paz toda. Não era possível que alguém afrouxasse em vinte e quatro horas. Não mesmo.
Quando ele voltou, instintivamente eu firmei os dedos contra o vidro da mesa.
— Quer abrir, Olly? — ofereceu. Sua volta fez a garota largar o filhote por um instante.
— Não. Eu sei o resultado, porque acredito na minha mãe — soou um pouco arrogante, mas eu estava apreensiva demais para me preocupar com algo tão pequeno como Olly querendo fazer da mãe uma santa, quando eu sabia que ela não era.
— Abre isso logo! — Disparei. — Seja você, seja a Olly, o resultado será o mesmo.
me olhou rapidamente, até que, finalmente, tomou coragem de abrir o envelope e puxou a folha de papel.
— Pula a parte que ninguém entende e vá logo para o resultado, Jonas — disparei de novo. Eu estava nervosa.
Olly segurou o riso.
— O laboratório Ballymorris... Blá-blá-blá… — começou. Correu os olhos pela folha para achar o que tanto nos interessava. — Foi comprovado com 99,9% de certeza que Olímpia Petroni é filha de Jonas.
— Satisfeito, papai? — Olly ironizou, pegando a folha da mão de e balançando-a. — Agora é a hora que você me emancipa e me manda para Roma de volta.
— Não — negou com a cabeça, puxando a folha das mãos de Olly. — Agora é a hora em que você se senta ali naquela cadeira — ele apontou para uma das cadeiras da mesa. — E aprende a me ouvir. Porque você não vai voltar para Roma, você vai ficar aqui até terminar o colégio, de preferência no St. Francis. Daí, se você quiser cursar a Universidade em Roma, tudo bem, porque vai ter dezoito anos e vai ter aprendido tudo o que espero que aprenda.
— Essa não é a hora em que vocês se abraçam? — Falei baixo.
— Eu não quero abraçar um cara que foi imposto ao cargo de meu pai — Olly quase me olhou com ódio. — E eu não vou ficar aqui nessa burguesia de merda, fica bem avisado! — Seus olhos claros, agora, estavam sobre .
— Faça o que eu falei — ele respondeu.
— Não quero! — Olly gritou.
— Abaixa a voz, Olímpia! Não quero que grite comigo, entendeu? — pediu calmamente.
— Ah, ‘tá! Era só o que me faltava, acho que já estou velha para essa lição. Isso se faz aos cinco anos — Olly debochou.
— Quer ir deitar? Pode ir, vamos sair cedo amanhã. E acho que esperar que você tenha se acostumado ao fuso-horário, em tão poucos dias, é um pouco demais.
Eu fiquei quietinha, assistindo àquela cena toda como se fosse um filme. Era um que eu não conhecia, mas que, ainda assim, eu gostava de ver. Talvez o presidente da Jonas & Co fosse assim também, eu que nunca tinha prestado atenção.
— Cedo?
— Sua matrícula no colégio. Acho que consigo uma vaga no St. Francis. Não consigo, ?
— Consegue sim, eu falo com a Sra. Crayg e digo que se trata de um caso especial, tanto para você, quanto para mim. Assim como o seu sobrenome me colocou lá dentro, põe a Cabelo de Fogo aí também — quase mordi a língua de arrependimento por chamar a garota daquele jeito.
— Se você me chamar assim de novo… — Olly girou os olhos.
— Não vai acontecer nada — interrompeu, concluindo.
Olly não respondeu, ela simplesmente saiu dali e foi andando até o quarto onde dormia, batendo a porta logo em seguida.
— Não devia ser desse jeito — falei, fitando .
— Não. Mas Olly acha que eu a abandonei. Agora, quer fazer da minha vida um inferno — ele suspirou.



Capítulo Seis
Lembra-se da vez em que você disse que estava com sua melhor amiga?

I Won’t Apologize — Selena Gomez & The Scene


Já era mais tarde quando eu fui me deitar depois de conferir o que precisaria para lecionar no dia seguinte.
— Quero falar com você — disse, abaixando o livro que estava lendo.
— Fala — sentei-me ao seu lado, olhando-o.
— Sobre a Olly — explicou.
— Já não tivemos essa conversa antes? — Eu quis saber, confusa.
— Eu lhe contei a história… — seu tom era calmo. — Agora, ela vai ficar. E não vai ser . br Co. Como eu tinha aquele horário vago, avisei na direção que sairia para comer mais cedo porque havia esquecido uma papelada em casa. A Sra. Patterson pareceu não gostar muito, mas eu a ignorei, já que não suportava aquela monitora rígida e sem nenhum apego aos alunos, e fui pegar um táxi na avenida que ficava atrás da entrada principal. br— Na verdade, não era isso coisa nenhuma — respondi. — Quero saber como foi com Olly segurou o riso. fácil no princípio. E eu te conheço, , sei que é menos paciente do que eu.
Eu ri, apesar de ser verdade.
— Pois é, titia é meio estressada — brinquei. — Mas, olha, eu dou um jeito. Eu tento, qualquer coisa do tipo, ‘tá bom? — Ofereci.
— Eu não queria que nossa vida desse uma volta desse tipo — ele falou baixinho.
— Nem eu, mas ela já deu e, agora, a gente se segura e continua — dei meu melhor sorriso.
— Vamos voltar para o passado e namorar escondido em Long Island? /SCRIPTbr
— Tarde demais, mas bem que eu gostaria — ri. — Se bem que, seze=2— Desculpe — eu pedi, estranhando aquela conversa. — E a gente voltar para aquela época, a Candice volta também...
riu.
— Vamos ficar por aqui, então — concordou, por fim. — Agora, voltando à Olly…
— Ela acha que você é um monstro porque a mãe colocou isso na cabeça dela, quando nós dois sabemos por que você achou que o bebê não era seu. Então, você devia contar sua versão da história — interrompi.
suspirou.
— Não posso, não agora — disse. — Giovanna acabou de morrer. Ela nem digeriu a notícia direito.
— Mas não demora, senão as coisas vão sair de controle, é sério — pedi.
— Eu prometo, assim como sei que você vai ter paciência — seu olhar foi sugestivo.
— É… Eu tento, já falei — dei a língua. — Está frustrado?
— Por…?
— Ter uma filha e nunca tê-la visto crescer. Ou pior, vê-la rejeitando você.
Ele suspirou de novo.
— A parte de não tê-la visto crescer me incomoda, claro. Mas a rejeição, bom, Olly já veio com uma ideia equivocada na cabeça, o que eu posso fazer? Só o tempo muda isso e olhe lá…
— Tomara que dê tudo certo no fim — desejei, honestamente, num sorriso.
— Tomara.

— Vamos Olly, levanta, são quase sete horas — ouvi batendo na porta dela. Eu já estava vestida, tomando café da manhã na bancada da cozinha.
— Que droga, eu já vou! — Respondeu ela, alto o bastante para que se ouvisse do corredor, talvez.
Eu ri quando me olhou.
— Aproveita e treina para quando tivermos filhos — brinquei.
— A gente não treina com um cachorro antes? — Ele falou baixo, rindo.
Gargalhei.
— Não mais, minha vida — eu segurava o riso. — Isso é antiquado, agora as crianças vêm até crescidas.
Nós rimos.
Olly apareceu finalmente.
As roupas dela foram menos rebeldes do que eu esperava: saia jeans, meia calça, casaco, botas tipo coturno e uma echarpe preta.
— Qual é a piada? — Perguntou numa cara nada feliz.
queria um cachorro — respondi.
Olly fez cara de quem não entendeu e caminhou até a bancada, pegou uma maçã e a mordeu.
— Eu preciso sair — falei assim que terminei de comer.
— Nós vamos com você — disse. — Eu te deixo no colégio, vejo a matrícula da Olly, depois a levo para a Jonas & Co, para conhecer onde eu trabalho.
— Eu não tenho mais sete anos — ela respondeu prontamente.
— Mas precisa saber de onde vem o dinheiro que vai te sustentar até que termine a faculdade e arrume um emprego — replicou. — E também quero que te veja. Vamos começar por ele, porque eu não posso chegar na casa dos meus pais dizendo que tenho uma filha de dezessete anos.
é seu irmão, certo? — Olly o olhou, desconfiada. Mas, mais desconfiada, fiquei eu.
— É — respondeu sem pegar o veneno que eu senti no ar.
— Ah! Então ele é o cara que a vai ver às escondidas…
— Já te disse que eu não vou ver ninguém às escondidas, Olímpia! — Respondi.
— Todo mundo para o elevador. Pega sua pasta, ignorou as duas últimas frases.
Olly foi a primeira a sair do apartamento, eu fui depois e por último, trancando a porta.
Quando o elevador estava no sexto andar, parou. Assim que as portas se abriram, uma mulher entrou.
— Bom dia — ela disse, atenta ao celular.
— Bom dia — respondi.
— Kim? — perguntou, observando-a.
! — Ela abriu um sorriso enorme. Esquecendo-se completamente do que fazia no celular. — Quanto tempo!
Eu fiquei olhando sem entender direito. Pelo jeito, Olly também.
— Eu soube que você tinha ido para Londres — comentou.
— Fui. Estudar arquitetura, daí eu mudei de ideia e fui para Milão estudar Moda — ela explicou. — Depois fiz Jornalismo no Texas e vim para cá. Eu arrumei um emprego numa revista — contou. — Eu li por aí, há alguns anos, enquanto ainda estava no Texas, que você se casou. Com qual das nove foi? — Ela riu, fazendo referência às nove namoradas que sabia que ele teve.
— Com a décima — riu. — — falou se referindo a mim. — Essa é a Kim, uma amiga do colégio, eu acho que te contei.
— Oi, muito prazer — estendi a mão para ela.
— Ah, oi! — Ela parecia tão espevitada, apesar de eu acreditar que ela e regulavam de idade. Ela olhou para Olly, talvez encontrando alguma coisa no rosto da garota. — Esse seu nariz…
— Olly é minha filha — contou. — Com Giovanna, se lembra dela, não é mesmo?
— Lembro, lembro sim — o tom de Kim foi diferente agora. — Oi, Olly.
— Oi, Kim, não é? — Pela primeira vez no dia, Olly foi simpática com alguém.
— Sim, é Kim. Você tem os olhos da sua mãe — ela comentou.
— Ah, você conheceu a minha mãe? — Olly abriu um sorriso.
— E mais umas duas namoradas do seu pai que vieram depois — Kim riu.
riu também, dizendo que Kim não precisava dar detalhes da vida dele daquela forma, ainda mais, na minha frente.

No St. Francis, Olly não precisou fazer a prova de admissão — como era exigido aos bolsistas e aos alunos que chegavam transferidos —, mas foi proibida de manter uma média menor que oito. Começaria na segunda-feira seguinte e, enquanto a data não chegava, deveria atualizar-se com todo o conteúdo estudado até ali.
Não demorou muito para a Diretora Crayg dar a entender que eu deveria ajudar a Cabelo de Fogo. Quase rolei os olhos e disse um palavrão, esquecendo-me completamente de que ali eu era a professora de inglês, não a que teria de conviver com Olly nos próximos seis meses.



Capítulo Sete
Você encheu de vida uma festa chata.
Rebelde En Libertad — Natalia


Jonas’ POV


Estacionei o carro na vaga de sempre. Desativei as trancas e desci, sabendo que Olly desceria sozinha, sem esperar que eu abrisse a porta para ela. Logo, ela estava ao meu lado com cara de poucos amigos e os fones do iPod tocando alto alguma música que eu desconhecia. Será que eu estava ficando velho?
Olly ia andando na minha frente, diretamente à portaria. Pedi a ela que esperasse, pois faria seu cadastro para que pudesse entrar e sair de lá tranquilamente.
Ela parou, virou para mim com cara de tédio, e eu fiz um sinal com a mão que repetia minhas palavras de segundos antes: “Espere aí”. Olly cruzou os braços, e eu fiquei me perguntando o que poderia ter passado pela sua cabeça. Eu não queria brincar de família feliz, caso fosse isso o que ela estava temendo.
Depois que eu a deixei cadastrada lá embaixo, subi com ela até o sétimo andar, onde ficavam os laboratórios e onde eu encontraria também.
— Aqui ficam os laboratórios — expliquei no momento em que deixamos o elevador.
— Hm, legal, eu acho — ela deu de ombros, correndo os olhos. — Corre o risco de explodir?
Tive de rir.
— Não sei, talvez — respondi. — Mas tem os extintores — apontei.
— Que sem graça — ela estava decepcionada ou era impressão?
— O que foi? — ri. — Você quer que tudo exploda?
— Seria divertido — ela deu de ombros de novo, correndo os olhos pelo lugar.
, Abbie me disse que você tinha chegado — vinha se aproximando.
— Oi — respondi.
Abbie era a secretária de , sempre atenta demais a tudo o que acontecia.
— Abbie sempre sabe de tudo — completei sem esconder a vontade de rir. Por mais experiente que a mulher de meia-idade fosse, sempre com os cabelos loiros presos num coque clássico e olhos pretos, ela era bastante… Curiosa — para não dizer algo ofensivo.
riu, concordando com a cabeça.
— Oi, Olly — ele disse diretamente para ela.
Eu havia avisado que a levaria lá, mas não imaginei que ele seria tão direto. Talvez fosse culpa da conversa com há alguns dias.
, acertei? — apesar do sorriso, o tom de Olly ainda era irônico. — O amigo secreto da .
Notei como ficou sem jeito.
— O irmão do seu pai — ele disse, rápido demais até para si mesmo.
— Também — Olly deu de ombros. Parecia uma espécie de reação toda vez que alguma de suas provocações.
— Olly — fitei-a.
Ela não disse nada, apenas me olhou, mordendo a boca. Ajeitou a echarpe e deu uma volta ao redor de onde estávamos.

Jonas’ POV

, a avisou que Josh está ansioso em falar com você. Vá resolver as coisas com ele. Eu mostro o resto à Olly — sugeri.
pareceu pensar. Torceu a boca, deu de ombros e disse:
— Prometa que não vai matá-lo — dirigiu-se diretamente à Olly.
Ela simulou uma arma com as mãos. Apontou para mim.
— Pá, pá! — Brincou.
Bati em sua mão levemente. E, pegando-me de surpresa, ela riu.
— Não, não vai — riu. — Quando terminar, te leva até a presidência.
Eu apenas assenti e saiu. Olly estava parada ao meu lado com os ombros relaxados.
— Você sabe que eu sou eu por causa da Consuelo, não é? — Ela disse, quebrando rápido o silêncio que ali se criou.
— Desculpe, quem? — Perguntei sem entender nada.
— A — Olly riu. — Eu a chamo assim.
Ri também.
— E ela nunca te disse: “Cacete, garota! Você não sabe que o meu nome é , não Consuelo?”
Aquilo fez Olly rir mais alto.
— Ela é assim, é?
Concordei.
— Você a conhece muito bem... Bem demais, não acha?
Pigarreei.
— O nome dela é , não é? — Desconversei.
— Ela fala do jeito que você descreveu — Olly começou a caminhar. — Que droga tem do outro lado?
— Minha sala — respondi, seguindo-a. — Só que eu passo mais tempo no laboratório. Não tem nada legal lá.
— Acho que não… Mas… Você ainda não explicou como conhece a Consuelo tão bem.
Olhei para Olly.
— Porque eu a conheço faz alguns anos, e é — respondi. — Você veio sozinha de Roma?
— Vim… Digamos que eu praticamente fui chutada de Roma — Olly enfatizou. — E tudo o que eu queria era voltar para lá, mas o não deixou — eu a olhei. — O que é? Você não espera que eu o chame de “pai”, não, né? — Ela parecia incrédula.
— Não — eu disse. — A é uma boa pessoa, Olly, não crie problemas com ela. Não vai ajudar em nada.
— O é louco por ela, dá para ver — sorriu como se estivesse tramando alguma coisa.
— Desde que eles se conhecem, por isso eu digo que se você e ela se tornam amigas, ela se torna uma boa corda entre você, meu irmão e suas vontades.
— Pensando por esse lado… Mas eu não sei. ? — Ela me olhou.
— Eu.
— Onde é banheiro?
— Lá em baixo, vamos pegar o elevador.

Olly Petroni’s POV

Estava na hora de eu admitir algumas coisas:
Primeira: a Jonas & Co. era o máximo. Acredito que nunca em toda a minha vida eu tenha ido a um lugar tão legal quanto aquele. Do laboratório à cantina, da sala da presidência à de convenções. Tudo era muito incrível. Como um passeio de escola que você faz na sexta série. E disse que quando pudesse, eu iria às fábricas. Em Nova York, havia duas.
Tinha alguma coisa no quando o assunto era a Consuelo — dane-se se o nome dela não é esse — e eu queria saber o que era. Eu fiquei me perguntando se alguma vez eles tiveram um rolo, mas acho que pegar a mulher do irmão seria canalhice demais.
Nós chegamos em casa perto do jantar. estava completamente diferente do que estava de manhã. Usava calça jeans, camiseta e um sapato confortável. O cabelo estava preso num rabo de cavalo e, apesar do cheiro gostoso que vinha da cozinha, ela não cozinhava.
beijou a testa dela assim que eles se viram. Eles falaram baixo demais — ou, talvez, eu não tenha me preocupado em prestar atenção — para eu entender. Depois disso, me disse que a mãe dele viria para o jantar. Especialmente para me ver.
Dei de ombros, tentando não demonstrar o quanto aquilo me afetou. Disse que ia tomar banho e aparecer com um cabelo menos bagunçado. A verdade, a mais pura verdade, é que eu fui para o banheiro comemorar o fato de que, quem sabe agora, eu tivesse uma avó de verdade. Porque a mãe da minha mãe, bom, estava sempre ocupada demais com sua vida de perua louca. De projeto de perua louca. Tanto que ela nem ligou quando mamãe deixou-a avisada sobre minha vinda para Nova York. O primeiro marido dela — sete anos mais velho e não dezesseis anos mais novo, como o atual —, meu avô — morreu quando minha mãe tinha doze anos.
Estranho é pensar que eu sinto a dor dela.
Eu saí do banheiro secando o cabelo com uma toalha e ouvi uma voz feminina diferente. Era a mãe do , a minha avó. Eu tinha certeza. Dei dois passos para trás o mais depressa que eu pude, voltando ao banheiro. Por mais que ficasse longe da sala, ainda assim, eu rezei para que ninguém tivesse me visto fazer aquilo. Olhei-me no espelho por alguns segundos. E se ela me desprezasse como a mãe da minha mãe? Ia ser uma bela bosta.
— Ok, vai lá com essa sua cara de poucos amigos. Se ela não te olhar dos pés a cabeça e sorrir, é um bom sinal. Ora, entrare nella stanza! Ora!
E obedecendo a mim mesma — a única pessoa que eu realmente obedecia, aliás —, eu comecei a andar até a sala onde todos estavam.
Havia uma mulher sentada num dos estofados, usava um vestido amarelo e tinha o cabelo escuro caindo nos ombros. Olhar para ela foi meio decepcionante, porque eu me dei conta de que aquela não devia ser a minha avó. Era jovem demais. Demais.
— Oi — eu disse para ela naquele meu inglês ridículo, cheio de sotaque.
— Ah, oi — ela sorriu para mim.
— Mamãe — disse, me pegando de surpresa. — Ela é a Olly. Olly, essa é minha mãe, sua avó.
Desculpem-me todos, mas eu sorri. E fiquei explodindo por dentro quando ela ficou de pé.
— Mas que garota bonita! E tem o seu nariz, ainda por cima! Olá, querida, espero que a América não tenha enlouquecido você — ela disse antes de me abraçar. — Eu sou Denise, sei que você não vai me chamar de avó.
— É... É um prazer conhecê-la — falei, olhando-a assim que me soltei daquele abraço. — Eu sou a Olly. Tipo, na verdade é Olímpia.
— É um nome muito bonito — respondeu ela para mim. — Mas Olly realmente é melhor para uma garotinha.
Abracei Denise outra vez. Pelo menos ela fazia aquela bagunça da minha vida fazer sentido. Finalmente algo bom. Finalmente.


Capítulo Oito
Você sabe os segredos que eu nunca iria contar
True Friend — Hannah Montana



Jonas’ POV


O sábado chegou tão depressa que eu até fiquei surpresa. Estranhamente, eu dormi até às dez da manhã naquele dia. Acho que eu estava cansada das coisas reviradas, estava cansada de trabalhar das 07h30min às 2h da tarde e ainda ter que ajudar Olly a se atualizar nas matérias que ela havia elegido.
passou mais tempo na Jonas & Co do que era de costume e fui eu quem mais falou com . E, claro, ele conheceu Olly. Fez algumas piadas sobre o cabelo vermelho dela e disse que voltava logo. Ainda mais que agora era tio. Aquilo me fez rir, mas também me deixou ansiosa para falar a o mais depressa possível que tinha planos de voltar do Brasil.
Eu iria a Jonas & Co. assim que pudesse. Ou então, iria à lavanderia dos Baker.
— Você vai falar com a hoje? — perguntou enquanto trocava o canal da TV quase que compulsivamente. Sentei-me ao seu lado para amarrar o cadarço dos tênis. Ele me puxou para si, me abraçando.
— Aham, vou à lavanderia — contei. — Cadê a Olly? — Procurei-a com os olhos.
— Saiu com a minha mãe — explicou. — Vão passar o dia fora.
— Olly gostou dela, pelo menos — sorri. — Então nós estamos sozinhos até à noite?
— Eu não tinha pensado nisso — ele riu sugestivo. — Tem mesmo que ir à casa da ?
— Juro que não vou demorar — beijei-o depressa.
.
— Quê?
— Não é porque a gente se conhece há seis anos, porque a gente se casou e não fica mais preso no elevador da Lilac, quando você esquece a bolsa na hora de ir embora, que você tem que me dar esses beijos sem graça — apertou meu nariz, me fazendo rir.
— Ah, eu só gosto de te beijar direito quando você está de terno. Camiseta da Califórnia e calça de moletom da Nike não, sabe?
— Acontece, Menina da Entrega — agora, ele riu. — Que você está exatamente do jeito que eu gosto de te beijar: jeans, All Star e uma blusa mais larguinha… Só faltou o boné.
— Então…? — Eu quis saber, me ajeitando para então ficar de frente para .
— Então, que você pode me perdoar por eu não estar de terno já que eu, bem, eu estou disposto a te perdoar por não estar usando boné — ele aproximou o rosto, deslizou o nariz perto do meu. — Você me perdoa? — Pediu, os olhos castanhos atentos a mim, quase que infantis. Como um garotinho que pede muito à mãe que lhe dê um carrinho novo. — Hein, amor, me perdoa?
Eu ri, passei meus braços ao redor do seu pescoço e o beijei. Do jeito que nós dois esperávamos que aquilo acontecesse. Ganhando força aos pouquinhos, muita força aos pouquinhos. E tinha tudo para se estender…
Até a campainha tocar.
— Que merda. Não atende — eu pedi, ainda com meu rosto muito perto do de . — Por favor, não atende.
— Quem é? — gritou.
— Assim você vai ter que atender — falei, saindo do sofá e ficando de pé em frente a ele.
— Sou eu, Kim! — Ouvi a voz dela.
— Só um segundo — respondeu.
Ela não tinha outra hora, por acaso? Cacete!
— Já vai — eu disse, caminhando até a porta. — Arruma a camisa, está amarrotada — disse para , rindo baixinho antes de abrir.
— ela sorriu.
— Ei, Kim, bom dia — sorri de volta. — Entra.
— Não, não! Eu estou de saída, só resolvi passar aqui ligeirinho para ter certeza de que era esse apartamento — Kim disse.
— Mas é um apartamento só por andar... — respondi, levemente confusa.
— Oh! É verdade! — Ela riu. Seus olhos foram acima dos meus ombros. — Ei, !
— Ei, Kim! — Ele respondeu.
— Bom, eu espero não ter interrompido nada porque preciso ir. Tenho umas fotos para tirar...
— Estou saindo também, me espera no elevador? — Propus. Odiava ficar sozinha no elevador porque não tinha com quem conversar. Ao mesmo tempo, era ótimo, porque eu podia fazer caretas para o espelho.
— Pode deixar! — A resposta de Kim foi animada. — Tchau, .
— Tchau.
Quando me virei, pude ver que ele acenou.
Kim saiu e eu deixei a porta aberta, antes de ir até .
— Vai lá, , me dá um beijo sem graça e corre para o elevador — ele choramingou.
Eu gostava disso, gostava de como tudo fluía naturalmente, de como tudo parecia se encaixar numa perfeição que… Bem, nada era capaz de explicar o que nós tínhamos. Nunca foi nem nunca será.
Dei nele um daqueles “beijos sem graça” e saí, pegando a bolsa comum que eu usava todo dia fora do colégio e corri para alcançar Kimberly no elevador.
— Desculpe se eu demorei — falei para ela assim que a porta fechou.
— Ah, não… Eu aproveitei para conferir se estava tudo na minha bolsa.
— E está? — Eu quis saber, simplesmente para puxar assunto.
— Ufa, está sim, — o jeito como ela falou, o sorrisinho talvez, fez tudo soar muito simpático. — Se eu esqueço meu celular e o cartão, acho que surto. Minha vida está nesse telefone, fora que a primeira coisa que eu vou fazer quando sair daqui é comprar um bom cappuccino na Starbucks.
— O frio ajuda — comentei, dando de ombros.
Não havia nada de errado com Kim — fora ela bater na minha porta num momento feliz, é claro. Ela parecia uma boa pessoa e tinha tudo para ser, afinal, não conseguia me lembrar de ver com pessoas ruins. Não as realmente próximas.
Eu peguei um táxi na esquina do prédio. Kim achou melhor ir andando até à cafeteria mais próxima.
— Para o Brooklyn — disse ao taxista.
— Claro — respondeu ele, antes de arrancar.
No caminho, eu descansei a cabeça contra o encosto do bando de trás e fiquei pensando em um milhão de coisas. Mentira, cacete. Eu pensei numa única coisa. Ou devo dizer pessoa?
Eu pensei em Olly. Pensei no exame dando positivo, pensei nela insinuando coisas com relação a ... Que bagunça, desgraçada, droga! E agora eu a veria no colégio, daria aulas a ela e tudo mais... Seriam, oficialmente, 24h acompanhando a vida da pequena e irritante Olímpia. Pequena porque eu duvidava que ela tivesse mais do que um metro e meio.

Jonas, eu pensei que você tivesse ficado fina! — Ouvi a voz de na porta da lavanderia assim que eu saí do táxi. Eu nem tinha pagado ao taxista ainda.
— Bom dia para você também, — ri. — Obrigada — falei, assim que peguei o troco com o taxista.
Caminhei até ela e a gente se abraçou.
— Senti saudades! — Ela disse.
— Eu também, garota. Como você está? O que me conta? Cacete, eu preciso te dizer por que vim aqui.
riu.
— Calma lá, — respondeu. — Entra aí, a gente toma alguma coisa e você me conta.
— ‘Tá certo, vamos — eu disse, já andando para a lavanderia.
Como era comum para um sábado, o lugar estava lotado, então nós subimos e, relembrando as adolescentes que éramos dez anos atrás ou mais, fomos para o quarto de no andar de cima. Nós nos sentamos no encosto da janela, empurrando algumas das almofadas dele para o chão.
— Ok, que diabos você veio me contar? — foi direta.
me disse que pretende voltar — mas eu fui mais.
Os olhos dela brilharam, quase emocionados. Eu sabia que ela sempre ficara mexida com ele, mas aquela reação me pegou de surpresa.
— Será mesmo?
— Juro para você — confirmei. — Ele mesmo me disse esses dias.
— Ah, que notícia boa! — Ela comemorou, vibrando. — — seu tom foi baixo e tranquilo demais.
— Ih, lá vem! Fala — atirei a cabeça para trás, quase batendo na janela. — Opa! Quase me matei agora.
riu, assim como eu.
— Ok, o que eu quero saber é meio indiscreto; é que eu vi uma garota…
— Ruiva com o , ela tem o nariz dele, um sorriso demoníaco e me dá calafrios. Aquela é a Olímpia, mais conhecida como Olly, a Cabeça de Fogo — completei, interrompendo-a.
A cara de era confusa, então eu completei:
— Olly é filha dele.
— Do ?!
— Não, do Paul McCartney! — Brinquei. — É… do . Dele e de uma namorada de adolescência. A mulher morreu e só falou dela para ele recentemente. Olly só veio infernizar, quero dizer, veio procurar o pai agora porque só tem dezessete e tudo mais… Não pôde ficar sozinha na Itália.
— A garota veio da Itália? — arregalou os olhos.
— E ela pensa que o é um monstro que renegou sua garotinha, sendo que ele nem sabia que essa… essa… garota existia.
— Vocês não se dão bem, não é? — O tom de baixou.
— Eu não sei por que ela cismou tanto comigo. Eu fui falar com dia desses e adivinha? Ela insinuou que eu tenho alguma coisa com ele.
— Quem sabe ela pegou alguma coisa “no ar”... A gente sabe como o se sentia com relação a você.
Fixei meus olhos em .
— Só que passou, ! — Respondi mais alto do que eu realmente gostaria. — Ele mesmo me disse e teve essa namorada… A atriz… Alexandra não sei do quê.
— Chando — ela completou. — O nome dela era (é, por que, afinal, ela não está morta) Alexandra Chando.
— Isso, a miudinha — concordei, dando de ombros. — Ou seja, não tem no que aquela maluca, cabeça de fogo, se basear para tirar conclusões.
— Ela só quer te atingir porque viu que isso atinge o também.
Talvez, as palavras da minha melhor amiga fossem as respostas para tudo.
— Será? — Miei.
— Sim, sim, senhora. Mas voltando ao ... Ele não deu uma data de quando voltaria?
— Data, data, assim, ele não deu não. Mas acho que não vai demorar. Mas fica fria — eu sorri, descansando as mãos sobre as de . — Assim que Jonas colocar os pés em NYC, te mando uma mensagem de texto.
— Não faz assim que eu vou ficar louca toda vez que a operadora começar a incomodar. Ou então, vou me assustar quando eu tiver acabado de ver Pretty Little Liars e o telefone tocar. Sério, vou achar que a “-A” dizendo que sabe sobre aquela vez no ensino médio quando eu mostrei os seios para o Ted, você se lembra dele?
Comecei a rir.
— Primeiro: não fique louca. Segundo: você não acha que está meio velha para Pretty Little Liars?
me olhou de canto de olho.
— Você também assiste — ela disse.
— Eu sei, a Spencer é minha favorita — me entreguei. — Mas isso não interessa agora, você é dois anos mais velha do que eu.
— Então você pode e eu não? — se fez de chocada. — E eu já me sinto velha sozinha, você não precisa contribuir.
Eu ri.
— Tudo bem, eu não vou contribuir e muito menos um personagem fictício vai te mandar mensagem. E o que te deu para mostrar os seios para o Ted? Ele achava que o Panamá era um estado do Brasil!
— E não é? — pareceu confusa.
— Ai. Meu. Deus! — Bati com uma almofada nela.
— Você sabe tudo sobre o Brasil agora?
me disse que foi visitar um estado perto de onde ele mora que se chama Paraná. O Panamá é um país, e eu espero, honestamente, que você saiba disso.
— Não vai contar isso para o , vai? — Ela me olhou, parecia assustada.
— Já que você deu a ideia — segurei o riso.
— Sua vaca! — Ela bateu com uma almofada em mim.
Eu saí da casa dela uns vinte minutos depois, pronta para pegar o telefone, ligar para e dizer a ele para pedir porcarias assim que subisse no táxi.
— Oi, amor — eu disse, sorridente. Acho que não ter Olly em casa me deixava feliz. — É, eu estou no táxi, indo para casa. Você já comeu?
Do outro lado, ele negou.
Por que você não traz alguma porcaria, já que está na rua? É mais fácil do que pedir sugeriu. — Não. Não reclame por ser porcaria, nós comemos porcaria o tempo inteiro quando não cozinhamos.
— Vou passar no McDonald’s então — respondi. — Mas você sabe que eu sempre derrubo a Coca-Cola, então veja se temos latinhas na geladeira.
Latinhas de Coca-Cola são a primeira coisa que você compra no supermercado, .
— “” não, né? — reclamei. — Vou desligar porque preciso dizer ao taxista para parar no McDonald’s.
Boa menina — ele riu. — Amo você, até daqui a pouco.
— Até. Eu também — desliguei. — Para o…
— Já sei, para o McDonald’s — o taxista riu.
— Isso, obrigada. Ah, e se você puder me esperar…
— Sim, senhora — ele respondeu e nós fomos conversando até o McDonald’s mais próximo.
Eu desci em frente ao restaurante e agradeci a Deus pela fila não estar enorme. Fui direto ao caixa que estava sendo deixado por duas garotas de uns catorze anos que tinham aparelho nos dentes e cabelos loiros e lisos.
Assim que peguei os sacos marrons com a comida, ouvi uma voz conhecida. Insuportavelmente conhecida.
— ele disse.
— Josh — revirei os olhos.
— Acredita que eu vi você do outro lado da rua? — ele riu.
Comecei a andar.
— Hm, é... Então… Eu estou com pressa — respondi.
— Espera, — ele pegou meu braço.
— Solta — exigi, fitando-o. — Tenho que subir no táxi.
— Ei, calma — ele riu e sua mão no meu braço afrouxou, mas não soltou. — Não vai nem se despedir antes de subir no táxi?
Eu não gostei daquilo.
— Tchau, Josh — falei entre dentes. — Agora é a hora em que você me solta.
Só que Joshua não fez isso, ele se aproximou de mim com aquele sorriso nojento e tentou me beijar. Sem pensar duas vezes, eu acertei a virilha dele. E, finalmente, ele soltou meu braço.
— Nada fora da sala da presidência, entendeu bem? — respondi, correndo para dentro do táxi.
— Está tudo bem, moça?
Foi aí que eu me dei conta de que estava ofegante.¬
— Está, só dirija para onde eu disser, está bem?bri
— Sim.
Eu me olhei no espelho do elevador muitas vezes para ver como minha expressão estava. Ela parecia menos chocada do que eu achei que estaria. Saí e girei a chave na porta de casa. estava sentado, assistindo TV.
— Oi — ele disse, levantando-se.
— Oi de novo — sorri.
— O que foi? — se aproximou, pegando o saco de comida e colocando em cima da mesinha da sala. Ele tocou meus braços, com cuidado, ao contrário daquele animal.
—SCRIPT Nada — menti.
— Mesmo? — O jeito como ele me olhou me amoleceu. Quase vacilei.
— Só… Foi leSCRIPT pareceu confusa. brbr—gal ver a , e eu fiquei me lembrando de quando eu morava lá — duas mentiras em menos de cinco minutos, dona br/SCRIPT— Ela é assim, é? br, que feio.
— Saudade da sua mãe e do Maison?
— Só da mamãe — ri. — É… Eu estou com fome, vamos comer?
— Vamos.
Nós comemos e durante aquele tempo eu relaxei porque, por estarmos sozinhos ali, eu tinha a sensação de que estávamos no passado de novo. E não é que eu não amasse o presente, eu amava, só estava assustada com a bagunça a qual ele foi brdocument.write(Kevin)— Ah, não… Eu aproveitei para conferir se estava tudo na minha bolsa. document.write(Gabriella)exposto.
— Fazia tempo que a gente não fazia isso — eu disse, amassando o último guardanapo sujo e jogando-o dentro da caixinha do meu Big Mac.
— Sim, umas semanas — riu, me puxando para perto, já que estávamos lado a lado. Deitei a cabeça em seu ombro. — Como foi com a ?
— Nós rimos muito. Muito mesmo quando ela contou uma história embaraçosa do colégio.
— Você pode me contar? — seus olhos sobre mim eram curioso, mas ao mesmo tempo eles diziam: “Pode confiar, não vou espalhar, só estou curioso”.
— Não posso — mordi a língua assim que a pus para fora da boca. — E você fez o quê? Assistiu algo que eu deva saber?
— Kim Kardashian estava nua no canal doze, foi incrível.
Bati em seu ombro.
— Estou brincando, ! Ai!
Eu ri.
— Eu vi uma reprise de “Receitas de Chuck” e vi uma receita de cheesecake, aí eu me lembrei de você e você chegou. Espíritos? — Ele fez uma careta que me fez rir.
— Vai saber — dei de ombros. — Finalmente um sábado em que ficamos em casa.
— Verdade. Josh ligou, perguntou sobre uns balancetes que eu já mostrei para ele. Eu acho que ele é maluco.
O nome de Josh me deu calafrios.
— Quando?
— Logo que você saiu, por quê?
— Nada — foi automático.
— Mesmo? Por que você ficou pálida.
Finalmente, eu me dei conta de que estava olhando para mim.
— Foi de tanto comer.
— Não sei por quê, mas você está mentindo para mim, e isso não é bom.
— Não estou mentindo. E sim, quer dizer, não — comecei a me enrolar. — Não foi de tanto comer, só sei lá, vai ver foi de tanto comer sim. Eu comi minhas batatas e metade das suas — achei a desculpa perfeita.
— Mesmo?
— Sim, ok? — De nervoso, como sempre, eu ri.
— Tudo bem — ele beijou minha cabeça.
— chamei.
— Oi?
— Eu amo você.
— Eu também amo você, minha — ele respondeu.
— E você sabe que eu jamais faria qualquer coisa para machucar você, não sabe?
— Claro que eu sei, mas será que pode me explicar o que te deu? Está com a mesma cara de quando me contou do seu namorado de colégio.
— Encontrei o Josh na rua — eu não consegui segurar, do mesmo que jeito que não conseguia entender como aquele cara me dava medo.
— E...?
— Bati nele.
riu, mas parou.
— Por quê?
— Ele quis me...
— Ele quis o quê? — Sua expressão ficou séria naquele exato momento.
— Merda, eu não tinha que ter aberto a boca! É que eu fiquei com medo... Ele é macabro.
, você tem que me dizer o que foi. Porque, para você bater nele…
— Eu o chutei porque ele quis me beijar na saída do McDonald’s e só Deus sabe como ele se materializou na minha frente — tudo saia muito rápido.
— Ele o quê?!
— Eu nem ia falar, mas você falou nele, daí eu entrei em pânico. Eu não quero arrume problemas e…
, esse cara é doente e ele não pode mexer com você!
— Nem com ninguém — completei.
— Nem com ninguém! Ou com quem queira alguma coisa com ele… Mas segunda-feira…
— Segunda-feira nada — avisei. — Você não precisa de uma confusão com ele e um chute na virilha causa uma dor duradoura o bastante.
— Mas,
— Nada. Por favor — pedi baixinho.
— Por você — me abraçou. — Mas se isso acontecer de novo…
— Não vai — garanti, apesar de não ter certeza nenhuma sobre aquilo.
— Quer esquecer o que houve?
Assenti.
me beijou.


Capítulo Nove
E você estava terrivelmente irritada
Dizendo-me que fiz a coisa errada

World War III — Jonas Brothers


— Ih, pelo jeito, estou interrompendo alguma coisa — A voz de Olly me fez abrir os olhos. A voz de Olly estragou completamente aquele momento. E toda aquela fragilidade que eu sentira sumiu, dando lugar a um tédio sem tamanho.
Levantei-me.
— O que você faz aqui a essa hora? — Perguntei.
— Caramba, Consuelo! Isso é jeito de receber sua linda enteada? Tudo bem que eu interrompi o momento gracinha aí - quem sabe eu até ganhasse um irmãozinho -, mas seja mais gentil, Cons.
— Cala a boca, Olly — não foi uma brincadeira. — Para de falar besteira!
— Não me manda calar a boca! — Ela revidou.
— Chega, vocês duas! Que inferno! — pareceu mais irritado que o normal.
— Eu só achei que você fosse demorar mais… — falei, procurando comida nos sacos do McDonald’s. — Quer alguma coisa?
— Já comi — ela se atirou no sofá.
— Como foi com a minha mãe? — perguntou. Se eu bem o conhecia, ele ainda estava irritado por minutos atrás. Ou, quem sabe, fosse o que eu contei e ele só estava descarregando.
— Ela foi muito amável — Olly se jogou no sofá, tirando os tênis. — Mas precisou ir embora mais cedo depois de um telefonema. Ela ficou feliz, alguém voltando… Não entendi direito porque ela falou muito depressa.
— Deve ser seu pai — sugeri a .
— É, deve ser, mas se papai estivesse voltando, eu saberia. Ele geralmente me dá ordens para deixar os livros organizados.
— Os livros? Eu achei que essa coisa toda ficasse no computador — Olly fez uma careta.
— É força de expressão — olhou para Olly. — Eu preciso falar com a .
— Ah, “me liguei”... E’ tranquillo babbo! Sento musica nella mia stanza — Ela cuspiu naquele idioma que eu não entendia de jeito nenhum e se mandou para o quarto. Dei graças a Deus.
deu alguns passos em direção aos fundos do apartamento, certificou-se de que Olly ficaria lá e voltou. Ainda assim, falou baixo.
— Você não pode ficar brigando com ela toda hora, .
Ouvir meu nome, , não foi bom.
— Não foi toda hora — revidei. — E vai me dar bronca quando a sua filha é ela?
— Isso não é o mais importante.
— Então o que é?
, eu entendo que vocês não se batam, de verdade, só que se você tiver uma resposta e der ouvidos a todas as asneiras que uma garota de dezessete anos fala, vamos enlouquecer aqui dentro.
Não falei nada. Eu tinha a impressão de que ele estava me culpando. Aquilo me deixou furiosa. Mas respirei fundo. Eu não ia brigar com ele por causa daquela garotinha mimada. Não mesmo.
— Então eu sou cega, surda e muda? — Ironizei.
— Não é isso — respirou fundo. Não, ‘peraí. Ele bufou.
— É sim e chega desse assunto se é para você se irritar comigo, Jonas.
não falou nada. Andei até o sofá e tirei os tênis, deitando-me com uma almofada entre as pernas.
... — ele se aproximou.
Só o olhei.
— Desculpe se eu não fui muito gentil, eu só… Estou desacostumado a essa bagunça, às brigas… Você sabe.
— É. Eu sei — levantei, sentando-me no sofá. — Também não acostumada ao “banzé” que isso aqui tem sido.
riu.
— “Banzé” — repetiu, aos risos, quase com lágrimas nos olhos. — Fala assim no colégio?
— Está maluco? A Crayg come o meu rim se eu falo uma coisa dessas! — Bati com uma almofada nele.
— Amo você. E estou irritado pelo que passou com Josh, e sim, vou falar com ele segunda-feira, queira você ou não.
— Não vai acontecer de novo — falei. Eu não queria que ele e Josh tivessem um problema, ele não merecia uma confusão. — Ele não vai querer me agarrar no meio da rua outra vez.
— Como é que é?! — Era… Era Olly?! Ela estava ouvindo atrás da porta ou o quê?! — O cara que trabalha com o , que usa umas gravatas italianas lindas... Ele tentou te beijar, Consuelo?
— Você anda ouvindo pelas paredes? — a olhou.
— Foi sem querer, eu precisava de água — ela deu de ombros, indo em direção à geladeira, na cozinha.
E eu, claro, não acreditei nisso.
— Mas me conta, Cons, o cara quis te agarrar no meio da rua, foi? — Ela deu um gole longo na água. O jeito como falou, fazia tudo parecer muito natural. — Tem certeza de que ele quis te agarrar? Você não deu conversa, não?
— Escuta aqui, garota, com quem você pensa que está falando? — Eu me alterei. Depressa demais. — Você está aqui, vivendo no maior conforto, quando, na sua idade, eu terminei o colégio e tive que trabalhar porque eu não tinha mais pai. As grandes empresas estavam fodendo o negócio da minha mãe e meu irmão ganhava o suficiente para pagar as coisas dele e as contas trabalhando de motorista para a ex-namorada neurótica do seu pai. Eu aguentava um chefe nojento, que queria me arrastar para a despensa de qualquer maneira porque não tinha saída e você aqui tentando causar uma terceira guerra mundial simplesmente porque acha que o seu pai não quis saber de você? E ele não quis mesmo. — , vai devagar, ... Não — ouvi , mas não dei importância.
Continuei:
— Não quis porque ele achou que a sua mãe não estava grávida dele.
— Cala sua boca, não fala da minha mãe — ela disse entre dentes, furiosa. — Cala a boca, , Consuelo, Sutton... A merda de nome que você tiver!
— Não! Eu me cansei, me cansei de tudo que vem de você, menina! Porque você fala de mim como se eu fosse uma vadia, e eu não te fiz nada. Agora, você vai ouvir a verdade e, sinceramente, se você voltar para Roma, eu te agradeço. — Respirei fundo. — Sua mãe, Olly, sua querida mamãe não…
Ouviu-se a campainha.
— Chega! — falou. — Eu vou abrir a porta e uma de vocês vem comigo porque não quero encontrar um cadáver quando voltar para cá. .
— Que é? — Resmunguei.
não disse nada, e eu o segui rumo à porta.
— Você ia falar — ele cochichou.
— E você acha que eu estava errada.
— Não, , só acho que agora não é hora. Ainda mais com as coisas pesadas desse jeito.
— Vai ficar pior — afirmei.
— Eu vou falar, prometo. E para de dar ouvidos, já pedi — ele cochichou por último, antes de abrir a porta.
!
!
— Meu Deus, ! — Eu falei surpresa ao vê-lo.
! — Ele me disse, antes de abraçar o irmão.
— Cara, então foi você que chegou! — Ouvi enquanto eu os olhava. Fiquei tão contente por ver ali, diante de mim, que foi como se uma bomba explodisse com Olly e toda a confusão que ela causava.
— Não tinha ninguém na casa da mãe quando cheguei lá — ele explicou. — Daí eu liguei e ela foi abrir a porta para mim. , que bom te ver — me abraçou.
— Oi, eu acho! Achei que você não ia voltar — respondi, soltando-o com um sorriso no rosto.
— E a Jean Grey? Está por aí? — espichou os olhos para dentro do apartamento.
Quando ele falava Jean Grey, adivinha de quem ele estava falando…? Acertou quem disse o nome da garota que fazia eu me sentir o pulmão de um fumante passivo.
— Soltando fogo pela boca, para variar — disse baixinho.
me olhou.
Rolei os olhos.
— Entra, , não vai querer nos contar tudo o que não deu para contar via Skype do corredor, não é? — Ofereci, apagando quaisquer cinco segundos que apenas a ideia de Olly possa ter estragado.
— Claro, claro — ele respondeu naquele seu jeito de sempre, levemente e adoravelmente espaçoso (como seu sorriso) e foi entrando.
Ciao! disse à Olly.
Ciao — ela disse sem humor nenhum. — Eu vou para o meu quarto e você, Consuelo... Cuidado com o que fala da próxima vez — Olly começou a andar para os fundos.
— Ninguém vai tomar cuidado — disse. — Não há Consuelo alguma aqui e, se não há Consuelo, não há também o que falar numa próxima vez.
Ela parou.
Eu fiquei chocada.
me olhou.
manteve os olhos fixos em Olly.
— Não quer ficar e ouvir as histórias do , Olímpia? — ofereceu.
— Não, obrigada, acho que vou tirar um cochilo — seu tom foi normal, sem tédio, sem ironia, sem nada. Logo, ela desapareceu no corredor.
Rebobina, pelo amor de Deus.
domou a Olly?
— Tchau, sobrinha — ele debochou, mas Olly estava longe para ouvir.
tinha um olhar sobre o irmão que dizia: “Por favor, você também...”
— Não vá embora, pelo amor de Deus! — Sussurrei para ele.
— Não posso — respondeu no mesmo tom.


Capítulo Dez
Estou lhe avisando
Para lavar sua boca
Conheço seus truques
E do que você é capaz

Bad (Glee Cast Version) — Glee Cast

Jonas’ POV


poderia repetir quantas vezes quisesse para eu não falar com Josh. Não faria diferença nenhuma. De modo algum, eu poderia deixar que ele ficasse intimidando-a por aí. Nem ela nem ninguém. Pouco me interessava o que ele fazia com quem dava conversa para ele, eu só sabia que, com a , ele não iria fazer.
Dentro de mim, eu lutava para separar as coisas, preciso admitir.
Por um lado, eu tinha raiva dele por praticamente tê-la colocado contra parede. Era uma covardia, mas, por outro... Por outro, eu queria matá-lo simplesmente por olhar para , por pensar em colocar as mãos nela. Como se ela fosse querer. Imbecil. Mas ele ia aparecer, cedo ou tarde, ele ia dar as caras pelos corredores, enchendo a boca para falar que era o vice-presidente e que podia chegar quando bem quisesse.
— eu disse ao telefone. — Por favor, quando o Sr. St. Monique chegar, avise-o de que preciso informá-lo de um problema com um balancete de setembro passado.
Era a mentira perfeita para atraí-lo, afinal de contas, o dinheiro sempre vinha antes de qualquer coisa. E se eu conseguisse manter o sangue frio até ele sentar na cadeira à minha frente, ele se sentiria vitorioso achando que eu não imaginava o ocorrido no último sábado. Só que eu sabia. E ele ia escutar. Ah, ele ia.
Eu era capaz de vê-lo recebendo recado e pensando: “Que merda o idiota do Jonas fez desta vez?”, largando a pasta na primeira mesa que achasse, vindo até minha sala e sendo grosseiro com — não sem antes prestar atenção o suficiente nas pernas dela.
Perto das onze, ele apareceu. Bateu na porta e entrou antes da minha resposta. O cabelo era bagunçado e o nó da gravata parecia não ter sido feito por Emma, como era de costume.
— Minha secretária me deu o recado — ele disse. — O que houve em setembro? Não acha que é tarde demais para encontrar erros?
Ao contrário do esperado, ele não se sentou. Firmou as mãos na minha mesa e me encarou, como se eu fosse um pecador e ele, o meu carrasco. Mentalmente, eu contei até três. Respirei fundo.
— Não há erro algum quanto a setembro. Acha que balancetes só precisam ser informados a você quando há um erro? — Questionei, erguendo uma sobrancelha ironicamente. Saí de trás da mesa.
— E por que diabos você me chamou aqui? Para ver a vista atrás da sua cadeira que não foi.
— Por que não? — Fui irônico de novo. — É claro que eu chamei você para ver a vista. Você sabe que estamos há mais de dez andares, não sabe?
— Jonas, você anda fumando ou bebendo alguma coisa? Eu sempre achei que o drogado fosse o seu irmão.
Era impossível não perder a paciência.
— Eu não tenho irmão algum que seja drogado. Qualquer um deles é mais homem que você, e sei que sabe muito bem do que estou falando!
— Não. Eu não sei — Josh respondeu tranquilo.
Fui até perto dele e olhei-o nos olhos.
— Você nunca mais vai chegar perto da , está entendendo? — Falei, com meu polegar em sua direção.
— Para quem bate daquele jeito, ela foi mulherzinha demais em ir chorar para você — Josh riu.
Se o ouvisse chamá-la de “mulherzinha”, acho que o deixaria estéril.
— Mas, escute, não aconteceu nada, apesar de eu achar isso um pecado — ele disse como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Segurei-o pelo colarinho, levando-a até perto da janela.
— Está vendo essa enorme janela de vidro? — Perguntei.
— Qual é, me solta — Josh segurou o riso.
— Diga se vê a janela, Joshua!
Pela primeira vez em anos, meu sangue ferveu.
— Eu vejo a janela estúpida — sua resposta foi entediada.
— Se vê a janela, sabe muito bem de onde vai cair se mexer com a de novo — avisei.
— Isso é uma ameaça? Porque não me assusta. E, além do mais, a defesa dela é mais eficiente do que a sua.
— Eu não vou infectar o meu joelho, enfiando-o no meio das suas pernas. Eu sei lá onde você anda colocando essa porcaria — soltei-o.
— Ora, onde... — Josh riu. — Na .
Não pensei duas vezes — na verdade, nem pensei uma — e acertei um soco em Josh.
— Não vai ser muito difícil para mim atirar você lá embaixo da próxima vez. Agora tira essa sua cara ensanguentada da minha frente — ordenei.
— Imbecil.
— Obrigado! — Respondi, irônico, enquanto via a porta bater, depois que Josh foi embora. — — disse, ao telefone. — Peça ao para vir aqui.
Está tudo bem? — ela perguntou.
— Agora eu acho que sim — respondi. — Faça o que eu pedi, está bem?
Claro, , digo, Sr. Jonas. Tchau desligou.
Eu me senti com a alma lavada, mesmo sem ter muita certeza se tudo teria o efeito esperado. Eu não ia matá-lo, jogando-o lá de cima — eu acho —, e ele sabia disso, mas também sabia que estava sob meu radar a partir daquele dia. E agora era o ciumento que estava falando: ele não ia encostar na nunca mais.
Ouvi a batida na porta.
— Entra, — respondi, voltando a me sentar.
apareceu. Ao contrário de mim, ele podia trabalhar usando jeans e uma camisa qualquer.
— Queria falar comigo?
— A química nova já chegou?
riu.
— Ainda não. Ela não é de NY, talvez tenha sido traída pelo trânsito — respondeu ele.
— Traga-a aqui assim que chegar — pedi.
— Claro, como sempre, patrão riu.
Ele tinha a mania de me chamar de patrão sempre como uma espécie de piada interna, fosse dentro ou fora dali.
— Posso falar com você? — Pediu.
Desconfiei.
— Não tenho dinheiro — fora minha vez de brincar.
riu de novo.
— É um pouco mais complicado.
O tom dele fez eu me ajeitar na cadeira, aproximando-me mais da mesa e firmando meus cotovelos nela.
— Aconteceu alguma coisa?
— Mais ou menos, esfregou a sobrancelha. Aí vinha coisa.
Prestei atenção nele antes de dizer que poderia falar.
— Olly.
Suspirei, derrotado, e joguei a cabeça para trás.
Com , eu não precisava me manter firme, como tentava com ou minha mãe.
— Coloque uma coisa na cabeça: Olly pensa que você é um canalha. E ela quer te atingir de um jeito ou outro — não me deu tempo para falar. Disparou suas teorias.
— Só que eu não sou. Eu achava que ela fosse filha do cara da universidade. O metido a Che Guevara, querendo fazer revolução — respondi, meio ríspido.
pareceu não se importar, ele sabia que estávamos todos nervosos e bagunçados, ainda mais depois de correr diretamente para ele depois de muito tempo sem precisar fazer isso.
— Nem me lembro do nome dele — completei.
— Se duvidar, nem Giovanna.
! Ela está morta.
— Ah, ‘tá. Eu sei, mas nem por isso precisa virar santa. Você sabe melhor do que eu como ela era.
— Ah, eu sei. Eu sei mesmo. Mas... — voltei ao ponto. — Você puxou o assunto por quê?
— Olly é esperta, por mais que não pareça.
— Não sei. quase contou sobre o porquê de eu não tê-la criado e até agora ela não fez uma pergunta, não desconfiou nada da versão da mãe — contei.
— Ela não vai desconfiar da própria mãe, ! — parecia incrédulo.
Eu me senti um babaca.
— E é o cúmulo você não ter contado para a Olímpia por que é que nunca procurou por ela ou pela Giovanna. Se você contar, cara, ela vai acreditar. Não precisa contar o quanto você descobriu sobre a Giovanna antes ou depois de vocês romperem... Só fala para ela que você não é um monstro porque, cara, isso não vai dar certo. Ela quer te atacar de qualquer jeito.
— E como ela vai me atacar? Pintando o cabelo de roxo? Rosa? Não me importo.
rolou os olhos, respirando fundo.
Ele me deixava me sentindo um babaca com muita facilidade. Será que as garotas não se rebelavam mais pintando o cabelo como (Não me pergunte como eu sei o que é uma Scene Queen?).
— Com a . Ela não é idiota. Ela viu como você é facilmente atingido quando a está envolvida.
E era verdade. Era a mais pura verdade.
Fiquei calado.
— Seu silêncio, numa tradução livre, quer dizer que eu tenho razão.
Não neguei. tinha razão.
Mas será que em tão pouco tempo Olly tinha notado uma coisa dessas? Não podia... Ainda mais tendo aquele pavio curto. Ia virar uma guerra se eu não achasse uma solução.
— E o que é que eu posso fazer, ? Já que você sabe de tudo... — Ironizei. — Ok, me desculpe. Eu não precisava falar desse jeito.
— Conta a verdade — respondeu meu irmão, ignorando qualquer grosseria da minha parte. Eu era mesmo mais velho do que ele? Os papeis estavam muito invertidos. Muito.
— Faz muito pouco tempo que a Giovanna morreu — insisti.
— Todo mundo sabe — deu de ombros. — Não precisa fazer dela um monstro, apenas dizer que ela te traiu, vocês romperam e você achou que a Olly era filha do rebelde sem nome.
— Ela começou a ter aulas hoje e aquele colégio enche as pessoas de dever de casa, segundo o que a me conta. Ela não vai ter tempo de incomodar.
— Tomara — apertou os lábios um contra o outro.
— E eu vou dizer, está bem? Só estou esperando.
— Não espera demais. Dessa vez, eu não posso ligar para Paris te avisando que ela sabe da verdade. Não posso salvar tua pele, nem mesmo se as coisas com a ficarem feias.
— Garanto que não vão ficar. Obrigado, mesmo assim. Obrigado por se preocupar comig... Conosco — estiquei-me e o abracei.
O telefone tocou sobre a mesa logo que voltei a me sentar.
Atendi.
— Oi, — falei.
— A estagiária chegou. Disseram a ela que seu irmão estava aqui, e ela subiu, conforme as ordens dele — respondeu.
— Sua garota chegou — falei, tampando o telefone com a mão.
— Cala a boca, ! Deixa de falar besteira! — riu.
— Ainda anda suspirando pela Chando?
— Não, não foi para tanto — riu. — Senão, teria durado mais.
Senhor Jonas? chamou, estranhando a demora.
— Diga para a garota que pode entrar na minha sala. está aqui.
Claro. Até mais.
— Até — falei, antes de desligar.
Não levou nem vinte segundos para que abrisse a porta e desse espaço para a garota de sorriso doce.
— Bom dia. Sou , a bioquímica brasileira — ela disse num tom bem doce.
Olhei para e quase comecei a rir ali mesmo. Ele parecia encantado. Pelo jeito, eu tinha dado um tiro no escuro, instantes antes, e acertado. Ela poderia muito bem ser a garota do .
— Olá, eu sou , seu superior nos laboratórios — ele se adiantou e estendeu a mão para ela antes de mim. Eu estava presenciando o começo de algo próximo a um relacionamento? Era isso mesmo? Achei que já tinha visto de tudo...
— É um prazer conhecê-lo — ela respondeu.
— Eu sou Jonas, o mais inteligente daqui — brinquei.
Ainda assim, quando apertou minha mão, mesmo que rindo, estava nervosa.
— Muito prazer — disse-me.
— Bom, eu vou deixar vocês dois irem para os laboratórios, para que você conheça-os melhor, — avisei.
— Ah, obrigada — ela agradeceu num sorriso doce e, logo, deu espaço a ela para que saísse primeiro.
— Tire uma casquinha — sussurrei ao meu irmão, segurando o riso.
— Cale a boca — ele disse da mesma forma.
saiu, a porta bateu, e eu caí na gargalhada.

Jonas

tinha problemas na cabeça. Vai ver era culpa da Olly. Ou da . Ou ele sempre foi assim e mamãe escondeu de todos.
Apertei o botão para pedir o elevador e, assim que ele chegou, dei espaço para que a garota entrasse primeiro. Lá dentro, éramos apenas nós.
— Você disse que seu nome é , certo? — Perguntei.
— Sim, mas se você me chamar de , eu prefiro. Sabe... Eu não gosto muito de — ela riu.
— Tudo bem, . É assim que vou chamar você — concordei.
— Obrigada! — Pode ter sido só impressão minha, mas ali ela relaxou.
Não falei mais nada. Não porque não tivesse assunto ou qualquer coisa assim, só achei que ela precisava de espaço para continuar tranquila. Se eu ficasse puxando assunto, quem sabe eu a deixasse pior.
Instantaneamente, me lembrei das insinuações do meu irmão, mas, pelo menos, prestei atenção na garota. Era bem bonita... Suave, talvez, fosse a palavra certa.



Capítulo Onze
Não sou a menina exemplo

Niñas Mal — Nikki Clan



Jonas’ POV


Dentro da enorme sala dos professores do St. Francis, decorada com uma grande mesa, sofás e uma mesa menor, onde havia uma cafeteira e alguns vidros com biscoitos, eu estava. Enfiei um dos biscoitos de polvilho na boca e caminhei até a mesa. Eu tinha aquele período vago e aproveitaria para ver qual era minha próxima aula e o que eu precisaria para ela.
Abri a bolsa sobre a mesa e puxei a agenda que todos os professores ganhavam com seus horários e datas do calendário escolar, procurando o que eu tinha para aquele dia.
— 4º ano — li em voz alta. — Duas aulas seguidas no quarto ano.
Até que seria tranquilo. Os alunos eram todos divertidos e eu gostava, até mesmo, dos bagunceiros. Ethan Hale era o pior de todos, por mais que suas notas fossem sempre medianas, ele não abandonava os fones de ouvido e, vez ou outra, eu ouvia boatos de que ele andava escondido nos banheiros fumando, o que era estritamente proibido. Como nunca vi, nunca pude acusá-lo.
Ethan era um dos alunos que mais me chamava a atenção. A postura dele, mesmo sendo filho de um deputado, era o modelo do que não seguir, e, além do mais, havia todas aquelas adolescentes loucas correndo atrás dele e dando a ele o que bem quisesse — dando para ele, vulgar e especificamente falando. Ethan era o pior de todos, até agora.
Até o momento em que meus neurônios me lembraram de que Olly seria parte da turma do quarto ano. A partir, justamente, daquele dia. Eu teria uma aula com Olly no próximo período. Nos próximos dois períodos.
Enfiei tudo de volta na pasta e engoli o café que, mesmo depois de quatro colheres de açúcar, pareceu azedo. Continuei sentada, olhando para o horizonte, sem um ponto fixo. Quem sabe, dar aulas fizesse Olly me ver como alguém em quem ela podia confiar. Quem sabe, se ela confiasse em mim, eu conseguisse fazê-la se aproximar de — e parar de me chamar de Consuelo. Seria uma grande coisa; traria paz para casa novamente.
Não demorou muito e o sinal tocou. Era a última aula antes do almoço. Coloquei a alça da bolsSCRIPT— Bom dia. Sou a no ombro e caminhei rumo à escadaria que separava a parte administrativa das salas de aula. Passei pelo corredor onde havia o quadro dos ex-alunos que, de algum modo, marcaram a escola e logo estava na sala do último ano.
Era uma sala como as outras: lousa branca, a carteira do professor um degrau mais alta que a dos alunos que sentavam-se sozinhos em classes grandes de madeira clara. Sky Munroe, a bolsista de brilhantes olhos pretos, ficava sempre na primeira fileira. Procurei por Olly, mas não a vi, assim como não vi Ethan Hale — que sempre ocupava a brúltima carteira do canto direito, depois da janela. Esta e a classe atrás de Sky, que esdocument.write(Maddie)document.write(Maddie)/itava vazia desde que Brianna Van Der Hoosen deixou a escola para ir com os pais para Portugal.
— Bom dia — eu disse, apagando o que havia na lousa.
— Com licença — ouvi Ethan batendo na poSCRIPT Ciao! /i i, brta. — Eu estava na enfermaria porque machuquei o rosto na aula de polo aquático.
Olhei para ele e vi o curativo sobre a sobrancelha castanha dele.
— Espero que não tenha sido nada de muito grave — falei. — Entre e vá o seu lugar — pedi.
— ‘Tá legal — ele deu de ombros e caminhou marrento para o seu lugar.
Outra batida.
— Entre — algo me disse que era Olly.
— Sra. Jonas — disse Sr. Mercer, o inspetor.
— Bom dia, Sr. Mercer — respondi do jeito mais sério que eu sabia. No St. Francis, eu não po? SCRIPTbrdia dizer um “E aí?!”, como dizia na Lilac — saudades da Alex!
— A Srta. Jonas...
Petroni — Olly corrigiu entre dentes.
— Como eu dizia — ele a fitou, sério. — A aluna se perdeu no caminho de volta do banheiro e me pediu para ajudá-la a chegar à sala de aula.
— Ah, tudo bem... É o primeiro dia dela por aqui e, sem um mapa, se torna difícil — respondi falando baixo e calmamente.
Olly me olhou numa careta, talvez, estranhando-me — do mesmo jeito que eu me estranhara no começo do ano, quando comecei a trabalhar lá.
— Entre, Olímpia. Ajeite-se numa carteira porque preciso começar — ordenei, baixinho.
— Vá, aluna Jonas — disse o Sr. Mercer.
Petroni — Olly retrucou, indo para o lugar atrás de Sky.
Agradeci ao inspetor Mercer e fechei a porta assim que ele saiu. Abri um dos livros que eu usava e comecei a rabiscar frases aleatórias na lousa.
— Você entende minha caligrafia, Olímpia? — Perguntei, ao terminar.
Ela deu de ombros.
— Acho que isso é um “sim” — ignorei e voltei à aula. — Bom — estiquei o pescoço, observando se nenhum superior estava por perto. Não estava. Eu podia ser a professora que eles gostavam agora. Sentei-me em minha mesa. — Eu sei que vocês devem estar cansados da escola e comemorando o fato de que isso tudo vai acabar. Irão para a universidade, vão cursar algo que gostem, eu espero, e serão grandes homens e mulheres, mas... A gente vai ter que voltar para a quinta série agora, então peguem as garrafinhas de suco, os lápis com carrinhos da Hot Wells ou plumas cor-de-rosa e prestem atenção na aula que eu vou dar agora.
Todos riram.
— Liga para a minha mãe, professora, estou com dor de barriga — Ethan brincou, lá de trás.
Mais risadas.
— Bem que eu queria, Hale, mas todos sabemos que sua mãe está na Escócia — respondi. — Bom — desci da mesa —, o que eu pretendo mandando vocês voltarem para a 5ª série?
— Droga nenhuma? — Ouvi Olly, mas ignorei.
— Que vocês voltem para aquela parte da matéria onde precisavam encontrar sujeito e predicado — expliquei. — Para que eu possa revisar a função sintática por causa do teste semestral que o colégio vai aplicar.
— Também vou ter que fazer esse teste? — Olly perguntou.
— Não sei, Olímpia... Vou precisar falar com a Diretora Crayg. Farei isso hoje ainda, se tiver tempo — avisei.
Grazie — ela disse, sem eu entender.
— Em inglês, por favor.
— Obrigada — ao contrário de quando foi em italiano, ela disse como se tivesse sido forçada a tal atitude.
Voltei minha atenção à aula e pedi exemplos de orações que pudéssemos usar para estudo, além das que eu havia colocado na lousa. A primeira a sugerir alguma coisa foi Sky Munroe, sem evitar seu bom e velho tique nervoso de colocar o cabelo preto e liso, na altura dos ombros, para trás da orelha. Logo, os outros foram dando suas sugestões também e, assim, um período se foi.
Foi na metade da segunda aula, quando Olly ergueu seu braço, que meu estômago apertou, e eu me dividi em duas. Por um lado, torci para que aquilo fosse o começo de uma tentativa de aproximação, mas, por outro, temi que ela aprontasse uma das suas. Se bem que, estando na escola, o que ela poderia fazer?
Espantei o pensamento inútil e apontei para ela, antes de falar.
— Olímpia.
— Posso dizer uma frase também? É que fiquei com uma pequena dúvida... Sabe, esse idioma é meio complicado para mim — seu tom foi mesmo de quem estava querendo aprender alguma coisa. Relaxei.
— Claro, diga a frase e eu ajudo você — respondi, tendo certeza de que algo bom começaria.
— Tudo bem! — Ela sorriu.
Respirei fundo, esperando-a.
— Na frase: “A minha madrasta é uma vaca”, onde está o sujeito? — os olhos dela foram irônicos, debochados, e eu acho que fiquei roxa de ódio.
— Na diretoria. Pegue suas coisas agora! — Respondi o mais depressa que pude, segurando-me para não mandá-la ir para a... Para lugar nenhum.
— Como é? Não vai me explicar? — Olly pareceu segurar a vontade de rir.
— Obedeça — respondi do modo mais firme que eu pude.
Olly bufou, mas enfiou os livros dentro da mochila e se levantou.
— Sky, vá chamar o inspetor para que fique com vocês enquanto eu acompanho a aluna Petroni — fitei Olly para dizer seu sobrenome — até a diretoria.
— Sim, senhora, com licença — Sky pediu baixinho, retirando-se logo em seguida.
Ela não demorou. Eu deixei algumas páginas anotadas na lousa e disse aos alunos que fizessem aqueles exercícios, que retomaríamos a aula assim que eu voltasse da sala da direção.
— Precisava fazer esse escândalo, Consuelo? — Olly bufou enquanto atravessávamos o corredor que nos levaria até a sala da diretoria.
— Aqui eu sou a Sra. Jonas, sua professora de Língua Inglesa, caso não tenha notado — respondi, sem humor nenhum, praticamente raivosa.
— Se aqui você é minha professora, por que diabos eu estou indo para a direção quando citei minha madrasta?
— Nosso parentesco não pode ser usado nas minhas aulas. Qualquer um sabe que você é filha do . Você me insultou, indiretamente, mas insultou. Se te deixo na sala, estou te protegendo, se parece que estou te protegendo, o que eu não vou fazer, quem paga pato sou eu.
Olly rolou os olhos e bufou outra vez.
— E mais uma coisa — eu disse, antes de bater na porta da Diretora Crayg.
— Que é, Consuelo?
Sussurrei:
— Vaca é a sua avó. Materna!
Abri a porta, sem dar tempo à Olly de responder. Marissa Crayg estava sentada com as mãos pousadas sobre a mesa, unidas. Parecia mais uma estátua ou alguma personagem de filme, tão perfeita era sua postura. Os cabelos castanhos eram curtos e ondulados na altura do queixo e os olhos verdes desviavam qualquer atenção para a parte mais medonha de seu rosto: o queixo fino e comprido, que mais parecia de uma daquelas bruxas dos contos de fadas — seja lá de onde as fadas vêm.
— Pelo jeito você mal chegou e já quis me fazer uma visita — seu tom e olhar sobre Olly eram superiores demais. Por um momento, me arrependi de ter arrastado minha enteada cabelo de fogo até lá. Mas eu também me lembrei de como aquela garota me irritara cinco minutos antes e de como eu não podia responder a ela como gostaria — como a da Lilac faria.
— É que eu gostei da sua sala — Olly deu de ombros, ignorando completamente o quão perigosa sua ironia era. Instantaneamente, eu me lembrei de Rebelde, a novela que meu irmão via por causa da vizinha latina, e vi Roberta Pardo em Olly. Apenas não vi Pascoal em Crayg porque Pascoal era um pateta e Crayg era uma versão escolar de Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada”.
Respirei fundo e descansei meus olhos sobre Olly.
— Uma pena a sala da detenção não ser tão bem decorada quanto a minha — Crayg jamais deixaria por menos. Ela nunca era encurralada pelos alunos e, se nem Olly ou Ethan Hale eram capazes, ninguém era.
— Detenção? Tipo, ficar depois da aula? — A Cabelo de Fogo perguntou, incrédula. — Olha, não dá, ‘tá legal? Eu cheguei aqui em pleno último semestre, não falo inglês muito bem e preciso mesmo me atualizar em todo o conteúdo até agora porque tudo o que eu não quero é repetir o ano! — Protestou Olímpia.
— Olly, por favor — pedi. Se ela continuasse daquele jeito, eu não daria uma hora para chegar à escola e ser descascado pela Crayg.
Comecei a me arrepender de tê-la levado até lá.
— Por favor — insisti quando ela tentou falar.
— Pode me contar o que houve, ? — Crayg não perdeu o ar superior nem ao olhar para mim. Aquilo me dava medo, a pele dela parecia de borracha.
— Estávamos revisando a matéria quando Olly afirmou ter uma dúvida e acabou se dirigindo a mim, de maneira camuflada, em uma frase pejorativa.
“Pejorativa” era muito “palavra de escola”.
— Repita a frase, Srta. Jonas – Crayg fitou Olly.
Olímpia abriu a boca para dizer “Petroni”, mas mudou de ideia.
— É mesmo necessário? — Olly miou.
Não acreditei. Então, tudo aquilo era medo de ir para a detenção? Cacete, descobri uma palavra nova naquele momento!
— Claro, repita! — Crayg disse com a firmeza de um general.
— “Na frase ‘Minha madrasta é uma vaca’, onde está o sujeito?” — Olly repetiu depressa, daquele jeito que a gente só faz quando tem medo de perder a coragem do que ia falar.
Para minha surpresa, Crayg caiu na gargalhada.
Meu queixo caiu também, preciso admitir.
Ela se recompôs.
— Srta. Jonas, devo deixar claro que seu grau de parentesco não deve ser mencionado nas aulas da Sra. Jonas — falando daquele jeito, Srta. e Sra. Jonas, parecia que eu era mãe da Olly. Bati na madeira.
— Algum problema, professora? — Crayg me fitou.
Dei um sorriso amarelo.
— Formiga. A senhora sabe que eu odeio formigas e...
— Tudo bem — ela interrompeu. — Olly — chamou. — Seu parentesco com sua professora é inexistente durante as aulas e, caso vocês tenham alguma espécie de rixa, peço que a deixem fora dos portões da minha escola. Aqui, o respeito é uma exigência e não uma opção.
— Sinto muito — Olly miou outra vez.
— Não peça para mim — disse Crayg. — Peça à sua madrasta. Duas vezes. Por tê-la ofendido e por tê-la importunado em seu lugar de trabalho. Na verdade, peça três vezes. Desculpe-se também por não tê-la respeitado como sua professora.
Marissa não estava para brincadeiras.
— Eu sinto muito, — Olly pediu e pareceu sincero.
— Está tudo bem, Olly — respondi.
não. Nem eu, que sou sua superior, a chamo de , é Sra. Jonas para você.
— Eu sinto muito Sra. Jonas, não queria ter atrapalhado a aula, não queria expor a família que não somos desse jeito e muito menos ter feito você passar qualquer constrangimento na frente dos outros alunos.
— Tudo passa, Olímpia. Está tudo bem agora — afirmei, sinceramente.
— Já posso voltar para a aula? — Ela perguntou.
— Não. Você vai para a detenção até a hora da saída. Adiante o dever de casa. , quando é sua próxima aula com os alunos do último ano?
— Amanhã, no primeiro horário — informei.
— Quem assina o pagamento das mensalidades, Olímpia?
— O , eu acho. Quero dizer, meu pai, eu acho que é ele.
— É o seu marido, ?
Apenas afirmei com a cabeça.
— Se ela não estiver acompanhada do pai amanhã, está proibida de entrar na sua aula. O inspetor Mercer estará encarregado de conferir.
Crayg era rígida, mesmo que fosse pega de surpresa e caísse na gargalhada — como acontecera um pouco antes —, ela logo voltaria a levar aquele colégio na rédea curta.
, volte para sua aula. Antes diga à Olly o que precisa adiantar do dever de casa. Ela ficará aqui para que eu possa mandar um aviso por escrito ao pai dela.
Olly me olhou, mas eu não podia fazer nada. Eu precisava seguir as regras de onde trabalhava, já havia ouvido demais alguns dias antes de Olly ter aulas lá, pois ela seria a única com uma ligação direta a algum funcionário e isso precisaria ser deixado do outro lado dos portões, caso contrário, quem pagaria era eu.
— Página 47 da Apostila II. Até o exercício de número 16 — disse à Olly.
— Sim, senhora — ela respondeu baixo, derrotada.
— Pode se retirar, .
— Claro. Com licença, Sra. Crayg — eu disse, antes de sair e rumar direto para minha sala de aula.

— Eu vou me atrasar para a conferência com os gregos por que a mocinha resolveu incorporar a rebelde sem causa e bater de frente com a professora? — o tom de não era nada bom assim que ele leu o bilhete de Olly.
Ele não gritava — gritar não era de seu feitio, mas era do meu —, mas eu via raiva e até um pingo de desapontamento em sua voz.
— Escapou, ‘tá legal? E eu pedi desculpas. A bruxa da diretora que fez todo esse circo! Quella vecchia cagna e pieno di chirurgia plastica! — Algo me disse que ela xingou, mas não tive certeza.
— Não interessa se ela é velha ou se tem cirurgias plásticas — acho que foi isso que Olly disse, já que revidou. — O que interessa é que você quebrou regras no mísero primeiro dia. E, além do mais, expôs a .
Olly jogou as mãos para o ar e balançou a cabeça ironicamente.
— Ah, claro! Stava prendendo per proteggere la piccola moglie! Se eu não falasse nessa daí, foda-se o que aconteceu nessa?
Mordi a língua para não dizer quem era “essa daí”.
— Não adianta xingar nem a minha décima quinta geração! Me dá o iPod — estendeu a mão.
— Como é que é? — O queixo de Olly caiu, incrédulo.
— A porcaria do iPod, Olímpia, me dá.
Olly rolou os olhos, jogando a cabeça para trás.
— Que é? Virou fã do Il Volo1 agora? — Ironizou. — Só o que me faltava... — resmungou.
Mas não estava brincando.
— Aquele colégio custa caro. O mínimo que você pode fazer pelo dinheiro que eu gasto com ele é ter respeito pelas pessoas. Dá o iPod agora — repetiu, firme.
— Está me castigando, é isso? Não acha que está meio atrasado?
— Você mora na minha casa, as coisas acontecem ao meu tempo. O iPod, Olímpia Petroni, agora!
Eu nunca o vi tão sério — e assustador — em toda a minha vida, nem na pior briga que tivemos eu vi seus olhos tão fixos ou seu tom tão firme. Toda sua expressão era segura, firme demais.
— Toma essa porcaria — Olly largou o pequeno aparelho lilás na mão dele e tirou os fones dos ouvidos, largando-os também.
enfiou o aparelho da Apple no bolso.
— Quando me lembrar de que ele está aqui, devolvo.
— Posso ir tomar banho agora? — Depois de tudo, a ironia não abandonou Olly.
— Vai.
Tudo aquilo era apenas os trovões. Eu sentia que uma tempestade estava chegando e me perguntava desesperadamente se tínhamos estrutura para enfrentá-la sem sairmos destelhados ou com vidraças quebradas.

¹.Il Volo (em português: O Voo) é um trio de tenores adolescentes italianos, formado por Piero Barone,Ignazio Boschetto, e Gianluca Ginoble. [Wikipédia]


Capítulo Doze
As mentiras estão claras.

Falling Down — Selena Gomez & The Scene


Jonas’ POV


— Será que dá para me explicar o que foi aquilo na sala? — Eu perguntei a assim que o vi sair do banheiro do quarto.
Eu não tive coragem de tocar no assunto durante o jantar, apenas coloquei a comida de Olly numa bandeja e levei ao quarto, mas ela estava dormindo, e eu não tive coragem de acordá-la. Deixei um bilhete ao lado do abajur, explicando que sua comida estava servida no forno de micro-ondas e que ela poderia esquentá-la quando acordasse com fome. Mesmo que fosse de madrugada.
— Acha que fiz mal? — Ele perguntou, puxando as cobertas e ajeitando-se no lugar ao meu lado. Puxou-me para perto, foi minha vez de me ajeitar.
— Não. Só fiquei surpresa… — respondi.
— Se a Olly não te respeita nem mesmo no St. Francis, não respeita ninguém no mundo. E ela é só uma garota que, das duas, uma: ou foi criada sem o mínimo de afeto, ou com mimos e mordomias nada saudáveis. E eu acredito mais na primeira opção, amor.
— Eu também — respondi. — E quando vai devolver o iPod dela?
— Acho que no fim de semana — ele riu. — Deixe-a se morder um pouco.
— Mas isso vai afastá-la mais ainda de você — arrumei-me melhor, para poder olhá-lo. — Quero que se deem bem.
E eu queria mesmo. Alguma coisa me dizia que Olly era apenas uma rebelde — independente de ter causa para isso ou não — e não uma pessoa má. Eu esperava que ela não fosse.
— Eu sei. E isso é ruim. Porque ela é minha filha, sabe, ? Eu sei que dezessete anos não são dezessete dias ou dezessete minutos, mas ela não precisa me amar ou me chamar de pai, só não precisa me odiar achando que eu sou um canalha — sua voz, sua expressão, seus olhos… Absolutamente tudo em foi sincero. Afastei-me dele por um segundo o abracei apertado, tentando passar calor para ele ou qualquer coisa assim.
— Acredito em você, minha vida, sei que vai dar tudo certo no final das contas… Querendo ou não, Olly é só uma menina. Vai precisar de apoio mais cedo ou mais tarde. E vai terminar confiando em você — falei.
suspirou, segurando minhas mãos logo em seguida.
— Prometo para você que, quando isso acontecer, vou dizer a verdade a ela. A verdade sobre a Giovanna e sobre eu não tê-la procurado.
— Não vou mais me meter nisso — anunciei, meio insegura sobre tal afirmação. Por quê… E se a garota saísse me chamando de vadia de novo?
— Obrigado, .
— Não me chama de “ ”. Parece que você já quer arrancar meu rim e servir no jantar! — Protestei.
Nós caímos no riso.

Olly Petroni’s POV

Aquele colégio era uma prisão. Um mausoléu, o inferno na Terra ou qualquer péssima comparação do gênero. O uniforme não era muito diferente do que eu usava na Itália: saia, camisa, casaco e gravata, mas as malditas aulas de Educação Física eram obrigatórias. Depois, aquela frescura de não expor meu parentesco com a Consuelo… Ah, ‘tá! Como se aquela mulher fosse me defender de alguma coisa! Mais fácil ela foder com minha estadia naquele lugar de uma vez por todas.
E, sinceramente, eu não duvidava muito disso. Até parece que ela nunca tinha sido chamada de vaca na vida.
— Espero que o ocorrido de ontem não se repita hoje — me disse assim que subi no carro.
— Não gosto de fazer a mesma coisa sempre — ironizei.
— Olly, em algum lugar você precisa saber conviver com as pessoas, que seja, pelo menos, no colégio.
Dei de ombros, esticando minhas pernas e pondo os pés no painel de seu carro.
— Abaixe os pés — ele pediu calmo enquanto saía da garagem.
Não obedeci.
— Quer ficar sem o computador também? — ameaçou. E como eu sabia que ele seria capaz – já que meu iPod ainda não voltara –, achei melhor abaixar os pés.
— Vai ficar comigo pelo pátio como se eu tivesse cinco anos? — Eu quis saber.
— Não tenho tempo para isso. Eu tenho trabalho, falei ontem.
— Outro que trabalha como louco — resmunguei.
— O que foi?
Merda! Ele ouvira.
— Nada — respondi tão rápido, que quase mordi a língua.
— Tudo bem — deu de ombros e, por meio segundo, gostei dele: não era invasivo. — Quer comprar café no caminho? Eu vi que só comeu uma maçã. Ele estava tentando ser legal?
— Não, obrigada — falei. — Sempre tenho uma barra de cereal na mochila, porque nunca tenho fome de manhã. Como no almoço.
— Você não puxou isso da sua mãe. Nem de mim — ele riu.
— Ela comia muito de manhã — sorri quando me lembrei da minha mãe. — Torradas com mel, suco de fruta e uma xícara de café. Eu ficava enjoada só de olhar.
riu de novo.
— Gosta do colégio? — Perguntou ele.
— É… Acho que tê-lo no meu currículo, mesmo que por um semestre, vai ajudar na faculdade de moda em Milão… — comentei, dando de ombros.
— Moda. Em Milão. Voltar para a Itália é mesmo uma meta, então?
— Sem dúvidas! — De repente, fiquei animada. — Sabe, eu ainda insisto na ideia de você me emancipar — comentei… como “quem não queria nada”.
— Eu posso pensar, mas adianto que será muito difícil concordar — ele disse.
— Mas você estudou em Roma quando tinha minha idade — argumentei.
— Como intercambista. Tinha uma família cuidando de mim, sendo responsável — explicou. — Olly, eu sei que Roma é sua casa, mas será que dá para dar uma chance à Nova York?
— Você é tão maníaco assim pela sua cidade? Aquele nova-iorquino típico que odeia a Califórnia e tudo mais? — Perguntei.
— Eu adoro a Califórnia. E eu não sou nova-iorquino. Eu nasci em Maryland. Meu pai estava viajando quando mamãe engravidou de mim, então meu parto foi lá mesmo, onde ela nasceu. Ela resolveu passar uns dias com meus avós para não ficar sozinha.
— Ah… Entendi. E a Consuelo? Ela é de Nova York? — Por que eu estava fazendo todas aquelas perguntas e sendo legal com ? Ele nem quis saber de mim.
— O nome dela é , Olly, ou , como todo mundo chama — ele corrigiu. Era incrível como ele a defendia com unhas e dentes.
— A merda que for — falei, mal humorada. — Ela é de NY?
— Não… é de Nova Jersey, de uma cidade pequena do outro lado do estado. O pai dela veio para cá quando ela tinha onze anos.
— E a família dela está onde agora? Porque eles não ligam, não aparecem… — perguntei, curiosa demais para o meu gosto.
— Eles estão em Nova Jersey. A mãe dela e o irmão. O pai morreu, faz mais de dez anos, se eu não me engano — ele contou.
— Ah, sinto muito — disse, sinceramente.
— Por que não se dá bem com a , Olly?
— Por que ela não se dá bem comigo? Sabe, no começo eu admito que relutei, que não fui a pessoa que deveria, mas acho que a culpa é sua , porque eu tenho raiva do fato de você nunca ter tido vontade de saber o que quer que fosse de mim. Se eu era bonita, se era boa aluna… Eu já expus uns desenhos quando estava na oitava série, sabia? — Ficou confuso, mas, sem saber o que me deu direito, coloquei para fora tudo o que estava engasgado.
Respirei fundo, porque, do nada, um nó se criou na minha garganta e me deu vontade de chorar enquanto eu me perguntava por que causa, motivo, razão ou circunstância eu estava perguntando sobre e e, agora, dizendo a ele coisas que eu nunca disse nem para minha mãe.
— Olly… Eu… Eu… — ele gaguejou.
— Você não tem resposta, né? — Aquilo me decepcionou.
Vi que já estávamos no colégio, então destranquei minha porta e me preparei para descer. não deixou.
— Espera, Olímpia! — Chamou.
Parei no momento em que me lembrei de que não entraria na aula se não fosse com ele. Que merda! Toda aquela alegria foi embora num tapa. A mágoa voltou rápida como uma bala, cortando cada pedacinho. O nó na garganta ficou maior, e eu me senti um gato com uma maldita bola de pelos na minha garganta.
— Ah, a autorização — lembrei, batendo com a mão na testa.
— Olly.
— Ahn? — Perguntei.
— Venho buscar você na saída. Vamos comer qualquer coisa por aí e a gente vai conversar sobre tudo o que aconteceu quando eu conheci sua mãe, pode ser?
De repente, eu senti uma onda de tranquilidade me invadir. Ele ia contar para mim, e eu rezava em silêncio para que fosse convincente.
— O que te deu para fazer minha vontade? — Estranhei.
— Você quer saber a história, vou te contar — me olhou. — Agora, vamos fazer uma troca de favores, ok?
— Ih… Garanto que tem a Consuelo no meio — reclamei.
— É. Tem. Agora escute:
Eu havia começado a andar, mas parei.
— Sou “toda ouvidos” — ironizei.
— Não apronte nada na aula dela, está bem? Porque se fizer isso, eu não virei às 14h.
— ‘Tá legal — bufei. — Não farei nada. Agora vamos logo porque aquela diretora me dá calafrios.
Não falamos mais nada, apenas caminhamos para a sala de aula. Aquele cara de trinta e poucos anos, engravatado, andando pelos corredores, causou burburinho, e eu desconfiava que todos ali soubessem por que motivo ele estava lá.
já estava na sala de aula, arrumando pilhas de folhas sobre a mesa. Eu rezei para que não fosse nenhum prova da qual eu não tivesse sido avisada.
— Professora — disse, ao bater na porta.
— Bom dia, Sr. Jonas.
Eu comecei a rir e me olhou.
— O que é? — Sussurrei, ainda rindo.
— Vim deixar a Olímpia.
— Ah, claro. Bom dia, Olímpia — ela disse para mim.
— Oi — eu não conseguia parar de rir.
— Não esqueça nosso acordo — me disse assim que eu fui para meu lugar.
— Eu preciso que você assine um papel, como um atestado de presença — disse a .
— Tudo bem — ele entrou na sala de aula e foi direto à mesa dela.
deu um papel a ele, que assinou.
— Obrigada. Até mais, Sr. Jonas.
— Até, professora.
Ele foi embora, e eu fiquei atenta, esperando que um deles piscasse ou jogasse um beijinho, mas nada aconteceu.
— Do que você estava rindo, Olly? — Ela perguntou sem me olhar, ainda arrumando sua papelada.
— De vocês dois — respondi. — De como fingiram ser só pai e professora — foi estranho dizer “pai”, ainda mais porque era um pai de aluna e a aluna era eu.
— Você viu ontem como o parentesco é aqui — foi indiferente, mas finalmente levantou a cabeça e olhou para mim. — E nenhuma de nós duas precisa de problemas, não é?
— Não. Nenhuma de nós duas.
Logo, a sala de aula começou a encher. A garota que se sentava na primeira fila, à minha frente, foi uma das primeiras a chegar e, finalmente, tomou coragem para falar comigo.
— Você está aqui há muito tempo? — Ela perguntou, colocando o cabelo preto para trás das orelhas. Pelo que notei, aquilo era uma espécie de tique nervoso.
— Não tinha ninguém… Só a — me corrigi, às pressas. — Só a Sra. Jonas. Eu tive que chegar cedo porque meu… O teve que me trazer — contei.
— Ah, eu ouvi alguma coisa sobre uma aluna chegando com o “cara que faz perfume” — ela riu.
— Na verdade, quem faz é o irmão dele e mais uma equipe de bioquímicos. Ele aprova e administra o dinheiro e tudo mais. Ele é economista.
— Matemática Financeira — os olhos dela brilharam.
Essa garota tinha problemas mentais. Era legal, mas tinha problemas!
— Eu sou Sky Munroe — ela disse, me despertando.
— Sky… Sério? Nossa! — O nome dela era curioso para mim.
— Aham. Sky.
— Eu sou Olímpia. Olly, se você não se importar — respondi para ela.
Pelo menos, alguém estava sendo legal comigo.
Às 11h, o sinal tocou para o almoço, e eu encontrei Sky no refeitório, como nós havíamos combinado na última aula que tivemos; a de francês.
Peguei minha bandeja e fui até a mesa onde ela estava sentada com um garoto magro de olhos verdes, cabelos loiros e aparelho nos dentes. Eu tive a impressão de tê-lo visto na minha aula de artes.
— Oi — eu disse, me sentando numa das banquetas brancas e baixinhas.
— Oi. Olly, esse é o Jimmy. Nós somos vizinhos — ela disse, apontando para o garoto.
— Oi, Jimmy, muito prazer — estendi a mão para ele.
Nós conversamos e comemos enquanto eu começava a notar como aqueles dois eram legais. Sky me contou que ela e Jimmy eram bolsistas e que estudavam lá desde o primeiro ano. Contaram também sobre terem estudado juntos para a prova de admissão, assim como a de renovação da bolsa, que ocorria sempre quinze dias antes do retorno das aulas.
Mas o que me chamou atenção mesmo foi um garoto de cabelo escuro e meio comprido — na altura da nuca —, que deixou o refeitório e saiu. Pela janela, meus olhos o seguiram. Não resisti, tive de levantar e ir atrás dele, dando uma desculpa qualquer à Sky e ao Jimmy.
Ele se escondeu nos fundos, onde havia um enorme carvalho e algumas pedras — o que dificultava a chegada até lá —, sentou-se no chão e acendeu um cigarro. Estava tão relaxado curtindo aquele momento que não me notou parada, com os olhos fixos em suas ações.
— Encontrou o sujeito? — Ouvi-o perguntar e só aí me dei conta de que ele estava falando comigo.
— Como é? Scusa? — pedi.
— A italianinha do cabelo de fogo, filha bastarda do herdeiro milionário e enteada da gostosa da professora de Língua Inglesa… Olhando bem — ele disse. — O bom gosto do Jonas é inegável.
— Eu me chamo Olímpia! — Falei, irritada. — E, na minha terra, chamar uma pessoa de bastarda é uma ofensa das mais fodidas. E que história é essa de achar a Consuelo gostosa? — Aquela foi a parte que mais me irritou, sem dúvidas.
— E… E… Pelo jeito você não conhece outra vogal, não é mesmo, Olímpia? O sujeito estava na diretoria ou não, afinal de contas? — Ele riu marrento, dando uma tragada no cigarro. — Sou Ethan Hale — ele disse, se levantando. Bateu a mão livre no jeans e segurou o cigarro nos lábios, estendendo sua mão direita para mim. — É um prazer — ele disse com dificuldade por causa do que tinha nos lábios.
Apertei a mão dele e foi como se uma corrente elétrica me pegasse. Soltei-o depressa. Ethan segurou seu cigarro.
— Quer um? — Ofereceu-me.
— Já arrumei encrenca demais em menos de 24h — defendi-me. — Ter um bom comportamento hoje pode mudar muita coisa.
— Bom comportamento? — Outra vez, Ethan riu. — E veio atrás de mim por quê?
— Não vim atrás de você — neguei. — Não mesmo.
— Ah, não, é? — Ele se aproximou de mim. — Eu duvido — Ethan virou o rosto e colocou a fumaça para fora como uma chaminé. Jogou a bituca de cigarro no chão e apagou-a com o pé.
— Vai devagar, Ethan Hale… Você não me conhece — desafiei-o.
— Mas sei o que você quer — seus olhos pretos sobre mim quase me intimidavam. Respirei fundo.
— Lê mentes? Edward Cullen, é você? — Debochei.
Quando eu pensei em rir, os lábios de Ethan forçaram contra os meus, e eu tentei afastá-lo, mas ele era alto e forte, impedindo-me disso. Sem escolha — ou talvez escolhendo — eu deixei que a língua dele invadisse a minha boca e levei minhas mãos até seu cabelo liso e escuro. Seus braços se mantiveram firmes ao redor da minha cintura.

***


— Minha nossa, ele veio mesmo! — Cochichei para mim mesma quandSCRIPTo vi o carro de , com ele parado ao lado, na entrada do colégio.
Eu jurava que ele fosse esquecer ou que estivesse numa reunião daquelas cheias de gente importante, mas ele estava na frente do colégio esperando por mim. Não queria demonstrar o quanto aquilo me deixou bem, afinal de contas, eu me senti importante, então fiz um esforço para não correr até o carro.
— Oi — ele me disse.
— E aí? — Falei, dando a volta e me colocando no banco do carona. Prendi o ci i— Você quer saber a história, vou te contar — brnto de segurança. parou para comprar café e voltou com um copo grande de cappuccino para mim.
— Pode começar a falar — ordenei, dando um gole em minha bebida.
— Não é tão fácil, Olly — eu senti se esquivar. Não foi legal.
— Nós tínhamos um trato, Jonas; eu me comportava naquele colégio louco e você me contava por que nunca me procurou. Gosto de cumprir promessas, gosto que as pessoas ao meu redor as cumpram também — revidei.
— O que sua mãe te contou?
— De novo essa pergunta? — Girei os olhos, bebendo meu café de novo. — Ela me disse que um dos amigos que vocês tinham em comum contou para você que ela estava grávida.
— Gianlucca — ele citou. — Ele disse: “Giovanna descobriu que está grávida, isso não é louco? Sete semanas”.
— Só isso? — Estranhei.
— Só… Foi numa festa qualquer, acho que quando os caras do time de futebol voltaram campeões do Estadual… Era como comemorávamos, nos juntávamos na casa de alguém que não fosse do time para ouvir música, beber… Já leu “Os 13 Porquês”?
— Já. Você leu? — Aquilo me pegou de surpresa. — E por que essa pergunta bem agora? — Estranhei.
leu. Para debater com os alunos depois que uma garota propôs porque tinha lido, amado e achado que merecia ser exposto e dissecado, para conscientizar os outros sobre suas ações. Eu li numa tarde de chuva qualquer e é um livro muito bom. Não só para os jovens, como você pensa.
— Ok, mas onde Hannah, Clay, Justin, Tony… Entram nessa história? Na minha história? Na sua história com a minha mãe? Porque eu sei que vocês foram namorados.
— Quero dizer que as festas a que íamos eram como as do livro. Que comecei a sair com sua mãe numa dessas… E numa dessas eu soube que ela estava te esperando.
— Entendi — bebi o café de novo.
— Olly, eu gostava muito da sua mãe. Mesmo. Eu era um garoto de dezoito anos, mas eu realmente gostei dela e, bem, achei que ela gostasse de mim… — o tom dele baixou.
Eu senti uma pontada no estômago. Como assim achou? Eles namoraram por meses, a ponto de minha mãe engravidar… Que dúvidas ele poderia ter?
— Por que “achei”? O que tem de errado no que você teve com mamãe? — Fiquei nervosa e não soube disfarçar. Repirei fundo.
— Quer mesmo ouvir, Olly? Faz só um mês que a sua mãe morreu ou menos… — me olhou, cuidadoso. Senti medo, mas queria ouvir aquela história toda, até o fim.
Assenti com a cabeça.
— Não sei direito quanto tempo depois... Sei que exatos dois meses antes de você ser concebida, sua mãe começou a sair com um universitário que ia para o colégio distribuir uns panfletos. Ele era revolucionário, pelo menos queria ser, e criticava a política italiana da época.
— Você e a minha mãe terminaram, foi isso? Ela te largou por esse cara e você ficou com mágoa? — Tentando entender, eu comecei a falar. — Porque se foi isso, olha... eu acho que consigo entender você, ...
— Sua mãe não me largou — ele me interrompeu.
— Como é? — Quase engasguei.
— Ela saiu comigo e com o universitário. E eu nem me lembro do nome dele.
— Minha mãe traiu você? — Meu queixo caiu duzentos metros. Então toda aquela história sobre ser um canalha que nunca ligou para o fato de ela estar grávida… Era… Era mentira? De nervoso, mordi o polegar com força.
— Durante mais de um mês. Por isso eu achei que você não fosse minha filha, porque, Olly, pelas minhas contas, se ela estava grávida de seis semanas, não podia ser de mim porque eu havia sido cuidadoso todo esse tempo.
Ver falar sobre quando dormiu ou não com minha mãe foi esquisito, mas era minha história. Eu precisava e queria ouvir.
— Minha mãe mentiu — sussurrei, lutando contra as lágrimas que começavam a se formar.
— Não, Olly! Gianlucca se confundiu — tratou de se explicar, segurando-me e me olhando nos olhos. — Eram cinco semanas, não sete.
— Mas ela disse — foi mais forte do que eu, comecei a chorar. — Ela disse que você terminou com ela e nunca mais a procurou. Disse que falou com sua família inúmeras vezes quando eu era pequena, mas que você nunca perguntou de volta ou qualquer coisa porque já tinha se divertido o bastante ao lado dela. E que você sabia, sabia e não se importou comigo.
— Eu não sabia, Olly — sua afirmação foi totalmente sincera. Era eu quem se sentia em pedaços, sentindo as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto gelado. — Fiquei sabendo do erro de Gianlucca quando falei com sua avó e ela me garantiu as semanas de gestação da Giovanna.
— Por que você não contou antes? — Eu quis saber, enxugando minhas lágrimas com as costas da mão.
— Medo de que você reagisse exatamente como está fazendo agora.
Parei, olhando-o.
De repente, me caiu a ficha de que ele só queria me proteger, do jeito que ninguém nunca fez porque minha mãe estava sempre ocupada demais fazendo dele um monstro, quando, na verdade, ela era quem tinha mais pecados.
— Sua mãe morreu há pouco tempo, Olly — ele disse. — Seria coisa demais para sua cabeça e, querendo ou não, você é só uma menina.
tocou meu rosto, secando as minhas lágrimas. Eu estava finalmente tendo um pai, e estava me sentindo como a Ronnie, de “A Ultima Música”: tratando mal quem não tinha culpa alguma na história. Senti-me mal naquele momento, pensando no quanto eu tinha me esforçado para fazê-lo e se sentir mal, no quanto demonstrei de todos os jeitos possíveis que não havia lugar para ele na minha vida, quando tudo o que eu realmente queria — e que ele merecia — era deixá-lo entrar.
Não sei direito quanto tempo, mas meu silêncio pareceu duradouro demais quando chamou meu nome.
— Está tudo bem, Olly? — Perguntou.
Não consegui dizer nada, eu o abracei apertado, pegando-o de surpresa e inalando seu perfume. Não o perfume caro que ele usava, mas o cheiro de aconchego e de proteção que vinha dele. As lágrimas continuaram, molhando seu casaco pesado.
— Desculpe por tudo, papai, me desculpe por tudo — eu pedi, aos prantos.
— Tudo bem, Olly, já passou — ele afagou meu cabelo, reagindo, finalmente. Abraçou-me também e acho que me emocionei porque chorei mais.
— Me desculpe, por favor, me desculpe — pedi outra vez.

Jonas’ POV

Quando Olly aparentou estar mais calma, eu a soltei e a olhei por alguns minutos. Um pouco antes, enquanto nós nos abraçávamos, eu me peguei pensando sobre ela, sobre como devia estar se sentindo e sobre como finalmente tinha me aceitado como pai dela. Ou, pelo menos, parecia aceitar.
Alguma coisa me deixou feliz naquele momento, mas não completamente, porque eu não conseguia parar de pensar no quanto ela estava decepcionada por saber que foi criada dentro de um jogo da mentira.
— Você está melhor? — Eu perguntei quando ela se afastou. — É melhor ir para casa descansar. Foi muita coisa para você, não foi?
Ela balançou a cabeça, fungando.
— Você não tem que ir trabalhar? — Perguntou, me fazendo rir. Naquela bagunça toda, ela ainda queria saber se eu não precisava ir trabalhar.
— Sou o patrão, Olly. Se quiser, não volto hoje. E agora vou te deixar em casa para você descansar. Você está precisando, como diz a , de um banho quente e de umas duas horas de sono.
— Acho que ela tem razão — Olly riu, levantando-se.
— Olly, me prometa uma coisa — pedi.
— Que coisa? — Olly me olhou.
— Não guarde rancor da sua mãe. Ela fez o que fez por alguma razão e, por mais que ela não seja boa bastante, você precisa respeitá-la.
— Só que ela estragou tudo! — Protestou. — Ela me fez achar que eu não era querida. Ela ficou com raiva porque você não a procurou e descarregou isso em mim, passou isso para mim com todas aquelas mentiras. Sabe quantos Dias dos Pais no Ensino Fundamental eu passei inventando um pai para colocar nas cartas? Inúmeros... E tudo isso porque minha mãe mentiu para esconder seus pecados.
— Ela era uma pessoa como eu e você. Errou. Do mesmo jeito que eu errei por não ter ido tirar satisfações sobre a gravidez. Do mesmo jeito que você errou me atacando. E o pior: usando a para isso.
Olly ficou me olhando com uma expressão que eu não soube decifrar.
— Consegue entender onde quero chegar? — Perguntei.
— Não vou julgá-la — garantiu-me. — Mas também não posso prometer adorar o que ela fez.
— E nem eu quero que você faça isso — eu disse, antes de abraçá-la de novo.
Era inacreditável, mas as coisas com Olly começariam a caminhar a partir dali. E pensar que tinha toda a razão quando me dizia para falar a verdade. A verdade mudou tudo.



Capítulo Treze

Nunca me senti tão bem

When Love Takes Over — Pixie Lott

Jonas’ POV


Eu estranhei quando Olly disse que não pegaria carona comigo para voltar para casa, como havia sido acordado antes, mas fiquei mais aliviada quando ela me disse que ia sair com depois do colégio. Como os professores, geralmente, saíam depois dos alunos, nem tive a oportunidade de vê-lo — mesmo que de longe.
Cheguei em casa disposta a curtir minhas quatro horas de solidão, como acontecia quando Olly ainda não “existia”. Larguei a pasta na minha parte da escrivaninha, no escritório, e guardei a bolsa no quarto, como sempre. Tirei os malditos sapatos de salto e me enfiei no banheiro. Tomaria um bom banho quente e depois me sentaria para comer a primeira coisa congelada que eu achasse na geladeira.
Eu saí usando uma camiseta larga e velha de por baixo do roupão, com uma toalha enrolada na cabeça. Abri o freezer e encontrei uma porção individual de lasanha de vegetais, coloquei-a no forno micro-ondas sem pensar duas vezes.
Eu queria comer, ver TV e relaxar — já que as provas ainda não tinham começado, portanto, eu não tinha o que corrigir —, mas não conseguia parar de pensar que havia ido buscar Olly na escola e que, pelo vazio no apartamento, eles haviam saído juntos depois. Fiquei com o coração apertado, com medo que ele estivesse tentando se aproximar dela, mas Olly continuasse com seu jeito frio e defensivo — explosivo e insuportável.
Pelo rumo que nossa conversa tomara na noite anterior, eu tinha certeza de que estava se apegando à Olly e que queria muito acertar os ponteiros com ela. Eu torcia para que isso acontecesse, não posso negar, porque queria ver feliz, mas também esperava que dar-se bem com o pai mudasse o comportamento de Olly.
Terminei de comer e lavei a louça que sujara. Fui até o quarto e peguei meus jeans surrados de sempre, os vesti e voltei para a sala, dando uma rápida olhada na agenda escolar.
Acabei cochilando encolhida no sofá, acordei apenas quando ouvi a porta sendo aberta. Eram e Olly que vinham chegando ao apartamento.
A aparência de Olly não era das melhores, ela tinha o rímel borrado e seus olhos estavam vermelhos, deduzi que ela havia chorado. Aí eu me assustei, sem entender nada.
— Oi — eu disse, meio insegura, sem entender o que havia acontecido.
— Oi — Olly respondeu antes. — Eu vou tomar banho e dormir, estou quebrada — ela disse, olhando para .
Olhei-o depressa, completamente confusa.
— Oi, amor — ele me disse, largando o casaco no cabideiro próximo à porta. Caminhou até mim, sentando-se ao meu lado no sofá. — Nós te acordamos? — Ele perguntou, antes de beijar minha testa.
— Já estava na hora mesmo — dei de ombros, com um sorriso pequeno e leve no rosto. Realmente estava na hora.
— Depois que ela dormir, conversamos — ele disse baixo, perto do meu ouvido.
Estranhei, mas assenti.
Logo, Olly saiu do banheiro usando seu pijama de sempre, onde se lia um palavrão na camiseta, e foi para o quarto. Bateu a porta e algo me disse que ela não demorou a pregar os olhos.
— Comece a me contar o que houve — falei baixinho.
se esticou no sofá, deitando a cabeça no meu colo.
— Eu contei para ela — respondeu.
— Contou o quê? Da mãe?! — Falei surpresa, alto demais, porque o ouvi fazer “Shhhh!”.
— Sim... Ela quis saber o que me levou a nunca procurá-la — cochichava —, então, eu disse que falaríamos disso na volta.
— E ela? Digo, depois do que você contou — sussurrei também.
— Ela chorou muito.
Eu senti pena dela quando ouvi aquilo.
— Ela contou coisas sobre Giovanna, sobre o que havia escutado a meu respeito desde mais nova e, quando contei o que houve, ela acreditou em mim e ficou chocada, afirmando ter crescido num jogo da mentira.
Fiquei pensando na bagunça que a cabeça de Olly deveria estar... Não devia ser nada fácil descobrir que sua mãe mentiu o tempo todo, privando-lhe de ter um pai por suas próprias mágoas.
— Pobrezinha! — Falei, honestamente. Aquela garota podia me apavorar, podia me deixar maluca, mas só agora eu me dava conta do quanto aquela verdade era pesada para os ombros de qualquer pessoa.
— Ela chorou, pediu desculpas e...
— E o quê? — Quase me sobressaltei, curiosa.
— Olly me chamou de pai. Tem ideia do quanto essa palavra é como uma montanha-russa para mim?
Quase caí dura. Eu tinha entendido direito? Ela havia amolecido e chamado-o de pai?
— Isso é... — no começo, pareceu que eu não tinha gostado, pelo modo com que minha voz saiu, mas depois, consegui me expressar direito, finalmente. — Muito bom! — Abri um sorriso, mesmo falando baixo, houve ânimo. — Ela te aceita, se duvidar até gosta de você. E admita, amor, era tudo o que você queria.
levantou, arrumou-se e ficou de frente para mim. Fitei-o, sem tirar o sorriso da cara.
— É... Era tudo que eu queria — admitiu por fim, sorrindo também.
Abracei-o.
— Parabéns, papai! — Brinquei, baixinho.
— Amo você, . Obrigado por estar do meu lado — respondeu.
— Eu amo você também — falei, com um leve sorriso divertido.
— Ei, que cara é essa? — me olhou, desconfiado.
— Sabe o que é? — Passei meus braços ao redor de seu pescoço, dando um beijo em seu queixo. — A escola vai fazer uma excursão para Nova Jerse. Foi uma ideia da Sra. Peterson, de Geografia, e já tem professores o suficiente, portanto não precisarei ir e ganharei folga na sexta-feira à tarde. A princípio, eu achei que Olly não fosse querer ir, mas ela ficou amiga de alguns garotos...
— Garotos?
— Sky e Jimmy.
— Ah...
Continuei:
— Então, é provável que ela fique animada para ir, mesmo porque o trabalho valerá metade da nota deste semestre e, se você der um jeitinho na Jonas & Co. e eu adiantar as provas da semana seguinte, nós podíamos tirar esses quase três dias para nós.
— E vamos tirar os dias para nós como?
— Ah, Jonas, não seja chato! — Eu estava fazendo manha, admito.
riu.
— Só falta você pôr a língua — ele disse, aos risos.
— Ok, esquece o que eu falei — levantei as duas mãos.
— Calma, — ainda havia risada. — E nós vamos tirar uns dias onde?
— Em qualquer lugar... Só estou cansada, querendo aliviar minha cabeça e essas coisas de gente velha e estressada.
riu mais.
— Olha, eu te prometo que vou pensar. Se conseguir me organizar, eu tiro uns dias com você.
— Ah, obrigada! — Eu o abracei, derrubando-o no sofá.
Nós rimos.
— Shhhhh! — ele disse, pousando o indicador sobre a minha boca. — Olly está dormindo.
— Desculpe — apenas mexi os lábios. — Mas… — falei o mais baixo que pude. — Ainda vai pensar no meu caso? No pedido?
— Depois eu penso — falou, fixando os olhos em mim.
— Não seja mau, ok? — eu disse, roçando os meus lábios nos seus. — Não seja mau para mim.
riu, segurando meu rosto com as duas mãos e me dando um beijo. Rápido, quente e suave. Segurei-o mais um pouco, pela nuca, quase que ordenando que aquilo se prolongasse. E, para meu completo contentamento, fui correspondida.
Aquela felicidade toda estava respingando em nós e era ótimo; era maravilhoso que tudo começasse a voltar para o lugar, apesar da nova peça no tabuleiro. Enquanto nós nos beijávamos, eu flutuei como da primeira vez no elevador da Lilac. Senti como se fosse um primeiro beijo, apressado, querido, ansiado. Eu era só a que confiava cegamente no cara irresistível de gravata e terno e esse cara, esse cara estava me transmitindo amor independente de qualquer coisa.
Levei minhas mãos até a gola de sua camisa, afrouxando o nó de sua gravata, livrando-me dela em seguida.
, espera — ouvi-o, baixinho.
— Que foi? — Questionei, abrindo os olhos.
— Olly... Olly está dormindo no quarto dos fundos — explicou.
Comecei a rir. Foi mais forte do que eu.
— Ela vai dormir naquele quarto, pelo menos, nos próximos seis meses — revidei.
— E pode aparecer na sala a qualquer momento.
— Ok, você venceu! Sai — falei rindo, batendo contra os seus ombros. — Chispa!
riu, mas permaneceu onde estava.
— Esses dias de folga são mesmo importantes para você?
— São sim, estou pedindo! — Insisti. — E por que ainda está aqui? — Brinquei outra vez.
— Eu vou arrumar tudo para podermos ir amanhã, está bom?
Eu fiquei eufórica, extremamente animada, ignorando completamente as ordens de cinco minutos atrás. Abracei meu marido, enchendo-lhe de beijos barulhentos.
— Obrigada, de verdade, obrigada! — Agradeci.
— Não se esqueça de levar um boné — avisou.
— Prometo não esquecer — garanti.
Não sei por que, mas, pela primeira vez em dias, eu tive a sensação de que as coisas voltariam para o seu devido lugar. Eu tive a sensação de que não me sentiria mais invadida — com a minha vida invadida — pela presença da Olly. E sentia também, por mais que isso não fosse da minha conta, que Olly não se sentiria tão perdida. Talvez ela até se sentisse encontrando seu lugar pelos próximos meses para depois correr atrás dos seus sonhos. Uma sensação de paz me invadiu quando tal conclusão foi processada pelo meu subconsciente, me fazendo sorrir largo.
mantinha sua cabeça descansada em meu ombro, deixando-me fazer a farra com seu cabelo macio e, vez o outra, depositava um beijo sobre o meu pescoço. Pensei em perguntar se ele não iria trabalhar mais àquele dia — mesmo já sendo quase cinco horas da tarde —, mas fechei a boca — antes mesmo de dar um mísero piu — e achei melhor simplesmente aproveitar a calmaria que, como uma onda surpresa e agradável na praia, no verão, invadia o ambiente naquele momento. O relógio poderia parar e fazer aquilo durar para toda a vida porque eu não me importaria nem um pouco.
Olly dormiu até quase sete horas da noite, acordou-se por causa das lambidas de Tonny em seu rosto. Ele dormia no quarto dela o tempo todo e, mostrando-se responsável, era ela quem o levava para passear quando era preciso. Olímpia apareceu na sala com o cabelo preso num coque mal feito e pijama. Eu já não usava mais o roupão, e sim jeans e camiseta e estava no escritório da cobertura, adiantando as coisas para que pudéssemos viajar. Eu mal podia esperar!
— Dormiu bem? — Perguntei tranquilamente, tirando meus olhos da TV por um momento e dedicando-os à Olly.
— Dormi sim, . Eu precisava de um cochilo — ela me respondeu gentil, me deixando surpresa; e um pouco amedrontada, preciso admitir.
— Oi, Olly.
Era que voltava à sala, parou ao lado dela e mexeu na cabeça do cachorro.
— Querem sair para comer? — Ele ofereceu.
Sem pensar duas vezes, nós aceitamos e nos aprontamos depressa. Fomos ao Josie’s e foi impossível não me lembrar de quanto estivemos lá ( e eu) com , há alguns anos atrás. Para não perder o costume, eu pedi um monstro de bacon — mesmo o meu metabolismo não sendo o mesmo de quando eu tinha dezenove anos.
Ficamos lá até perto das dez, quando os compromissos do dia seguinte nos impediram de permanecer mais tempo. Mas, o tempo que durou, foi tempo suficiente para a calmaria se estender. Comemos, dividimos histórias e Olly pareceu um ser humano completamente diferente. Completamente novo. Vai ver ela era, era uma Olly espevitada, ouvinte e que comia como um passarinho.



Capítulo Quatorze
Então se você tiver um minuto por que nós não vamos
Falar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?

Somewhere Only We Know — Keane


A preparação para a ida à Nova Jersey me rendeu uma tarde livre. Mas eu não tinha vontade alguma de ir para casa, então simplesmente sentei-me numa das mesas da cafeteria e pedi um chá de morango adoçado com mel — por mais que eu só tomasse aquele chá em momentos de depressão.
Apenas fui bebendo em goles pequenos, observando o quão vazio o lugar estava. Os alunos já haviam ido para casa — o horário tinha sido excepcionalmente encurtado — e os professores responsáveis pelo passeio estavam reunidos na sala de reuniões. Nossa, , como você é esperta, “reunidos na sala de reuniões”!, pensei. E tomei um susto quando Moves Like Jagger começou a tocar, indicando que meu celular estava chamando. Atendi.
— Onde você está? — Ouvi dizer do outro lado.
Estranhamente eu ri. Rapidamente, mas ri.
— Na escola — respondi, bebendo o chá logo depois.
Não era sua tarde livre?
— Era... É, aliás. Só que eu resolvi parar na cafeteria para beber chá. Você não tinha uma reunião com uns representantes mexicanos? — Alfinetei.
Tinha. Exatamente. Parece que um familiar morreu e foi preciso cancelar. Eu estou no estacionamento. Ia para casa, mas, agora, acho que vou ao St. Francis. Tive uma ideia.
Mordi o lábio, curiosa.
— Aqui? Que houve agora? — Desconfiei.
Quando eu chegar — ele disse. — Você vai saber. E, sim, aí no St. Francis. Espere por mim no estacionamento, tudo bem? Dou as caras por aí em mais ou menos uns vinte minutos. O trânsito parece de bem com o mundo hoje.
— Não tenho alternativa, não é? — Como se eu quisesse.
Não, , você não tem riu, talvez sabendo o quanto me assustava quando dizia “”. — Eu te amo, até depois.
Sem tempo para uma resposta, a ligação foi encerrada. Enfiei o celular no bolso do meu casaco preto de botões, terminei o chá num gole só e deixei as duas notas que pagariam sobre a mesa, embaixo da xícara para que não voassem.
— Já vai, professora? — Ouvi a voz de Arete, a garota que trabalhava na lanchonete.
— Já sim, Arete. Até amanhã, cuide-se! — Falei, pegando o caminho que levava ao estacionamento.
Enquanto passava pelo gramado verdinho do colégio, rumo ao estacionamento coberto, fiquei me perguntando o que estaria aprontando. Era típico dele: alguma coisa louca no meio do dia.
Cheguei ao estacionamento, vendo apenas os carros dos funcionários, parei perto da guarita onde ficava o segundo vigia — que parecia animado, assistindo a algum jogo, de algum esporte que não identifiquei — e fiquei esperando que chegasse e me contasse qual era a loucura daquela vez.
Esperando-o, era impossível não me lembrar de todas as coisas que havíamos feito juntos — e às escondidas — quando nos conhecemos. O Central Park, Long Island, a pizza com , o Josie’s e o paintball, os finais de semana... Tudo ia passando como num filme dentro da minha cabeça. Um filme bom, alegre, saudoso...
— Ei, gatinha, quer carona?
Assustei-me quando ouvi alguém falar comigo. riu, esticando-se e abrindo a porta do carona.
— Assustei você? — Ele perguntou, rindo.
Subi no carro, dei-lhe um beijo rápido enquanto fechava a porta e prendi o cinto de segurança.
— É... Assustou — resmunguei, ajeitando-me no banco. — Eu estava, sei lá, eu estava viajando, sabe?
— A viagem da semana que vem já não basta? — riu mais uma vez, agora, já íamos deixando os portões do St. Francis para trás.
— Você entendeu — rolei os olhos, ironicamente, mas acabei rindo.
— Vamos ver se eu adivinho, você voltou para o dia em que ficamos presos no elevador da Lilac... — ariscou.
Neguei com a cabeça.
— Voltei para todas aquelas fugas, passeios, fins de semana… Sol nascendo, essas coisas — contei, sabendo que, por mais que tentasse, não acertaria. Afinal de contas, éramos pessoas diferentes, nossas lembranças mais especiais, idem.
— Não muito diferente de hoje — ouvi sem entender.
— E a Olly? — quis saber, olhando-me rapidamente enquanto avançava no sinal verde que abrira assim que nos aproximamos do semáforo.
— Quando resolvi ficar, deixei minhas chaves com ela, mas ela foi estudar com uma colega.
— Ela pediu?
— Não. Simplesmente disse que ia estudar com Sky para a prova de química da próxima semana e que achava que você não se importaria. Eu disse que não, e ela foi. Sky é uma boa menina, relaxa.
— Se você diz... — ele deu de ombros.
— Sim, acredite em mim. Sky Munroe é ótima. É uma das bolsistas, se dizem que vão estudar, é porque realmente vão estudar — enfatizei.
Pelo menos — ao contrário de mim nos meus tempos de colégio —, Olly era estudiosa.
— Ótimo! Sem preocupações.
— Espere aí, Jonas, há uma preocupação sim! — Protestei.
— Ih... Lá vem — suspirou, jogando a cabeça para trás por um breve momento. — E qual é a preocupação, ?
— Ei! — Reclamei de novo. — não, pô... , ok?
— Sim, senhora, madame.
— Hm... Madame é? — ri pelo nariz. — Madame — “Madame ” parecia nome de cartomante charlatã — quer saber aonde está sendo levada.
— Aí você já está querendo saber demais.
Decidi não faz mais perguntas, apesar de estar pressionando as unhas contra o banco do carro de ansiedade. Eu sabia que, quanto mais perguntasse, mais dúvidas seriam criadas dentro de minha cabeça. Fiquei só observando como o caminho parecia longo demais para sabe Deus onde. Sei apenas que me senti como o Shrek em sua primeira visita a Tão, Tão Distante.
Parecia a ida a Long Island, inclusive a parte de eu não ser informada sobre nada. Na verdade, era idêntico. Apenas o caminho, não era igual. Para onde estávamos indo? Ainda era nas dependências da cidade.
— Diz agora para onde está me levando!
— Não é preciso — respondeu. — Porque nós chegamos.
O carro parou, e eu corri meus olhos para a janela para ver onde estávamos. Havia grama, algumas flores e bancos e um parque de diversões ao fundo. Tive um déjà vu.
— O que foi? Não gosta? — Foi aí que me dei conta de que já havia descido do carro e estava na minha frente, abrindo minha porta. — Sei que já fizemos isso, mas, hoje, hoje é um dia especial.
Dei um sorriso de lado, meio desconfiado, mas desconfiado de um jeito bom. Muito bom, aliás.
— Claro que eu gosto — atinei responder, finalmente. Soltei o cinto de segurança e saí do carro, batendo a porta com o quadril e passando meus braços ao redor do pescoço de . — E se você diz que é um dia especial, bem, é um dia especial, sem dúvidas — o beijei, esquecendo-me de que não era a primeira vez em que ele me “raptava”.
Enquanto parecíamos uma sinfonia perfeita — uma sinfonia de amor —, como uma velha, eu tinha aquela “sensação de passado”, de estar voltando velhos tempos. Era como dizer: “na minha época, o economista lindo me colocava em seu carro e me carregava como bem quisesse, independente da minha curiosidade”. Mas, ao mesmo tempo, parecia que tudo estava acontecendo pela primeira vez. A maior prova disso eram as borboletas bagunceiras dentro do meu estômago como se eu tivesse uns treze anos de idade e estivesse dando o meu primeiro beijo.
— Faça uma promessa — disse, quando o beijo acabou, sem afastar o rosto do meu.
Automaticamente, eu disse “sim”.
— Eu prometo, mas o quê?
— Não vai me fazer tirar nenhum ursinho no tiro ao alvo. Eu sou péssimo nisso.
Comecei a rir, fazendo-o rir também e perder a expressão séria que mantinha antes, a mesma expressão que me fez achar que ele me pediria para prometer algo extremamente importante.
— Eu pensei que era algo grande.
— E é algo grande! — Defendeu-se. — Não vou perder outros vinte dólares ou mais, prefiro sair e te comprar uma pelúcia, mas a senhora está muito velha para pelúcia.
Bati em seu ombro.
— Ai!
— Velha é a mãe, cara, ‘tá pensando o quê? — de repente, era a da Lilac.
ficou ao meu lado.
— Velho sou eu, na verdade — ele disse, puxando-me para um abraço torto. Seu braço repousou sobre os meus ombros e levei minha mão à sua, no alto, prendendo meus dedos aos seus. Começamos a andar para o parque, passando pelo bate-bate logo em seguida.
— Já começou a fazer nossas malas para a viagem?
Nossas?! — Fiz uma careta. Eu sabia que arrumar uma mala não era um dos maiores talentos de , mas ele nunca me pedia diretamente para fazer, sempre esperava que eu me oferecesse.
— Você sabe que eu sou péssimo nisso, vociferou em seu melhor tom de bom menino sabendo, bem demais até, que aquilo era infalível para me convencer.
— Aí você fala calmamente porque sabe que vou dizer: “relaxa aí, tio, é claro que eu farei sua mala também” — brinquei, mordendo a língua. — E você precisa me dar certeza de para onde vamos. É quase março, o tempo é louco...
— Vai mesmo fazer minha mala? — Ele beijou meu rosto.
É claro que eu faria sua mala. E ele sabia. Mas eu fingi não saber que todo aquele tom suave e o pedido da mala eram apenas uma desculpa para o contato físico.
— É claro — eu sorri. — Mas precisa dizer para onde vamos — joguei também./bSCRIPT
— Gosta do Havaí? Eu sei que prometi, há alguns anos, levar você ao México, mas nosso tempo é curto e...
— Havaí? — Interrompi, parei de andar e o olhei.
Eu achava um fim de semana no Havaí a coisa mais romântica do mundo, mas se eu dissesse tal coisa, deixaria de ser eu. E, por mais romântica que eu fosse lá no fundo — bem no fundo —, eu nunca admitia tal característica — que eu ainda não conseguia identificar se era um defeito ou qualidade.
— Acho uma ideia maravilhosa — prossegui. — Praia, Sol, desc Não era sua tarde livreanso... Meu Deus! — Exclamei, parando de andar por um segundo.
— Que foi?
— Pareço uma velha falando desse jeito.
— O que foi que eu falei? — riu, jogando a cabeça para trás.
Continuamos caminhando.
— Nada de útil, você não fala nada de útil — ri.
me apertou de lado, beijando meu rosto por um rápido momento.
— Dizer que amo você também é inútil? — Insinuou, provocativo.
Tive de rir outra vez.
— Amo você de volta — respondi, ainda rindo.
— Meu pai volta ao país na próxima quarta-feira — contou.
Não sei exatamente por que, mas aquela informação pareceu importante demais. Ignorei, afinal, estávamos praticamente numa paz completa.
— Sua mãe deve estar adorando a notícia. E ele finalmente vai conhecer a Olímpia — falei.
— É... Mamãe está contente — deu de ombros, e, pela primeira vez, notei seu tom de voz um pouco decepcionado.
Olhei para ele por um segundo e acho que ele notou, porque sorriu.
— Está tudo bem? — Perguntei.
— Claro que sim, — ele riu e eu voltei a prestar atenção no caminho.
Continuamos andando, vendo as pessoas e os brinquedos. Não havia muitas crianças, por ser dia de semana, mas alguns adolescentes pareciam animados numa das barracas de jogos. Paramos num carrinho de maçã do amor e comprei uma para mim.
Enquanto eu comia, continuamos conversando sobre coisas aleatórias como a paz com Olly, algumas histórias do passado e a volta de Paul a Nova York.
— E as coisas no colégio? Como têm ido? — me abraçou pela cintura depois que larguei o palito da maçã na lixeira.
— Tudo tranquilo — respondi, prendendo meus braços ao redor do seu pescoço.
— ele chamou, perto do meu rosto, sua testa grudada na minha, sua respiração dançando na minha pele.
Sorri para responder.
— Diga.
— Prometa para mim que, apesar de toda essa metamorfose pela qual passamos, nada vai mudar dentro do seu coração.
Eu achei aquele pedido a coisa mais linda dos últimos meses.
— Não tem por que mudar, .
... Prometa para mim, prometa que vai estar comigo, que vai me apoiar. Que nós vamos nos apoiar. Eu preciso de você comigo, meu amor, e preciso que você saiba o quanto é importante para mim, o quanto toda a luta para fazer dar certo, desde os primeiros meses, tem valor. Nós temos valor, eu amo você. Quero que saiba disso.
Fiquei um pouco surpresa. Feliz, mas confusa. De repente, parecia que ele estava se despedindo, como se houvesse sido chamado para a guerra e estivesse escondendo isso de mim. Como se estivesse preparando o terreno para quando a notícia realmente preocupante chegasse.
Senti medo e meu corpo reagiu a ele. Um calafrio correu apressado pela minha espinha, mas meu cérebro me obrigou a reagir do jeito que merecia e, talvez, tenha sido o meu coração quem tomou a frente daquela vez.
Segurei seu rosto com as duas mãos e o beijei. Coloquei tudo naquele beijo: o amor, a esperança, a compreensão e a segurança. Eu sempre era a protegida naquele relacionamento, mas, daquela vez, eu sentia que precisava proteger, que precisava ser o lado mais forte da corda. Enquanto nós nos beijávamos, eu só conseguia sentir o que meu corpo queria transmitir: “eu estou aqui”, meus lábios diziam, mesmo sem pronunciar uma única palavra, “sempre vou estar aqui porque eu amo você”.



Capítulo Quinze

Eu quero alguém que me ame por quem eu sou
Eu quero alguém que precise de mim
Isso é tão ruim?

Who I Am — Nick Jonas & The Administration


Jonas’ POV


Estacionei o carro em frente a Jonas & Co. e peguei o celular assim que desci, tratando de ligar para , e avisei que já tinha chegado. Sem querer, acabei batendo o telefone na cara dele, simplesmente disse: “já estou aqui” e desliguei após o seu “ok”. Eu sequer disse tchau. Mas foi sem querer, eu juro.
Adentrei o prédio e notei que ele não mudara praticamente nada desde a última vez em que coloquei meus pés lá dentro: as paredes mantinham o mesmo tom pastel de marrom e o elevador ainda era espelhado. Dei meu nome a recepcionista e, assim que ela autorizou, peguei o elevador rumo à presidência.
No segundo andar, Joshua St. Monique subiu. Cumprimentei-o com uma aceno de cabeça e fingi procurar alguma coisa no celular simplesmente para não ter que falar nada. Talvez eu estivesse tenso demais com procurando por mim e dizendo que era algo realmente importante.
O elevador só parou de novo no último andar. Josh desceu na minha frente e seguiu para sua sala, dando algumas ordens à secretária. No lugar daquela garota, eu ficaria tonto.
Saí e andei até a sala de . estava lá, sentada com os olhos fixos ao computador e os dedos rápidos ao digitar. Não tinha mudado muito, o cabelo continuava com o mesmo tom, preso num rabo de cavalo de altura média e com ondas nas pontas. Falando na linguagem dos homens: ela continuava uma gata. Parei em frente à sua mesa, esperando que ela notasse minha presença ali.
— Só um segundo — pronunciou-se sem me olhar.
— Ok.
Não sei se ela reconheceu a minha voz porque seu rosto subiu milésimos de centímetros e seus olhos se fixaram em mim. Largamente, ela sorriu.
— Bom dia, ! — Eu disse do jeito mais animado que eu sabia, entortando um pouco a boca e dando um sorriso de lado.
— Ah, bom dia, Sr. Jonas — alguma coisa no tom dela soava meio tímido. — Não sabia que tinha voltado à cidade. Quando seu irmão disse que estava esperando, achei que fosse ser .
Perguntei-me se ela não sabia mesmo que eu tinha voltado ou se já havia deixado escapar em alguma conversa, mas ela apenas disfarçou.
— Vou dizer a ele que você está aqui. Espere um segundo.
Assenti com a cabeça e peguei uma das canetas no cestinho metálico, comecei a apertá-la. A ponta vinha e se escondia, vinha e se escondia. De novo, e de novo, e de novo...
— Seu irmão disse para entrar — o tom dela me roubou a atenção. Joguei a caneta de volta ao cesto.
— ‘Tá legal — dei as costas para ela, indo até a porta. Segurei a maçaneta, mas parei, virando-me para outra vez. — , posso pedir uma coisa?
— Qualquer coisa! — Respondeu ela, prontamente. — Água, café, suco...
— Me chama de — falei e finalmente adentrei a sala de . — Bu! — Brinquei como uma criança boba. estava de costas para a porta, procurando alguma coisa nas gavetas embaixo da janela, atrás de sua cadeira.
— Bom dia, — sempre sério demais... Bleh!
— Fiquei preocupado quando você disse que precisava falar comigo. Aconteceu alguma coisa além de papai estar voltando para a cidade? — Puxei uma das cadeiras e me sentei, relaxando os braços sobre o apoio.
— Não aconteceu nada, fique tranquilo — voltou à sua cadeira de presidente, ficou de frente para mim e afrouxou um pouco a gravata. — Só preciso de um pequeno favor seu.
— Não exagere, ok? Fui eu quem praticamente casou você! — Brinquei.
Meu irmão riu.
vai ganhar uma tarde de folga na próxima sexta-feira e...
— E?
— Resolvi tirar o fim de semana para descansar com ela no Havaí.
— Olly vai ganhar um irmãozinho, é? — Insinuei em meu melhor tom de voz.
— Ora, cale a boca — apesar do “carinho fraterno” em suas palavras, ele riu. — Agora me deixe continuar:
Assenti.
— Bem... eu vamos viajar e eu preciso que alguém fique aqui para receber uma papelada da nova sociedade com uma loja de departamentos. Eu não confio em Josh para isso e , bem, além de estar como louco no laboratório preparando a fragrância nova para o Dia das Mães e o perfume de uma dessas celebridades que os adolescentes adoram, está ocupado com a nova estagiária.
— Ocupado? — Arqueei uma sobrancelha, maldoso.
riu alto.
— Eu disse a ele que deveria fazer isso, mas posso jurar que ele não me deu ouvidos — meu irmão explicou.
— Preciso bater um papo com esse cara — suspirei. — Mas... Agora me explique: onde é que eu entro nessa história toda? Dependendo da celebridade, eu até tiro umas fotos com ela.
— Pare com o complexo de gostosura, está velho demais para isso.
Você é quem está beirando os quarenta — provoquei.
— E você quer continuar vivo até sexta, acredito.
, para você com seu complexo de velhice e me diga, o que eu tenho a ver com sua segunda lua de mel com a e as ocupações do ?
— Não é uma “segunda lua de mel”, mesmo por que, sequer houve primeira; depois: não tem nada a ver com os perfumes que e sua equipe estão produzindo, tem a ver com a papelada que chega na sexta-feira por volta das quatro e meia.
— Você quer que eu esteja aqui para receber os papeis — concluí, finalmente. — E por que não manda Josh fazer isso?
A expressão de mudou de incredulidade para raiva.
— Josh está fora de cogitação. Eu já disse que não confio nele e está sobrecarregada demais este mês.
— Está tudo bem ou eu falei alguma coisa de errado? — Realmente me senti mal quando a expressão de meu irmão mudou.
— Não. Você não disse nada. Josh e eu apenas... Temos nossas diferenças.
— Sempre tiveram — dei de ombros.
— Ele não para.
— O que houve?
— Agora não, — o tom do meu irmão foi duro.
— Ih! Está certo. Mas, voltando ao que realmente nos interessa, eu vou ficar aqui para você a partir de que horas na próxima sexta?
— A partir do almoço. Vou deixar a trabalhando para ajudar você com tudo e, por favor — me olhou tão sério que quase fiquei com medo. — Mantenha Josh longe da minha sala. Longe.
— Fica frio, ok? Ele não vai nem se lembrar de que a sua sala existe — garanti. — E sim, eu posso te prestar o favor de receber as caixas.
— Obrigado, — falou ele, dando-se conta de que havia se esquecido da parte principal da coisa.
— Por nada — dei de ombros de um modo divertido. — Escute, ...
— Sim?
— Como estão as coisas na sua casa? Eu digo, com a Olly?
começou a me contar que tudo ia começando a se encaixar aos poucos, contou-me também que havia contando a verdade sobre Giovanna. Enquanto ouvia, eu fiquei pensando sobre tantas coisas a respeito de mim mesmo, fiquei pensando na vida do meu irmão também: no princípio, tudo com era como uma comédia romântica, depois, quando se casaram, parecia o final feliz do Shrek e da Fiona, mas, agora, com Olly, eles iam ter de levar uma verdadeira vida de adultos porque, por mais que Olly não fosse filha da e nem fosse um belo neném de meses, ela interferiria no ritmo de vida deles. Dos dois. Do que costumavam ter. Por mais que agora, aparentemente, a garota reinasse em plena paz.
Depois, ainda ouvindo meu irmão, parei para pensar em mim mesmo. Eu havia feito trinta anos no último novembro e fora isso que me impulsionara para voltar para casa. Eu tinha certeza de que saíra de NY um moleque e voltara um homem, mas ainda podia dizer que gostaria de ter uma vida como a do meu irmão com — sem uma filha bastarda na figuração, pelo amor de Deus! —, ter alguém de confiança comigo e não apenas uma atração física estúpida que seria esquecida na manhã seguinte. Eu queria um pouco de felicidade, de aconchego. Eu queria amar alguém.
? Está me ouvindo?
— Ahn? O que foi? — Acho que não prestei tanta atenção assim em . — Desculpe, eu fiquei pensando no que você falou da Olly — em parte, era verdade.
— Não, tudo bem. Vai passar no laboratório para falar com ?
— Você me empresta a ? — De repente, me veio uma ideia louca.
— Está quase na hora de ela sair para comer... Aconteceu alguma coisa?
— Não, mas... Quem sabe aconteça — levantei-me. — Sexta-feira, mais ou menos neste horário, eu estou aqui para brincar de presidente, ok?
— Divirta-se e... Obrigado de novo.
Desta vez, deu tempo de falar tchau. Eu passei a porta e vi na antessala, fuçando na bolsa.
— Onde fui que eu coloquei?! — Ela resmungava, quase arrancando o forro do objeto e enfiando a cara dentro dele.
— chamei de perto.
— Ah! Meu Deus! — Ela deu um grito.
Eu ri.
— Ei, calma… O que está procurando aí?
— Minha lixa — explicou. — Minha unha lascou, droga. Eu sou neurótica com as minhas unhas, é quase um TOC.
Ri alto.
— Mas o senhor...
Olhei para ela.
Você — corrigiu-se. — Precisa de alguma coisa?
Neguei com a cabeça, enfiando a as mãos nos bolsos dos jeans.
— Quero saber se quer ir almoçar comigo — falei.
Ela parou. Ficou me olhando completamente surpresa.
— Eu sei já é quase hora do seu almoço, mas eu pedi e te liberou.
sorriu de lado.
— Vamos? Você gosta de panquecas?
— Gosto... Vamos — ela se levantou, passando a bolsa pelo braço até o ombro.
— Você na frente — eu disse enquanto íamos caminhando para o elevador.
No restaurante, ainda parecia um pouco tensa, mas, depois de me contar uma história engraçada sobre quando tinha uns oito anos e foi picada por abelhas num piquenique de família numa viagem ao Texas, tudo se normalizou e nos conversamos por um bom tempo. Enquanto eu contava sobre minhas viagens de caridade, ela parecia encantada. Eu senti orgulho de tudo que fiz simplesmente por ver o brilho nos olhos dela enquanto me ouvia.



Capítulo Dezesseis
Bad boy, boy,
Baby, bad boy, boy
Baby bad boy
Não quero entrar neste jogo
Bad boy, boy,
Baby, bad boy, boy
Baby, bad boy
Sua voz provoca o meu desejo
Hotline — Natália


Olly Petroni’s POV

Era quarta-feira.
Faltavam dois dias para a ida até Nova Jersey e, por mais que isso fosse totalmente contra cada uma das minhas expectativas, eu estava animada por ir. Talvez a amizade com Sky e Jimmy fosse um fator importante, talvez fosse Ethan... — o que eu duvidava muito, já que não nos falávamos desde o dia fatídico nos fundos do colégio.
Quem sabe eu não duvidasse, vai ver, eu só não achava saudável me deixar levar por um tipo como ele. Ninguém precisara me falar nada, olhando para Ethan e toda sua marra, não era muito difícil adivinhar — por assim dizer — seu tipo. E a fama que deveria carregar, ovviamente.
Sociologia foi uma aula que eu optei por fazer. As pessoas geralmente não querem nem enxergar essa matéria, mas, mesmo tendo um professor terrivelmente chato — e que cuspia enquanto falava — em Roma, eu gostava de ficar pensando no mundo e no comportamento das pessoas, gostava de Marx Weber. Gostava da teoria sobre os países desenvolvidos e a influência da religião. Era realmente interessante para mim.
Em Sociologia, Sky e Jimmy não faziam aula comigo. Sky estava na aula de inglês e de matemática e Jimmy, na de inglês e Geografia. Era a última aula antes do intervalo e faltava menos de cinco minutos para que o sinal tocasse. Ainda assim, o Sr. Callum não parava de escrever palavras soltas na lousa e ligá-las com flechas extremamente mal feitas.
Enfiei as canetas dentro do estojo, sabendo que elas não seriam mais úteis. Assim que puxei o zíper, o sinal tocou. Enfiei tudo debaixo do braço — cadernos, livros e minha carteira — e parti para o meu armário.
Abaixei-me porque o infeliz ficava na parte de baixo da parede e coloquei minhas coisas no chão. “Dois giros direita”, pensei, tentando lembrar a senha do locker. Cinco minutos se foram, e eu ainda não conseguia abrir. Levantei-me e chutei sua porta.
Bastardo! — Xinguei.
Ouvi uma risada atrás de mim. Virei-me para ver quem era. Eu tinha minha melhor cara de poucos amigos, sem dúvidas.
Ethan estava lá, parado, com a gravata afrouxada e o cabelo escorrendo para a testa. Ele o empurrou com a mão, mas, ainda assim, não adiantou. Ele balançou a cabeça, tentando se livrar finalmente daquela mecha insistente, eu ri, discretamente, mas eu ri.
— Quer ajuda? — Ele ofereceu.
— Já que eu não tenho outra saída... — dei de ombros, dando alguns passos para trás e dando a Ethan espaço suficiente para tentar abrir a maldita porta do meu armário. Para ele tudo foi fácil demais — a ponto de me dar raiva —: Ethan se abaixou, girou aquela porcaria algumas vezes e logo o armário abriu.
— Pronto, ragazza! — Disse-me num italiano péssimo, ficando de pé outra vez.
Grazie — respondi. Abaixei-me e comecei a guardar minhas coisas. Notei que Ethan ainda não havia saído dali. — Que foi? Eu aceitei ajuda para abrir, posso fechar sozinha.
Ele riu, sarcástico.
— Sou tão aluno quanto você, Jonas, fico na droga do corredor o tempo que quiser — revidou. — Além do que, — Ethan continuou — meu armário é o de cima, portanto, quanto mais rápido você for, melhor para mim.
Filho da mãe! Por que não disse antes?, pensei. Bati a porta.
— Pronto, Hale, agora você já pode guardar suas porcarias e pegar seu maço de cigarros. Aproveita e foge para os fundos do colégio. Quem sabe alguma Barbie descerebrada, dessas que estudam aqui, vá atrás de você — falei, começando a andar para a escadaria que me levava ao refeitório.
— Como você foi, Olímpia?
Virei-me e dei de cara com um Ethan de braços cruzados, sorrindo como se tivesse dito a coisa mais óbvia do mundo.
— Idiota — respondi, dando a ele a bela visão do meu dedo do meio. Recebi um beijo em resposta.
Bufei e girei nos calcanhares, descendo as escadas e indo encontrar Sky e Jimmy no refeitório. Peguei um daqueles cachorros-quentes fritos, molho, uma maçã e uma garrafinha de suco de fruta. Sentei à mesa perto da janela, Sky estava com metade de seu sanduíche numa mão e os olhos atentos ao livro de biologia marinha.
— Oi! — Falei, animadamente. Ainda não tínhamos nos visto.
— Por que você demorou? — Jimmy colocou mais molho em seu sanduíche e deu uma mordida daquelas, sujando o rosto.
— Hm, a droga do meu armário não abria — dei de ombros e coloquei molho em meu cachorro-quente frito, mordendo-o logo depois.
— Mas abriu? — Limpou-se.
— Um cara aí me ajudou — fitei Sky. — Está tendo problemas com biologia marinha?
— Não, eu... Eu tenho uma prova no próximo horário e preciso manter a média acima de oito porque minha bolsa é integral — ela explicou. — Vai com a gente para Jersey na sexta-feira? — Por cinco segundos, ela parou e me olhou com aqueles olhos pretos e redondos. Lindos!
— Vou sim. Eu não posso desperdiçar nota e meu pai e minha madrasta têm planos para o fim de semana. Não quero ficar sozinha em casa. Eu podia ficar com a minha avó, mas eu acho que ela vai querer ficar com meu avô que vem chegando da Europa.
— Sua família é um agito — ela riu, sem tirar os olhos do livro. — Mas, me conta, quem foi o cara que te ajudou?
— Não sei o nome dele — não sei por que, mas eu menti. — Sei que o armário dele fica em cima do meu, e ele abriu aquela coisa em segundos.
— Os armários daqui vivem trancando — Jimmy se pronunciou.
— Estou fodida! — Declarei, derrotada, terminando de comer. — Sky, sabe se eles vão colocar a gente no mesmo quarto?
— Hm, eu não sei... Desde que não me coloquem com Laurel, está tudo ótimo! — Ela riu. — Mas a gente pode falar com a Sra. Rybak para nos colocar juntas. Falando nela, vocês souberam que ela vai deixar o colégio?
A Sra. Rybak era a professora de matemática, uma mulher alta e magra que, quando jovem — há muito tempo atrás — deveria ter sido modelo.
— Aconteceu alguma coisa com o marido dela? — Perguntei.
O Sr. Rybak era militar, portanto, nunca estava em casa.
— Parece que ele foi transferido de novo. Só que dessa vez dentro dos EUA, o plano é que ele fique dois anos por aqui, desta vez — Sky explicou. — Sendo assim, ela vai com ele. Parece que logo, logo, vai entrar alguém no lugar dela.
— Bem que podia ser um Ezra Fitz* da vida — arqueei as sobrancelhas.
Sky e eu caímos no riso.
Depois do intervalo, eu voltei ao meu armário. Sky foi direto para o vestiário, assim como Jimmy. Ele tinha aula de golfe e ela, de dança. Eu me neguei a fazer a aula de dança, preferi a de ginástica.
Subi as escadas, rumo ao meu armário. Quando cheguei, Ethan estava parado, uma das pernas dobradas, o pé apoiado na porta do meu armário.
— Pode me dar licença? — Pedi.
— A palavra mágica?
— Se manda! — Eu falei, entre dentes.
— Ih... Olímpia, qual é? — o tom dele baixou, ele tirou a perna do armário e se aproximou de mim. — Acho que aquele dia, nos fundos do colégio, não foi bem isso que passou pela sua cabeça.
Ignorei.
— Eu vou me atrasar, já tenho problemas demais aqui, saia do meu caminho! — Pensei em empurrá-lo, mas achei melhor não fazer, simplesmente tentei passar por onde houvesse espaço. Obtive sucesso. Abaixei-me e peguei o que precisaria para a aula de francês, tranquei o armário e, quanto levantei, vi que Ethan ainda estava lá. Supus que ele quisesse pegar alguma coisa, já que seu armário ficava acima do meu.
Dei-lhe as costas, sem dizer uma única palavra, rumo à aula de francês.
— Espere aí, Olímpia! — Ethan segurou meu braço, trazendo-me para perto.
Lasciami andare, idiota! — Pedi para que me soltasse, já virada para ele.
— Você não me agradeceu por mais cedo.
Quando dei por mim, estava contra o armário.
— É claro que eu agradeci — rolei os olhos.
— Assim não.
Muito antes que eu pudesse perguntar que diabos era o tal “assim”, Ethan pressionou os lábios contra os meus. Se eu disser que não tive vontade de ceder, mentiria, mas lembrei-me de que estava no corredor do St. Francis e que, em algumas aulas, não tinha escutado as melhores coisas sobre ele. Empurrei-o, ou, pelo menos, tentei.
— Que merda! — Reclamei.
— Da outra vez não foi assim.
— Dane-se a outra vez! E eu tenho que ir para a aula de francês, Hale. Saia do meu caminho logo!
Consegui passar de novo, mas não pude evitar olhares sobre mim, seguidos de cochichos estúpidos. Seja lá o que fosse, seja lá quem Ethan fosse, eu não ia ser parte da novela também.
Eu não tinha tempo a perder me preocupando com o que iam falar de mim, já era história demais “a novata do cabelo vermelho é filha do Jonas. Viu só? Ele teve uma filha antes de se casar com a professora de inglês!”. “Aliás, por que motivo” diziam as mais fúteis, “a Sra. Jonas dá aulas? No lugar dela, eu viajaria, faria compras. Não ia ficar dentro de uma sala de aula aturando um bando de garotos babões ou garotas que, definitivamente, desejam ter a mesma sorte que ela”. Tudo isso me dava nojo. Eu achava aquela gente tão vazia que não conseguia pensar como Jimmy e Sky conseguiam ser bons, conseguiam não sufocar lá dentro. Agora, para ajudar, vinha Ethan cismando comigo.
Ele era lindo, tudo bem, não vou mentir. Mas tinha uma bagagem e vivia dando problemas. Eu já tinha tido um princípio complicado demais ali, não precisava de Ethan por mais que desejasse ceder a cada ataque que vinha dele. Eu tinha aguentar. Eu me obrigava a aguentar, só não sabia dizer que exatidão de tempo isso ia durar.
Precisava ser muito, muito mesmo.

*Ezra Fitz é um personagem fictício da série de TV americana “Pretty Little Liars”¬, inspirada na série de livros de mesmo nome.




Capítulo Dezessete
Há um príncipe nesta fábula
Para uma garota de cidade pequena como eu?

Men in This Town — Shakira


Jonas’ POV


O ritmo no laboratório estava mais acelerado do que nunca. Ainda mais com a notícia de que meu pai vinha voltando do exterior. Ele não deu detalhes sobre muita coisa, disse apenas que havia duas razões para querer estar de volta: conhecer Olly e fazer um comunicado importante. Quanto ao comunicado, e eu já tínhamos nossas suspeitas e, por mais que soubesse que aquilo iria acontecer mais cedo ou mais tarde, ele parecia apavorado.
Fora isso, eu me dava bem com toda a equipe. , a garota nova, parecia cada vez mais fascinada pelo mundo das fragrâncias e tudo mais. Mas havia um pequeno problema: sempre que eu olhava para ela, lembrava-me da conversa maldosa de e sentia certa vontade de rir — sentindo-me uma garota de treze anos, obviamente, o que era ridículo. De resto, tudo ia muito bem.
Nosso tempo estava sendo praticamente consumido pela criação da fragrância de Nora Baxter, uma atriz adorada por todos, fossem adolescentes ou não, apesar de sua pouca idade — vinte e dois anos — e ela viria em breve à empresa para aprovar o que tínhamos preparado. Já era fim de tarde quando eu deixei o jaleco e os óculos no lugar de sempre, encontrando uma grudada ao iPhone, perto dos armários.
— Hey — eu disse. — Cansada?
— Um pouco — ela sorriu.
— Por causa do fuso-horário? — Quis saber.
— Não. O fuso-horário nem tanto. Só tenho a sensação de que, sozinha nesta cidade, parece que eu fico mais exausta — ela respondeu, dando de ombros e enfiando o celular, que tinha uma capa cor-de-rosa, na bolsa.
— Acho que entendo. Eu tinha isso nos meus primeiros dias na Europa — respondi, pegando meu casaco num dos armários e vestindo-se. — O frio você estranha, não?
Ela riu.
— Às vezes, faz frio no Brasil, certo? Em alguns estados, nunca é frio, mas em outros, acho que se aproxima da temperatura do Texas, eu não sei direito — riu de novo, meio sem jeito, e colocou seu casaco também. — Acho que o perfume da Nora vai ficar maravilhoso.
— Fizemos todos juntos — completei.
— Mas a cabeça aqui é você, . A base do perfume veio do que você conseguiu captar pelos pedidos da Baxter — ela insistiu, me deixando um pouco corado.
— Obrigado, se é assim — eu ri, meio que sem saída, encolhendo os ombros.
— Bom, eu já vou — tinha um tom animado. — Minha irmã e eu combinamos de nos falar hoje à noite para eu ver minha sobrinha.
— Também preciso ir — respondi. — Companhia no elevador?
— Claro!
Saímos andando até o elevador do corredor do laboratório. Segurei a porta para e entrei logo depois dela, que se ajeitou num canto qualquer. Ficamos em silêncio por um tempo, por mais que eu tivesse vontade de falar alguma coisa. Vez ou outra, eu chegava a abrir a boca, mas não soltava um mísero “piu”.
— Desde quando você resolveu que queria fazer perfume? — Ela foi mais corajosa do que eu, fazendo perguntas.
— Eu não sei direito — ri e dei de ombros. Esfreguei a nuca, procurando puxar pela memória a lembrança mais próxima do princípio. Consegui alguma coisa depois de pensar um pouco. — Acho que tem a ver com quando eu era garoto, sabe?
Ela assentiu, doce.
— Então, eu via meu pai fazendo perfume e achava aquilo legal. Teve uma vez, acho que num aniversário da minha mãe, que ele fez um perfume especialmente para ela — sorri ao lembrar. — Ninguém sabe a fórmula, só ele. E ninguém nunca teve um perfume daquele. Nenhuma outra mulher, apenas minha mãe. Eu vi que os perfumes marcariam as pessoas de alguma maneira, fosse uma única – como foi com a minha mãe – ou várias, como vai acontecer com perfume da Nora, por exemplo. Tem um milhão, sei lá — riu — de adolescentes querendo ser como ela. Por isso, queria ser eu o cara que faria esses perfumes.
— E você é. Não tenha dúvidas sobre — afirmou.
O elevador parou, estávamos no térreo. Deixei que saísse na minha frente, seguindo-a logo depois.
— Estou indo para a estação de metrô, . Até amanhã — ela se despediu enquanto fechava seu casaco.
— Até amanhã, , cuide-se — falei, já andando para onde deixara meu carro mais cedo.

’s POV

Apertei as mangas de meu casaco, apesar de não estar tão frio quanto eu esperava e comecei a andar para — Dizer que amo você também é inútil? — Insinuou, provocativo. Senti medo e meu corpo reagiu a ele. Um calafrio correu apressado pela minha espinha, mas meu cérebro me obrigou a reagir do jeito que — Não é uma “segunda lua de mel”, mesmo por que, sequer houve primeira; depois: não tem nada a ver com os perfumes que a estação em passos mais rápidos, assim que ouvi a despedida de . Eu estava muito animada pelos seis meses que passaria em Nova York, ainda mais estando na Jonas & Co. Isso mudaria drasticamente as minhas qualificações e perfumaria nenhuma se negaria a me contratar depois disso. Fora isso, o frio era suportável — afinal, já era março — e a cidade era realmente cativante. Às vezes, parecia-me um pouco apertada, mas, ainda assim, eu tinha a sensação de estar em um cartão postal a todo instante.
O caminho da Jonas & Co até a estação era curto, eu geralmente o fazia sozinha, por mais que sempre encontrasse a secretária do “Jonas Presidente” na plataforma. Nós nos cumprimentávamos e logo o trem vinha. Subíamos e sumíamos da vista uma da outra. Eu descia cerca de duas eDei-lhe as costas, sem dizer uma única palavra, rumo à aula de francês. stações depois, ela, eu não sei. Desta vez, ela não estava lá. Seu sorriso grande e simpático demais — ao mesmo tempo em que era meigo — não se direcionou a mim, seguido de um aceno. Havia apenas alguns garotos e uma mulher com uma menina de mais ou menos uns doze anos. Elas conversavam animadas sobre uma revista cheia de fotos que a garota tinha em mãos.
Quando subi no vagão, sentei-me no primeiro lugar que encontrei; peinzebr/i. rto da porta, podendo apoiar a lateral do meu corpo no ferro que as pessoas usavam parar se segurar. Achei os fones de ouvido do celular na bolsa e os pluguei. Poucos segundos depois, no modo aleatório, “Somewhere in Brooklyn” do Bruno Mars, começou a tocar.
Não conseguia tirar da mibr— Josh está fora de cogitação. Eu já disse que não confio nele e nha cabeça a explicação de sobre gostar dos perfumes. Era realmente diferente, e, por algum motivo, eu achava suas razões inevitavelmente adoráveis. Ele todo era adorável, sempre tratando todo mundo bem e nunca se creditando sozinho pelas fragrâncias. Sempre dava valor a cada um, preocupado demais, como se fôssemos todos um castelo de cartas, que, caso algo desse errado, viria ao chão completamente. Para ele — era impossível não notar isso —, cada pessoa naqueles laboratórios era importante. Até mesmo eu, uma estrangeira com sotaque engraçadocument.write(Kevin)SCRIPTSCRIPTbrdo que tinha chegado há poucos dias. A estrangeira recém-chegada que estava deslumbrada por criar um perfume para Nora Baxter. Mas que, acredito eu, conseguia disfarçar perfeitamente.
Desci na estação que ficava na esquina do apartamento que eu estava alugando. Andei um pouco e logo já entrava no prédio, cumprimentando outros moradores que iam saindo para o que acreditei ser um passeio. Tudo o que eu queria naquela quarta-feira era falar com Tânia — e colocar o português para fora, finalmente —, comer alguma coisa o mais engordativa possível e cair na minha cama depois de um banho morno e rápido.
Subi as escadas, apressada, ignorando o fato de serem quatro andares e girei a chave na porta. Quando entrei, joguei a bolsa no sofá marrom e macio, sentando-me logo em seguida e puxando meu notebook para o colo. Liguei-o e, não muito depois, entrei no Skype, esperando que minha irmã aparecesse.
Logo, Tânia chamou.
— Oi! — Falei rapidamente, como se o português estivesse trancando na garganta. Sentia-me um gato com uma bola de pelos.
Olá, ! — Tânia tinha a mesma animação na voz. Havia menos de dez dias desde que eu deixara o país, mas eu sabia que a saudade — aquela palavrinha mágica que só meu idioma conhecia — já era do tamanho dos metros que nos separavam. — Alguma coisa nova para me contar?
— O que eu vou ter de novo? — Falei rindo. — O trabalho é incrível e... Nossa! Todos são legais. Os Jonas são pessoas legais! Fora a história que contam pelos corredores.
Sua fofoqueira! — Tânia riu de mim. — Já existem até historinhas de corredor sobre os milionários? Despeje-as para mim agora — exigiu ela, curiosa como ninguém. — E que história é essa de os Jonas serem legais? Você não trabalha só com o mais novo? Diz para mim, ele é bonito como nas fotos? Não, porque nelas ele tem um rosto incrivelmente lindo!
— O Fred não está por aí, não, né? — Fred era o marido de Tânia. — Porque você está falando muita asneira ao mesmo tempo. E eu não reparei se o rosto de é assim ou assado! Sempre o vejo com os óculos de proteção e tudo mais. Ai, meu Deus — eu ri. — Estou falando depressa como você!
Tânia riu de volta.
Fred foi jogar bola com os colegas da imobiliária — explicou. — E me desculpe se estou falando depressa, , mas não é todo dia que minha irmã vai para os Estados Unidos trabalhar na maior perfumaria das Américas!
Nisso eu tinha de concordar com ela: a Jonas & Co. era enorme e tinha um nome mundialmente conhecido há quase quarenta anos. Estar dentro dela ia além de qualquer expectativa que eu possa ter criado na faculdade de bioquímica.
— Todas as pessoas lá são legais. A secretária do presidente pega o metrô comigo na maioria dos dias — contei. — E a Maria Flor?
Terminando de fazer o dever de casa. Daqui a pouco ela vem falar com você, deixe apenas que termine tudo. Mas agora conte a tal história do corredor. Alguém se pegando nele?
Gargalhei alto, sem poder negar a figura que a minha irmã era. Contei a ela a tal história, que tinha a ver com e a esposa. Todo mundo ainda falava sobre os tempos que ela ia lá vestida de garoto praticamente e de como eles mantiveram tudo às escuras até o noivado dele com a modelo de campanhas da época ser desmanchado. Era quase um conto de fadas moderno. Estranhamente, eu adorava a história. Achava tão bonita quanto a do Príncipe William e Kate Middleton, por exemplo.
Uma novela, não? Do horário das seis, mas uma novela! — Reagiu minha irmã ao ouvir o final da história.
Aquilo me fez rir alto de novo.
E você, ? Não arrumou nenhum pretendente por aí? Você sabe o quanto um bom sotaque pode ser atraente — ela arqueou uma sobrancelha.
Fiquei corada, cobrindo o rosto com uma almofada o mais depressa possível.
Hein, garota, me responda!
— Não. Eu não — metralhei as palavras. — Veja se a Flor já terminou o dever, estou aqui por ela — desconversei.
Ai, como você é boba, menina! — ela me repreendeu. — Já tem vinte e cinco anos, não quatorze! Não é errado que saia com um cara, mesmo estando numa cidade desconhecida, num país novo... Precisa se divertir e, numa situação dessas, como acabei de falar, companhia sempre é bem-vinda.
— Maria Flor! — Gritei de Nova York mesmo, tendo a certeza de que, graças ao Skype, minha sobrinha me ouviria e os vizinhos me chamariam de louca cinco minutos depois.
A menina apareceu, seus olhinhos escuros felizes ao meu ver.
Tia! — Ela gritou, animadamente.
— Olá, Maria! Como você está? — Perguntei, animadamente.
A garota fez perguntas sobre a cidade e perguntou se eu tinha visto alguma estrela da Disney, eu disse a ela que o pessoal da Disney ficava em Los Angeles. Um pouco frustrada, a menina contou sobre a escola e sobre ter ficado muito feliz ao dizer para Susie — a garota mais chata da turma — que a tia dela estava em Nova York trabalhando num lugar muito, muito grande. Fui obrigada a rir nessa parte da história toda, contada depressa demais, euforicamente demais.
Quando tudo aquilo acabou, tudo que desejei foi comer, tomar o tal banho e desmaiar na cama para estar disposta na manhã seguinte. Não contei para ninguém, não admiti direito nem para mim mesma, mas, naquela noite, mesmo exausta, eu sonhei com .



Capítulo Dezoito
Então, tenha em mente todos os sacrifícios que estou fazendo
Para manter você ao meu lado.

It Will Rain — Bruno Mars

Jonas’ POV


não era mais o mesmo cara de antes. Eu sabia disso. Sabia que ele tinha mudado com os anos e que não era mais nenhum moleque, mas, ainda assim, eu estava um pouco receoso sobre deixá-lo tomando conta da Jonas & Co. — por mais que fosse ser por menos de 24 horas.
Estranhei o fato de ele chegar no horário. Antes do almoço ele estava lá, de terno e gravata. Algo que eu não via há anos — acho que desde sua formatura no Ensino Médio, em Londres.
— E aí? Tenho cara de responsável? — Ele riu, parado perto do elevador. Eu tinha saído da minha sala para deixar as instruções de .
Ri de volta e não pude deixar de notar o queixo caído da secretária; fingi não ver para não deixá-la sem jeito. já havia comentado alguma coisa sobre meu irmão e sua amiga, mas eu ri, e, naquele momento, não devia me apegar a tais detalhes, visto que isso me faria rir bem ali, na frente dos dois.
— É... Dá para o gasto — falei, cumprimentando meu irmão logo depois. — Vamos ali na minha sala, eu repito a história pela milionésima vez e vou buscar a no colégio.
— Dê um beijo nela por mim — disse uma tímida de trás de sua mesa.
— Claro! — Respondi do melhor modo possível. — Vamos, , depois vá almoçar com a .
Conversei com rapidamente, expliquei que ele deveria receber a papelada toda do entregador e assinar. Depois, separaria as páginas amarelas e levaria estas até Josh. Apenas estas. Não deveria dar um mísero piu sobre o resto dos papeis e deveria colocá-los na gaveta com chave porque, sem dúvidas, papai iria querer ler aqueles contratos assim que chegasse a Nova York.
Ele assentiu, atento, e eu me despedi, desesperado por afrouxar o nó da gravata. Fiz isso assim que sentei no banco do motorista do meu carro. Em seguida, mandei uma mensagem para , avisando que estava a caminho do colégio. Os alunos estariam no ônibus, partindo para Nova Jersey também, talvez eu conseguisse ver Olly. Por questões óbvias, achamos mais seguro deixar Tony — o cachorro — com . ainda não nos pareceu tão responsável.
Quando cheguei em frente ao colégio, peguei o crachá de visitante e entrei, deixando o carro na calçada. Os alunos estavam todos organizados em fila e Olly acenou para mim. Acenei de volta. Ela pediu licença a alguma professora e correu para vir falar comigo. Eu ainda estava me acostumando a essa proximidade que começávamos a criar.
Chiao! — Ela me disse animada.
— Oi de novo — falei. — Pronta para ser turista mais uma vez?
Olly riu.
— Acho que sim. Eu só vim mesmo te desejar boa viagem! — Olly me abraçou. — Não pude dizer isso à Consue... À e nem vou poder por várias razões burocráticas, então, digo para você.
— Obrigado, eu acho — correspondi seu abraço, meio sem jeito.
— Agradeça ao por ficar com o cachorro — Olly olhou para os colegas rapidamente. — Agora preciso ir. Mais uma vez, uma boa viagem.
— Obrigado. Para você também.
Olly se foi ao encontro dos seus. Fiquei feliz por ver que ela tinha alguns amigos e que estava animada por sair da cidade com eles. Uma pena que não tenham passado o Ensino Médio inteiro juntos, apenas o último semestre. Também pensei sobre os amigos que, certamente, ela deixou em Roma.
Achei melhor ir até a cafeteria e esperar numa das mesas. Sentei-me e fiquei observando os alunos se preparando para partir. Eu sabia que, assim que o ônibus se fosse, chegaria e nós poderíamos comer um hambúrguer no Burger King e ir para casa, nos aprontarmos para a viagem, que seria por volta das cinco da tarde.
O ônibus arrancou levando jovens risonhos e com fones nos ouvidos. Olly ia sentada perto da janela, e, pelo que pude ver, uma garota ia ao seu lado. Respirei aliviado. Acho que com essa parte eu estava me acostumando bem.
Não demorou muito para aparecer, completamente disfarçada naqueles jeans com botas de salto e um casaco marrom. Ela sorriu, segurando a pasta com as duas mãos. Levantei-me, esperando por ela.
— Oi — ela disse, me dando um abraço. Por mais que não houvesse nenhum aluno dela ali, ou a Diretora Crayg, nós nos portamos como dois irmãos.
— Oi, — não resisti. Tive de chamá-la daquele jeito.
fez uma careta. Eu ri.
— Vamos comer alguma coisa por aí?
— Ué, vamos — ela deu de ombros, animada. — E o ? Ele já chegou à empresa? — Perguntou enquanto começávamos a andar rumo à saída do colégio. Na calçada, eu desativei o alarme e abri a porta do carro para . Finalmente, ela me beijou, rapidamente, mas me beijou.
— Eu amo você — falei, logo depois.
— Amo você também. E mal posso esperar para partirmos para o Havaí — respondeu.
Assim que entramos no carro, eu dei a partida e dirigi rumo ao Burger King mais próximo, cerca de três quarteirões dali.
— Quer comer aqui ou em casa? — Perguntei assim que chegamos.
— Vamos comer por aqui mesmo, afinal, temos que estar no aeroporto só às quatro horas, não é? Que horas são aí?
Consultei o relógio, era quase uma da tarde. Já havíamos aprontado tudo; precisávamos apenas mudar de roupa para sair.
— Quase 1h, por quê? — Respondi.
— Então vamos descer, dá tempo — ela pediu.
— Como você quiser — falei, dando um jeito de colocar o carro no estacionamento.
Assim que descemos, fomos ao balcão e — para não perder o costume — pediu o duplo. Nos restaurantes de fast food, ela sempre comia mais do que eu. E, por mais bizarro e esquisito que isso possa ser, eu considerava uma qualidade.
— Hm, sabe o que eu acho? — Disse uma que engolia seu Wooper Duplo, parecendo a moleca do boné de uns anos atrás. Naquela roupa que ela usava para trabalhar, por mais atraente que ela ficasse, eu ainda tinha a sensação de que ela se sentia fora de si mesma.
— O quê? — Dei um gole em meu refrigerante.
— Que e vão aproveitar muito essa sexta-feira. Eu já te falei que acho que eles os dois ainda vão terminar juntos, não falei?
Assenti. E seria uma ótima notícia se terminasse com uma garota como e não uma herdeira maluca ou qualquer coisa assim. Por mais que eu duvidasse que o de hoje fosse sair com uma garota vazia — como eu nos tempos de Candice.
— Ia ser legal — comentei, comendo as batatas fritas de , já que eu havia terminado as minhas. Ela bateu na minha mão.
— Hey, qual é? — Brincou.
Coloquei uma batata na boca.
— Sou seu marido, amor. Você tem que dividir tudo comigo — aleguei.
— Claro! Vou dividir as cólicas e a depilação à cera também, o que você acha?
Ela riu.
— Não sei o quanto, mas sei que essas coisas doem. Você quer me torturar, isso já é maldade. E me deixe comer as batatinhas — comi outra.
— Senti falta disso.
— De quê? — Não que eu não soubesse, só queria ter certeza.
— De sair assim, conversar, como se não existisse um mundo lá fora... É como voltar ao princípio, já lhe falei isso — sorriu, um tanto saudosa.
— Nós não podemos nos prender ao passado, . Ele não volta. Além do mais, os dias de hoje são bons, não são?
Ela assentiu.
— Então? Olhe... Estamos indo viajar para um lugar realmente bonito em poucas horas. Vamos ser só nós dois e um fim de semana para compensar a lua de mel que não tivemos porque eu tive que trabalhar e você estava estudando para conseguir entrar em Columbia... Pense bem, , o presente é até melhor do que o passado, porque não existe uma Candice no Japão, aliás, eu nem sei por onde ela anda — nós rimos de leve. — Nem a sua mãe te chamando de concubina.
— Eu sei, eu sei.
Não achei nada convincente, mas achei melhor fingir que acreditei para não causar uma tensão a poucas horas de uma vida totalmente nova, mesmo que temporária.
— Não quero o passado de novo — ela falou. — Quero ter tempo contigo.
— Estamos tendo, estamos tendo — acariciei-lhe o rosto. — Já comeu? — Perguntei ao vê-la colocar o guardanapo e o papel que embrulhava o hambúrguer dentro da bandeja azul.
— Aham. Quer ir agora? — levantou, pegando a bolsa.
Juntei as duas bandejas e pus o lixo numa só.
— Sim, vem. Não podemos perder a hora.
Dei um beijo na testa dela.
— Desculpe se parece que eu não valorizo os dias de hoje.
— Não parece — assegurei, colocando os papeis e guardanapos na lixeira e deixando as bandejas sobre a mesma. Tomei pela mão e saí com ela do restaurante, indo para onde o carro estava.
Enquanto eu dirigia de volta para casa, estava animada numa conversa por celular com a mãe, portanto nós não conversamos praticamente o caminho inteiro. Ao volante, peguei-me pensando sobre o que havíamos conversado no restaurante.
Era verdade que, quando ainda namorávamos, parecia que tínhamos mais tempo para nós do que atualmente, mas eu nunca imaginei que isso pesava tanto para . Por mais que eu a entendesse, e me esforçasse para tentar suprir tal necessidade, não era impossível que eu me questionasse se ela estava com medo do tempo passando. Se ela temia que caíssemos numa mesmice, esquecendo-nos completamente de como começamos. Se ela sentia-se culpada por pensar nisso, ou por estar sempre repleta de coisas do colégio para organizar.
O meu trabalho continuava o mesmo, já que papai ainda era quem fazia as viagens para fora do país, então eu ficava temeroso quanto culpando a si mesma. E eu tinha uma visão tão frágil dela, que me sentia responsável sobre deixá-la sempre bem. Como quando uma pessoa lê um jornal para uma criança e evita ler as notícias ruins, para que ela não tenha que lidar com aquilo tão cedo.
Era exatamente assim que eu me sentia com relação à . Eu tinha a obrigação de protegê-la.


Capítulo Dezenove
E agora, eu estou tentando ser honesto comigo mesmo
Com você, com o mundo.

Give Love a Try — Jonas Brothers


Jonas’ POV


saiu.
Eu era tipo o “presidente-estepe” agora. Eu era o cara. Papai ficaria orgulhoso. Meu ego estava subindo. Eu ia sair voando. Eu ia atravessar Nova York inteira como um balão, que, ao invés de gás, tinha egocentrismo. Eu era o cara.
Pelas próximas cinco horas, mais ou menos.
Fiquei fitando a sala de . Era incrível a vista que se podia ter de lá. A janela era enorme, tinha espaço apenas para algumas gavetas, divididas em três fileiras verticais com três gavetas cada uma. Mais para frente da sala havia um sofá. A primeira coisa que me veio em mente — por mais invasivo que isso possa ser — foi se e já teriam tido “alguma coisa” naquele sofá. Fosse nos tempos em que se escondiam ou nos tempos atuais. Comecei a rir.
— Algum problema?
Naquele momento, lembrei que estava comigo. Respirei fundo.
— Nada não — neguei.
Ela me olhou, desconfiada, mas não fez uma pergunta sequer.
— Acha que a papelada vai demorar a chegar? — Perguntei.
deu de ombros.
— Não. Sempre chega antes das três quando ficam de entregar pela tarde — ela explicou. — Olha, , se precisar de qualquer coisa, ainda tem uns dez minutos antes que eu saia para o meu almoço.
— Dez minutos? — Arqueei uma sobrancelha. — Não servem para muita coisa — completei —, mas, caso eu precise, vou chamar.
— Tudo bem — sorriu. — Vou voltar para minha mesa, com licença — pediu, enquanto saía.
— Tem toda.
saiu, e eu me sentei no sofá que ainda pensava se era considerado “solo sagrado” ou não. Eu havia me divertido tanto com ela quando saímos para almoçar da última vez... Seria muito bom caso acontecesse de novo. Ela não era nenhuma modelo famosa, nenhuma atriz ou herdeira de Manhattan, mas ainda era tão ou mais mulher do que qualquer uma delas.
Depois de todo aquele tempo fora, em que eu estive convivendo com crianças e até mesmo jovens, que davam um valor inexplicável ao extremamente necessário e ao afeto, minha visão sobre muitas coisas mudou. Sobre o tipo de homem que eu era, principalmente. E sobre o que eu esperava das pessoas também.
Como homem, me dei conta de que, ao contrário do que eu pensava até vinte e poucos anos, eu não seria nem um pouco feliz sozinho. Sozinho em todos os sentidos da palavra porque algo me dizia que meus irmãos acabariam exatamente como estão hoje — não tão exatamente, já que eu tinha a péssima sensação de que terminaria com Candice, dadas as circunstâncias. Portanto, eu sabia que não seríamos os mesmos que éramos quando vivíamos todos juntos — até porque, naquela época, eu ainda era bom. Só que, com vinte e poucos anos, eu achava que ficar sozinho naquele vazio era suficiente. Eu só me dei conta do contrário depois de me perder no bairro antigo de Madison. E, dali em diante, eu nunca mais fui a mesma pessoa vazia.
Talvez eu até tenha voltado ao cara que eu tenha sido um dia há muito, muito tempo atrás. Agora, com , eu tinha o pressentimento de alguma coisa boa, talvez eu até gostasse dela, mas ainda me sentia cru demais para saber. Eu queria levá-la para almoçar de novo, desfrutar daquela uma hora. Era como um doce do qual eu comia um pouquinho de cada vez para não me sujar.
Era isso! Eu queria viver um dia de cada vez, por mais no princípio que aquilo estivesse.
Consultei o relógio prateado na parede e vi que o horário de almoço de — e da maioria dos funcionários da parte administrativa da Jonas & Co. — começaria. Peguei o celular, que antes deixei sobre a mesa, e saí da sala de .
já tinha a bolsa num dos ombros e parecia pronta para ir comer.
— Precisa de alguma coisa? Eu ia comer, mas... Caso precise...
— Preciso — falei. — De companhia para o almoço — sorri, esperando que ela me sorrisse de volta e assim ela o fez. — Vamos? — Perguntei, indicando o elevador com minha mão, numa espécie de reverência.
— Claro, vamos!
Fui o melhor que eu sabia ser: abri todas as portas para e fui andando ao lado dela, prestando atenção em tudo o que ela tinha para dizer. Evitamos o trabalho, evitamos e . Falamos apenas sobre o que achamos que poderia ser produtivo, como o fato de ela odiar blueberry e amar as músicas da Pixie Lott. Nós rimos quando contei sobre umas palavras que troquei em espanhol e acabei xingando, sem querer, uma senhora na Argentina e tudo mais.
Logo, estávamos num restaurante especializado em peixe.
— Eu me esqueci de perguntar se você gosta de peixe — falei, apesar de já estarmos na fila por uma mesa. Não levaria dez minutos, afinal, éramos apenas duas pessoas.
— Gosto, eu gosto de peixe sim — tratou de responder. — Sabe, ...
— O quê?
— Acho legal da sua parte me convidar para comer. Geralmente, eu como sozinha.
— Bom saber, posso aparecer mais vezes na hora do almoço, então? — Ri.
— Desde que comece a me deixar dividir as despesas... Além do que, as pessoas vão começar a falar quando virem que saímos para comer.
— Danem-se as pessoas. Não estamos fazendo nada de errado — afirmei. — Ou você se importa tanto assim com elas?
— Não! Não é isso! — Explicou-se. — Você sabe como a maldade das pessoas é rápida... Estamos saindo para comer, mas a probabilidade de que digam outra coisa é bem alta.
— Vão dizer que saímos para beber — eu ri, mesmo sabendo que não tinha graça nenhuma.
riu de volta.
— Hey! Não precisa rir, eu sei que essa foi péssima.
— Não — ela negou. — Só... Achei engraçado. E é isso que vou dizer caso alguém pergunte qualquer coisa: saí com para beber!
— Tequila — completei.
— E caipirinhas!
— Ah, Brasil! — Eu ri.
— Mesa para dois? — Perguntou a atendente do restaurante, quebrando nossa descontração.
— Sim, para dois — respondi.
— Por aqui, por favor — ela disse, apontando para dentro do restaurante.
Seguimos a tal garota pelo restaurante e nos sentamos numa mesa mais ao fundo, onde os assentos eram duplos. O restaurante, internamente, era todo de madeira escura e uma música gostosa tocava ao fundo.
— Querem pedir alguma bebida agora? — Perguntou um dos garçons.
— Eu quero uma soda-limonada — pediu.
— Duas sodas-limonadas, então — afirmei.
— Claro, aqui estão os cardápios — o garoto colocou os cardápios sobre a mesa, diante de nós. — Eu já volto com as bebidas, com licença.
— Tem toda — disse educadamente.
Aquilo me pegou de surpresa — e preciso dizer que gostei.
Nós jogamos conversa fora sobre todas as coisas possíveis. sempre tinha alguma história hilária para contar e o modo como ela contava, falando rápido e gesticulando, parecia dar mais graça a tudo.
— Você caiu no meio do jogo de vôlei? Em pleno saque?
— Para você ver! — Ela riu, mexendo as mãos. — Eu saquei e... Boom!
Só que o “boom” não teve a ver apenas com o tombo de bunda que ela levou há dez anos, teve a ver com a soda limonada que ela deixou cair e derramar sobre a saia.
— Ai! Olha o que eu fiz! Como é que eu vou trabalhar agora? — Disse. E parecia apavorada.
Eu senti uma vontade desesperada de rir. Fechei a boca e pressionei meu polegar e o indicador, ambos numa mão em punho, contra a mesma, sentindo o riso fazer morada em minhas bochechas.
— Calma — falei, aparentemente mais controlado. — Quem sabe se você secar com um guardanapo resolva?
Ela experimentou, mas não pareceu dar algum resultado.
— Eu sou tão estabanada! — Reclamou, jogando as mãos para o céu.
— Olha — sugeri. — Termina de comer e a gente passa na H&M e compra uma outra saia preta, ok? Eu sou o seu chefe hoje e não vou me importar caso você se atrase.
— Já terminei de comer.
— Então eu vou pagar pelo almoço e nós vamos até a H&M comprar sua saia, ‘tá bom?
— Vamos dividir o almoço — insistiu.
— Claro! Que não! Você vai precisar comprar uma saia, deixa que eu pago pela comida.
— Não vai adiantar eu tentar mudar sua opinião, não é mesmo? — ela bufou, rendida.
— De maneira nenhuma — assegurei. — Se já comeu, é melhor nós irmos.
— Tem razão, é melhor — se levantou.
Paguei pelo almoço e andei com até a H&M mais próxima. Pelo caminho, ela manteve a bolsa na altura da mancha da saia, tentando escondê-la. Pelo modo como seus ombros estavam encolhidos, eu podia notar que ela estava com vergonha.

Baker’s POV

Deus do Céu, desde quando eu era tão estabanada? Era o quê? Alguma espécie de ímã para acidentes completamente evitáveis justamente por que estava por perto? Agora eu sabia como se sentira quando a pegou com a cara suja de maionese — e, não, não era uma sensação muito boa. Não era nada legal.
A sorte era que era um cara discreto — e cavalheiro! (afinal, eu notara quando ele quis rir) — e logo encontrou uma solução para tudo. Além do que, ele pagou pelo almoço, e este é o tipo de coisa que um cara faz num encontro, não num almoço de trabalho — ainda mais pela segunda vez.
Caminhando por Nova York, a caminho da primeira H&M que encontrássemos, mantive a bolsa na altura do manchado da saia — caso contrário, pareceria que eu fiz xixi —, sem conseguir disfarçar o quanto eu estava sem jeito. Com aquela terrível sensação de que eu tinha duas mãos esquerdas. Já dentro da loja — encontrada cinco quadras dali —, quando tive que escolher a saia, fingi procurar meu número quando, na verdade, tudo o que eu queria era o modelo mais bonito; e o fato de estar comigo influenciava aquilo. Totalmente.
Ele me acompanhou até o provador e disse que, por via das dúvidas, era bom ter uma opinião além da do espelho, visto que, segundo ele, muitas mulheres tinham uma visão errada de si mesmas. Assim que vesti o modelo preto e na altura do joelho, olhei-me no espelho. Para mim, estava bom, estava até melhor que a anterior — e só custava sessenta dólares —, mas, ainda assim, eu quis ouvir a opinião de .
— Que acha? — Perguntei diante dele, do lado de fora do provador.
Ele pareceu analisar, meio surpreso. Ficou em silêncio por segundos que pareceram minutos, me deixando insegura.
— Eu acho que você está linda — respondeu, finalmente, dando um sorriso.



Capítulo Vinte
Eu sei que você sabe, eu estou enrolada em seu dedo,
Você é assim, tão bonito e perigoso.

Boy Like You – Charlee


Olly Petroni’s POV


Já estávamos no ônibus há quase duas horas e meia. Eu ia sentada sozinha — por opção —, enquanto Sky e Jimmy, que haviam desistido de puxar conversa comigo quando tudo o que eu quis foi curtir o iPod que ... Que o meu pai tinha me devolvido — eu precisava de uma boa dose de Paramore —, iam conversando no banco da frente. Mantive meus olhos na paisagem, apesar de estar mais atenta a uma versão acústica de “My Heart”, vendo como as casas, árvores e demais propriedades ficavam para trás, parecendo um borrão.
— Gosta de ser turista, Jonas? — Ouvi, quando senti um dos fones ser puxado. Reconheci a voz de Ethan imediatamente.
— Hale, olá — respondi, sarcástica, pousando meus olhos sobre ele e sua pele morena. — Seu lugar não é lá na frente com o Cavenaugh?
— Sou inquieto, você deveria saber — os dedos dele caminharam pelas costas da minha mão. — E enjoo fácil da mesma companhia.
— Nota-se — puxei a mão.
— Por que você é tão arisca? — Ethan recostou-se ao banco, relaxando como se aquele sempre tivesse sido o seu assento.
Rolei os olhos.
— E digo isso porque, da primeira vez — o tom dele ficou mais baixo — quando nós nos beijamos, você foi suave, apesar de negar que tinha ido atrás de mim.
— Deve ser porque eu não fui — falei, ríspida. O pior era que eu estava sendo uma mentirosa porque, de fato, eu fui até os fundos do Saint Francis atrás de Ethan sim. Pobrbrdocument.write(Joe)/SCRIPTrque alguma coisa nele me chamou a atenção.
— Engraçado; eu ainda não acredito nisso.
O sorriso superior que ele deu foi tão irritante que tive vontade de socar os dentes daquele imbecil ali mesmo. Ethan podia ser lindo — e extremamente sedutor, vale ressaltar —, mas tinha uma postura de quem era irresistível. Era como se ele soubesse o quanto aqueles olhos e aquele cabelo escuro podiam deixar uma garota tonta. Só que eu era uma boa atriz e saberia lidar com aquilo enquanto fosse necessário — ao menos, assim eu queria.
Tudo o que me restou foi dar risada. Não pude gargalhar alto, como eu gostaria, porque não queria que as pessoas se dessem conta de que ele estava sentado ao meu lado — por mais que eu tivesse certeza de que elas já soubessem disso.
— Afinal de contas, Ethan, que merda você quer aqui?
— Já disse que estou mudando de companhia. Só isso. E sabe no que eu tenho pensado? e,
Eu ia dizer uma besteira de duplo sentido, mas achei melhor ficar quieta e esperar que ele se desse conta de que aquela conversinha ia se tornar um monólogo: “Ethan, ele mesmo e seu ar superior”.
— Que, da primeira vez, você foi muito diferente do que é hoje em dia. Por mais rebelde que tenha se mostrado, ainda assim, pareceu me dar um voto de confiança. O que foi que te contaram para você “virar” tão de repente?
Ethan /iaby)era um garoto esperto. Realmente esperto e deu-se conta das coisas rápido demais. Eu não tinha dúvidas de que ele sabia o que falavam dele pelos corredores, coisas que muitos professores — e eu aTerminando de fazer o dever de casa. Daqui a pouco ela vem falar com você, deixe apenas que termine tudo. Mas agora conte a tal história do corredor. Alguém se pegando nele? creditava que nesse grupinho de professores estivesse envolvida, já que me perguntara sobre Ethan num dia qualquer, antes de chegar em casa —, mas fiquei pensando se Ethan já supunha que, além de sua fama de bad boy, eu tinha conhecimento sobre o passado dele também. O passado recente, para ser mais exata.
— Não aconteceu nada — por mais que eu soubesse das coisas, já que Sky me contara quando estudamos juntas para uma prova, eu não me sentia no direito de tocar naquele assunto. Ainda mais dentro de um ônibus, cheio de alunos dentro. — E eu sei o que todo mundo sabe: as festas que você organiza, os encontros que tinha na biblioteca interditada com uma ex-aluna... Coisas bobas.
— Você sabe a histórbria da Quinn? — O rosto dele empalideceu.
Engoli seco, perguntando-me se conseguiria mentir. Dizer que sabia menos do que eu realmente sabia.
— Ah, então o nome dela era Quinn? Hm, é legal — dei de ombros, lutando contra a bagunça que sentia internamente toda vez que contava uma mentira. — Eu sei que vocês — era minha vez de falar baixo — costumavam transar na biblioteca interditada. Acho que todo mundo sabe, menos a Crayg — ri, na tentativa de amenizar o clima pesado na expressão de Ethan.
Para minha sorte, ele voltou ao normal.
— As paredes têm ouvidos — ele riu. — Mas não se preocupe, eu não levo mais ninguém para a velha biblioteca. Ficou visado demais.
— Leve para o inferno, se quiser. Isso não é da minha conta.
— Mas pode se tornar — dizendo isso, Ethan se levantou e voltou para o seu lugar.
Morri de vontade de mandá-lo voltar e explicar o que queria dizer, mas não o fiz, sabendo que aquilo chamaria a atenção de todos. Voltei para a música, afundando-me no banco e, mais uma vez, mantendo meus olhos fixos na paisagem.
Não sei bem quando, mas, em algum momento, eu cochilei.
— Sabe o que eu acho, Olly? É assim que a Sky te chama, não é? — Acordei com a voz de Ethan perto demais.
Quase saltei de meu assento.
— O que está fazendo aqui? Já estamos em Jersey? — Perguntei, totalmente grogue. Olhei para a janela e vi que ainda estávamos na estrada.
— Estamos quase na nossa cidade de destino — Ethan respondeu, relaxado em sua poltrona.
— Mas não íamos à capital? — Questionei, confusa.
— Não — Ethan sorriu com aquele ar de quem sabe tudo. — Iremos para lá no fim de tarde de sábado.
Desejei fechar os olhos e relaxar na poltrona de novo, mas, com Ethan ali, seria impossível. Era tarde demais para pensar se as pessoas tinham reparado ou não a presença de Ethan no lugar ao meu lado, mesmo eu achando que todo mundo já tinha visto.
— Por que está aqui? — Perguntei.
— Você fica muito sexy enquanto dorme — ele riu presunçoso.
— Meu dedo do meio também é sexy, quer ver? — Ameacei.
— Não faço a mínima questão.
Ethan falou com tanta naturalidade que tudo o que eu quis foi enforcá-lo. Ele tinha um ar tão irritante que eu acabava gostando. Era aí que morava o perigo. Nada me deixava esquecer tudo o que eu ouvira sobre ele com o passar dos dias. E isso era muito, muito sufocante. Como se estivessem me enforcando.
— Sabe o que eu acho?
— Que você é o cara mais gostoso de NY? — Ironizei.
— Isso também — ele deu de ombros como quem escolhe entre chocolate e chocolate branco. — Você mudou desde que te contaram sobre a Quinn...
— Falaram sobre outras também — interrompi, sem dar muita importância às minhas palavras. Eu mantinha meus olhos fixos à janela.
— Desde que te contaram sobre todo mundo — corrigiu-se. — Sinceramente, Olly?
— Por que eu tenho certeza de que você vai falar uma idiotice?
— Eu acho que você ficou com ciúmes.
Dei a gargalhada mais alta de toda a minha vida. Aquela era a coisa mais estúpida que eu já tinha ouvido em míseros dezessete anos.
— Eu? Olímpia Petroni com ciúmes de você? Você é o quê? Uma versão nova-iorquina do Príncipe Harry? Porque, por favor, eu só sentiria ciúmes de algo que realmente valesse a pena.
Ethan riu, e eu fiquei olhando, na dúvida sobre qual de nós dois era mais idiota. Era exatamente assim que eu me sentia: imbecil. E Ethan não saia do meu lado.
Alguma coisa me fazia prever a desgraça em Nova Jersey: Ethan na minha cola o tempo todo. Eu tinha vontade de arrancar os cabelos, mas, lá no fundo, eu acho que gostava. Eu estava uma bagunça maldita por causa de Ethan. Ironizar o que se sente é uma armadilha perigosa, você pode parecer não se importar quando tudo o que quer é dar um grito e colocar tudo para fora, de um jeito ou de outro. Mas continua rindo, continua brincando e dando de ombros. E acaba se afogando no seu próprio sarcasmo.
Eu estava começando a ficar assim... E daria um berro muito em breve.
— Sr. Hale — quando eu ouvi a voz da Srta. Filian, a professora de dança, senti um calafrio. Algo gritava dentro de mim que uma desgraça iria acontecer. — Vai fazer o trabalho com a Srta. Jonas?
— Vou!
— Não!
Gritamos ao mesmo tempo, fazendo com que todos nos olhassem.
— É claro que eu vou ajudar a Olly — Ethan disse, me olhando como quem me manda calar a boca. Cheguei a pensar em falar, mas achei melhor não fazê-lo. Ethan prosseguiu: — Ela veio da Europa e como eu conheço Jersey de trás para frente, não me custa dar uma mãozinha, não é mesmo?
Olhei para ele, completamente confusa; confusa entre a ideia esganá-lo ou atirá-lo janela afora.
— Ótimo. Vou anotar aqui... — ela começou a escrever. — Evitem atritos, vocês não poderão trocar depois.
— Não! Claro que não! Não vai haver atrito nenhum — Ethan apressou-se em dizer.
Eu começava a me sentir completamente muda.
— Perfeito. Vou falar com os outros, licença — ela disse, saindo.
— O que foi que te deu? — Meu tom, apesar de baixo, era furioso.
— Você precisa de uma dupla, e eu estou me prestando para tal. Deveria me agradecer.
— Ora, controllare il tuo culo! – Xinguei.
Ethan me olhou, um nó nítido na expressão.
— Eu sei lá o que você falou, mas posso jurar que você me xingou! — Conseguiu dizer, depois de alguns segundos.
— Isso é só o começo, meu querido companheiro de viagem — sorri ironicamente.


Capítulo Vinte e Um
Sob o Sol ardente das paixões
Crescerá nosso amor forte e risonho.

Isla Para Dos — Thalía


Jonas’ POV


Quando nós aterrissamos no Havaí, fomos recebidos como turistas, daquele mesmo jeito que eles recebem as pessoas nos filmes: com colares de flores. Eu achei o máximo — mesmo com meu colar prendendo na aba do boné que eu usava virado para trás. Eu era só a ali, não a professora de inglês, nem a esposa do economista.
Eu era a do e isso era ótimo.
Um homem de cabelo loiro e espetado, usando uma camiseta amarela e um boné, nos esperava com uma plaquinha onde se lia “Sr. e Sra. Jonas”. Devo admitir que eu até gostava desse título. Coloquei as malas no carrinho, recusando a ajuda de — que fez uma piada sobre eu me sentir de volta aos dezenove anos pelo modo como estava vestida e por querer fazer o trabalho de levar as coisas dos outros. Apenas ri.
— Você deve ser Patrick — deduziu assim que ficamos de frente para ele.
— Isso mesmo, o guia turístico — respondeu o loiro, sorridente.
Eles se cumprimentaram, assim como eu, e as apresentações foram feitas. Logo, subimos num carro que me parecia um Jeep enquanto e Patrick pareciam falar em códigos. ia no banco do carona, ao lado de Patrick, e eu, no banco de trás. Eu parecia uma criança, atenta à janela e à paisagem rápida que ela me mostrava.
e Patrick pareciam falar em códigos, deixando-me curiosa para saber do que se tratava. Tentei entrar na conversa, mas encontrou outro assunto rapidinho. A única frase que consegui ouvir e compreender — quase que por completo, pois eu ainda não sabia o onde encaixá-la — foi: “A cozinha é ótima”. Aquilo deu um verdadeiro nó na minha cabeça. Ficaríamos hospedados num restaurante ou o quê?
A cada hotel que passávamos, eu esperava que o carro parasse. Do mais simples ao mais luxuoso, eu quase soltava o cinto de segurança e abria a porta para descer. Eu ia acabar era caindo de um carro em movimento, isso sim. Tudo era lindo e tinha um cheirinho gostoso de mar. Por um momento, deixei as vozes de e Patrick tornarem-se apenas um zumbido distante e recostei a cabeça no banco do carro, fechando os olhos e sendo egoísta o bastante na ideia de que eu era a única pessoa na face da Terra naquele momento.
— Para onde estamos indo? Já passamos por uns cinquenta hotéis — exagerei.
— Onde ficaremos no fim de semana — respondeu. — Patrick me disse que estaremos lá em menos de dez minutos. Seja paciente.
Rolei os olhos e puxei a aba do boné para o rosto, escorregando um pouco no banco do carro. Eu queria fazer como uma daquelas crianças irritantes nos ônibus de viagem que perguntam frequentemente se já chegaram e, quem sabe, Patrick ou se irritassem o bastante a ponto de me dar a resposta.
Zapeamos de carro por mais algum tempo até que o canto de alguns pássaros me fez querer olhar pela janela de novo. Estávamos no porto, pelo que pude deduzir ao ver alguns barcos (dos mais variados tipos) e uma espécie de ponte alta o bastante para ficar sob o mar por alguns metros. Era lindo! Parecia um quadro. Uma pintura que, num toque de mágica, ganhava vida. Sem dúvidas ou receios, a vista me deslumbrou.
— Chegamos — disse, virando-se para mim num sorriso travesso.
— Cacete! Aqui é lindo, mas... Eu ainda não entendi — respondi, meio confusa. — Vamos atravessar para algum lugar? Pegar uma barca ou coisa assim? Onde estamos indo exatamente?
riu. Assim como Patrick, abriu sua porta e desceu do carro após soltar o cinto de segurança. Fiz o mesmo.
— Na verdade, parou ao meu lado, passando um dos braços pelos meus ombros e, com sua mão livre, virou a aba de meu boné para o lado. — Vamos nos hospedar ali — ele apontou para um barco branco do tipo que eu só havia visto em filmes.
— No barco? — Meu queixo caiu. — Está falando sério?
— Estou sim — riu, assentindo com a cabeça. — Sra. Jonas, por favor — ele disse, tirando o braço do meu ombro e estendendo-o para mim.
Entrelacei meu braço ao seu e andamos até o barco, enquanto Patrick vinha atrás, empurrando as duas malas que tínhamos. subiu na embarcação antes de mim, ajudando-me logo em seguida — ainda mais quando tentei fazer sozinha e quase caí!
— Por isso todo o segredo? Vamos ficar em um barco?!
Eu estava completamente animada com a ideia. Era bem fora dos padrões não ficarmos em um hotel ou alugarmos uma casa, muito pelo contrário, estávamos num barco alugado e ancorado no porto. Para onde quer que eu olhasse quando acordasse na manhã seguinte — e isso incluía o cara dormindo ao meu lado na cama —, teria a vista mais bonita em muitos anos. O clima era quente de uma maneira agradável e com aquela brisa marinha que eu tanto gostava. Se fizesse um pouquinho de esforço, sentiria gosto de sal — o que era ótimo!
Com a ajuda de Patrick, levamos as malas para dentro. O mesmo disse que viria no dia seguinte, perto das 11h, para nos levar em um passeio no barco. Depois que ele se foi, éramos e eu sem preocupação alguma, apenas a sensação de descanso e alívio.
— Começou como você esperava? — perguntou, dando-me um beijo rápido. Enlacei meus braços ao redor do seu pescoço.
— Como eu esperava? Ora, isso é muito melhor!
— Ótimo! Porque quero que se sinta desligada do mundo por esses dias.
— Você também. Tem trabalhado muito e, bem, sem querer, ouvi seu telefonema com . Onde você dizia que estava preocupado com a volta do seu pai.
respirou fundo.
— Nova York fica em Nova York, tudo bem? — Sugeriu.
— Uhum — acatei, assentindo com a cabeça. — Mas tem um pequeno detalhe — balancei a cabeça, fazendo o boné cair no chão.
— Ai, ai, ai — riu. — Qual?
Fiz uma careta.
— Estou com fome! — Expliquei.
— Qual a novidade nisso?
Bati em seu ombro.
— Patrick me garantiu que abasteceu a dispensa, portanto, vá lá dentro descansar um pouquinho enquanto eu faço algo para comermos. A convivência é tão pegajosa que sua fome me contaminou.
— Gosto da sua comida — falei, já andando para dentro do barco, dando de cara com um piso de madeira clara e móveis que, apesar de elegantes, tinham um apelo aconchegante. Quase me atirei no sofá de três lugares que fazia uma curva, conforme o desenho da embarcação.
veio atrás de mim e um abraço me envolveu.
— É porque gosto de cozinhar para você — ele disse.
— Vou trocar de roupa por causa do calor — avisei, andando para o cômodo onde vi as malas.
Ouvi avisando — de onde acreditei ser a cozinha — que faria algumas panquecas, mesmo sendo quase três e meia da tarde no horário local. Abri minha mala e peguei um vestido de alças, comprido e cinza. Tinha algumas flores nele e, quando me vi no espelho, com os cabelos soltos e livres do boné, apesar de toda a feminilidade, me senti realmente bonita. Calcei o primeiro chinelo que encontrei e fui atrás de , deixando a cabine cheia de luzes e decoração clara para trás.
A cozinha era pequena e tipicamente americana. Não havia mesa, apenas os armários e o balcão, todos num tom caramelado de marrom. Sentei-me num dos pequenos banquinhos e tive um déjàvu. Na verdade, estava mais para uma recordação. Um pouco antes de e eu rompermos devido ao mal-entendido na volta de Candice.
Ao contrário daquela vez, quando eu acordasse no dia seguinte, tudo estaria bem.
— Está linda — disse, virando-se para mim enquanto uma das panquecas era jogada para o alto.
— Obrigada — como não acontecia há algum tempo, eu corei. Senti minhas bochechas aquecerem.
— É um vestido bem bonito — largou a panqueca no prato ao lado do fogão. Despejou a massa da próxima na frigideira. — É fácil de tirar?
— Ora! Mas...! — Comecei a rir. — Comprei para a viagem, num dia qualquer, na hora do almoço.
— Você não me respondeu — ele me olhou.
— Eu não sei — desconversei. — É a primeira vez que uso. Por enquanto, eu apenas vesti.
— De verdade, você ficou linda nele. Ainda mais porque quis vesti-lo, não foi imposta — a panqueca foi virada. — Sabe de uma coisa, amor?
— Hm, o quê? — Estiquei o corpo sobre o balcão.
— Quando forem suas férias no St. Francis, vamos viajar de novo, mas para outro lugar e por mais tempo.
— Eu acho uma ótima ideia — respondi mais do que depressa. — Preciso conversar com você sobre duas coisas. Uma delas não é muito boa...
— O que aconteceu, ? Algum problema? — abandonou as panquecas por um instante e se concentrou em mim.
— Não! Problema nenhum! É só uma coisa que preciso saber e, bem, sei que deveria ter perguntado antes, mas... Sei lá, acho que acabei esquecendo.
— Não dê voltas, basta me dizer, está bem? — a massa da última panqueca foi posta na frigideira.
— Lembra-se de quando lhe contei o que houve com Joshua St. Monique?
— O ocorrido do McDonald’s? É... Infelizmente eu me lembro disso, sim.
— Você falou sobre isso com Josh? — Ajeitei-me na banqueta.
— Claro! E, olhe, para encurtar o assunto, porque prometemos deixar Nova York em Nova York, sei que me pediu para não fazer isso, mas foi só uma conversa. Espero que isso o lembre de não lhe importunar mais.
largou a última panqueca sobre o prato, junto às outras.
— E a outra coisa que queria falar? — Questionou.
— Hm... Sobre isso, a gente vai falar depois, certo?
— Certo — ele deu de ombros, colocando o prato das panquecas sobre o balcão, diante de mim. Caminhou até a geladeira e tirou de lá mel e um vidro de geleia de blueberry. Colocou-os sobre o balcão também. — Escolha seu favorito — disse, sentando-se ao meu lado.
Olhei para ele, virando-me.
— Meu favorito é você.
segurou meu rosto entre as mãos, empurrando uma mecha de meu cabelo para trás e me beijou. Calmamente, docemente, como se aquilo nunca houvesse acontecido anteriormente. Às vezes, eu me perguntava se ele sabia que aquele era meu tipo de beijo preferido.
— Tem noção do quanto eu seria infeliz sem você ao meu lado? — Ele perguntou quando o beijo cessou, ainda assim, nossos rostos estavam próximos e nossos dedos entrelaçados.
— Eu não sei nem onde estaria agora. Fazendo o que ou com quem — respondi. — Sinceramente, eu acho que somos predestinados um ao outro. Deus escreveu em algum lugar que nos encontraríamos e que, mesmo com as pedras pela estrada, estaríamos juntos no fim de tudo.
— E o que é o “fim de tudo” para você?
— Já rompemos uma vez, nos acertamos, nos casamos... Olly apareceu alguns anos depois, e eu pensei que tudo iria por água abaixo — ou quase isso — e agora tudo está bem. Nós estamos aqui simplesmente vivendo um dia depois do outro. Acho que juntos nós aprendemos a lutar, a não desistir e, caso essa lição tenha acabado, acho que nos saímos muito bem e estamos usufruindo de tudo o que plantamos.
— Vendo desse jeito que você falou — disse, seus olhos castanhos em mim. — O fim de tudo é melhor do que qualquer coisa que eu poderia esperar.
— Ninguém nunca vai amar uma pessoa no mundo do jeito que eu amo você — abracei-o, ajeitando-me em seus braços.
— É uma honra, . E não, ninguém nunca vai amar uma pessoa no mundo do jeito que eu amo você — seus lábios repousaram no meu cabelo.
Depois de alguns minutos de silêncio, acabamos comendo as panquecas. Para lavar os pratos, fizemos a maior bagunça da história, e eu tinha espuma até no cabelo. assoprava a espuma toda vez que ela vinha para minha testa.
— Não é mais fácil passar a mão e tirar? — Perguntei.
— Não — outro assopro. — chamou, me puxando mais para perto pela cintura.
Passei a mão no cabelo, me livrando da espuma.
— Você me disse que tinha outra coisa para falar — ele continuou. — Qual era?
Não sei direito por que, mas puxar aquele assunto me deixava nervosa. Eu não sabia por onde começar, muito menos se era a hora certa para aquilo, mas era um desejo antigo e eu já tinha deixado passar tempo demais, talvez. Havíamos sido e eu por quase cinco anos. Eu já conhecia suas manias, seus defeitos — como o maldito costume de falar “Uhum” ao telefone com os outros, ao invés de dizer uma palavra inteira ou qualquer frase que fizesse sentido —, suas qualidades — como o instinto protetor que tinha para comigo e o amor pelo que fazia à fábrica — e acreditava que ele me conhecesse de tal maneira também — por mais que eu não me considerasse tão fascinante quanto ele; eu não era nem de longe. Portanto, para mim, estava mais do que na hora de dar início a uma vontade antiga, vontade essa que ganhou mais vida com a chegada de Olly às nossas vidas.
Concentrei-me na minha vontade, ignorando o aperto no estômago e achei melhor começar a falar.
— Estamos juntos há alguns anos, sabemos que o relacionamento funciona...
— Porque eu amo você e você é doida o bastante para me amar de volta.
Aquilo me fez rir. Fiquei pensando se havia notado o modo como fiquei nervosa e estava tentando aliviar o clima.
— Bem, por mais moleque que eu possa parecer de jeans e boné, eu sou uma mulher como qualquer outra — eu começara a dar voltas de novo; e estava me odiando por isso. — Existem coisas que eu quero há anos, mas esperei pela hora certa e...
— Se você quer ter um bebê, , eu a apoio completamente. Porque eu também acho que a gente deva ter um filho o mais rápido possível.
Meu queixo caiu alguns centímetros. andava lendo mentes ou qualquer coisa? Porque, por mais cuidadoso e bom que ele fosse comigo, do jeito que era distraído para algumas coisas, me surpreendia que ele tivesse entendido o que eu queria sem que eu precisasse dizer.
— Está falando sério? — Eu tive a sensação de que os meus olhos brilharam, porque eu não pude conter os meus lábios formando um sorriso.
assentiu.
Eu pulei em seus braços.
— E como sabe que era isso o que eu ia falar?
— Suas justificativas são meio óbvias — ele apertou a ponta do meu nariz. — Depois, você sempre foi atenta às crianças pequenas na rua, mas, ultimamente, está obcecada por elas e, por último, eu ainda lembro o que disse quando Olly chegou. Disse que queria ser mãe de alguém, não a madrasta.
— Não foi a frase mais bonita do mundo — admiti, um pouco arrependida. — Não soube me expressar — justifiquei.
— Isso já não importa. Importa que, em casa, tudo está em paz, nós estamos aqui, quase nos afogando na felicidade e, agora, estamos decididos a ter um filho. Ou dois... Ou cinco. Um time de futebol, se você quiser! — me girou no ar.
— Para, para — reclamei. — Acabei de comer.
— Do jeito que você comeu, é até perigoso.
Bati em seu ombro, como de costume.
— É brincadeira, ! Que violência é essa?
— Ai, coitadinho, vem aqui — abracei-o, fazendo recostar a cabeça no meu ombro. Sua respiração vinha diretamente contra o meu pescoço. — Não vou mais bater em você. Mas pare de dizer “”.
— Ótimo — ele beijou meu pescoço repetidas vezes. — Eu mereço um presente por ter cozinhado para você, não acha?
Afaguei seu cabelo.
— Isso é um “sim”?
Assenti com um “Aham”.
— E eu posso escolher? — seus lábios subiram até a minha orelha.
— Não estou em condições de responder nada agora — disse pouco depois de fechar os olhos e segurar seus ombros.
— Então, vamos descobrir se o seu vestido é fácil de tirar.
Depois disso, pude sentir perfeitamente a alça saindo do meu ombro e indo alguns dedos abaixo, no meu braço.

Pouco depois das sete, quando voltamos de uma ida rápida até a praia, acabamos saindo para comer num restaurante de frutos do mar perto dali. A coisa mais comum em ser turista num lugar de praia é ir comer onde há frutos do mar. Ficamos em uma das mesas externas, vendo as ondas batendo na areia a alguns metros de nós e o céu repleto de estrelas lá em cima.
— Vamos ter que nos mudar para um apartamento maior.
— Já está fazendo planos? — Ao mesmo tempo em que eu estava animada, estava surpresa.
— Mudar de ambiente me deixou feliz, animado... E com a conversa que tivemos mais cedo, fiquei mais firme sobre a ideia de sair de onde moramos.
— Você ama aquele apartamento — lembrei-o.
— Eu sei. E ele é muito bom, é verdade. Para um cara sozinho. Agora somos três pessoas e sei que logo vamos ser quatro.
— Mas Olly quer voltar para Roma.
— É. Ela quer. E vai, se essa é a vontade dela. Só que, vez ou outra, ela virá. Ainda mais Nova York sendo a metrópole fashionista que é. Ainda há sua mãe que sempre vem passar uns dias conosco e que, quando ganhar um netinho, vai vir com mais frequência, afinal, será um aniversário a mais ao ano... Não vou vender onde moro. Não preciso fazer isso.
— Ai, rico — brinquei, por mais que fosse a mais pura verdade.
— Eu tenho você, sou milionário por isso.
— Você precisa parar de me deixar sem resposta.
— É divertido. Você abaixa os olhos e fica meio corada quando está sem resposta para as coisas.
— Amo você.
— Eu também.
Toquei seu rosto.
— Podemos voltar? — Pedi. — Estou cansada por causa do fuso-horário.
— Claro, eu vou pedir a conta e a gente vai.
— Está bem — concordei.
Na volta, caminhamos devagar, ouvindo as ondas por boa parte do caminho até que estávamos de volta ao barco. Tudo era calmo, feliz e maravilhoso. Eu me sentia bem como não acontecia havia muito tempo e era grata por isso. Sabia que voltaria para casa com mais ânimo e sem preocupar sobre estar me apagando aos poucos.
Tentei ver um DVD de “Uma Linda Mulher” — filme de mulherzinha, sim — que encontrei numa das gavetas do quarto, mas acabei cochilando menos de cinco minutos depois de começar a afagar o meu cabelo. Por mais exausta que estivesse, eu estava me sentindo alegre, portanto, dormi como um bebê. Tranquila e serena, sem me preocupar com o mundo fora daquela bolha que o Havaí me proporcionara — e que eu levaria para Nova York de uma forma ou de outra.



Capítulo Vinte e Dois
Eu me lembro de nós dois juntos.

Remember December — Demi Lovato


Sábado nasceu lindo. Da janela do quarto, o Sol brilhava como uma coroa que adornava o mar azul abaixo de si. Depois de passar café, passei algum tempo na janela com uma caneca nas mãos observando a imensidão azul diante de mim. Parecia uma pintura.
Fui até minha bolsa e peguei meu telefone, tirando uma foto daquela vista logo em seguida. Era bom ter algo além de carros e uma cidade fascinante de prédios que mais parecia uma maquete. dormia então, permaneci em silêncio, dando a ele um descanso merecido. Patrick viria apenas ao meio-dia e nem eram oito da manhã ainda.
Foi impossível não me lembrar de quando eu era criança e pensava em tirar férias num lugar como aquele. Mas, depois, a vida foi mudando, eu fui crescendo e deixando a vontade para lá. Quando, praticamente, me esqueci dela, fui intimada a fazer as malas e ir para o Havaí. Fazer planos, ver o Sol e ser feliz como há dias não parecia possível.
Virei-me para trás, ainda dormia. O rosto relaxado como uma criança protegida do mundo. Achei melhor catar alguma blusa e shorts na mala e tirar a camisola cor-de-rosa que me obrigou a comprar. Depois de vestida, prendi o cabelo com num coque, com a ajuda de um grampo e lavei minha xícara. Voltei para a janela, ainda surpresa por ainda dormir. O relógio beirava as 9h da manhã, e eu precisava admitir que estava um pouco cansada de ficar sozinha, então achei que deveria acordar. Eu só precisava pensar como acordá-lo, porque ele parecia uma pedra e sabia que o método tradicional, para variar, não funcionaria.
, acorda, são nove horas — chamei, batendo em sua perna.
Ele apenas resmungou alguma coisa que não entendi — e que parecia russo — e se virou, me fazendo rir.
— Qual é, Jonas, acorda — bati de novo, rindo.
— Não quero — agora entendi.
Olhei para o meu lugar na cama, vazio. Aquilo me deu uma ideia. Puxei um dos travesseiros. Bati em com ele.
— Acorde, “Belo Adormecido” — falei, já de joelhos sobre o colchão.
— Não adianta, não quero — sua risada entregou o fato de que ele já estava acordado.
— Fiz café. Levante — uma última batida, agora contra seu traseiro.
— Ei! — Protestou. — Agora acordei de vez, , obrigado! Solte o travesseiro que eu levanto — propôs, ainda de bruços.
Joguei o travesseiro no tapete, fazendo praticamente voar sobre .
— Pronto! — Avisei, recostando-me a cabeceira macia da cama.
— Não se acorda um homem dessa maneira — rapidamente, se virou, me fazendo ficar sob ele. — Eu podia morrer de susto.
Comecei a rir.
— Você parecia morto quando comecei a chamar — alfinetei.
— Quer que eu morra! — Fingiu-se de dramático. — Senhoras e senhores, a mulher que jurou me amar quer que eu morra! Vou deixar tudo para a Olly, fique bem avisada.
Aquilo me fez rir mais.
— E ainda ri — completou ele.
— Acordei cedo. Nem eram oito horas... Cansei de ficar sozinha olhando o mar pela janela — expliquei.
— Acordou cedo? — fingiu espanto. — Depois de tudo ontem, você... Não estava cansada a ponto de dormir até às dez? Estou velho. É isso que dá beirar os quarenta com uma garota que nem fez vinte e seis ainda. Ando me cansando por qualquer coisa...
— Qualquer coisa não, né? — Reclamei. — Mas você não está beirando os quarenta. Trinta e cinco anos não é beirar os quarenta, Jonas, pelo amor de Deus. E gosto de você assim, apesar dessas rugas que andam surgindo...
— Haha, muito engraçada — ironizou.
Eu ri.
— Não tenho rugas. Se eu for ao casting da nova modelo do novo perfume que criou, as garotas vão me cantar, sabia? — Gabou-se.
— Claro, , claro. Elas vão cantar você e vão parar debaixo dos trilhos do metrô misteriosamente...
— Meu Deus! Você tem uma mente assassina — ele riu e desceu os lábios até o meu queixo, me dando uma mordida.
— Eu devia ter te acordado às oito se soubesse que ia deixar tudo tão divertido — comentei.
— Acordar um homem às 8h de um sábado num fuso-horário maluco, quando ele passa a semana inteira acordando cedo para trabalhar é crueldade. Um crime.
— Me castigue — sugeri.
estalou os dez dedos.
— Aprendi uma técnica de tortura ótima quando tinha uns cinco ou seis anos de idade...
— Que tipo de criança você era, ? — Arregalei os olhos.
e sua mente poluída — ele rolou os olhos, rindo. — Sempre pensando o que não deve... Agora fique pronta para a tortura, certo, ?
— Só me chamar de já é uma tortura — afirmei.
— Ora, eu gosto do seu nome. Agora fique quieta, deixe eu me concentrar.
— Ok — fiquei calada.
O silêncio — e minha vontade de rir — durou alguns instantes, até que começou a fazer cócegas e toda a gargalhada que eu tinha guardada saiu. Aquilo durou até que eu ficasse sem fôlego.
— Chega! Chega! Chega! — Pedi.
— Nunca maiSCRIPTs me acorde — brincou, me dando um beijo. — Vou tomar café, fique aí — ele disse, saindo de cima de mim.
— Sim, senhor, presidente — brinquei, rolando na cama enquanto o via se afastar. — Deixei a cafeteira ligada! — Gritei.

Chegamos à Nova York às quatro e quinze da tarde de domingo. O JFK parecia tranquil/SCRIPT— Nunca mais me acorde — brincou, me dando um beijo. — Vou tomar café, fique aí — ele disse, saindo de cima de mim. bro e não tinha nenhuma celebridade nele — estavam todas ocupadas demais com o LAX.
Pegamos as malas, tomamos um táxi e voltamos para o apartamento. Era estranho pensar que os meus dias naquele lugar, com aquela vista estupenda, estavam contados. Tudo o que eu fiz foi correr para o banheiro e tomar banho, já que precisaria estar no St. Francis às 17h15min para buscar Olly, que vinha chegando de Nova Jersey.
Eu — Você deve ser Patrick — deduziu havia atendido ao telefone de quando ela ligou, sábado à noite no Havaí. A garota foi simpática e perguntou se me contara que ela nos desejara boa viagem. Confirmei a informação e perguntei a ela se estava gostando do meu estado. Ela disse que a pizza não era, nem de longe, tão boa quanto de NY, mas que o sorvete lembrava muito o de Roma. Depois que entreguei ao aparelho a , eles conversaram por um tempo. Fiquei pensando que a garota realmente havia se acostumado aos meses em NY e já não me chamava de Consuelo ou qualquer coisa assim. A verdade fora libertadora para ela e isso me deixava tranquila. Principalmente, porque as coisas entre ela e iam muito bem.
e ela chegaram quase às sete com uma pizza grande nas mãos e dando risada sobre alguma história que a ruivinha contara.
— Oi, ! — ela disse, largando uma mala de mão sobre o sofá.
— Oi, Olly. Fez boa viagem? — Perguntei, meio surpresa pela doçura dela. Era bom que ela estivesse tão bem humorada, mas, ainda assim, era meio assustador. Soava um pouco anormal.
— Aham, fiz sim — ela disse. — , você pode me ajudar a separar a roupa suja, por favor? Eu fiz uma meleca danada comendo um gelato.
Estranhei, mas não vi problemas em ajudar — por mais que não fizesse do que a palavra “gelato” significasse.
Dentro do quarto, Olly pôs a sacola sobre a cama e começou a tirar as mudas de roupa. Havia pijama, roupa íntima e algumas mudas de uniforme, inclusive o de Educação Física.
— Fecha a porta, por favor — ela me pediu.
— Aconteceu alguma coisa? — Questionei, curiosa, enquanto fechava a porta de madeira escura.
— É... Eu não tenho como falar com o sobre isso... Você é garota, não é muito mais velha que eu e dá aula no colégio.
— Olly, pare de dar voltas, como o faz, e me diga o que quer dizer, está bem? — ri, surpresa com a semelhança.
Olly sentou-se na cama, empurrando um sutiã cor-de-rosa que não tinha jeito de ter sido usado. A mala foi parar no tapete logo depois.
— Ethan Hale e eu fizemos um trabalho juntos — começou.
Ethan Hale. Não era à toa que tinha aquela fama toda. Nem Olly e seu gênio rebelde foram capazes de detê-lo.
— E...? — Perguntei, sugestiva.
— Digamos que Ethan foi minha primeira amizade lá sem se tratar de Sky ou Jimmy...
— Como eu dizia quando tinha a sua idade: “enfiou a língua na garganta dele”, não foi?
Olly começou a rir.
— Duas vezes, eu acho. E agora na viagem também. No começo, antes de saber da fama dele, o cara me chamou atenção — ela olhou para a janela por meio segundo, depois, voltou a me olhar.
Eu me sentia uma irmã mais velha.
— Mas ele tem toda uma fama. E, qual é , você é jovem e completamente oposta aos professores rabugentos daquele lugar.
O comentário me fez rir.
— E o que aconteceu na viagem? — Perguntei. — E, sim, eu conheço a fama de Ethan... Mas, sabe, você só conhece uma pessoa de verdade quando lida com ela. O que as pessoas dizem soa de uma maneira diferente em cada ouvido. Para os novatos do primeiro ano, Ethan é uma espécie de herói com a fama de mulherengo que carrega. Para algumas garotas, é só um bad boy metido que se sente acima do bem e do mal quando o assunto é mulher... E por aí vai. Mas Ethan, apesar da fama, da marra e dos cigarros que eu sei que fuma escondido no intervalo, é um cara como qualquer outro. E tinha a namorada dele, a Quinn, ele sempre foi fiel a ela, só que aconteceu o que aconteceu... Algo de que ninguém tem culpa.
— É, a expulsão, eu ouvi algo sobre isso — Olly deu de ombros.
Ela não sabia o porquê da expulsão de Quinn ou era impressão minha?
Se a resposta fosse “não”, eu nada tinha a ver com isso. Se Ethan e ela se acertassem, ele que contasse seus problemas a ela, não eu. Era pessoal demais.
— Ethan quer que eu saia com ele — disse Olly, me trazendo de volta ao presente. — Mas ainda não sei se quero fazer isso.
— Pela sua cara, Olly, você quer... — minha expressão de obviedade era clara. — Só está pensando se vai em frente ou joga tudo isso pela janela. Olhe, você está cada dia mais perto de ir para Milão estudar moda, Nova York sempre estará aqui, mas a escola não. Saia com Ethan e se divirta. Você tem dezessete anos, é madura o suficiente para cair fora, caso se veja metida numa encrenca ou em um encontro furado. Confio em você, sei que vai fazer a coisa que for certa para você. E, caso Ethan seja o garoto da vez, aproveite. Viva as coisas. A vida é muito pequena para que você deixe os boatos embaçarem sua visão — levantei da cama, recolhendo as roupas que, obviamente, eram sujas. — Vou juntar estas às minhas e do seu pai que voltaram sujam do Havaí.
— Vocês se divertiram? — Ela perguntou, ainda sentada na cama.
— Muito — falei, já abrindo a porta para deixar o quarto de Olly.
— chamou.
— Diga — virei-me.
— Obrigada.
— Precisando, é só chamar — respondi, deixando o quarto definitivamente.
Levei as roupas para o cesto na área de serviço, encontrando no caminho.
— Por que demorou tanto para pegar a roupa suja da Olly?
— Coisa de garota — bati no ombro dele. — Não coma a pizza inteira, está bem?
riu.
— Não farei isso.

Para que os alunos pudessem tirar um dia de descanso, pelo fim de semana que lhes foi “roubado”, segunda-feira não havia aula. E eu não precisei trabalhar, por mais que não tivesse ido ao passeio, lecionava apenas para o último ano. E, se eles não tinham aula, eu não tinha o que fazer no St. Francis.
Vesti jeans, uma blusa solta com casaco e um par de botas sem salto, que eu comprara por impulso algumas semanas antes de Olly chegar e balançar tudo, que eu ainda não tinha tido coragem de usar. No colégio, usava os sapatos permitidos: scarpins e sapatilhas. Em casa, tudo o que eu queria era enfiar um par de tênis Converse ou Vans.
— Olly, eu vou sair — avisei, batendo na porta do quarto dela. — Volto em umas duas horas.
Ela gritou um “ok” lá de dentro, e eu peguei minha bolsa, saindo.
Senti-me plenamente feliz quando fiquei sozinha no elevador. Já era maravilhoso ter folga na segunda-feira, mas não dar de cara com a Sra. Black no elevador era melhor ainda. Na portaria do prédio, passava um táxi, mas achei melhor ir andando, como nos velhos tempos. Quando eu, praticamente, saia fugida daquele prédio depois do almoço e corria para a Lilac com medo de que Ramona ou Alex desconfiassem de alguma coisa.
Dobrei algumas quadras, atravessei as duas avenidas e logo estava lá, diante do prédio onde ficava a Lilac. Na portaria, disse que iria à agência de publicidade, situada no sétimo andar. O porteiro disse que se lembrava de mim e me mandou subir. Dentro do elevador — que eu não pegava há uns seis anos, mais ou menos, uma lembrança foi inevitável.

— Ela é sempre gentil daquele jeito?
— Aham, e escolhe um momento em que você esteja devorando um cachorro-quente para que possa se sujar de maionese.
— Idiota! — Bati em seu ombro.
— Agora não foi uma garota, foi meu irmão mesmo — ele se aproximou mais de mim. — Hey, ! Saia do corpo dela! Está me ouvindo, cara? Saia daí!
Não segurei o riso. Mas o problema não foi esse, o problema foi a proximidade que criamos. Eu estava a milímetros dele agora, começava a respirar pesado, quase sufocando e o meu coração batia de um jeito que eu achei que fosse morrer ou qualquer coisa assim. Era fora de sério, era inacreditável. O certo seria me afastar e fazer outra piadinha, eu não sei... A única coisa que eu sei é que eu não consegui. Um lado meu, um lado que eu sequer sabia da existência, foi tão mais rápido que quando dei por mim, eu o segurei pela gravata e falei:
— Você sabe o que tem que fazer agora?
Ele assentiu e me beijou. Sem rodeios, sem procurar nada. Ele apenas me beijou como se já me conhecesse, como se aquilo fosse algo normal... Como se já tivesse se acostumado a me seduzir simplesmente com um toque de lábios. E que lábios! Eram macios e ao mesmo tempo um pouco gelados... Eram como sorvete de menta, ele tinha gosto de menta e eu amava menta. Eu estava me viciando em menta naquele instante em que meus dedos descobriram o seu cabelo... Eu estava me viciando nele. Na adrenalina que passávamos um para o outro. Era maravilhoso e assustador como uma montanha-russa, era proibido e ao mesmo tempo, era o que deveria estar acontecendo. Ali eu soube que todo o meu fascínio desde o esbarrão gritava pela proximidade. Gritava pelo que acontecia naquele instante.


Fui despertada pelas portas do elevador se abrindo no sétimo andar. Saí de lá e vi Alex sentada em seu lugar de sempre. Ela mastigava alguma coisa, para variar, mas não estava tão atenta ao computador como era comum. Ela não me viu, pois estava ajeitando alguns papéis. Aproximei-me da mesa dela em passos pequenos, pondo a mão sobre a mesma.
— Ai, cacete, será que a Ramona tem alguma entrega para eu fazer? Só falta me mandar para a Jonas & Co.! — Brinquei.
Alex olhou depressa.
— Meu Deus, ! Ah, quanto tempo! — Ela saiu de seu lugar, dando a volta para me abraçar. Não mudara muito. Ainda tinha os cabelos pretos, lisos e compridos. Estava mais velha, era verdade, mas nem por isso deixara de ser bonita.
— Alex, que saudade! Como você está?! — Perguntei.
— Olhe — ela me mostrou a aliança na mão esquerda. — Me casei!
— Ah! Meus parabéns! — Abracei-a de novo. — Achou na internet?
— Mais ou menos — ela riu. — Nós nos confundimos. Porque ele estava vestido como o cara que eu marquei, e eu segurava o mesmo livro que a garota dele prometera. Mas conversamos muito e acabamos começando a sair. Nos casamos no ano passado.
— Certas coisas só podem acontecer com você, Alex! — Falei.
— E você? Eu lhe vi numa dessas revistas de economia, quase não te reconheci de maquiagem, vestido e salto alto.
Eu ri.
— Às vezes, principalmente no princípio, nem eu me reconhecia... Mas é preciso, vez ou outra.
— Candice quase caiu dura quando soube que se casou com você — isso, ela cochichou. Certamente, porque Ramona estava na sala dela.
— Mas ela sabe que eu o via escondido?
— Acho que não — o tom ainda era baixo. — Se bem que ela se casou com um milionário de Austin e agora vive no Texas.
— Candice, no Texas?! — Falei surpresa. — Muito me admira que ela não tenha assassinado nenhuma vaca de uma cidade vizinha para fazer sapato ou bolsa.
Alex riu.
— E Ramona? — Eu quis saber.
— Achei que vocês se vissem, já que ela ainda trabalha com — Alex pareceu surpresa.
— Sim, eles trabalham juntos ainda, mas não têm parentesco mais. E eu nunca vou à fábrica, passo mais tempo no colégio dando aulas.
— Você se formou?! — Alex abriu um sorriso.
— Sim, ano retrasado. Estou na minha primeira turma sem ser substituta. Dou aulas para minha enteada, acredita?
— Eu ouvi algo sobre a filha do , mas achei que fosse história.
— Não é. Mas, chame a Ramona, quero vê-la.
— Claro! Espera um segundo, senhora — Alex debochou.
— Ande logo, subordinada — fingi esnobismo.
— Ramona, tem visita para você aqui na sala de espera. Sim, você tem de vir aqui — Alex desligou e dirigiu-se a mim. — Ela já vem.
— Obrigada. Mas... Quem faz entregas agora? — Perguntei, curiosa.
— Acho que já mudou umas dez vezes. Ian, Thomas, John, Taylor, outro Ian, outro John, Jack… Agora é um cara chamado Rafael, parece que é do México, uma coisa assim. Deve ter uns vinte e poucos anos. É rápido, divertido, mas nem de longe é você sujando a cara de maionese de susto — Alex riu.
! Não acredito! Voltou para pedir emprego? Diga que sim!
Virei-me para Ramona, abraçando-a.
— Quanto tempo! Como vão as coisas?
— Bem — ela disse. — Mas ninguém faz entregas como você fazia. Nem nos diverte tanto!
— Foi o que eu acabei de dizer — disse Alex.
— Ser a “Menina da Entrega” é um dom. Quase uma carreira — brinquei.
Fiquei conversando com as duas por mais meia hora e disse que tinha coisas a fazer. Na verdade, apenas queria voltar para casa e tirar um cochilo. Ramona foi legal comigo — eu tinha certo receio quanto à reação dela, afinal. Mas, no fim das contas, tudo ocorreu como deveria. Ramona sempre foi uma boa pessoa, educada e sem neuroses ou o histerismo da irmã. Não citou o nome de Candice em momento nenhum, nem soltou indiretas. Apenas me desejou sorte e me disse para ir vê-las quando quisesse.



Capítulo Vinte e Três
Por baixo da superfície
Existe muito que você precisa saber.

Got Dynamite — Demi Lovato


Olly Petroni’s POV


A conversa que tive com permaneceu na minha cabeça tempo suficiente para me fazer tomar uma decisão sensata. Na terça-feira, no horário da troca de período, deixei um bilhete para Ethan dentro do seu armário. Nele, eu avisava que precisava falar com ele no intervalo, no mesmo lugar da primeira vez. Depois dali, não prestei atenção nas aulas que seguiram. Fiquei apenas vendo o tempo se arrastar em meu relógio de pulso.
O sinal do intervalo tocou e avisei à Sky que tinha algo a resolver. Ela disse que ia almoçar com Jimmy e que nos víamos depois, na aula da . Agradeci mentalmente pela garota do invejável cabelo preto não ter o péssimo costume de fazer perguntas.
Quando eu cheguei ao carvalho dos fundos, Ethan já estava lá. Sentando embaixo da árvore com seu cabelo liso e escuro escorregando contra o rosto. Ele jogava a cabeça para trás algumas vezes, livrando-se da mecha.
— Ethan — eu chamei, assim que cheguei mais perto.
Ele se levantou e bateu as mãos nas calças, a fim de limpá-las.
— Você quer falar comigo, Olly? Tem a ver com o que aconteceu na viagem?
Quando ele falava sobre “o que aconteceu na viagem”, eu tinha certeza de que tinha a ver com o que se passara no corredor do hotel, na madrugada de sexta para sábado, ainda na primeira cidade. Nós nos encontramos — acredito eu que não por acaso — no corredor do meu quarto, no segundo andar. Depois de um pouco de conversa jogada fora, Ethan me beijou, e eu cedi. Simples assim. No final, ele me pediu para parar de evitá-lo e seguir em frente com o que poderia, amanhã ou depois, virar um relacionamento. Tudo o que Ethan Hale não queria era que evitássemos algo que estava claro desde o meu primeiro dia no colégio.
— Sim, tem — eu falei, abaixando-me e me sentando ao seu lado. — Você tem razão quando diz que temos alguma coisa, tipo um ímã.
— É, por esse caminho... — Ethan não me olhou, manteve os olhos fixos ao prédio um pouco longe de nós.
Mantive os olhos em seu rosto um pouco quadrado.
— Qual a sua resposta? Vai continuar fingindo que me odeia e ligando para o que as pessoas dizem? — Ethan era sempre direto. Essa era uma qualidade nata.
— Fodam-se as pessoas.
O rosto dele virou, seus olhos pretos sobre mim agora.
— Jonas e Hale a partir de agora? — Com a mão, Ethan levantou meu queixo.
Quase — abaixei sua mão. — Tem uma pequena condição.
— Qual?
— Por que falam tanto sobre você e Quinn? O que fez com ela? Ou o que alguém fez? Por que ela foi expulsa?
Ethan respirou fundo, toda a marra que ele tinha pareceu evaporar e ser levada pelo ar. Quase me arrependi pela pergunta, mas, sem a resposta, eu não saberia direito o que esperar de tudo aquilo. Era o que eu precisava para ter certeza se havia tomado a decisão certa ou não.
— Não falo sobre isso com muita gente. Com ninguém daqui, mais especificamente — Ethan observou, primeiramente. — Mas se é isso que você quer saber, é isso que vou contar.
— As pessoas inventam histórias?
— Elas têm suspeitas, mas certezas — o garoto balançou a cabeça negativamente. — Não, elas não têm certeza de nada. É difícil falar sobre isso porque poucas pessoas acreditam em como eu me senti, como, talvez, eu ainda me sinta por causa de Quinn e do... Do neném que ela esperava.
— Você a engravidou? — Não houve choque, não houve espanto, nem surpresa na minha voz. Houve compreensão, estranhamente. — E por isso a colocaram para fora? O que fizeram com ela, o que fizeram com o bebê? — Jovens grávidas sempre mexiam comigo. Era como se eu me visse naquelas crianças, visse a Olímpia que dava o presente de Dia dos Pais para o zelador do colégio ou, quando tinha comida, para algum pobre.
— Foi um acidente. O preservativo ficou no porta-luvas do carro e estávamos no banco de trás... Sei que isso não é desculpa, mas... — Ethan me olhou, talvez preocupado em saber se não estava sendo detalhista demais.
Com a cabeça, fiz sinal para que ele continuasse.
— Os pais dela são uns banqueiros da cidade, sempre achando que estão acima do bem e do mal. O comercial de margarina light deles veio por terra quando Quinn deu a notícia. Por mais irresponsável que eu tenha me sentido, a ideia de uma vida que dependeria de mim me animou.
Aquilo me fez sorrir. Acabei fazendo sinal para que Ethan deitasse a cabeça nas minhas pernas, e ele obedeceu.
— Porém, para os pais dela, era uma vergonha, uma desgraça... Sei lá! Eles eram pirados. Fizeram Quinn abortar. Sem escolha. Algumas aspirinas e eles se tornaram assassinos de alguém do próprio sangue. Quinn ficou desolada, enfrentou alguns meses de depressão e meteu os pés pelas mãos aqui. Quando foi expulsa, os pais dela resolveram ir para Londres e levaram-na consigo. As pessoas dizem que eu a droguei e por isso ela foi expulsa, mas a única substância no corpo da Quinn na época era os antidepressivos.
Naquele momento, me senti mal. Havia julgado Ethan, me deixado levar pelas pessoas e pela imagem de bad boy que ele carregava.
— Entende agora, Olly? Entende porque é complicado para mim confiar nas pessoas? — Ele disse, agora sentado como eu.
— Fico feliz que tenha confiado tanto em mim — consegui responder. — E me desculpe por te fazer remexer em algo tão pessoal.
— Relaxa, Petroni — ele riu torto. — Sempre soube que te contaria, mais cedo ou mais tarde.
— Sempre?
— Ah, qual é, Olímpia — Ethan riu, aproximando o rosto do meu. — Você se julga tão esperta, mas não sabe o que está rolando?
Cosa sta succedendo? — Perguntei, sabendo muito bem o que acontecia. Só estava a fim de jogar. Era divertido.
Ethan não respondeu, riu torto, balançando a cabeça para afugentar a mecha preta e lisa de cabelo que escapava para o rosto. Instintivamente, eu toquei com a ponta dos dedos a parte do rosto dele onde o cabelo estivera. Quando Ethan me beijou, eu cedi. Caí de cabeça. Se eu havia ido até ali, iria até o fim agora.

Jonas’ POV

As portas do elevador se abriram no andar da presidência da Jonas & Co. Eu havia combinado, alguns dias antes, que sairia com para almoçarmos juntas e conversarmos um pouco. Agora, eu estava animada em saber o que ela poderia me contar sobre a sexta-feira com . já estava com a bolsa no braço, à minha espera. Um sorriso nasceu quando ela me viu.
— Oi! — Falei, me aproximando.
! — Ela me abraçou. Correspondi. — Como foi de viagem?
— A lua de mel que eu não tive — ri. — Vou ali dizer “oi” ao e a gente sai, aí nós conversamos, ‘tá?
— Claro. Vai rápido antes que ele troque você pelos espanhóis — ela riu.
Caminhei até a sala de e bati na porta. Ouvi seu “pode entrar” característico e abri a porta, caminhando para a sala.
— Vim te dar um “oi” — falei, caminhando até sua mesa.
levantou e me deu um beijo rápido.
— Oi, — ele disse. — Vai almoçar com a hoje?
— Uhum — respondi, beijando-o de novo. — Vou te deixar à espera dos espanhóis.
— Eles são velhos barrigudos — riu, falando baixo.
Eu ri alto.
— Eu vou logo porque e eu temos um horário a cumprir — andei até a porta. — Estou indo, a gente se vê a noite — joguei um beijo.
— Amo você. Até à noite — encostei a porta. Virei-me para onde estava . — Bem, vamos lá?
sorriu animada, erguendo os ombros.
— Vamos.
Pelo caminho até um restaurante de comida natural — por mais “não eu” que aquilo pudesse parecer —, conversamos coisas bobas e narrou a história da saia, me fazendo gargalhar. Ela negava ser sempre estabanada daquele jeito, mas eu sabia que, sim, ela era.
Sentamos numa mesa ao ar livre e logo um dos garçons trouxe suco e uma salada de frango que era a única razão por eu idolatrar um lugar onde fast food era algo proibido.
— Você comendo aqui é surpreendente! — riu, dando um gole em seu suco de framboesa.
— A salada é boa, ok? — dei de ombros. — E a limonada é a melhor de NY inteira — expliquei. — Agora, eu acho que você deve aproveitar a chance que está vindo para as suas mãos — eu estava me referindo a e sabia que sabia disso.
— Vamos dar um passo por perna, ‘tá legal? — Ela deu uma garfada na sala.
Como se sua boca cheia me impedisse de fazê-la falar.
— Por você e por ele — comentei. — já não é o mesmo cara de quando eu comecei a sair com o . Sei que você sabe disso, mas... Sempre é bom ressaltar. Além do que, você empurrou inúmeros relacionamentos com a barriga desde que lhe caiu a ficha de que é o cara pelo qual você tem esperado desde o colégio.
— É, eu sei que tenho feito isso — ela balançou a cabeça. — Mas é uma pessoa, eu sou outra e... Bem, eu penso nele. Eu me animei com os almoços, mas e ele?
— Saia com ele de novo. Não para almoçar, saia como se deve. Para jantar, cinema, dançar... é bom em paintball, sabia?
— Eu sou fresca demais para jogar esse negócio — riu. E ela era.
— É, eu sei — ri. — Mas olha, dê uma chance, ‘tá legal? A você mesma e ao . Ele cresceu! Virou um homem. Completamente diferente daquele moleque perdido de uns anos atrás. Se você quer ser alguém na vida dele, se quer dar a sorte que eu dei – ok, não é para tanto — me gabei.
me acertou com o guardanapo.
Continuei:
— Aproveite essa chance. não vai ficar solto para sempre, ainda mais agora.
pareceu pensar.
— E me ligue para me contar. À hora que for, ouviu bem? — Ressaltei.
— Claro, , claro!
Jogamos um pouco mais de conversa fora e prometi à que, quando meu bebê viesse, ela seria a madrinha e terminamos o almoço. Infelizmente, fomos para lados opostos: ela para a Jonas & Co. — o que me deu uma pitadinha de inveja — e eu para o colégio.
O caminho, de metrô, foi rápido. Quando cheguei à sala dos professores — ainda com dez minutos de sobra —, Crayg estava na sala dos professores, o que não era uma coisa muito comum. Os professores todos pareciam concentrados na mesma coisa, perguntei-me se tinha a ver com Crayg lá e logo tive minha resposta. Dos lábios da mesma, para ser mais exata.
, que bom que chegou — a simpatia dela me pegou de surpresa.
Algo me dizia que minha expressão deixava aquilo claro.
— Ah, olá, Diretora — respondi, sem entender droga nenhuma.
— Quero que conheça o novo professor de matemática do colégio — ela saiu um pouco para o lado, dando-me a visão de um homem jovem, alto, de pele clara e cabelo escuro. Os olhos, escondidos por trás de óculos que — apesar dos aros grossos — eram bastante modernos, não me deixavam ter certeza se seus olhos eram verdes ou azuis. Ele usava uma camisa branca de botões com calça preta e cinto. Estendeu a mão para me cumprimentar.
— Muito prazer, sou Clay Estmont, o novo professor de matemática do terceiro e quarto anos.
— Igualmente. Jonas, professora de inglês — respondi, apertando sua mão.



Capítulo Vinte e Quatro
Mas eu vou dar uma chance a nós
E espero que você não destrua o meu coração.

You’re My Only Shorty (ft. Iyaz) — Demi Lovato


— Eu acredito que você e terminem se dando bem, afinal, têm a mesma idade — Crayg disse a Clay.
— Ah... Acho que isso é bom — ele disse, sem muita certeza, mas riu.
— Sim, a Sra. Jonas é a favorita dos alunos — comentou alguém ao fundo. Acreditei se tratar de Robert Zimermann, professor de francês.
Os outros riram.
— Bem, eu tento entender os jovens... Acho que a idade ajuda — justifiquei. — E uma boa história engraçada também.
— Venho de Los Angeles — Clay contou. — Devo ter alguma história engraçada. Ainda mais tendo de lecionar matemática.
Clay parecia um cara legal — além do que, eu tinha a sensação de que as garotas iriam terminar gostando dele. Sua vinda ao colégio me deixou alegre, alguém jovem além dos alunos, disposto a animar a manhã de todos aqueles garotos. Alguém além de mim, era uma espécie de alívio.

Jonas’ POV

— Como foi com os espanhóis? — Falei, entrando na sala de .
— Como sempre. Eu digo as palavras certas e eles fecham negócio — para variar, se gabou. Era tão bom negociante que, às vezes, eu achava que ele era judeu.
— Você não ocupa essa cadeira à toa — respondi.
— E a estagiária? — perguntou direto. Só podia ter aprendido isso com .
— Acho que está bem — desconversei.
— Ora, ! Deixe de ser um frangote!
Olhei para ele, meio incrédulo.
— Eu sei sair com uma mulher pelas minhas próprias pernas, .
— Claro que sabe. O problema é chamá-la — pressionou os lábios. — Ao menos, neste caso.
Sentei-me numa das cadeiras em frente à mesa do meu irmão.
— Vai lá, Don Juan, me diga como fazer as coisas — ironizei.
— Não é como fazer, é fazer de uma vez por todas, sinceramente. A garota é o seu tipo, não é? Além do que, ama os perfumes como você ama, já a ouvi falando sobre eles e, não fosse a voz suave, juraria se tratar de você.
Olhei para , segurando a vontade de rir.
Ouvi o barulho da porta.
— Reunião de família?
Virei para ver quem era e dei de cara com .
— E aí? — Ele me disse.
— Oi, — falei.
— Qual é o assunto?
— Convencer o a chamar a estagiária para sair — disparou.
Eu ia ter uma conversa com para saber que tipo de lavagem cerebral ela tinha feito com .
— A brasileira? — puxou a cadeira ao meu lado. Sentou-se.
— É... A . Ela tem um nome, caso os dois adolescentes tardios não se importem — corrigi.
— Então, a ... — se pronunciou. — Cara, acho que você devia se dar uma chance e dar uma chance para a garota. Além do que, acho que ela é divertida. Ela vem de um lugar divertido. Experiência própria.
— Você, por acaso, parou de enrolar a secretária do ?
arregalou os olhos.
— O assunto é você — desconversou. — Chame-a para sair. Se ela for uma maníaca, uma solteirona, qualquer coisa do gênero... Você se manda, simples. Depois, inventa uma doença contagiosa e evita o contato fora do laboratório.
Uma coisa tão maluca só podia vir de . Ninguém no mundo, nem , poderia dizer aquilo.
gargalhou.
— Pelo amor de Deus, — falou.
Mas eu estava começando a pensar. Conversar com era divertido, ela gostava de me ouvir. Isso me deixava... Satisfeito, na falta de uma palavra melhor. E um choque cultural seria legal. Querendo ou não, isso existiria. E poderia render algo bom.
Até mesmo um perfume.
— E daí, , vai chamar a garota para sair? — me despertou.
— Isso é coisa minha — levantei-me ao responder. — Agora, eu tenho que voltar para o laboratório.
— Vai chamar a ? — Foi a vez de .
Parei para responder:
— Se isso vai acalmdocument.write(Maddie)ar os dois malucos, sim, vou chamar a garota para sair. Se ela me der um fora, vocês dois vão me pagar — alertei, fechando a porta.
Tomei o elevador e fui até os laboratórios. Avistei analisando algumas fragrâncias e, com um aceno de cabeça, indiquei que precisava falar com ela no que dissera ser minha sala, mas que eu nunca usava. Logo que entrei, ouvi a batida dela. Mandei que entrasse e encostasse a porta. Ela o fez.
— Aconteceu alguma coisa? — Ela tinha um ar de preocupação na voz, além do sotaque, que era bem leve.
— Na verdade, não. Fique tranquila, — respondi.
Ela sorriu, meio aliviada.
— O que vai fazer na sexta?
— Como é? — Ela estranhou a pergunta, pude notar pelo modo como franziu o cenho.
Naquele momento, me peguei sendo direto demais. Parecia que havia contagiado a e . Agora, era minha vez.
— Eu acho que vou apenas trabalhar na sexta, por quê? — Ela ainda estava desconfiada, mas, ainda assim, me deu uma resposta.
De repente, eu esqueci como se fazia aquilo. Não que houvesse uma fórmula para chamar uma garota para jantar, não havia — quem dera! —, mas, do nada, acho que esqueci aRIPTTté mesmo as palavras certas a serem usadas. me observava, certamente, querendo uma resposta. Se eu tinha começado, tinha que terminar. Acho que essa frase era da também.
Balancei a cabeça.
? — chamou. — , está tudo bem?
— Claro, me desculpe — consegui responder, com vontade de ebrnfiar a cara no primeiro vidro de ácido que eu encontrasse. — Eu perguntei o que você vai fazer na sexta porque pensei que poderíamos, eu não sei, sair. Eu conheço um restaurante ótimo.
— Sair? — Sua pergunta foi inocente.
— É! Olha, eu sei que você é nova na cidade e... Não é assédio sexual, por favor, não entenda errado, eu só... — Só estava falando um monte de besteira. E sentindo a minha cara queimar por dizer tantas bobagens.
— Eu não entendi errado — riu. — Pelo contrário, eu acho muito gentil da sua parte.
Fiquei esperando pelo “mas”.
— Sexta às 8h? — Ela sugeriu. — Dá tempo de eu ir para casa e me arrumar.
Fiquei aliviado pelo jeito dela. Não foi grosseiro ou apressado. Simplesmente, solucionou a confusão que eu estSCRIPTdocument.write(Kevin)ava criando.
— Se é bom para você, é bom para mim também — o “sim” dela me deixou animado. Foi meio desastroso no começo, mas talvez e tivessem razão, eu deveria mesmo dar uma chance à , à vida e a mim mesmo. — Só deixe seu endereço anotado em algum papel.
pegou um bloco de notas que eu tinha sobre a mesa e, abrindo bem no meio, arrancou uma folha. Anotou numa caligrafia miúda, mas legível, o endereço completo.
— Sexta, às oito — eu sorri, aliviado por não ter tomado um fora.
— Posso só pedir uma coisa?
— Claro, peça — respondi.
— Não comente com ninguém sobre sexta. Eu não quero criar problemas por aqui. Se não for pedir demais, claro.
— Não. Não vou falar, relaxa. Pode dar a desculpa que quiser sobre eu ter te chamado, vou acatar — bati continência.
riu de novo.
— Então, — ela disse mais formal, saindo da tal saleta. — Agora sabe onde eu guardei as amostras.
— Sei sim — eu disse, seguindo-a. — Desculpe tirá-lo do seu trabalho, .
— Sem problemas — ela me sorriu.
podia ter razão, afinal, eu começava a ficar alegre.
Meu celular vibrou no bolso dos jeans.

Fez o que tinha que fazer?


Era uma mensagem de .
Lembrei-me do pedido de .

Ora, vá plantar batatas!


Respondi.

Jonas’ POV

— O que ele respondeu? — atirou uma bolinha de papel e acertou no cesto, perto da porta.
— Me mandou plantar batata — respondi.
— Cedo ou tarde, a gente descobre — se ajeitou na cadeira. — Os espanhóis me cansaram. O sotaque deles era muito pesado, quase morri para entender tudo!
— Por isso que eu vou abrir um restaurante — respondi. — Estou de olho em um lugar para alugar em Tribeca. Ainda não sei.
— Te dou total apoio.
Gostei de ouvir falar aquilo. Era bom ver que meu irmão estava ao meu lado. E eu ficava feliz em saber que ele tinha certeza do quanto eu tinha mudado. Só não tinha conseguido largar os cigarros, por mais esporádicos que eles fossem.
— E te dou total apoio com a também — soltou.
Ele tinha uma coisa de achar que, só porque vivia às mil maravilhas com , precisava arrumar a vida sentimental dos outros. Quis jogá-lo pela janela.
— Vamos dar um passo por perna — eu disse. — Eu me diverti com ela quando você foi para o Havaí e nem preciso dizer como ela é bonita...
— É a melhor amiga da minha mulher, eu não posso responder isso — meu irmão riu.
— Tem razão. Mas acontece que eu já cometi muitos erros, você viu a maioria, não quero meter os pés pelas mãos de novo — confessei.
— E não vai. Mas, seja qual for sua escolha, nós ainda somos irmãos e amigos. Sabe que pode dar um grito. Isso vale com também. Ela não está aqui, mas você sabe que sim.
— Se ela estivesse, ia encaixar um “cacete” no meio da frase.
riu alto.
— Eu amo aquela mulher — ele disse.
Parei, prestando atenção nele.
— Qualquer um vê isso.
— Papai está voltando. E nós sabemos que, pelas últimas coisas que me disse, vai deixar o controle total na minha mão. Inclusive as viagens.
parecia tenso. Papai de volta era mesmo um sinal de mudanças. Ele sempre disse que não adiantava termos fábricas e representantes no exterior se não cuidássemos de tudo nós mesmos. Portanto, muitos contratos, inaugurações, reformas e derivados, eram feitos ao decorrer do ano e, sempre num intervalo exato de tempo, nosso pai estava lá para conferir tudo.
A maior fábrica da Europa ficava na Alemanha, mas o país líder de vendas era a Inglaterra. Recentemente, havia sido inaugurada uma fábrica no Rio de Janeiro — foi quando vi meu pai pela última vez, nem tinha voltado para Nova York ainda —, de lá, os produtos eram exportados para a Argentina, onde havia lojas próprias: uma em Buenos Aires e outra em Córdoba. No Brasil, havia — entre estandes, lojas e quiosques —, mais de dez revendas próprias dos nossos perfumes. O que tornava a América do Sul rota de viagem, porém, menos frequente.
— Eu ainda não falei disso com a completou. — Ela ainda está se acostumando aos jantares, festas e coquetéis. Como vou jogar uma bomba dessas no colo dela?
— Mas não falar não torna tudo pior? — Questionei.
— Eu não sei. E se ela não souber lidar com as viagens? Pode se sentir sozinha, eu não sei, .
ama você. Vocês vão dar um jeito nisso, cedo ou tarde. E, quem sabe, daqui um tempo, você arrume alguém de confiança com quem dividir as viagens. , eu não acredito, já que ele gosta mesmo é do laboratório, mas... Não sei, alguém há de aparecer.
— Eu ainda tenho meus medos, . E não faço ideia de outra pessoa se não você ou . Mas eu sei que nenhum dos dois vai entrar nisso. Só não quero cair naquele negócio de sorte nos negócios e azar no amor. Foi complicado demais até aqui para ir pelo ralo agora.
A expressão de era mesmo a de preocupação. E eu quase conseguia entendê-lo. Nossa mãe fora muito paciente com tudo isso, mas as pessoas não eram iguais e, talvez, , ou até mesmo meu irmão, não segurassem a barra direito. Eu torcia pelo contrário. Eu e todo mundo que notava o estado do meu irmão.



Capítulo Vinte e Cinco
Você me faz querer dizer
Eu, uma família, uma casa, uma família,
Oh, será que podemos ser uma família?

I Do — Colbie Caillat


Jonas’ POV


Parecia um filme de terror. Clay não saia da minha cabeça. E não de uma maneira boa (mesmo porque, eu tinha me casado há alguns anos, não podia ficar pensando num cara, além de , de uma “maneira boa”). Talvez, o fato de ele ser atraente — eu tinha dois olhos ótimos bem no meio da cara — fosse o que me incomodava. Lá no fundo, talvez, eu só ficasse chocada com a sorte que as meninas teriam, coisa que não tive, já que meu professor de matemática do ensino médio tinha pouco cabelo e suava como um porco. Por isso, Clay era uma imagem repetida na minha cabeça.
Lidar com alguém jovem era o que me animava. Simplesmente, talvez, desafogasse os intervalos e períodos vagos no meio daqueles professores rígidos, caretas e preocupados demais em se mostrarem superiores diante daqueles “garotos malucos e irresponsáveis”, como gostavam de dizer. Parecia até que eles nunca tinham sido jovens! E isso me irritava. Eu sentia vontade de atirá-los, um a um, da janela do segundo andar, onde a sala dos professores se situava. Agora, vendo uma pessoa, um professor como Clay, eu me sentia mais leve. Menos forçada a fingir que também queria arrancar os rins de garotos como Olly e Ethan e que gostava do “puxa-saquismo” de Deborah Hills, obcecada em ser médica e sempre a primeira da classe.
Dentro do metrô, no caminho até a fábrica, pequenos flashbacks da viagem do último fim de semana me vinham em mente. Coisas que eu não apagaria nem mesmo se quisesse. Elas estavam em mim como uma tatuagem.

— Você já se imaginou num lugar assim, com alguém de quem gostasse muito? — perguntou, dando um beijo em meu ombro.
Estávamos sentados sobre a cama, observando como o mar. A Lua e as estrelas pareciam uma única coisa. Era nossa primeira noite naquele lugar incrível, portanto — apesar do cochilo que eu tirara, algumas horas antes —, juramos aproveitá-la da melhor maneira possível. Da última vez em que eu olhara no relógio, passava das duas horas da manhã.
— Já — admiti, meio corada. Assumir meu lado romântico era algo completamente difícil para mim. Quase impossível. — Só que, sabe o que dizem, nada sai como a gente imagina.
me puxou para trás, fazendo deitar a cabeça em seu ombro, para que pudesse me olhar nos olhos, já que, pela maneira como estávamos sentados, eu estava de costas para ele.
— Na sua imaginação era melhor? — Questionou, com seus olhos castanhos invadindo os meus sem piedade. Era como se ele procurasse a resposta na minha expressão.
Ri.
— Nem de longe! — Tratei de responder. Levei minha mão à sua, repousada sobre a minha perna, e brinquei com seus dedos. Fiz sua aliança rodar algumas vezes. — Você sabe o quanto é complicado eu ter de admitir que sonhei em fazer uma viagem dessas com alguém, não sabe?
Ele assentiu.
— Pois, então — meu tom tinha ar de obviedade, como se eu dissesse: “Minha vida, eu sei que você sabe que não gosto de admitir essas coisas, portanto, vamos trocar de assunto”.
Apesar do tom, a expressão de permaneceu igual, esperando por uma continuação àquela exclamação mixuruca de três palavras.
Fui em frente:
— Já ouviu algo tipo “Nada é exatamente como a gente imagina”? — Repeti. Olhei para ele, que assentiu. — Eu me via sim viajando com alguém, mas não para o Havaí! E muito menos ficando por uns dias num barco lindo desses... Sabe, nem tem tanto a ver com o conforto. Tem a ver com você ter se preocupado em me dar algo especial, apesar de não estarmos naqueles primeiros meses, quando fui morar no seu apartamento e assumimos publicamente. E o principal: nos meus sonhos, o cara não tinha rosto, não tinha suas qualidades, seu cheiro ou seu sorriso... Você supera qualquer coisa com a qual eu tenha sonhado — completei, finalmente.
Virei-me e fiquei de frente para . Sentada sobre os meus joelhos dobrados para trás, estava brincando com os botões nas mangas da camisa que ele me emprestara para vestir.
Houve apenas o seu olhar sobre mim, sua mão na minha testa, empurrando uma mecha do meu cabelo, e seu silêncio. Havia um sorriso também, o que me deixava completamente relaxada com relação a não receber uma resposta sua. Sorri de volta, admito que meio confusa com toda aquela quietude, mas, em um segundo, me dei conta de que, de nossas bocas, palavra alguma saía, mas, de nossos olhos, uma imensidão de frases e promessas se entrelaçavam, formando juntas um elo magnífico e indestrutível. Sorri mais ainda, levando minha mão à sua mais uma vez, entrelaçando meus dedos nos seus.
— Eu amo você, — por mais baixinho que tenha saído, nos meus ouvidos, pareceu música. Uma canção de amor.
Aproximou-se de mim, segurou meu queixo – ainda sem soltar minha outra mão — e me beijou calmamente.
Tive e sensação de voltar no tempo, de voltar à noite em que exorcizei o fantasma do passado, no instante em que me deitei sobre os lençóis novamente. Sem abrir os olhos, sem cortar o beijo, sem ter pressa de corresponder ao instinto... Apenas com a sensação dos dois corações batendo num ritmo único... E encantador.


A voz feminina nos autofalantes me despertou no instante em que anunciou que a próxima estação era onde eu deveria descer. Levantei-me do banco perto da janela, onde eu estava sentada, e pus a bolsa no ombro novamente. Perdida num passado recente, o tempo pareceu voar.
As portas se abriram, e eu desci, seguida por uma quantidade considerável de pessoas. Depois de deixar a estação, em passos rápidos, cheguei à recepção da Jonas & Co. Dei meus dados por formalidade — as recepcionistas já me conheciam — e tomei o elevador, indo direto ao último andar, à sala da presidência. O elevador parou e eu saí de dentro dele. Não contava apenas que ia dar de cara com Joshua.
Ao contrário do esperado, ele não sorriu para mim.
— Boa tarde — disse-me, formal.
— Boa tarde, Sr. St. Monique — falei, como sempre fazia.
, preciso falar algo com você.
Desconfiei.
— Tudo bem, diga — resolvi arriscar. Vi que, por cima da tela do computador, nos observava.
— Sinto muito pelo que aconteceu da última vez em que a vi — pediu. — Cometi um erro enorme por culpa do meu ego. Não quero lhe causar problemas.
— Olhe, Josh... O que você fez não se faz comigo ou qualquer outra mulher que você encontrar por aí. Mas não quero ser uma moralista, muito menos, me fazer de superior e negar suas desculpas. Passamos uma borracha. Porém, — prossegui — evite falar comigo mais do que o necessário. Com licença, está me esperando — sem lhe dar tempo para responder, caminhei até a sala da presidência.
— Entre sem bater — avisou.
Obedeci.
— Oi! Interrompo alguma coisa? — Eu disse assim que entrei.
— Não — veio até mim e me deu um beijo rápido. — Eu estava esperando por você.
— Não vai atrapalhar seu trabalho? A gente pode fazer isso num sábado, basta ligar para a corretora e...
— Não! — Interrompeu. — Sábados são sagrados e... Eu não tenho nada de extrema importância para esta tarde, está certo? É melhor irmos logo, não quero me atrasar.
— Nossa! — Ri, erguendo as mãos. — Então vamos, apressado — comecei a andar para a antessala novamente. Ouvi a porta bater.
disse, fazendo minha amiga direcionar sua atenção a ele. — Hoje eu não volto mais. Quando o e-mail dos espanhóis chegar, telefone-me.
— Sim, senhor.
Ver os dois daquele jeito me dava vontade de rir. Respirei fundo.
— Até qualquer hora, — eu disse, menos formal.
— Até, — respondeu, da mesma forma.
O elevador chegou e entramos nele.
— E se o elevador quebrar? — riu.
Só havia nós dois lá dentro.
— Vou entrar em pânico de novo, você sabe — respondi.
— Mas eu estou aqui — ele levou as duas mãos contra a parede metálica, me encurralando ali. — Como estive daquela vez.
— E deu no que deu.
Sua risada foi alta.
— Está reclamando?
— Claro que não! — Afirmei. — Elevadores dão sorte desde aquele dia — beijei-o.
Ninguém subiu. Descemos na portaria, nos despedimos das recepcionistas – que me pareciam sorrir demais – e fomos ao estacionamento. desativou o alarme e, como sempre, abriu a porta para mim.
— Se em nosso décimo aniversário você ainda fizer isso, vou começar a fazer inveja às Princesas da Disney — disse, prendendo meu cinto de segurança.
Ao meu lado, fez o mesmo.
— Eu tive um rolo com a Branca de Neve — falou ele, em tom divertido —, mas sabe como é, eu adoro maçãs e ela é meio traumatizada...
Bati em seu ombro levemente.
— Não tem mais o que inventar? — Quis saber.
saiu do estacionamento e, em seguida, nós já estávamos a caminho do primeiro apartamento, onde encontraríamos a corretora.
— Se nosso futuro bebê for uma menina, quero chamá-la de Annie — ele disse.
— Annie Marie, como minha mãe — completei. — Marie é o nome da minha mãe, então... Acho que pode ser um bom nome do meio.
— E se for garoto? — perguntou.
— Se for garoto, vai se chamar Nathaniel, como meu pai ia me chamar, caso eu fosse homem. E vamos chamá-lo de Nate — minha resposta foi rápida. — Meu pai foi um cara muito especial na minha vida, mesmo tendo me deixado cedo demais. Ele me amou, me ensinou muita coisa... Aprendi a lutar com ele, a ter coragem... Não tive tempo de dizer obrigada porque só pude usar (e me dar conta do que tinha ficado dele em mim) certo tempo depois de ele ter partido.
— Quer dizer que é quem é por causa do seu pai? — perguntou, parando num sinal vermelho. O mesmo sinal vermelho que eu parei e me vi atrasada anos atrás, quando nos chocamos.
— Sem dúvida nenhuma.
— Se, quando você engravidar, for um garoto, vamos chamá-lo de Nate — aquele tom de firmeza foi bonito. Foi especial ver que algo importante para mim, automaticamente, tornava-se importante para também.
— Obrigada — deitei a cabeça em seu ombro, rapidinho.
— De nada — o sinal abriu e ele voltou a guiar, atento.
— Vi o Joshua quando cheguei ao seu andar, agora há pouco — achei que seria bom contar. Continuei: — Ele me pediu desculpas, disse que se equivocou e que não quer ter problemas.
— E você? — A expressão facial de meu marido era dura.
— Eu aceitei, lógico. Mas disse a ele que não falasse comigo mais do que o necessário. Ou seja, nada fora me cumprimentar.
— E ele?
— Disse que faria isso. Então, pedi licença e fui para sua sala.
— Ainda não confio naquele cara.
— Não vai acontecer mais nada — mantive meus olhos sobre . — Ele pareceu mesmo sincero ao me pedir desculpas. Eu não sei o que disse a ele, mas, de um jeito ou de outro, deu resultado.
— Isso é o que eu espero — a expressão de ainda não relaxara.
Houve silêncio por alguns minutos.
— Espero que a gente encontre um lugar legal hoje — pronunciei-me, querendo quebrar o clima quase pesado que se instalara.
— Com sala e quartos bem espaçosos — suspirou.
— Um quarto para nós, para o bebê, Olly e um de visitas — relembrei. — E eu proíbo você de comprar um sofá novo.
— Por quê?
— Gosto do seu. É macio, é fofo e espaçoso. Gosto de cair nele para ver televisão nos fins de semana — justifiquei. — Não tem por que comprar outro.
— Tudo bem, a gente não vai comprar outro — rendeu-se, rindo. — Vai ser engraçado ver você cuidando de um bebê futuramente.
— Nunca cuidei de um, mas sei o básico.
— E como sabe? — tirou um segundo para me olhar, confuso, depois, voltou para a direção.
— Uma amiguinha de escola, quando eu tinha uns oito ou nove anos. A mãe dela teve um filho, e eu a via dar banho no menino, trocar as fraldas... Acho que foi ali que eu quis ter um bebê.
— É um desejo antigo?
Assenti.
— Bem antigo — completei.
— E vai realizá-lo comigo, um dia? — A voz de tinha um ar meio surpreso.
— Com quem mais seria? Não temos uma relação aberta.
Nós rimos.
— Não quis dizer isso. E nada de relação aberta, vale a pena ressaltar — explicou. — Você quer ser mãe desde criança e, bem, se é comigo que quer ter um filho, eu acho que devo me sentir honrado, não?
— Talvez você deva — respondi, sem muita certeza. — Para mim, não é muito difícil imaginar você brincando com uma criança e dando a ela uma sorte que não tive.
— Que sorte? — riu, curioso.
— Ser bom em matemática.
— Ah, sim — riu de novo. — Vai estar no meu DNA, prometo.
Notei o carro parar.
— Vamos? — Ele disse, soltando o cinto.
— Uhum.
Uma mulher baixinha, gorda, usando um terno bege com um lenço vermelho nos esperava. Ela nos cumprimentou e apresentou-se como Barbara Spencer, corretora de imóveis. Disse que era um prazer conhecer-nos (era um prazer conhecer a comissão, que eu sei...) e que tinha belos apartamentos para vermos por ali. Para aquele dia, ela tinha três. E eu rezava para que me apaixonasse de cara por algum deles.
O primeiro prédio era lindo. O porteiro chamou a corretora pelo nome, e ela disse que tinha mais clientes interessados no duplex do quinto andar. Tomamos o elevador, conversando coisas bobas até chegarmos ao quinto andar. Era o único apartamento.
A porta branca se abriu, dando-nos a visão de paredes e piso claros. Era uma sala ampla, com uma janela incrível — mas com uma vista nem tão incrível assim —, um pequeno escritório, sala de jantar interligada a uma cozinha americana e um lavabo. No andar de cima — interligado por uma escada sem corrimãos, o que me incomodou bastante —, três quartos (um a menos do que esperávamos) com banheiro e uma sala de TV.
— O que achou deste? — me perguntou já no elevador, de volta ao térreo.
— Um quarto a menos e a vista da sala é meio... Sem graça — disse, honestamente.
— Seu marido citou uma sala ampla, achei que essa era perfeita — Barbara se pronunciou.
— A sala sim e a cozinha também — completei. — Mas, né, tem dois ainda. Vamos ver — sorri.
Há algo ruim em pessoas que vendem coisas: por mais que elas tenham mais do que um para lhe oferecer, sempre esperam que você compre delas de cara.
O segundo apartamento ficava a três quadras dali, muito melhor localizado. Ficava longe da Jonas & Co, verdade, mas próximo do St. Francis — eu poderia acordar mais tarde e ir andando. Este ficava no último andar. Também era um duplex. A sala era maior que a anterior, havia duas janelas grandes; uma lateral e uma na parede em frente à porta de entrada. A vista desta última era de tirar o fôlego. Via-se a avenida (o que à noite deveria parecer um quadro vivo com as luzes da cidade e dos veículos), os prédios do outro lado dela e nas quadras próximas e o parque planejado que haviam feito numa antiga estação de metrô, já desativada há alguns anos. A cozinha, apesar de retangular, era espaçosa e bem iluminada — tal qual a sala — e a sala de jantar era interligada a ela. Havia um escritório e um lavabo.
No andar de cima, havia um banheiro e os quatro quartos que esperávamos, sendo que o maior deles tinha banheiro. A escada, apesar de pequena, tinha um corrimão e ficava grudada à parede que separava a cozinha da sala. Eu me apaixonei por aquele lugar. Eu me vi morando nele com , Olly — temporariamente, já que ela estava atenta às provas de admissão da universidade de moda em Milão — e o filho que nós ainda não tínhamos. Eu me vi naquele lugar. Acordando cedo no domingo para assistir à F1 e ligando para o quando quisesse xingar o Fernando Alonso, me vi pedindo a para passar café, me vi comemorando meu aniversário com meu marido, minha mãe, meu irmão e a nova namorada dele (se durasse até lá). Parecia que aquele lugar tinha me escolhido, a ponto de me levar a fazer um filme do futuro entre aquelas paredes.
— Gosto daqui — eu disse a , no meio da sala vazia.
— Eu também — concordou, perto da janela lateral. — Olha a cidade lá embaixo, é incrível!
podia ter nascido em Maryland, mas amava Nova York como um legítimo nova-iorquino.
— É realmente muito amplo... — Barbara começou, mas eu ignorei sua voz de dubladora do Discovery Channel.
— Mas é longe da Jonas & Co, não? — Lembrei.
se virou, caminhando até mim.
— Um pouquinho. Mas não é nada a que eu não vá sobreviver — ele me abraçou pelos ombros, de lado, dando um beijo no topo da minha cabeça. — Acho que já podemos ver o próximo, não?
Assenti.
Nem de longe o apartamento seguinte me cativou como aquele. Era grande, tinha o número certo de quartos, mas não tinha aquela vista, e eu não me vi numa família dentro dele. Eu não vi um lar nele.
Passei numa banca ali perto para comprar um exemplar de uma revista com um artigo sobre os padrões de beleza impostos pela mídia que eu usaria na aula seguinte e voltou para casa sem mim. Quando eu estava chegando ao prédio, o porteiro me avisou que ele tinha acabado de subir. Agradeci e ouvi a voz de Kim chamando o meu nome:
! — Ela disse, animada como de costume.
— Ah, e aí, Kim? — Respondi.
Kimberly ficou ao meu lado.
— Eu vi você e hoje entrando num prédio perto da editora da minha revista — comentou, curiosa.
— Ah, é, fomos ver um apartamento — dei de ombros.
— Vou perder os únicos vizinhos com quem converso?
Ri.
— É, pelo jeito vai — apesar de responder, eu não dava muita importância.
— Eu não vi vocês no fim de semana...
— Estivemos fora.
— Vocês se divertem, não? Saem, compram comida... Agora vão deixar o prédio — o tom de Kim era curioso.
Ciao! — Ouvi a voz de Olly, atrás de Kim.
— Oi, Olly — respondi.
Kim pareceu se assustar.
— Olá, Olly — ela disse.
O elevador parou e subimos.
Kim falou mais um pouco sobre como seu grande amigo e eu parecíamos unidos, felizes e bem. Olly a observava, sem dar um pio sequer. Kimberly desceu em seu andar, deixando a mim e à Olly sozinhas.
— Estava aonde? — Questionei, sugestiva.
— Com Ethan — ela admitiu, meio tímida.
As coisas com Olly vinham mudando lentamente. Era bom que nós nos descemos bem, eu até esquecera quando a última vez em que ela me chamou de “Consuelo”.
— Essa Kim... Ela é meio esquisita, não? — Olly tinha um tom desconfiado. — Eu ouvi um pouco da conversa... Você não acha que ela fica curiosa demais sobre a sua vida com meu pai?
— Ai, Olly! Não... É que eles foram muito amigos, ela o conhece desde os tempos em que ele namorava a sua mãe. Foi só para puxar assunto, já que os amigos são eles dois, por mais que eu ache a Kim bem divertida.
Olly deu de ombros.
— Se é desse jeito que você vê...
Quando Olly vinha com aquele tom, era motivo para ficar alerta. Ela era bastante desconfiada, isso era notável.
— Ah, qual é, Olly! Relaxa — falei.
As portas do elevador se abriram, nos fazendo sair de dentro dele logo depois.
— Olha, , eu sei que nós duas não começamos isso do jeito certo e que eu não sou uma das suas amigas...
— Só tenho uma — corrigi.
— Bem, eu não sou sua melhor amiga nem nada — Olímpia continuou. — Mas eu não sei, não... Essa curiosidade da Kim, essa coisa de “Oh, como vocês são felizes!” — o tom de Olly era debochado e fino. — “Oh, como vocês isso, como vocês aquilo”. Pelo amor de Deus, ! — Seu tom já era normal agora. — Para mim, ela foi curiosa demais. E a gente não tem como saber o que se passa na cabeça dela. No seu lugar, eu ficava viva. Bem viva com relação a essa mulher. Mas, bem, se você ainda não viu as coisas como elas são, posso estar errada – algo de que duvido muito – ou é melhor você ver logo, antes que a doida da Kim cause problemas.
Entramos em casa e Olly me disse que ia para seu quarto, ainda repetindo que eu deveria pensar no assunto. Eu não achava que ela estivesse certa ou coisa assim, mas ela parecia tão segura sobre o que dizia. Resolvi que não iria me preocupar, tudo estava em ordem demais para eu dar ouvidos à Olly e sua desconfiança juvenil.
Sempre ter alguém de quem não gostar era coisa de adolescente. Ponto final.


Capítulo Vinte e Seis
Por que você está agindo como se estivesse escondendo alguma coisa?

If She’s Just a Friend — Nicole Scherzinger


Olly voltou à cozinha no instante em que eu abri a geladeira para pegar um copo d’água.
— E o seu pai, cadê?
— Acho que tomando banho — ela disse, sem muita certeza. — Ouvi barulho d’água quando passei perto do quarto.
— Então deve ser — bebi a água, largando o copo na pia e a garrafa na parte interna da porta da geladeira outra vez. — Aproveitando que nós estamos sozinhas... Como vão as coisas com Ethan?
Olly sorriu, escondendo o rosto rapidamente nos pelos de Tony.
— Numa boa — respondeu, afagando o cachorro. — Ele me trouxe em casa hoje. Nós demos uma volta depois da aula.
— Olha só... Para quem estava desconfiada, vocês praticamente estão se tornando um casal.
Olly riu alto.
— Ethan me contou que a namorada dele foi expulsa por causa de uma gravidez precoce. Foi assustador de ouvir. Era quase a mesma história da minha mãe, e eu estou aqui hoje, mas o bebê da Quinn... Não — sua expressão era de susto, quase que incredulidade.
— Imagino que para você seja mais chocante ouvir sobre adolescentes grávidas interrompendo a gravidez. Você é fruto de um caso desses — respondi.
— Um aborto é um assassinato. Tipo, eu vejo com esses olhos, talvez por causa da minha história. Mas, ...
— Oi?
— Você sabia da história? Sempre soube?
— É. Eu sempre soube por que quando cheguei ao St. Francis, os professores me contaram. Só q ue, muito bem ensaiados pela Crayg e pela família da tal Quinn, Ethan ficou de vilão da história — contei. — Olha, Olímpia, eu não te disse por que não era um segredo meu, não era minha vida, mas a do Ethan.
— Tudo bem, . No seu lugar, faria a mesma coisa — ela sorriu, brincando com o cachorro de novo. — , desculpe bater na mesma tecla, mas abre o olho com a Kim, ‘tá legal? Sei lá... Tem alguma coisa na curiosidade dela...
— Está bem, Olly, vou me cuidar perto dela — falei mais para acalmá-la do que por mim mesma. — Mas a vida não é o colégio, as pessoas de quem não gostamos, nem sempre estão tramando algo contra nós.
Olly ficou quieta, simplesmente porque não havia mais assunto. Ela voltou a dedicar sua atenção ao cachorro — que crescia de modo impressionante! — e eu fiquei parada, recostada à bancada da cozinha, pensando em nada. r> apareceu em seguida, de banho tomado e uma cara de preocupação. Aquilo deixou Olly e a mim desconfiadas, já que ela tratou de perguntar o que ele tinha.
— Sua cara não é das melhores — a garota justificou.
— Recebi um telefonema da minha mãe — respondeu, ainda um tanto aéreo.
— E como ela está? — Olly perguntou, curiosa.
— Ela está ótima. Mando/SCRIPTu um abraço a cada uma das mulheres da casa — riu, porque, provavelmente, estava usando as mesmas palavras da mãe.
— Obrigada — agradeci. — Mas nós ainda estamos preocupadas com você.
— Papai chega em duas semanas. E eu sempre fico preocupado quando ele chega — tratou de explic— Pois, então — meu tom tinha ar de obviedade, como se eu dissesse: “Minha vida, eu sei que você sabe que não gosto de admitir essas coisas, portanto, vamos trocar de assuntoSCRIPTar.
Era verdade, sempre ficava tenso quando Paul avisava que estava a caminho, mas, daquela vez, eu senti algo diferente no ar.
— É só isso mesmo? — Insisti.
— Claro, — ele riu, mas parecia engasgado. — O que vai fazer para o jantar?
Seu fígado, se você não me disser por que está desse jeito depois que sua mãe ligou.
— Eu não sei, macarrão com queijo? — Respondi.
— Sabem de uma coisa? Americanos não sabem fazer um bom macarrão — Olly se pronunciou. — Vão namorar na sala e deixem a cozinha para mim.
— Ei! — Protestei. — Mas, sabe, estou mesmo com preguiça de cozinhar. Vou me atirar no sofá e te deixar aí, mesmo morrendo de ciúmes das panelas.
Acabei indo para a sala, caindo no sofá e assistindo a um filme protagonizado pela Penélope Cruz. ficou ao meu lado — dizendo a cada cinco minutos que a cozinha estava pegando fogo — e, aos poucos, sua expressão nervosa foi sumindo. Durante o jantar, não se tocou mais no assunto da ligação de Denise.
— Você estava com estudando com seus amigos hoje à tarde? — questionou para Olly.
— Hm — ela disse, engolindo a garfada de macarronada que tinha acabado de enfiar na boca. — Uhum. Eu precisava terminar a segunda parte do relatório de Geografia. Eu estava com meu companheiro de viagem.
— Você devia ter ido com a gente ver os apartamentos — puxei outro assunto. — Vamos ver outros porque estão reservados, mas duvido muito que eu goste tanto como do segundo de hoje.
— Ah, sério, ? — O tom animado de Olly me pegou de surpresa. — Se você gostou tanto, tomara que não encontre nenhum outro tão bom.
me olhou. Havia um sorriso em seu rosto, e eu sabia que tinha a ver com minha evolução com Olly. Ele não sabia da missa a metade.
— Obrigada, eu acho — respondi, deixando meu guardanapo em cima da mesa. — Estava muito, muito gostoso, Olly. Pode cozinhar todo dia, se quiser.
— Grazie.
— Por nada — eu disse sem muita certeza sobre ter ouvido e respondido a coisa certa.
riu.
— É. Fazia tempo que eu não comia uma comida tão gostosa — foi a vez de .
Fiquei olhando para ele.
— Como é?
— Uma comida estranha. Digo, que não fosse minha ou sua, , calma. Não precisa querer tirar os meus rins com essa cara de traficante de órgãos que você sempre faz.
Olly riu alto.
— A louça é com vocês, não comi sozinha — avisou. — Eu vou para o meu quarto. Quero ouvir música, descansar. Não tirei meu cochilo de todo dia hoje, então parece que passei por um moedor de carne.
— Vai lá — disse.
— ela chamou, com um sorriso maldoso.
— Sim?
Olly se levantou, ficando perto de mim.
— Conheceu o novo professor de matemática?
Engoli seco, sem entender por que aquele cara me assustava.
— Não me lembro do nome dele, mas é um de óculos, não? — Respondi. — O que tem ele?
— Lindo! — Ela suspirou. — Ezra Fitz existe.
Apesar de tudo, eu ri.
— Tarde demais para interpretar a Aria — eu disse, me referindo ao fato de que Ethan já havia demarcado seu território.
olhou para nós duas, sem entender.
— Boa noite, até amanhã cedo — Olly desejou, antes de caminhar para o seu quarto.
Comecei a recolher os pratos.
— Ela parece bem feliz, não acha? — disse, ajudando-me.
— Uhum, parece mesmo — juntei os três pratos numa pilha e pus todos os talheres dentro do último. Caminhei até a lavadora de louças, abrindo-a e ajeitando os utensílios dentro dela.
— Alcance os copos, por favor? — Pedi.
— Aqui.
Peguei os copos das mãos de e os pus na lavadora também. Coloquei o pouco molho que sobrou na lixeira — a quantidade era pequena demais para reaproveitar — e pus a travessa na máquina também. Fechei a pequena portinha transparente e liguei-a.
— É bom ver você e a Olly se dando bem desse jeito — me abraçou, andando comigo até perto da geladeira.
Recostei a cabeça na mesma, fazendo com que um dos ímãs caísse na minha cabeça. o tirou.
— Olha, uma estrela — comentou, grudando-a de volta.
— A verdade ajudou bastante. Inclusive para você — falei, ignorando o episódio do ímã. — E para a Olly também! Ela se sente bem mais confortável na cidade, conosco...
— Ela parecia bem feliz hoje — comentou. — Não sei, tem alguma coisa...
Eu ri.
— E você sabe! — Ele falou alto, mas baixou o tom, sabendo que a menina poderia nos ouvir.
Eu estava segura de que Olly tinha os fones nos ouvidos e alternava entre Paramore e música italiana.
— Sempre ri desse jeito quando sabe de alguma coisa — o tom de era bem baixinho. — Vai ter que me contar, .
— Me chamando de é que a coisa não vai fluir — avisei. — E é coisa da Olly, . Se você quer saber, pergunte para ela — eu ainda tinha uma vontade de rir desesperada. Eu era péssima para carregar o segredo dos outros.
me olhou, esperando que eu falasse alguma coisa. Só neguei com a cabeça.
— Vamos, amor, me conta.
— Não — continuei negando.
— Olly anda namorando, é isso?
— Se você sabe, para que pergunta?
— Ah! Então ela anda namorando — ele riu, vitorioso.
Enterrei a cabeça em seu ombro, furiosa comigo mesma por ter caído num truque tão fraco.
— Eu não sei se eles são namorados, mas andam... Curtindo, na falta de uma palavra melhor — acabei revelando.
— É um bom garoto?
Eu tinha certeza de que, no fundo, Ethan era um grande garoto, apesar de tudo. Então, acabei confiando na minha intuição e ignorando a má fama, o passado e os cigarros no intervalo.
— Uhum. Fica frio. Olly é mais esperta ainda do que parece — afirmei.
— Eu tenho uma filha de dezessete que está quase arrumando um namorado. Estou ficando velho, — choramingou, deitando a cabeça no meu ombro.
— Não está, não — respondi, afagando o seu cabelo.
beijou meu ombro.
— Ei, espera — eu disse com minha mão atrás da orelha dele.
— Que é? Vai tirar uma moeda daí? — Brincou.
— Não — fiz minha melhor cara de decepção.
— Que foi? Eu me machuquei sem ver de novo?
— Um cabelo branco — menti.
Acabei não me segurando e ri.
Rá. Rá. Rá. Rá, — ele ironizou. — Muito engraçado.
— Não fique bravo comigo — segurei seu rosto com as duas mãos e o beijei.
— Por acaso, o “quase namorado” da Olly não é o professor novo, não, né?
Lembrar-me de Clay me fez respirar fundo, sentindo-me assustada de novo.
— Não! Claro que não, que ideia! O garoto é tão aluno quanto ela.
— É que Olly falou do professor com tanto entusiasmo que, sei lá, pode acontecer. E ela comentou o quanto o achou bonito.
— Coisa de garota! — Tratei de explicar, saindo dos braços de e indo em direção à lava-louças, que terminava seu ciclo. — Nessa idade, professores jovens são motivo de deslumbre. Deixa isso para lá, ‘tá bom? Além do mais, se o namoro da Olly vingar, ela vai vir contar e não quero você deixe na cara que já sabe que ela tem saído com um colega — enfatizei. — Esquece o professor.


Capítulo Vinte e Sete
Há algo que você precisa saber.
Ben (Glee Cast Version) — Glee Cast


No outro dia, era minha folga no St. Francis. Pela data no calendário — mais precisamente pelo dia, não pelo mês — uma lembrança nada agradável, embalada por um porre daqueles de tequila, surgiu em minha mente: o que e eu tivemos quando foi à Paris, quando rompemos. Alguns anos já tinham se passado, aquela história nunca foi contada ou repetida verbalmente, mas, ainda assim, existia. E eu sentia que estava com ela sufocada demais dentro da minha garganta. Ainda mais agora que as coisas com iam tão bem. Eu não podia — nem tinha o direito, cacete — ter segredos com o meu marido. Mas a verdade era que o que mais pesava naquela história nem era eu ter dormido com alguém numa noite de pileque, e sim, esse alguém ser meu cunhado e a mesma pessoa que serviu de ponte para que e eu estivéssemos juntos até o presente momento — eu era muito grata a por isso, e ao também, pelas passagens para Vegas.
O problema é que eu não tinha estômago para contar, mesmo sabendo que não era nenhum crime, muito menos adultério. Ainda assim, eu me sentia imunda quando me imaginava revelando tudo. Mas me sentia muito mais suja quando me lembrava de ter omitido algo da pessoa a quem eu mais amava no mundo.
Coloquei um pouco de ração na tigela de Tony e peguei minha bolsa mais surrada, a que eu costumava usar fora do colégio. Apesar de estar decidida, eu ainda precisava desabafar antes de colocar tudo em pratos limpos, e ninguém no mundo me daria um conselho melhor do que . Portanto, aproveitando o fato de ele ser um grande amigo — e um dos envolvidos na história —, achei que o certo a fazer seria ir atrás dele na Jonas & Co antes mesmo de falar com , alguns andares acima.
Já no metrô, sentei-me num dos bancos perto da porta e evitei fixar meus olhos na janela (apesar de tudo passar velozmente por ela). Fitei o nada, distraída. Completamente absorta na decisão que tinha tomado. Eu apenas precisava de duas coisas: como e quando falar. E tinha uma esperança enorme de que me daria tais repostas.
Na estação próxima à perfumaria, eu desci. Caminhei até lá e entrei, sem muita burocracia. No elevador, fui apenas até o andar onde se situavam os laboratórios. Quando desci, uma garota usando óculos protetores e um guarda-pó branco me cumprimentou, passando apressada. Fui até onde deveria estar e bati na porta.
, sou eu, — falei, depois da batida.
Não houve resposta.
Bati de novo.
— Hey — chamei.
Silêncio.
— Está procurando por alguém?
Uma voz feminina, com leve sotaque desconhecido, falou atrás de mim.
Virei-me.
— Ah, oi — respondi. — Sim, eu... Eu estou procurando o , ele está por aqui?
A garota sorriu.
— Bom dia. Não, ele precisou sair — informou. — Deu um pequeno problema noutra fábrica e ele precisou até lá. Foram ordens do irmão. Mas... Era só com ele? Você quer deixar algum recado?
— Sim. E sim — ri. — Se você arrumar um papel, eu anoto e você entrega, tudo bem...?
— ela estendeu a mão para mim. — .
Cumprimentei-a, reconhecendo o nome.
. Eu sou cunhada do — expliquei.
— Ah, claro, Sra. Jonas. Eu vou buscar o papel, só um segundo — ela saiu, e, menos de cinco minutos depois, havia voltado com um bloquinho.
Puxei a caneta que costumava carregar na bolsa e apoiei o bloco na parede. Escrevi.
— Aqui, entregue para ele, por favor — estendi o papel para ela, ela o dobrou mais uma vez e colocou no bolso. Alguma coisa me fazia confiar em . — Muito obrigada, .
— Por nada. Entrego assim que ele chegar — ela sorriu. — Tenho certeza de que não irá demorar.
— Ótimo! — Respondi, animada. — Vou à presidência, com licença — pedi, já saindo.
— Tem toda, .

’s POV

Coloquei o envelope de no bolso do guarda-pó sem a mínima curiosidade sobre o que ela teria escrito nele. Deixei o bloquinho perto ao telefone do andar, como de costume, e voltei aos meus afazeres, sem esquecer o recado que tinha de dar. Ainda assim, não me interessei em saber o que tinha no bilhete. Certamente, era coisa de família.
Cerca de duas horas e meia depois, voltou. Sua expressão era um pouco cansada, acreditei ter a ver com o problema na outra fábrica. Quando passou por mim, o chamei.
— Algum problema? — Seus olhos eram confusos.
Neguei com a cabeça.
— Deixaram um bilhete para você — eu disse, puxando, com os dois primeiros dedos da mão direita, o papel onde o recado de se encontrava. — É da sua cunhada, mas não sei do que se trata — expliquei.
pegou o papel.
— Obrigado — ele olhou o papel por cima e foi para a sala onde sempre ficava quando não estava no laboratório.
A partir dali, já não sei o que aconteceu.

Jonas’ POV

O celular tocou quando eu já estava em casa. Atendi ao reconhecer o número de no visor. Senti um aperto no estômago antes de atender.
— Pronto — eu disse.
Depois de me contar que havia lido o bilhete alguns minutos antes, pedi a ele que viesse até o apartamento, já que eu estava sozinha — Olly tinha ido estudar com Sky e depois iria ver Ethan. aceitou e disse que estava a caminho. Só me restou esperar, fazendo esforço para ficar mais calma.
E o tempo até chegar parecia dois irmãos gêmeos de TV, um bom e um mau. Porque, ao mesmo tempo em que era rápido, era lento. chegar logo foi bom e ruim, demorar a chegar também. Confuso.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou, enquanto entrava no apartamento.
— Não — respondi. — Mas pode acontecer, eu não sei — descansei as mãos nos joelhos, me curvando. — Senta — ofereci, apontando o sofá.
se sentou, me olhando.
— Calma, — ele disse. — Explica melhor.
— Eu quero contar.
A expressão de deixou claro que ele não entendeu.
— Quero contar do que houve, quando ele esteve em Paris, sei lá quantos anos atrás. O que você me pediu para não contar — despejei.
ficou surpreso, mas se recompôs depressa. Pelo jeito, ele estava mais tranquilo com aquilo do que eu.
— Achei que já soubesse — justificou-se. — Digo, eu reconheço que errei quando disse a você que não devia contar, mas não achei que fosse se prolongar tanto.
— Nem eu! — Exclamei rendida, quase exausta, sentando-me no sofá de frente para . — Eu pensei: “Ok, deixe passar um tempo, alguns meses, e eu coloco tudo em pratos limpos”, sabe? Só que não foi isso o que eu fiz. E eu fui deixando, deixando, deixando... Agora estou meio assustada com a ideia de falar. Nem tanto pelo que houve, porque eu estava bêbada demais para lembrar direito hoje em dia, porém... Passou muito tempo desde aquela noite. Muito tempo desde que planejei contar para o seu irmão e agora eu tenho medo exatamente disto: que ele se zangue comigo por eu ter esperado demais.
se levantou, parando diante de mim, e abaixou-se.
— Você vai correr o risco, sempre correu. Contando no passado ou hoje à noite. Nós dois conhecemos meu irmão tão bem quanto ele mesmo. A gente sabe, mais ou menos, como ele vai reagir. E, a alguma coisa, ele irá reagir negativamente. Tomara mesmo que seja só à demora — falou.
— Eu devia ter contado antes! — Queixei-me.
— Agora é tarde demais para querer voltar no tempo, . Desculpe por ter te dito para esperar, sei que isso pode acabar atrapalhando as coisas.
— Você fez o que achou que era certo. E, bem, naquela época era mesmo preciso esperar um pouquinho. Ai, cacete! Sinto medo de falar!
— Chega de guardar isso, . O acontecimento em si vai soar bobo nessa altura do campeonato. O mais importante agora é que precisa saber.
— Do que eu preciso saber?
Como um raio que caía no solo de uma fazenda, quando virei em direção da porta, estava lá com sacolas nas mãos e a pasta, olhando para e para mim como se fôssemos duas aberrações da natureza.



Capítulo Vinte e Oito
O que posso fazer para mostrar que estou arrependido?

I’m Sorry — Joe Jonas


Minha cabeça girou. Levantei-me, assim como , e fiquei olhando para .
— Não estou entendendo nada — ele disse, largando as sacolas na bancada, junto com sua pasta. — Aconteceu alguma coisa com você, ? Por que está aqui?
— Não aconteceu nada com ela, fique tranquilo. Nós só tínhamos um assunto mal resolvido e, quando ela foi ao laboratório, eu não estava — foi quem falou.
Minha garganta parecia fechada.
— Agora está tudo bem — completou.
— É melhor você ir — pigarreei. — Preciso conversar com seu irmão e quero aproveitar enquanto a Olly não chega.
— Claro. Até qualquer hora, bateu em meu ombro, andando para a porta. Fez o mesmo com , pelo caminho. — Até amanhã, irmão.
— Até — a expressão de ainda era desconfiada.
A porta bateu assim que saiu. Eu permaneci parada onde estava. foi quem se aproximou, tocando meu braço.
— Está tudo bem mesmo? Você e andaram brigando? Diga a verdade, por favor — o tom dele foi tão leve que eu senti um chute bem no meio do estômago.
— Tem uma coisa que eu não contei — comecei, sabendo que, como um trem sem freios, eu não pararia. Dei um passo para trás. — Uma coisa do passado.
— Outro trauma do colégio? — O olhar de era preocupado. — Mas, não. Não pode — balançou a cabeça, negativamente, como quem afugenta alguma coisa. — Não teria por que ter alguma coisa com isso...
— Me deixa falar — pedi, mais tensa do que realmente preocupada em falar alguma coisa.
Houve silêncio.
Continuei:
— Do passado mais recente — completei. — De quando e eu nos conhecemos.
A confusão ainda fazia morada na expressão de .
— Eu tive alguma coisa com ele — despejei, de uma vez por todas.
— Como é?! — me olhou, totalmente incrédulo. — Alguma coisa?
— Pois é... Meu Deus, como eu vou te explicar?! Nós...
— Você dormiu com ele, é isso? — Agora, nele, eu via o choque. Talvez houvesse até uma pontinha de nojo.
— É... Só que não foi assim, de caso pensado. Merda, eu não sei as palavras! Nós tínhamos brigado, tanto eu e ele, quanto você e eu. Foi quando nos encontramos todos na rua, você lembra?
assentiu.
— Pois é! Você me disse todas aquelas coisas, e eu nem sabia que vocês eram irmãos...
— Eu falei da boca para fora! — quase gritou. — Você queria o quê? Se vingar? Não acha que está meio tarde demais para o veneno fazer efeito? — Ele jogou as mãos para o alto, descarregando toda a sua frustração, quem sabe até decepção, para comigo.
— Não me exija coisas! — Reagi, falando mais alto do que gostaria. — Você sabe muito bem quão quebrada eu fiquei naquela época! Daí, na rua, você veio e me chamou de coisas horríveis! Disse que não se importava comigo e tudo mais. Jogou sal e mais sal nos meus cortes! E eu fiquei tão louca, tão fodida com a vida, que achei que você e tinham tudo de caso pensado, que ele também sabia do que nós tínhamos vivido! Que ele tinha se aproximado de mim para me assistir sangrar! — Despejei. — E eu me enganei! Mas soube disso só na manhã seguinte — sem fôlego, minha voz se tornou mais baixa novamente. Mas subiu, logo em seguida: — Eu não traí você, se é isso que pesa nos seus ombros. Você estava em Paris com a Candice, e eu nunca fiz uma perguntinha sequer sobre aquela época. E, na verdade, pouco me importa o que aconteceu entre você e ela, porque passou.
— O problema não é o que você fez, mas sim com quem! Realmente, nós não estávamos mais juntos, mas, ainda assim, você sabia quem ele era quando deixou... Merda! Eu nem consigo terminar a frase porque minha cabeça não processa a informação de que o meu irmão e a minha mulher... Ah, que droga, ! E o que te deu para me contar? Depois de tudo o que eu fiz por você, o que eu fiz por nós, qual é a graça em me deixar furioso? Qual é a graça em fazer isso comigo? Foi traição de confiança, . De lealdade. Não foi um antigo namorado ou um cara num bar, foi o meu irmão! E isso que pesa nos meus ombros, não o ato. E você vem falar agora — repetiu, decepcionado. — Depois de tudo o que eu fiz por nós dois, depois da viagem, do apartamento, do plano de termos um bebê...
— Foi por isso que eu contei — eu estava tão pisoteada pelas suas palavras porque, por mais furiosas que elas fossem, eram a mais pura verdade, que não conseguia falar. Meu tom era baixinho. — Porque você tem sido o melhor cara do mundo para mim desde... Desde sempre. Eu não ia conseguir carregar isso comigo por mais tempo.
— Devia ter contado antes — sua respiração pesada entregava sua irritação.
— Naquele dia, eu saí, tomei tanta coisa... Perdi as contas das doses de tequila — continuei contando. — Eu tinha o telefone do na bolsa. O cara do bar ligou para ele, para que ele me levasse para casa. Eu pedi perdão pelas coisas horríveis que eu tinha dito para ele. Então, em casa, derramei café fervendo na roupa e aconteceu. Eu não lembro direito, sei que aconteceu por razões óbvias. Só me lembro de acordar nua no dia seguinte e...
— Chega! Chega! Chega! Eu não quero escutar, me dá nojo! Por mais bêbada que você estivesse, sabia quem ele era!
— Eu estava muito magoada por causa da sua ida a Paris...
— Ainda assim, usar meu irmão para afogar as suas lágrimas não é desculpa. E o pior é ter esperado tanto tempo para me falar — se afastou, pegando as chaves e a pasta sobre a bancada.
— Onde você está indo? — Questionei.
Não obtive resposta.
! — Chamei, quando o vi passar pela porta.
Sem resposta de novo.
Dei de cara com Olly.
— O que deu nele? — Perguntou.
— É complicado demais — passei por ela, fechando a porta. Pelo que notei, havia tomado a escadaria.
, é sério. Sua cara está péssima e o parece um maluco... Pode me contar o que houve, numa boa, eu juro — ela tocou meu ombro, sorrindo para mim, prestativa.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Me deixa tomar um copo d’água, já conto — pedi, andando para a cozinha, ainda ouvindo a raiva de dentro da minha cabeça, como uma música grudenta e ruim.
Bebi a água da garrafa mesmo, sentindo como ela descia gelada pela minha garganta. Eu estava tão nervosa, que tinha medo de passar mal. E estava a um passo de me confessar com Olly, com quem eu vivia em pé de guerra há, praticamente, um mês atrás.
Sentei-me no sofá, enquanto Olly puxou um puff, ficando de frente para mim.
— Tem que prometer que não vai me julgar — informei, meio insegura.
Olly jurou com os dedos.
— Julguei minha mãe uma santa... Deu no que deu — respondeu.
Eu estava a ponto de contar tudo a uma garota de dezessete anos como se ela fosse minha amiga de infância. Só que, ela havia confiado tanto em mim para falar de Ethan, que me senti no dever de confiar nela também.
Comecei a falar. Contei à Olly tudo o que havia para ser contado — desde o esbarrão na cafeteria da Jonas & Co, o que deixou a italianinha bastante surpresa, até o que se passara alguns minutos antes. Olly ouviu, atenta e interessada, não se preocupou em me interromper, só em me escutar. Fiquei surpresa, aliviada e 900 kg mais leve.
Quando terminei, Olly segurou minhas duas mãos, olhou nos meus olhos e disse:
— Vai dar tudo certo logo. Ele só se irritou pelos motivos que te disse: a demora para contar e ter sido o meu tio. Mas ele te ama, . Não vai aguentar muitas horas sem tentar resolver as coisas com você. E outra; cedo ou tarde, ele vai perceber que você só estava machucada com tudo o que tinha acontecido, ainda mais com a louca da Candice em Paris — essas mulheres tem uma mania maldita de Paris!
Aquilo me fez rir.
— Quando ele esfriar, vocês dois vão sentar e conversar. Você o conhece e sabe o que vem depois da tempestade.
Torci para que Olly estivesse correta em cada uma de suas palavras. Na verdade, rezei por isso.


Capítulo Vinte e Nove
Agora eu estou pensando com calma.

Mistake — Demi Lovato

Jonas’ POV

Você sabe que alguma coisa está errada quando dizem haver algo de que precisa tomar conhecimento. Não. Você tem certeza de que alguma coisa está errada. E eu tive quando vi e conversando na sala. Só não imaginei que a situação fosse justamente a que encontrei. De início, me pareceu muito estranho querer me contar uma coisa tão antiga, uma coisa que deveria ser sem importância, mas que acabou tomando uma proporção gigantesca. Ainda mais quando eu soube que estava envolvido.
Eu sabia perfeitamente cada ferida que causei à minha mulher naquela época, apenas não pensei que haveria mais por debaixo dos panos. Por debaixo dos lençóis da cama dela. Não sabia que, quando os sacudisse, mesmo que sem querer, encontraria meu irmão. E isso foi como dar um tiro no meu próprio pé. Eu podia estar furioso pelo fato de que serviu como consolo para , podia estar mais furioso ainda com o fato de que os dois sabiam muito bem quem eram e suas ligações comigo. Mas o que me deixava realmente desnorteado era saber que, bem lá no fundo, eu tinha minha parcela de culpa na história.
Eu joguei a para o , mesmo que sem querer, porque não fiz o que tinha que fazer naquela época.
Tudo era confuso, minhas angústias estavam todas embaralhadas e a raiva fora manifestada na maneira como dirigi, rumo à Jonas & Co. Desliguei o telefone — quase o atirei pela janela —, quando vi o número de casa no visor, não me preocupei em ligá-lo mais. Não quis.
Quando cheguei à empresa, tudo estava vazio. Não havia ninguém e, não fosse o fato de sermos a única empresa naquele prédio, eu não teria conseguido entrar. Quis subir pelas escadas de emergência, mas elas estavam escuras demais e todos aqueles lances pareciam tortura, não uma maneira de descarregar aquela onda de agonia que me afogava. Acabei fazendo uso do elevador.
Quando cheguei à minha sala, depois de acender as luzes, atirei o paletó na primeira cadeira de visitas que encontrei e me joguei no pequeno sofá de dois lugares em seguida. Esfreguei minhas têmporas, enrosquei os fios de cabelo nos dedos, bufei. Esmurrei o encosto de couro do móvel onde eu me encontrava. Nada parecia me deixar leve de novo. E meu cérebro era traiçoeiro, insistia em me dar imagens que eu não queria ver.
Na época em que ficou bêbada, eu também tinha cometido meus pecados, portanto, não me sentia no direito de julgá-la por ter dormido com alguém. O que me enforcava, pouco a pouco, como uma tortura doentia, era que tinha sido o meu irmão, mesmo ela sabendo disso. E a ideia se repetia na minha cabeça. Era como uma voz. Aliás, eram duas vozes: uma me mandando não julgá-la — pela porcaria que aconteceu com Candice, em Paris — e que estava bêbada, outra me dizendo que ela sabia quem era e que ele poderia tê-la parado, o que não aconteceu.
Então, toda a minha angústia ganhava um sabor mais amargo, e eu me afundava nela mais e mais. Como quem se afoga no mar e, por mais que tente levantar, as ondas vêm pesadas, colocando a sua cabeça sob a água de novo. Não havia água, apenas agonia.
Quando olhei o relógio, tempos depois de ter chegado, anunciavam-se duas horas da madrugada. Quando olhei de novo, depois de ter dormido — apesar de ouvir os barulhos dos carros lá brdocument.write(Kevin)brfora —, já beirava as seis. Eu tinha me acalmado, mas ainda não sabia o que fazer, muito menos, o que esperar.
Levantei-me, vesti o paletó e enfiei a carteira no bolso. Liguei o celular — que havia levado comigo por hábito — e vi doze chamadas não atendidas da . Havia uma mensagem da Olly, perguntando onde eu estava. Disse que estava bem e que precisava trabalhar. Ela não tinha nada a ver com a história, portanto consegui encará-la e dar a ela uma explicação, por mais fajuta que fosse.
Larguei o telefone sobre a mesa de novo e saí, passando no banheiro e jogando um bocado de água no rosto. Parecia que uma locomotiva tinha atravessado o meu rosto, tão horrível era minha expressão. Eu sabia que depois do café acordaria, mas não estaria livre de passar o dia mal-humorado. E tudo o que eu não queria era descer até o laboratório. Não quando estivesse por lá.

Voltei à minha sala perto das oito, o tempo que passei na fila da cafeteria contribuiu em minha demora. já estava em seu lugar, atenta ao computador. Desejou-me bom dia, mas eu só acenei com a cabeça, sem saber se ela sabia de alguma coisa. Tive certeza de que não quando a mesma resmungou um “está mal-humorado como nos velhos tempos”. Ignorei e voltei à sala da presidência, assumindo meu lugar na cadeira brSCRIPTe ligando o computador. Eu tinha que trabalhar, ainda mais com meu pai chegando. Se eu tinha problemas, eles que ficassem do outro lado da janela.
Logo depois das dez, o telefone sobre a minha mesa tocou.
— Sim, ?
O Sr. precisa falar com o senhor. Disse que é urgente.
Tudo o que eu não queria era lidar com . Antes de responder, bufei.
— Não posso. Estou oSCRIPTbrcupado — menti. — Falo com você depois, .
Desliguei, seguro de que havia me livrado daquilo, pelo menos, até o fim do dia.
Errado.
apareceu na minha frente, como um revolucionário que invade a Casa Branca.
— Eu disse que estava ocupado — falei do modo mais grosseiro que conhecia. Saiu. Não foi uma coisa planejada.
— Com o quê?! — correu os olhos pela sala. — Pensando no quanto te enganamos? Porque, se você acha isso, não é verdade.
Empurrei minha cadeira para trás e fiquei de pé.
— Você não entende. Porque não é isso o que eu acho — respondi.
O silêncio não durou.
— Então o que é? Foi ela não ter falado? Porque se foi, se foi uma coisa tão idiota, a culpa é minha.
— Você nunca foi casado para entender como funciona! — Despejei. — Não sabe como é. Você pensa que dali para frente as coisas estão resolvidas, mas, todo di/SCRIPT’s POV bra, alguma coisa surge. E se ela divide com você, ótimo! As coisas são resolvidas em união, mas, quando ela esconde, por mais idiota que o segredo seja, se torna uma montanha maior que este prédio que estamos agora.
Não tive certeza alguma do que eu falava, eu sabia apenas que era o que eu queria dizer e que as sentenças nada tinham a ver com . Talvez, devesse ouvir aquelas palavras. Talvez, eu.
— E, sabe, pouco me importa o que fizeram, pouco me importa quanto tempo faz. O que me pesa, e essa vai para você, esse é um chapéu que te serve, é que você sabia quem ela era. Eu te contei toda a confusão, mas você, ao invés de tê-la mandado parar e dormir, foi até o fim. E se você aplicar aquela ladainha do “eu sou homem”, vai ficar claro o homem que não é.
— Eu gostava dela.
Foi como um tiro na testa.
Um tiro suicida na testa.
— Como é?
Porque eu queria ouvir de novo, eu não sabia. Mas, talvez, fosse como uma comida que tranca na garganta e você precisa de mais água para que ela tome seu caminho até o estômago.
— Eu gostava da . Mas passou, eu te juro! — Explicou-se, apressado. — Foi naquela época, durou poucos meses. Porque eu não achei que estivesse sendo honesto com você. Nós sempre fomos amigos, apesar da diferença de idade e... Droga, eu não podia!
— Foi por isso que disse a ela para não contar?
— Não — ele respirou fundo. Seus ombros relaxaram.
Eu me mantive na defensiva.
— Eu disse a ela para não contar porque vi o quão mal ela ficou quando romperam. E quando eu a vi ali, bêbada, frágil, dizendo que queria ter amado qualquer um, menos você, eu cheguei a conclusão de que tudo estava fora do lugar. Que ela não merecia aquilo.
— Não. Ela não merecia — eu falei tão baixo, que talvez não tenha me escutado.
— Aí é que está. Ela te contou como começou, a história do café...
Assenti, lembrando-me das palavras na voz de . Foi totalmente desconfortável.
— Ela só me pareceu desprotegida e...
— Você se aproveitou — completei.
— Não! Vá devagar! Não me aproveitei de ninguém! Mas já expliquei o que acontecia na época e... Eu só fui fraco. Como você está sendo agora.
— Quer que eu os aplauda? — Ironizei.
— Quero que vá atrás da e diga que não se importa. Que passou, morreu e está enterrado.
— O ou quê? — A ironia ainda dominava minha boca e o gosto era de ferro.
— Sei que está queimando agora, e que, por motivos que só Deus explica, não me acertou um olho, mas isso não vai durar. Você a perdeu uma vez porque ficou calado. Vai fazer isso de novo?
sempre dizia as coisas sensatas, mas eu estava louco demais para ouvir, louco demais com as minhas próprias vozes.
Firmei as mãos em punho na mesa.
— E como vamos conviver? — Consegui dizer, depois de um longo silêncio. — Sim, porque agora eu sei de coisas que nunca imaginei saber.
— Como convivemos sempre, oras! Se te preocupa o que eu contei, ficou naquela época. Não sou masoquista para me manter ligado a algo que me despedaçasse, muito menos egoísta para pensar em tentar tirar de você a única mulher que conheceu que realmente vale alguma coisa. Eu liguei para você, não liguei? E contei a verdade para . Eu sempre soube que deviam ficar juntos, que ficariam. E agora, aqui estou eu de novo para te dizer com as palavras que disse naquela época: deixa de ser idiota, ! Vai atrás da sua mulher e vê se faz alguma coisa! E lembre-se, ela não contou porque eu pedi. Esperando que se acertassem. Não me faça me sentir culpado pelo resto da vida.
Permaneci calado, enfiou as mãos nos bolsos.
— Pensa — falou, já perto da saída. — E vê se faz as coisas certas.
Continuei calado.
Demorei um tempo digerindo cada frase de . E me coloquei em seu lugar — naquela época — por algum tempo. Conforme eu assimilava as coisas, as palavras pareciam pequenas peças, peças estas que formavam um colete salva-vidas e me tiravam do mar avermelhado da agonia.
estava no colégio, mas eu poderia procurá-la no almoço e tentar conversar, era o único jeito — e o mais rápido também.
Quando me aprontei para sair, o telefone tocou. Atendi.
Sr. Jonas — ouvi .
— Pois não — respondi, sem muita vontade. Rezando para que ela quisesse apenas pedir para sair mais cedo para o almoço.
Não fui ouvido.
Houve um pequeno problema na filial do Texas — ela disse, e eu vi todos os meus planos irem por água abaixo. — Eles precisam falar com o senhor urgentemente. Vá à sala de vídeo conferências.
— Ah, meu Deus! — Resmunguei. — Obrigado, . E pode sair para almoçar.
Obrigada, Sr. Jonas! — Respondeu, animada. — Boa sorte, até depois.
— Obrigado, até — desliguei. — E mais essa agora — reclamei, respirando fundo. — Vai lá, presidente — ironizei.

Josh St. Monique’s POV

Madison era bastante... Surpreendente. Se eu havia escutado bem, ela e tiveram alguma coisa pouco antes de apresentá-la como sua namorada e, por isso, os dois estavam passando por um dia daqueles. Quem diria que até mesmo um imbecil como teria tido mais chance com ela do que eu?
Para mim, ela encenava o papel de difícil, para o da mulher mais incrível que ele poderia conhecer em toda sua vida e para , o de bêbada doidona. O melhor de todos, aliás. Quem diria? tinha uma piranha dentro dela, gritando para se manifestar depois de doses de tequila.
Quando eu entrei na sala do Jonas, depois de todos terem saído, tudo o que eu procurava eram os arquivos de computador com os números do último mês. Sorte ou simplesmente coincidência, dei de cara com o telefone celular de esquecido sobre um móvel qualquer da sala. Foi naquele instante que a minha melhor ideia em anos surgiu. E por mais idiota — e com chances enormes de dar errado — ela parecesse, ao mesmo tempo, me dava alguma certeza de êxito. Resolvi arriscar.
Menos de dez minutos depois, vi que a primeira parte havia acontecido sem erro. Apaguei qualquer evidência do telefone celular e o deixei no mesmo móvel em que o encontrara, saindo para minha sala e depois para o almoço. ainda não havia voltado. ainda estava resolvendo o problema da empresa do Texas.

Jonas’ POV

— Quanto custam? — Perguntei ao homem.
Eu estava em frente a uma pequena barraca de madeira, que muito lembrava um quiosque, perto da estação de metrô. Havia as flores silvestres mais bonitas que eu já havia visto naquela época do ano.
— Uma dúzia é quinze dólares — respondeu o senhor de barba e cabelos brancos, vestido num macacão jeans com camisa e um casaco quente o suficiente para o fim de tarde daquele começo de primavera.
— Me dê uma dúzia, em um buquê, por favor — pedi, tirando as notas da carteira. Eu só tinha vinte, por isso disse ao vendedor que ficasse com o troco.
O mesmo deu as flores a uma latina de cabelos curtos e crespos para que a garota envolvesse parte dos cabos em papel celofane cor-de-rosa e, logo, arrematasse com uma fita no mesmo tom. Não achei que rosa tivesse muito a ver com , mas não questionei ou reclamei, simplesmente peguei as flores, satisfeito, e as coloquei com cuidado no banco do carona.
Depois de resolver o problema da filial texana, comi qualquer coisa no restaurante mais próximo e acabei tomando uma decisão: voltar mais cedo para casa, sentar com e resolver as coisas. Não seria fácil. Talvez, eu viesse a me sentir desconfortável quando estivesse no mesmo ambiente que ela e , mas, ainda assim, sabia que não duraria eternamente. E que eu preferia esse desconforto à sensação de afogamento novamente. Portanto, eu ia engolir um pouco do que me incomodava e daria um jeito nas coisas, independente do quão difíceis elas me parecessem. Soava cedo e bobo demais para desistir.
Temi apenas que ela estivesse furiosa demais comigo por ter deixado nossa casa.

Jonas’ POV

Fiquei um pouco nervosa quando vi a mensagem de mais cedo. Ele me pedia para ir vê-lo no fim de tarde, na hora em que a maioria dos funcionários já havia ido embora. Dizia que tínhamos que conversar, que não havíamos feito as coisas do jeito correto. Ao mesmo tempo em que me senti melhor por ter um retorno seu, finalmente, tive medo do que ele classificaria como o “jeito correto”.
Respondi que iria vê-lo mais tarde. Dali em diante, nenhuma outra mensagem sua chegou. Talvez fosse trabalho demais, eu implorava por isso.
Instintivamente, olhei-me no espelho do corredor que ligava os quartos ao resto do apartamento. Eu vestia jeans, uma blusa vermelha de mangas compridas, um casaco frouxo e botas. Peguei a bolsa na poltrona de sempre e caminhei para a saída. Tomei um susto quando Olly chamou meu nome, da bancada da cozinha.
— Aonde vai? — Ela tinha um ar curioso e uma maçã verde nas mãos. Mordeu a fruta, balançando a cabeça para se livrar dos longos e lisos fios ruivos que vinham para o rosto.
— Falar com o — respondi. — Ele pediu.
— Viu? — Ela saiu de sua banqueta e se aproximou de mim. — Garanto que ele “já esfriou” e vocês vão voltar de mãos dadas para casa.
— Tomara que você esteja certa — suspirei, meio derrotada.
— Hm. — Olly engoliu outro pedaço de sua fruta. — Eu chamei a Sky aqui para me ajudar com uns exercícios de história americana. Então, se não se importam, façam as pazes onde estiverem, aqui vai ter visita... É meio constrangedor.
— Olímpia! — Eu corei, envergonhada.
— Qual é? — Ela riu. — Você ‘tá da cor do meu cabelo! Mas, olha, eu quero um irmão e, sei lá, reconciliações são meio afrodisíacas, sei lá se é assim que se fala. Enfim, pode ajudar.
— Antes que eu me engasgue aqui, vou saindo. E boa sorte com seus estudos — desejei.
— Boa sorte para você — Olly sorriu, me pegando de surpresa. — Vou ficar na torcida.
Agradeci, sorrindo de volta, e saí, rumo ao elevador. Estranhamente, desejei cruzar até mesmo com a antipática da Sra. Black, menos com Kim. Era a lavagem cerebral de Olly, só podia ser.
Durante o caminho — e isso incluía o elevador —, fiquei pensando no que eu diria. E no que havia dito no dia anterior. Talvez, eu tivesse usado as palavras erradas, ou sido detalhista demais, não sei. Só me lembrava de ter entrado em pânico e começado a falar, preocupada em não deixar ninguém sem resposta.
Depois, perguntei-me se e haviam se cruzado na perfumaria, perguntei-me como as coisas haviam sido e implorei a Deus para não ter causado uma guerra familiar. Seria como dar um tiro para o alto e a bala perdida acertar alguém a quem eu tinha afeto. Se as coisas tinham ficado fora de controle entre os dois, a culpa seria minha. Totalmente minha por ter aberto a boca quando devia ter carregado o segredo trancafiado a sete chaves. Só que estava se tornando muito pesado, ainda mais depois de tudo. Eu não tinha mais braços para carregá-lo.
Desci na estação de metrô de sempre e segui meu caminho até à Jonas & Co. As recepcionistas já não estavam lá, mas, ainda assim, consegui entrar. Tomei o elevador e senti meu estômago chegar ao andar da presidência mais rápido do que eu.
Pouco depois da náusea, ouvi as portas se abrindo. Meu primeiro passo foi pequenininho, quase infantil. Assustado, nervoso. Mas, depois dele, tudo o que eu consegui fazer foi andar. E me aproximar da porta.
Bati. Não houve resposta. Tentei mais uma vez. Idem. Girei a maçaneta, enfim.
— Oi, .
Havia um sorriso sarcástico nos lábios de Josh.



Capítulo Trinta
Você salvou minha vida de novo.
Love You Like a Love Song — Selena Gomez & The Scene


Aquilo me deixou mais apavorada do que chegar até ali.
— Cadê o ? — Perguntei, meio trêmula. — O que faz aqui? Esta não é a sua sala — eu não podia ver meu rosto, mas sabia que estava pálida.
Josh gargalhou.
— Calma, uma pergunta de cada vez — ele andou, aproximando-se de mim.
Não respondi. Tentei parecer indiferente, mas ele estava me deixando assustada. Será que tinha feito alguma coisa com ?
— Questão 1: “Cadê o ?”; bem, ele não veio. Na verdade, ele nem sonha que você e eu estamos aqui neste momento. Questão 2: “O que faço aqui?” — os olhos de Joshua sobre mim voltaram a ser daquela maneira detestável de antes. Eu quis vomitar. Ele agarrou meu braço e apertou-o com certa força. — Você e eu, Madison, temos um assunto para resolver.
— Não tenho nada para resolver contigo. E é melhor me soltar, Joshua! — Por mais firme que minha voz tenha saído, por dentro, eu estava morrendo de medo. Tudo no meu corpo reagia ao medo, da dor na boca do estômago aos meus batimentos completamente loucos e acelerados.
Josh permanecia me olhando de um jeito traiçoeiro e nojento. Era como se cada pedaço da minha roupa fosse arrancado só pelos olhos dele. Comecei a suspeitar do que ele falava quando dizia que tínhamos algo mal resolvido, espantei tal pensamento para não entrar em pânico, mas era tarde demais; eu já havia entrado.

Olly Petroni’s POV

— Em que ano George Washington assumiu a presidência dos Estados Unidos da América? — Perguntou Sky, cobrindo a resposta com a mão.
Senti vontade de rir por ela falar o nome inteiro do país, mas sabia que tinha que me concentrar ou ia me ferrar bonito na prova, em menos de uma semana. Fiz certo esforço, puxando pela memória. Quando abri a boca para dar a resposta, uma voz me interrompeu de falar.
Nós duas nos viramos, dando de cara com o meu pai.
— Ué, ‘tá fazendo o que aqui? — Eu perguntei, confusa. — Chamando pela e com essas flores na mão?
— Ahn? — não entendeu. Sua cara foi mais confusa do que a minha, segundos antes. — Olá, Sky.
— Olá, Sr. Jonas — minha amiga respondeu formal, como sempre, empurrando uma mexa de seu lindo e brilhante (e invejável!) cabelo preto para trás.
Fiquei olhando para .
— Não vá me dizer que esqueceu o que marcou com ela — ri. — Ela foi te encontrar, na Jonas & Co.
A cara de ia ficando cada vez mais esquisita.
Não era possível que ele fosse tão esquecido assim. Ou era?
— Ela foi para a Jonas & Co. porque você marcou com ela no almoço, depois, sei lá — dei de ombros. — Você mandou uma mensagem de texto pedindo para ela ir até lá no fim do expediente. Eu achei que a essa hora vocês...
Calei a boca quando Sky me deu um cutucão e me fez olhar para . A expressão dele foi da confusão ao espanto numa fração de segundo.
Ele vasculhou seus bolsos, mais de uma vez.
— Meu celular não está comigo. E eu não mandei mensagem nenhuma — respondeu. — Olly, você não está inventando essa história, está?
— Claro que não! — Respondi prontamente, chocada. — Será que aconteceu alguma coisa com a ?
arregalou os olhos.
Fosse o que fosse, ela era seu ponto fraco. Ele podia desejar matá-la menos de 24h atrás, agora, estava apavorado apenas com a ideia de algo ter acontecido com ela.
— Eu vou até a fábrica — disse, enfiando o casaco de novo. Pegou as chaves sobre um dos móveis e atirou as flores no sofá.
— Leva o meu celular — eu disse, num dos meus melhores reflexos. Joguei meu aparelho para ele, que o pegou prontamente. — Liga para ela, sei lá, pede notícias. E me avise, qualquer coisa.
— Eu aviso.
Sem mais uma palavra, ele saiu apressado, nervoso.
— Será que aconteceu alguma coisa grave com Sra. Jonas? — Perguntou Sky, um pouco assustada.
— Eu não sei, Sky. Mas ‘tô achando que sim. E, pelo jeito, meu pai também.

Jonas’ POV

Meu corpo estava totalmente preso à parede atrás de mim. Josh me olhava sem dizer uma palavra sequer. Por mais que eu pedisse, ele não me soltava, pelo contrário, mantinha as mãos segurando meus pulsos de uma maneira que chegava a machucar. Eu sabia o que ele queria, o que ia fazer e era aí que eu ficava com muito medo, como uma criança assustada. O medo chegava a me deixar tonta, totalmente tonta.
Ele soltou um dos meus braços, mas o segurou com outra mão depressa demais para que eu pudesse ser rápida o suficiente para lhe dar um soco. Tudo o que eu fazia era mandá-lo me soltar. O que, obviamente, não tinha resultado algum. Parecia que, quanto mais eu gritava, mais ele sorria. Quando se cansou disso, ergueu meu queixo com sua mão livre, observando meu rosto como se eu fosse um pedaço de carne pendurado num dos ganchos da vitrine. Num ato impensado, lhe dei uma cusparada.
— Sua vadia nojenta! — Reclamou, limpando o rosto na manga do braço que mantinha erguido, ocupado com os meus pulsos. Segurou meu rosto brutamente, apertando minhas maças. Aquilo doía.
— Mas isso já vai acabar... Fecha os olhos, menina da entrega, pensa que eu nunca ouvi como o imbecil te chama? Fecha os olhos e finge que eu sou o seu cunhado.
— Me solta, St. Monique! Isso não vai acabar bem — tirei forças de algum lugar desconhecido, tentando parecer ameaçadora o suficiente. É claro que não deu certo. Eu não conseguia ser mais apavorante do que Josh, nem se eu quisesse. Não entendi como ele sabia de alguma coisa, já que me mandara fingir.
O tom irônico dele era ensurdecedor. Ouvi-lo me fazia tremer de pavor.
Ele estava de caso pensado. Cada passo tinha sido planejado.
— Claro que vai — Josh aproximou o rosto do meu, na tentativa de um beijo, mas eu virei o mais depressa que pude. — Não seja rebelde, amor — ele trouxe meu rosto para frente de novo, me fazendo olhá-lo. Não tentou nada, mas nos manteve próximos demais. — Se não, eu vou ter que ser malvado.
— Vá à merda! Acha o quê? Que vamos ficar aqui por quanto tempo até alguém aparecer? Isso aqui é Nova York, não o Deserto do Saara.
— Ah, é? E quem vai aparecer? — O nariz de Josh fez um rápido trajeto pelo meu pescoço. — Perfume caro. Ganhou de quem, do irmão economista ou do irmão bioquímico?
— Da sua mãe — revidei, debatendo os braços, numa tentativa falha de me soltar. — vai chegar, você vai ver. Ele marcou comigo aqui. Isso não vai durar, seu desgraçado! — Tudo se misturou. Os problemas do dia anterior, o pânico pela situação ali... As lágrimas escorreram no momento em que eu citei o nome de .
— Pobrezinha, está chorando. Daqui a pouco você vai rir, eu prometo. Mas, antes, me deixa contar uma coisa: nem sonha com o que está acontecendo. Eu mandei as mensagens, só aproveitei o momento certo.
Eu me desesperei. Era muito possível que estivesse furioso comigo e, em algum hotel, para onde fora quando seu horário acabou. Ele não fazia ideia do que acontecia comigo. Nem ia fazer. Ninguém fazia. Eu ia terminar nas mãos de Josh. Como um pedaço de pano velho. Eu ia ser usada. Ia ser estuprada. E não duvidava que ele terminasse me matando, no fim de tudo.
— Socorro! — Gritei. Mesmo sabendo que ninguém me ouviria. — Socorro, pelo amor de Deus! — Minha voz embargou, minha garganta arranhou e Josh cobriu minha boca com a mão. Ainda assim, insisti em meu pedido, sem conseguir parar de chorar.
Apesar de nada ter acontecido, ainda, eu não conseguia tirar da cabeça as imagens de Josh conseguindo o que queria de mim. Era tudo fruto da minha imaginação, mas não demoraria muito em se tornar verdade. Eu gritava mais e mais, aos prantos. Estava quase sufocando porque Joshua mantinha a mão no meu rosto, mas, de algum lugar, eu tirava forças para gritar.
Corri os olhos pela sala e reparei na porta aberta. Confiei em meus reflexos e implorei a Deus para que aquilo me salvasse. Calei-me, tentando, sem muito sucesso, segurar as lágrimas.
Josh soltou minha boca, e eu pude respirar novamente. Ele também falou algo sobre eu finalmente estar aprendendo a ser uma boa garota, que eu meu segurei para não responder. Quando ele pareceu distraído demais, com sua mão imunda na barra da minha blusa, consegui acertar meu joelho em sua virilha, fazendo-o se afastar e gemer de dor. Aquilo me fez correr. Se eu conseguisse chegar até a mesa de e ligar para a polícia, conseguiria salvar a mim mesma de um filme de terror.
Era um percurso curto, mas, naquela hora, pareceu o Caminho de Santiago. Quando atravessei a porta, quase respirei aliviada. Fui impedida pela mão em meu cabelo. A dor foi infernal. Josh me puxou pelo braço e acabou me derrubando no chão. Em menos de cinco segundos, ele estava em cima de mim, prendendo-me entre as suas pernas.
— Sempre há alguém mais esperto que você, — ele disse, ainda reclamando de dor.
Não vi saída contrária ao apelo.
— Pelo amor de Deus, Josh! Não faça nada comigo! — Implorei. — Você quer algo em troca para me deixar em paz? — Comecei a dizer qualquer besteira que me viesse à mente. — Qualquer coisa, peça. Eu nem vou chamar a polícia, mas me deixa ir embora. Só me deixa ir embora.
— E eu vou perder a diversão? — Para ele, parecia uma coisa normal. Ele ria, me olhava como se eu fosse uma atração extraordinária num circo, cassino ou qualquer outra casa de espetáculos.
Josh subiu parte da minha blusa, fazendo minha pele chocar contra o piso gelado. Aproximou-se de mim de novo, com aquele nariz nojento percorrendo o meu pescoço. Comecei a esmurrá-lo nos ombros, com todas as minhas forças.
— Para com isso! — Ele mandou, falando alto perto do meu ouvido.
Ignorei. Continuei socando, tentando cravar minhas unhas por cima de sua camisa cara. Ele reclamou de dor, parecia estar surtindo efeito.
— Para de me machucar! — Mandou de novo, mas aquilo pareceu me dar mais forças.
— Eu te disse para parar!
Daquela vez, não tive como continuar. Sua mão veio aberta e pesada contra meu rosto. A dor foi intensa, e eu senti quando meu nariz pareceu sangrar. Trouxe uma mão até o local e vi meus dedos manchados de vermelho, logo depois. De dor, de medo, de desespero, me sentindo derrotada, tornei a chorar, mas as lágrimas faziam apenas com que eu me sentisse pior.
Comecei a me debater, tentando escapar de Josh, mesmo sabendo que não seria possível. Era o inferno, eu podia sentir. Era a pior sensação de toda a minha vida. Eu estava fraca, amedrontada, indefesa e a um passo de ser usada sexualmente. Mais uma vez. Totalmente contra a minha vontade e totalmente sóbria para me amaldiçoar pelo resto da vida por causa do que aconteceu. Tentar escapar e não conseguir era apenas a confirmação de que eu era uma formiga prestes a ser pisoteada pelo elefante assustador.
— Para — pedi, baixo demais, sentindo as forças indo embora juntamente com a minha voz.
Era o fim da linha para mim.
Virei o rosto, evitando a expressão eufórica e alucinada de Josh. Vi minha bolsa jogada no chão, meus pertences espalhados e... Meu celular. Vibrando. Reconheci o número de Olly nele. Estava tão perto. Se eu conseguisse esticar o abraço a apertar o botão para atender, talvez ela me ouvisse e mandasse a polícia até lá. Olhei para Josh, ele estava ocupado demais abrindo os botões de sua camisa listrada. Virei-me outra vez e estiquei meu braço, conseguindo tocar o aparelho. Eu o puxava para perto, para poder atender.
— O que pensa que está fazendo?! — Josh gritou, pegando o telefone dos meus dedos. Jogou-o longe, contra uma parede, fazendo com que o Blackberry se despedaçasse. Depois, fixou seu olhar demoníaco sobre em mim. E me acertou em cheio de novo, em um dos olhos. As lágrimas escorreram por vontade própria. A dor foi tamanha, que eu fui incapaz até mesmo de tentar gritar.
É o fim, pensei.
Josh segurou meus pulsos com uma só mão de novo e, com uma violência abismal, rasgou minha blusa, deixando apenas meu sutiã à mostra. Fechei meus olhos e virei o rosto para o lado, sentindo o gosto das lágrimas e do sangue de meu nariz se misturarem em meus lábios. Era horrível. A mão de Josh pela minha pele era tão horrível, que desejei morrer.
— Eu disse que se colocasse as mãos nela de novo, te matava!
O desespero só podia estar me fazendo delirar, porque ouvi a voz de invadir o ambiente.
Quando o peso do corpo de Josh saiu de cima de mim, tomei coragem de abrir os olhos e ver que milagres podiam sim acontecer. estava lá e Josh estava jogado contra o pequeno sofá da sala, tendo o rosto acertado quase que por segundo.
Fazendo certo esforço, eu me levantei. Ainda me sentia completamente zonza e quase me segurei numa das paredes para me aguentar de pé. Ver aquela cena, que parecia surreal por inúmeras razões, era um pouco chocante. Eu nunca pensei que veria daquele jeito, o modo como ele e Josh se atracavam — Josh mais apanhava do que batia —, era selvagem e eu não me sentia confortável, mas não me cansava de agradecer a Deus por ter aparecido ali quando devia. Ele prometeu que me protegeria e ali eu soube que cumpriria sua promessa.
De novo, corri até a mesa de . Peguei o telefone e chamei a polícia, disse que havia sofrido uma tentativa de estupro e dei o endereço. Fiquei com medo que a policial não acreditasse, ainda mais quando expliquei estar no último andar, mas ela disse que a viatura estava a caminho.
Já com meus sentidos organizados, voltei à sala e fui pega de surpresa quando vi Josh pressionado contra a enorme janela de vidro.
— Lembra-se do que eu falei da última vez? — Disse .
— Vai me matar por causa da vadia que dormiu com o seu irmão? — Apesar das circunstâncias, Josh não parecia se dar por vencido.
— Ora, eu vou matar você! — o sacudiu para frente e para trás, pressionando-o contra o vidro de novo.
Tive a sensação de que ele ia jogá-lo lá embaixo.
— Não faz isso! — Gritei.
me olhou, surpreso.
— A polícia está a caminho — expliquei, baixo. — Se você fizer isso com ele, — sussurrei quando as malditas lágrimas voltaram — vão te levar. E nós sabemos que não é o bandido aqui.
respirou fundo e jogou Josh com tudo contra o chão. Quando ele caiu, pude ver que sua cara estava mais ferida do que imaginava que a minha estaria. Ali, sentado, ele parecia tonto. Talvez, tivesse batido com a cabeça em algum momento.
— Agradeça à por isso.


Capítulo Trinta e Um
Todas as minhas janelas ainda estão quebradas
Mas estou de pé.

Skyscraper — Demi Lovato

Olly Petroni’s POV


— Sky! — Chamei, despertando a garota de seus estudos.
— Que foi, Olly? — Ela levantou a cabeça, tirando seu olhar do livro e direcionando-o para mim.
— Não acha que o meu pai ‘tá demorando demais? — Perguntei, apreensiva.
— Eu não sei... — Sky fitou o relógio na parede da cozinha, mas olhou para mim de novo. — Acho que a gente ‘tá nervosa, por isso acha que eles estão demorando. Por que você não telefona para o Sr. Jonas e pergunta se ‘tá tudo bem?
— Vou fazer isso.
Pulei da banqueta, caminhando de meias pelo piso, até o telefone na mesinha de centro da sala. Disquei os números de meu celular, mas chamou inúmeras vezes e não houve uma resposta. Caiu na caixa postal. Deixei um recado, mas, ainda assim, não fiquei completamente segura.
— Pega o seu casaco, Sky — eu disse, enfiando os tênis All Star, que tinha tirado de qualquer jeito. — Eu vou pegar minha carteira no meu quarto e a gente vai até à fábrica para saber o que aconteceu.
— Tem certeza, Olly?
— Se eu não for — gritei, já de meu dormitório. — Vou ficar louca aqui. Pode ter acontecido alguma coisa até mesmo com meu pai.
O caminho do apartamento poderia muito bem ser feito num táxi, mas eu estava tão nervosa, que preferi fazer como e aproveitar a companhia de Sky – que conhecia a cidade melhor do que eu – e ir de metrô. Nosso vagão estava meio vazio, mas eu não me sentei. Fiquei de pé, segurando num dos ferros perto da porta, enquanto Sky me olhava, sentada no banco à minha frente.
— Você ‘tá me deixando nervosa assim, Olly — ela disse, puxando as mangas de seu cardigã listrado.
— Sensação ruim, já ouviu falar?
Sky assentiu.
Minutos depois, desembarcamos na estação perto da fábrica. Eu subi as escadarias apressada, quase derrubando um homem que descia com algumas caixas de frutas. O mesmo me xingou, e eu revidei, em italiano. Sky riu porque era uma das únicas pessoas que entendia o que eu falava quando usava meu idioma nativo.
Durante o caminho até a Jonas & Co., nenhuma de nós disse uma palavra. Quando viramos a esquina, dando de cara com o prédio da fábrica, fui pega de surpresa pela viatura da polícia estacionada numa das vagas principais. O carro de estava ao lado.
— A polícia, Oll ainda não havia voltado. disse, enfiando o casaco de novo. Pegou as chaves sobre um dos móveis e atirou as flores no sofá. bry! — Sky falou antes de mim, puxando-me pelo braço e correndo comigo até lá perto.
Tudo o que eu conseguia pensar era: “Será que mataram alguém?”. Só o pensamento me deu um aperto no estômago.
Perto do carro, havia uma policial negra e alta. Paramos diante dela.
Scusa — fiquei tão nervosa que até confundi os idiomas. — Desculpe, mas será que a senhora pode me dizer o que aconteceu? — Questionei.
— Fiquem para trás, aqui não é lugar de crianças — respondeu ela, estendendo um dos braços.
— Moça, a gente só quer uma informação — tentou Sky, com toda a sua calma aparente.
— Nós recebemos um chamado de uma mulher, é só o que eu posso dizer — milagrosamente, ela liberou alguma informação.
Demos alguns passos para trás. Olhei para o bolso do casaco de Sky, vendo seu telefone fazer volume nele.
— Empresta o celular — pedi.
— Aqui — respondeu, puxando o telefone do bolso.
Procurei meu número na agenda e teclei chamar.
Depois de umas seis vezes chamando, atendeu.
— Alô, pai? O que aconteceu? A gente ‘tá aqui embaixo. Tem polícia e não sei mais o quê... A policial não nos deixou passar — disparei como uma metralhadora.
Está tudo bem. Fique esperando aí embaixo. Eu já vou — respondeu ele, mas seu tom era bastante tenso.
Sem que eu respondesse, desligou.
— E aí? Que foi que seu pai falou? — Sky perguntou assim que larguei o celular em seu bolso de novo.
— Ele me disse que ‘tá tudo bem e mandou esperar aqui.
— Ebr ainda estava resolvendo o problema da empresa do Texas. brntão é isso que a gente vai fazer — Sky me abraçou de lado, não como uma amiga, mas como uma irmã faria. Retribuí.
Não havia muitos curiosos — graças a Deus, as pessoas estavam ocupadas demais com suas próprias vidas — e eu pedi a Sky que ficasse comigo, pelo menos, até que aparecesse e me desse uma explicação plausível. Prontamente, ela disse que sim.
— Olly, olha: tem um cara saindo algemado! — Sky me despertou, fazendo com que nos soltássemos.
Um homem vestido numa camisa manchada e com a cara machucada apareceu, logo entrando na viatura. Eu corri, com medo que fosse , apesar da silhueta ser diferente.
— Quem será? — Perguntei.
— É o Joshua St. Monique, ele é vice-presidente ou algo assim — Sky respondeu. — Já o vi em algum jornal, sei lá... — explicou-se.
— Já vi esse tal Joshua — dizer aquele nome, para mim, era difícil. — Mas a cara dele está tão cheia de machucados que não dá para ter muita certeza.
Quando e apareceram, eu fiquei surpresa. O rosto dela estava machucado e o nariz manchado de sangue. Ela vestia o paletó de e o segurava com os braços, para que não se abrisse. Parecia não ter nada sob ele, além de sua própria pele.
Sem me importar com a polícia, desviei de uma das viaturas e corri, chamando por , com Sky agarrada à minha mão. Quando parei, diante dos dois, olhei-os, aliviada por ver que estavam bem, mesmo com daquele jeito.
— Vocês estão bem? Quem era aquele cara? Por que a ‘tá assim? — Mais uma vez, perguntei, atropelando as palavras.
não falou nada, não expressou emoção nenhuma. De perto, os machucados no rosto dela eram piores e foi assustador vê-la daquele jeito, ainda mais porque eu a considerava a pessoa mais forte que eu conhecia. Mas, ali, naquela situação, com a segurando com um dos braços ao seu redor — como se fizesse isso para mantê-la de pé — e seus olhos tão amedrontados, além de o esquerdo estar completamente roxo e inchado, ela era só um peso leve. E, com um sopro, eu tive certeza de que ela iria cair e se despedaçar. Foi assombroso.
— Eu preciso que vocês dois me acompanhem até a delegacia — disse a policial que falara comigo e Olly antes, agora para e . — A senhora terá que passar por alguns exames.
apenas assentiu.
Sky e eu nos olhamos, apavoradas.
— E vocês duas, moças? O que fazem aqui?
— A ruiva é minha filha, a outra está sob minha responsabilidade por hoje — interveio. — E o que aconteceu é uma longa história — disse para nós.
— Então, terão de ir todos para a delegacia — informou a policial. Era noite, por isso não consegui ler o sobrenome em seu crachá. — Sr. Jonas, se importa se irem os quatro em seu carro com um policial? — Perguntou ao meu pai.
Ele negou.
O policial foi ao lado de , no banco do carona. , Sky e eu fomos no banco de trás.
— Se importam de não contar a ninguém sobre tudo? — se pronunciou, falando baixinho.
— A gente não vai contar nada, Sra. Jonas — garantiu Sky. — Se alguém ficar sabendo da nossa ida à delegacia, é porque Olly e eu pegamos o carro do seu marido escondido.
— Vou ficar muito grato por isso, Sky — falou, do banco da frente. — Direi à Diretora Crayg que está de cama, por isso ficará alguns dias sem trabalhar. Não me desmintam, por favor.
— Claro que não — eu disse.
Sky concordou com a cabeça.
— Obrigada — sussurrou.
Até a delegacia, o resto do caminho foi embalado apenas pela sirene da viatura à nossa frente, onde o cara que apareceu primeiro, certamente, estava sendo levado. Perguntei-me se havia sido ele quem machucou . E se fora quem deixou a cara dele naquele estado.

Jonas’ POV

As imagens não paravam de se repetir dentro da minha cabeça. A sensação que eu tinha era de que eu teria pesadelos por muitas noites seguidas. Só de pensar naquilo, meus olhos lacrimejavam de novo.
No carro, eu mantive meu rosto virado para a janela. Tive vergonha de encarar Sky e Olly, por mais doces e prestativas que ambas estivessem sendo comigo. Por mais que o pior quase tenha acontecido, eu me sentia como se aquilo tivesse se consumado. Toda aquela função, de polícia, depoimentos e exames, me deixava exausta, mas era necessária. Era constrangedor ter que repetir tudo o que houve até ali para o chefe de polícia, mas eu teria de fazer, querendo ou não.
Paramos num hospital perto dali. A viatura com Joshua — aquele porco desgraçado! — seguiu para o Departamento de Polícia.
me ajudou a descer e me protegeu, com seu braço e seu corpo, como da primeira vez. Olly e Sky eram os passos atrás de nós, assim como o policial que estivera no banco do carona.
Quando adentramos a emergência, os olhares vieram sobre nós, fazendo-me abaixar meu rosto ainda mais, envergonhada. foi avisado de que outra policial iria ouvi-lo. Como ele não tinha nenhum machucado além de um corte no canto direito do lábio inferior, foi direto contar sua versão da história — e eu morri de medo que a justiça fosse falha e o culpasse também, já que acertou a cara de Josh.
Fomos todos até uma sala de espera, as meninas, o policial e eu. Sentei-me numa das poltronas azuis e fitei a parede completamente branca. Olly sentou-se ao meu lado e Sky, ao lado dela. O policial de bigode loiro ficou de pé.
— Obrigada por virem comigo — falei a elas.
— Não precisa agradecer, . Você é muito importante para o meu pai, e eu me sinto na obrigação de te ajudar — respondeu Olly de um modo sincero como eu nunca havia escutado antes.
Depois dos exames, precisei me sentar e contar a uma policial tudo o que acontecera. Insisti muito para que as meninas ficassem junto de mim, conseguindo tal proeza. Remexer foi a parte mais difícil, relembrar minha blusa sendo arrancada e meu rosto sendo esbofeteado foi como viver aqueles momentos desesperadores de novo. Houve vezes em que eu chorei, vezes essas em que Sky me trouxe um copo com água para me acalmar. Agradeci a Deus quando acabou.
— Cadê o seu pai? — Perguntei à Olly.
— Ele já vem — seu tom foi terno, macio, tranquilizador.
De volta em casa, a primeira coisa que eu desejei fazer foi tomar um banho. Eu me sentia suja, portanto esfreguei cada pedacinho da minha pele com toda a força que pude, querendo tirar qualquer sensação ruim que ficara nela. Quando eu saí do banho, vestindo um pijama frouxo, Olly estava sentada perto da minha cama.
— Como está se sentindo? — Perguntou ela.
Sentei-me na cama, logo, colocando as pernas para cima também.
— Suja — respondi. — E o meu rosto dói muito. Não quebrei nada, mas o osso do meu nariz foi machucado — toquei a região.
— Sinto muito pelo que houve, . De coração. Nunca passei por isso, mas morro de medo. Quer alguma coisa? Um chá quentinho, algo para comer? Não sei...
apareceu na porta do quarto.
— Não, muito obrigada, Olly.
— Se precisar, me chama, ‘tá legal? — Ela saiu de onde estava e rumou para a saída do quarto. — Fique bem — desejou. — Eu vou deixar vocês conversarem.
Olly bateu no ombro do pai e saiu, rumo ao seu quarto, talvez. aproximou-se da cama e se sentou ao meu lado. Notei que ele havia tirado a camisa e a gravata, e enfiado alguma camiseta mais velha.
— Está tudo bem com você? — Perguntou, segurando a minha mão. Seus olhos, fixos em meu rosto machucado, eram preocupados.
— Meu rosto dói demais. O meu nariz e o olho inchado, principalmente — queixei-me.
— Quer tomar um dos remédios para dor que o medicou receitou? — Ofereceu.
— Aham. Mas, antes, você foi aonde enquanto eu tomava banho? — Perguntei.
— Colocar a colega da Olly num táxi para que ela pudesse ir para casa — respondeu. — Vou à cozinha buscar água para você tomar o comprimido.
Ele saiu da cama e foi direto à cozinha. Voltou com meio copo d’água nas mãos.
— Aqui — ele disse, entregando-me meio copo d’água e o comprido alaranjado.
Engoli no primeiro gole e voltei a deitar a cabeça nos travesseiros.
deixou o copo em seu criado mudou e voltou a ficar ao meu lado. Deitou-se em seu travesseiro também.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu — ele disse, olhando nos meus olhos.
— Você não podia evitar a mente doente do Josh — respondi. — O que vai ser dele?
— Hoje, passará a noite na cadeia. Amanhã já vai ter arranjado um advogado que o tire de lá e dê um jeito de fazê-lo responder em liberdade — bufou. — Mas fique tranquila, vou dar um jeito de proibi-lo de chegar perto de você — garantiu.
— E como vão conviver depois do que aconteceu?
— Falarei disso com Oliver depois, ele arranjará outra pessoa. Agora, pare de se preocupar com aquele animal e fique tranquila. Tente dormir. Irei passar a noite ao seu lado — ele beijou minha mão. — Me desculpe por brigar com você, por exigir uma postura que eu próprio não tive.
— Já passou — fechei os olhos.
Com cuidado, me ajeitou em seus braços, seguro de que eu ia pegar no sono muito em breve.
— Você salvou minha vida — continuei. — Não há mais nada para ser desculpado. Muito obrigada por ter aparecido — uma lágrima escorreu. — Você não mentiu quando jurou que cuidaria de mim.
— Não, eu não menti — cuidadosamente, ele beijou o topo da minha cabeça. Depois, nós ficamos em silêncio e, em seguida, eu adormeci, acordando somente no dia seguinte, sobressaltada com a sensação de estar atrasada para o trabalho.


Capítulo Trinta e Dois
Estou tendo pesadelos em que estou dormindo com o inimigo.
Energy – Keri Hilson


— Sai!
Acordei com meu próprio grito, poucas horas depois de ter me lembrado de que eu não precisaria trabalhar naquele dia. Sentada na cama, com o cabelo grudando no rosto por causa do suor, cheguei à conclusão de que eu havia tido um pesadelo sobre o que acontecera com Josh. Só que, para piorar tudo, no sonho, a loucura dele se concretizava. Quando chegava à sua sala, me encontrava machucada e violentada.
Esfreguei o rosto para conseguir acordar completamente e senti uma dor horrível quando minha mão, esquecida, tocou meu olho roxo.
— Ai — gemi.
, que foi? — apareceu, meio assustado.
— Tive um pesadelo — contei, ajeitando minhas costas contra a cabeceira da cama. — Josh conseguia.
correu até mim e se sentou ali comigo, me colocando em seus braços.
— Não, , não... Isso já é página virada — confortou-me, preocupado comigo, como sempre. — Eu falei com Oliver agora há pouco e ele me disse se sentir envergonhado pelo que o filho fez.
— E o Josh? O que vai ser dele? Digo, ele vai para a cadeia? Vai continuar na fábrica? Estou morrendo de medo dele — admiti. — E ele tem dinheiro, , pode reverter as coisas... Não sei!
— Em Nova York, crimes de caráter sexual são considerados hediondos — explicou. — Josh vai ficar preso algum tempo, não tanto quanto ficaria caso tivesse realmente violentado você, o que, graças a Deus, não aconteceu. Mas a pena pela agressão, que foi comprovada através dos seus exames, ele poderá cumprir de maneira alternativa.
— Vai limpar merda de cachorro? — Eu quis saber.
segurou a vontade de rir, talvez, pela maneira grosseira como eu falei, talvez, por imaginar Joshua em tal situação.
— Eu não sei. Oliver não me contou — respondeu. — Agora, quero que se esqueça do Josh e me diga se vai querer tomar café da manhã aqui ou lá na cozinha.
O modo doce e protetor como estava me tratando era fascinante. Apesar de toda a situação, ele era como uma manta onde eu me encolhia e me enrolava, fugindo da realidade congelante.
— Não tenho fome.
E eu não tinha fome, de verdade. Ainda me sentia muito estranha, ainda me sentia sob ameaça.
— Mas você precisa comer — agora parecia um pai. E eu me senti como Olly, por alguns segundos.
Neguei com a cabeça.
— Mas, ... — insistiu. — Você não come desde o almoço de ontem.
— Eu tomo um copo de leite, pode ser? — Sugeri, rendida.
sorriu para mim do jeito mais lindo que um homem poderia sorrir para uma mulher. Ele me trouxe o leite, e eu bebi metade. Ainda me sentia muito abalada com tudo. Enquanto eu, literalmente, “empurrava” a bebida, perguntei por Olly. Ele me disse que, pela hora, ela já deveria estar se preparando para almoçar com os colegas. Ali, me dei conta de que já passava das 11h da manhã. Fazia tempos que eu não dormia até tarde.
Perguntei também o que fazia em casa. Ele me disse que deixou tudo nas mãos de e que ficaria comigo o dia inteiro. Agradeci, feliz — e quase emocionada — por ver como as coisas entre mim e ele estavam caminhando numa linha reta de novo.
Tomei outro dos compridos para dor, na esperança de que meu nariz parasse de incomodar. Demorou um pouco, mas a dor tornou-se bem menor. Depois do almoço, minha primeira refeição “de verdade” naquele dia, cochilei de novo, por causa do remédio. Acordei com as vozes na sala.

— Ela está bem? — Era uma voz de mulher.
— Sim, está. O cara só roubou o telefone — explicou . — Eu vou ver se ela está acordada para que você a veja.

Ajeitei-me na cama de novo, esperando que , e seus adoráveis olhos castanhos, aparecessem.
— Quem ‘tá aí? — Perguntei assim que o vi.
Ele riu.
— Kim — falou baixo. — Eu disse a ela que você foi assaltada — contou. — Sei que não quer dividir o que houve com Nova York inteira.
Eu não queria mesmo.
— E quando a viu? — Perguntei mais para entender do que desconfiando de alguma coisa.
— Quando saí para buscar seu almoço. Os entregadores estão proibidos de subir até os apartamentos desde o que aconteceu com o cachorro dos Fields.
O cão havia atacado um entregador de pizza e os Fields foram obrigados a arcar com as despesas. Os condôminos, a partir dali, acharam melhor que os entregadores esperassem na portaria. E como, numa tentativa acertada de me fazer comer, mandara pedir comida no McDonald’s...
— Hm, é verdade — dei de ombros. — Chame a Kim para mim, por favor?
assentiu, deixando o quarto logo em seguida.
Kimberly apareceu vestida com suas roupas fashionistas de sempre e estava totalmente apreensiva. Quando viu meu rosto machucado, sua expressão de susto foi indisfarçável.
— Oh, meu Deus, ! — Ela disse, aproximando-se de mim.
Foi impossível não me lembrar de Olly quando olhei para ela. Não levei nada do que a ruiva me dissera em consideração. Apenas lembrei-me. Também havia uma espécie de voz, dentro da minha cabeça, dizendo-me que eu tinha sido assaltada — principalmente porque eu morria de vergonha do que se passara.
— Oi para você também, Kim — tentei ser o mais amigável possível, dada a situação.
— Ai, me desculpe, mas eu fiquei assustada quando me contou sobre seu assalto. Você não devia ter se negado a entregar a bolsa.
Pelo jeito, estivera brincando de roteirista de Hollywood enquanto eu esperava pela comida.
— Foi um impulso — inventei. — Mas não quero mais me lembrar disso. Apanhar foi tenebroso — ali, eu era sincera.
Ouvi a voz de Olly invadindo a casa. Consultei o relógio, que mantinha em seu criado mudo, rapidamente e vi que já era hora da italiana dar as caras em casa.
— Sim, claro! Vamos mudar de assunto.
Enquanto Kim falava sobre eu poder chamá-la quando precisasse, eu estava atenta às palavras que Olly e o pai trocavam, a alguns metros dali. Quando explicou que a visitante era Kim, a garota se enfiou na porta do meu quarto mais do que depressa.
— Oi, Olly — falei. — Pode entrar.
Ela cumprimentou a mim e a Kim e entrou, ajeitando-se numa poltrona que mantínhamos ali.
— Mas, sabe, — Kim prosseguiu como se Olly nunca tivesse nos interrompido. — parecia mesmo preocupado com você quando o encontrei no elevador, mais cedo. É como se você a peça de cristal dele. Ele te trata e te vê como se você pudesse quebrar.
Olly lançou um olhar desconfiado que eu fingi não ver. Quando Kim foi embora, ela logo tratou de sentar-se comigo, na cama.
— Ok. No começo — começou a falar. — Eu achava que ela tivesse uma quedinha suicida pelo senhor seu marido, mas agora... Pelo amor de Deus! Essa mulher é maluca!
Comecei a rir. Aquilo fez meu rosto doer.
— Ai! — Reclamei. — Para, Olly. Maluca pelo quê? Pelo ? — Ironizei.
— Não — ao contrário de mim, Olímpia foi séria. Estava firme e segura do que tinha para me falar. — Maluca pela sua vida. Digo, pela vida amorosa que você tem.
Eu achei maluquice. O que Olly queria dizer? Que Kim, uma mulher com mais de trinta anos, viajada, com uma carreira notável como jornalista de moda, poderia estar com inveja da minha vida? Não... Era colegial demais para a minha cabeça.
— Como vão as coisas com o Ethan? — Desconversei, mostrando-me curiosa, e eu realmente estava, com sua vida.
Quando falou dele, Olly pareceu animada. Como era comum para uma garota de quase dezoito anos. Achei bonito ver algo do tipo, afinal, com dezessete, eu só via as confusões amorosas de . Já Olly parecia uma protagonista de livros ou filmes, chegando nova na cidade, pegando o bad boy e fazendo as coisas darem certo. Sorri, contente por ela.
— E você? Como se sente? — Perguntou, depois de suspirar o suficiente com seu próprio conto de fadas moderno.
— Melhor. Física e psicologicamente falando. Tive um pesadelo medonho, mas depois não se repetiu. O remédio para a dor me dá muito sono.
— Papai foi um herói ontem — os olhos dela brilharam quando falou de . Desejei que o mesmo pudesse ver aquilo.
— Nem sei o que seria de mim se ele não tivesse aparecido — falei depressa, como forma de evitar que meus pensamentos voltassem até o dia fatídico. Então, lembrei-me de outra coisa, do nome no visor do celular. Era de Olly. Certamente, ela dissera a que fui encontrá-lo. — Vi quando ligou.
— Não era eu — contou. — Mas meu pai. Ele esqueceu o telefone na empresa, por isso dei o celular para que ele tentasse falar com você pelo caminho. Algo fez com que todos temêssemos que algo ruim estivesse acontecendo.
Ali, comecei a entender tudo: Olly dissera a que fui encontrá-lo. Mandou que levasse seu telefone para poder ter notícias. Se não fosse por Olly, sequer teria ido ao meu encontro e me tirado daquele filme macabro.
— Obrigada, Olly — consegui dizer sem chorar, como achei que faria.
Eu me sentia frágil e dramática demais.
— Pelo que, ? — Ela sorriu.
— Se você não dissesse ao que fui encontrá-lo, ele nem teria ido até lá. Ele me salvou porque você se preocupou. Obrigada, Olímpia.
— Não precisa agradecer, — ela disse de um jeito doce como na noite anterior. Fiquei surpresa ao ver como aquilo estava se tornando frequente. — Você é muito importante para o meu pai, já falei ontem. Não quero que nada de mau tem aconteça.
Surpreendentemente, nós nos abraçamos. Pela primeira vez desde que ela chegara. As coisas podiam ter começado de um jeito ruim em fevereiro, mas, agora — mais ou menos um mês depois —, tudo estava tomando o rumo certo. Ela se entendia com pai — e o tinha, como sonhara desde pequena — a ponto de dar valor às pessoas importantes para ele. Eu era uma delas, e, por isso, ela se importara comigo. Mas, mais do que isso, Olly andava confiando em mim ultimamente, até mesmo para pedir conselhos, como deveria fazer a uma irmã mais velha.
Ela se soltou de mim e pediu licença para ir fazer o dever de casa.
Mais tarde, recebi a visita de , e , que chegou com eles, depois do expediente. Um a um, eles falaram comigo. Fiquei com medo da reação de quando estive sozinha com , mas ele me pareceu tranquilo enquanto “fazia sala” para e — que devia estar se sentindo esquisita por ser visita na casa do próprio chefe.
e eu conversamos sobre o que acontecera depois da chegada de , dois dias atrás. A conversa dos dois foi algo do que eu não tinha conhecimento, portanto agradeci a por meter seu nariz em minha vida de novo. Ele era um amigo excepcional, e eu só podia lhe ser grata e desejar as melhores coisas do mundo. Ele, e sabiam sobre Josh, mas todos, principalmente , foram delicados demais a ponto de não falar sobre isso.

Depois que meus ferimentos cicatrizaram, dias depois, voltei à minha vida rotineira. Minha primeira manhã no St. Francis fora um dia bastante especial, algo que jurei que nunca esqueceria. Os alunos me esperaram com balões coloridos e mensagens de boas vindas no quadro negro.
— Muito obrigada — falei, depois que o barulho cessou. Eu estava recostada à mesa dos professores, observando como cada aluno mantinha os olhos atentos a mim. — Eu tive uns dias ruins, andei doente... Porém, agora estou de volta e mal posso esperar para ver a minha primeira turma se formar! Eu espero que cada um de vocês seja tão feliz em sua vida como eu sou na minha, pessoal e profissionalmente falando...
— Grava isso para o seu pai ver, Olly! — Algum engraçadinho gritou do fundo, me interrompendo.
— Vocês são péssimos piadistas — revidei. — Mas ótimos alunos e agora, preciso desenferrujar, por isso peguem seus livros na página 224.
Ouvi uma batida na porta.
— Com licença, posso interromper sua aula por um segundo?
Virei-me, vendo Clay ajustar seus óculos.
— Claro, entre — respondi, meio desconfortável.
Dei espaço a Clay, que tomou meu lugar anterior e tratou de repassar um recado direcionado à Comissão de Formatura. Depois, ele pediu licença e se retirou, deixando-me, enfim, começar minha aula.
As horas até o horário de almoço passaram voando. Logo, eu estava na sala dos professores, mas poucos deles perguntaram se eu estava melhor. A maioria dos professores no St. Francis não gostava de mim justamente pelo fato de os alunos terem uma boa relação comigo. Para muitos deles, o papel de carrasco e rígido era obrigatório a um professor, por isso os alunos e eles viviam numa guerra silenciosa.
Comigo, não havia guerra. Se não havia guerra, eu era tudo o que não deveria ser, segundo os olhos deles, é claro.
Sentei-me em uma das mesas da sala dos professores e abri minha agenda, procurando o resto dos meus horários. Dei um gole na caneca de café que eu havia servido e me dei conta de que almoçar em casa, com , era muito melhor. Nós havíamos combinado de fazer isso naquele dia, mas, pouco tempo antes, um negócio no Chile fora fechado e os chilenos viriam para a assinatura do contrato. Portanto, haveria um almoço de negócios exatamente na segunda-feira em que eu voltaria para a escola.
— Pelo jeito, os alunos gostam bastante de você — outra vez, era a voz de Clay.
Levantei a cabeça da agenda e o olhei. Vi que também tinha uma caneca de café na mão.
— É uma arte — esnobei, divertida. — Eu raramente gostava dos meus professores de matemática — admiti, rindo.
— Somos dois, mas gosto dos números, o que posso fazer? — Clay indicou a cadeira à minha frente com a cabeça.
Assenti.
Ele se sentou.
— “Gosto dos números.” Acho que já ouvi essa frase em algum lugar...
Clay não respondeu, bebeu um pouco de seu café.
— Sem fome? — Apontou para minha xícara.
— Milagrosamente, sim — confirmei.
Ele riu.
— O que os alunos fizeram por você hoje foi notável, ainda mais aqui — ele correu os olhos pelo lugar, nenhum dos outros professores pareceu notar.
— Eu quebro as regras, às vezes — confessei, baixinho.
Alguma coisa me disse para confiar em Clay, eu apenas ouvi.
Continuei:
— Mas, sabe, eu me sinto meio deslocada aqui. Como se houvesse duas de mim mesma: a que dá aulas e a que lida com a Crayg e os outros professores.
— Me sinto do mesmo jeito.
A resposta de Clay me pegou de surpresa.
— Não fui criado num colégio desses — contou. — Nem meus professores tinham esse ar superior.
Vi em Clay uma pessoa normal. Talvez, até um amigo naquele mundo de aparências que St. Francis era para mim. Apesar de tudo, eu amava meus alunos.

Jonas’ POV

Eu continuava na Jonas & Co., apesar de a temporada de como enfermeiro de ter acabado. Meus planos de vida eram outros, mas, ali, aprendendo como tocava os negócios, eu me sentia menos inútil. Além do mais, era a desculpa perfeita para ver .
Lentamente, eu ia criando algo sobre ela. Não sei exatamente se era o tipo de coisa que você sente por alguém quando acha a pessoa que vai ser parte da sua vida dali em diante, mas era bom e eu estava disposto a viver. E, assim como uma árvore, eu tomaria os cuidados necessários para manter tudo bem. Crescendo com o passar do tempo.
saiu mais cedo por causa dos chilenos, mas continuou redigindo algumas cartas e e-mails. Com o afastamento de Josh, o trabalho dela e do meu irmão aumentou.
Aproximei-me de sua mesa.
— Precisa de alguma coisa? — Ela perguntou sem olhar para mim.
— Assim que terminar seu trabalho, anote seu endereço num papel para mim, por favor.
parou tudo o que estava fazendo.
— Como é? — Questionou, surpresa.
— E esteja linda me esperando às 20h — completei. — Seu endereço num papel — repeti. — Para eu poder te levar para jantar na sexta.
— Nesta sexta? — Os olhos dela eram travessos.
— Algum compromisso? De que palhaço vou ter que arrancar os dentes?
Ela riu alto.
— Do meu gato, o Sebastian — respondeu, rindo. — Eu ia passar a noite brincando com ele enquanto assistia Gilmore Girls no DVD.
— É uma ótima série! Mas eu sou mais bonito que as duas juntas.
riu de novo.
— Tem caneta aí? A tinta da minha acabou — pediu ela.
Tirei uma caneta que eu sempre carregava no bolso.
— Nós saímos para almoçar duas vezes — comentei. — Isso pode ser considerado como encontro?
— Acho que sim — deu de ombros, enquanto anotava o endereço. — Hoje à noite é um encontro? — ela me olhou.
— Sem dúvidas. E como será o terceiro, já podemos nos beijar no fim da noite — alertei.


Capítulo Trinta e Três
Este é o primeiro encontro e quero que seja perfeito.
La Primera Cita — Chris Syller


’s POV


Olhei-me no espelho pela terceira e última vez naquela noite. Eu usava uma saia preta, que minha mãe havia me dado de aniversário, com meia calça e uma blusa de mangas compridas. Logo, ouvi o interfone tocar e, quando atendi, o porteiro me informou de que havia um garoto me esperando. Sorri, animada com a pontualidade de e desci, pegando minha bolsa sobre o sofá no caminho até a porta.
Quando saí do elevador, ele estava lá com as mãos nos bolsos e um sorriso de lábios fechados. Quis fazer como era de costume no Brasil e lhe dar um beijo no rosto, mas, então, me lembrei de que estava na Big Apple e não em minha cidade Natal, portanto só me aproximei e lhe disse “oi”.
Para minha surpresa, ele tocou meu ombro com cuidado e depositou um beijo em minha maçã esquerda.
— Oi — respondeu. — É assim que as pessoas se cumprimentam no Brasil, não é?
Concordei, ainda surpresa.
— Vamos? — Ele sugeriu, naturalmente.
— Claro — relaxei, dando um sorriso.
estendeu o braço e indicou a saída do prédio onde eu morava. Como um bom cavalheiro, deixou-me sair em sua frente, seguindo-me logo depois.
Durante o curto trajeto até o restaurante grego, conversamos coisas simples como as diferenças culturais entre nossos países e demos risadas de algumas histórias que me contou sobre sua estadia na Europa.
Enquanto comíamos, começamos a conversar sobre cultura pop. E foi surpreendente ver o quanto conhecia sobre ela atualmente. Trocamos figurinhas sobre o novo CD da Lana Del Rey, demos risada relembrando alguns dos bordões de Homer Simpson e eu consegui convencê-lo a comprar um exemplar de um dos livros do Paulo Coelho, quando passamos, já na volta, por uma livraria. Depois da comida, achamos melhor ir dar uma volta por Manhattan ao invés de irmos direto para casa.

Jonas’ POV

Como uma criança com um balão na mão, caminhava com sua bolsa pelo meio-fio da calçada. Ela tinha uma aparência extremamente doce sempre, porém era mais divertida do que demonstrava no laboratório. E tudo ali estava bem o suficiente para que eu já quisesse repetir. Pensando melhor, o incentivo — lê-se “a pressão” — de e para que eu saísse com ela valera e muito.
Jogando conversa fora pela rua, discutindo coisas bestas como a decoração dos prédios, as roupas das pessoas... Eu me dei conta de que tínhamos muitas coisas em comum, coisas que eram simples, mas, ao mesmo tempo, eram fundamentais. ficava com os olhos brilhando quando falava sobre uma sobrinha pequena chamada Maria. E sempre demonstrava sentir falta de casa, apesar de dizer que poderia ficar em NY pelo resto da vida.
— É uma cidade sedutora, o que posso fazer? — Dei de ombros, fazendo com risse.
— As pessoas são muito legais também — ela disse, me olhando rapidamente.
Paramos perto de uma loja de conveniência.
— Eu sou legal, o resto é resto — eu parecia , falando daquela forma.
riu, soltando-se.
— Sabe de uma coisa? Acho que vou comprar uma garrafa de água ali na loja — apontei.
— Então vamos — ela deu de ombros, caminhando comigo até a loja.
Enquanto peguei a garrafa d’água num dos freezers, pegou um saco de balas perto do caixa. Chegou a tirar a carteira florida de dentro da bolsa para pagar, mas eu não deixei.
— Não. Eu chamei, eu pago — falei.
— Mas peguei as balas — ela tentou.
Neguei com a cabeça.
Rendida, largou o pacote de balas junto à minha garrafa d’água, e eu paguei ambos os produtos. Já do lado de fora, eu abri a garrafa e bebi um pouco. Antes, lá dentro, eu ofereci comprar uma para , mas ela disse que não tinha sede.
abriu seu pacote de balas.
— Quer uma? — Ela disse, colocando uma das balas de goma com iogurte na boca.
— Não gosto dessas — respondi.
— Um defeito todo mundo tem — ela riu, comendo a seguinte.
— Quando eu era criança, comi e passei mal. Nunca mais consegui comer de novo — expliquei enquanto andávamos.
— Que nojo — ela fez uma careta, mas isso não a impediu de comer a terceira. E a quarta.
— Me dá o pacote — pedi.
— Quê? Mas você não gosta — a expressão de foi confusa, mesmo assim, ela me entregou o pacotinho.
Parei de andar e peguei uma das balas, segurando-a com minha mão livre.
— Vai fazer um perfume de bala? Seria uma boa ideia, sabe?
— Não.
sorriu.
— Está com cara de quem vai tramar alguma coisa... — disse.
— Abra a boca — eu pedi.
Apesar de estranhar, foi obediente e abriu a boca. Joguei a primeira bala, mas esta caiu sobre o chão.
— Isso não vai dar certo — falei.
— Vai sim — sua resposta me pegou de surpresa. — Tente de novo.
Desde quando eu ficava jogando balas para uma garota? Mas eu estava me divertindo com ela, estávamos sendo diferentes do que éramos sempre que nos víamos. E isso, para mim, era um bom sinal.
Tentei de novo, desta vez, num movimento rápido, pegou a bala com a mão e comemorou.
— “Congradulations to me, yeah!” — cantarolou, e eu tive a impressão de já ter ouvido aquilo em algum lugar.
Devolvi a seu saco de balas.
— Você é mais divertido do que eu imaginei — disse-me.
— Idem — falei, terminando minha garrafa d’água.
— Ih, é tarde! — Ela reclamou, quando viu a hora num relógio qualquer.
— Quer que eu a leve para casa? — Perguntei.
— Se não se importa — seu jeito delicado e reservado voltou.
Foi adorável.
— Claro que não — respondi do jeito mais honesto que fui capaz.
— Obrigada.
— Por nada.
Enquanto voltávamos para onde eu deixara meu carro, me convenceu a comprar um livro numa livraria. Prometi a ela que o leria e isso a deixou satisfeita. Já no carro, abri sua porta e ela se ajeitou no lugar do carona, prendendo o cinto de segurança.
Depois de deixá-la em seu prédio, dei-me conta de que algo começava ali. Talvez, a sorte estivesse sorrindo para mim depois de um bom tempo. Eu havia passado por alguns relacionamentos, mas tudo era sempre igual. Os primeiros meses eram extasiantes, mas, depois de alguns meses, tudo ia morrendo devagar. Independente de quem fosse. Com uma antiga vizinha de prédio fora assim, com uma atriz de TV fora assim... Com , eu tinha a sensação que, se desse continuidade àquela noite em breve, com o passar dos dias, as coisas não seriam as mesmas. Ou melhor, as coisas continuariam sendo como naquela noite: ela ainda me daria passe livre para ser alguém que eu nunca era com ninguém.
me deixara um buraco, mas, agora, algo me dizia que o buraco não existiria mais.

Jonas’ POV

Éramos apenas , o cão e eu em casa. Olly havia saído para ir ao cinema com o namorado e os amigos. Eu estava assistindo a algum filme com Robert DeNiro na TV enquanto revisava alguns testes que havia aplicado no colégio.
— A corretora me ligou hoje à tarde, disse que viu um lugar do qual é provável que você goste — falei, mas pareceu não me ouvir. Continuou olhando as folhas com os testes. Ainda assim, não parecia atenta nem a eles.
? — chamei, mas não obtive resposta. — — insisti.
— Ahn? O quê? — Seu tom era meio assustado, como se ela tivesse fugido de um pensamento ruim.
— Está tudo bem? — Questionei, preocupado.
— Claro! — Respondeu. — O que disse?
— A corretora. Ela me ligou — recomecei. — Me falou que viu um lugar do qual você provavelmente vá gostar.
— Hm, a gente pode ir lá num horário de almoço qualquer — agora, ela me olhou, organizando os testes numa pilha. Pelo jeito, havia terminado de corrigi-los.
— Tudo bem para mim — disse, sem dar muita importância.
parecia longe, mas eu evitei as perguntas, com medo de que o ocorrido com Josh tivesse algo a ver com aquilo. Voltei a assistir ao filme e passou por mim com seus papéis. Mexeu no meu cabelo e enfiou as folhas dentro de uma pasta marrom onde costumava carregar as provas.

Jonas’ POV

Estacionei em frente à casa de . Soltei meu cinto de segurança, assim como ela. Houve o silêncio, mas este não durou muito.
— Terceiro encontro — avisei, aproximando-me dela que tinha um sorrisinho nos lábios. — Lembra-se? Já podemos nos beijar. Não pode fugir de mim.
Ao contrário, ela trouxe o rosto mais para perto, a ponto de eu poder tocá-lo com a ponta dos dedos.
— Sabe, a minha casa fica bem ali, em cima da lavanderia — ela subiu os olhos por meus ombros. — Mas eu não quero ir. Não quero fugir.
Pensei em falar alguma coisa, mas, honestamente, as palavras não cabiam naquela hora de maneira nenhuma. Encostei meus lábios nos de , que não demorou muito para me dar passagem e me deixou beijá-la como eu queria fazer há muito tempo. Pela maneira como suas mãos se encontram ao redor do meu pescoço, tive a sensação de que eu não era o único esperando pelo gosto doce e forte que aquele beijo tinha.

Jonas’ POV

Quando o telefone tocou na parede da cozinha, eu tomei um susto. Gritei à , que estava na sala, que eu atenderia. Larguei o sanduíche que havia feito de volta no prato e engoli o que tinha mordido. Atendi, enfim.
, filho, sou eu. Sua mãe — seu tom doce invadiu meus ouvidos.
— Mamãe, como vão as coisas por aí? — Perguntei.
Ótimas. E a ? Se sente melhor? Estou preocupada com ela.
está melhor, obrigado por perguntar. Anda um pouco... “fora de órbita”, mas acho que é por causa de tudo.
Deve ser. Foi uma coisa péssima, não gosto nem de me lembrar. Seu pai ficou chocado quando soube.
¬— Hm, ele soube pelo Oliver? — quis saber, afinal, eu não quis preocupar meu pai com as loucuras de Josh.
Não. Contei a ele. Ele chegou tem umas duas horas, mas só consegui te ligar agora. Ele quer falar com você e seus irmãos na segunda.
Fiquei estático. Meu pai tinha voltado. E queria falar comigo. Ia me passar seu lugar definitivamente e ia me mandar ficar longe de casa. Justo agora.



Capítulo Trinta e Quatro
Eu sempre soube que esse dia chegaria.
I'll Always Remember You — Hannah Montana


Na segunda, eu saí de casa uma pilha de nervos. Quase derrubei um copo de café, que eu havia comprado, no terno. Quando cheguei à minha sala, parecia mais animada do que de costume. Desejou-me bom dia e disse que ) já me esperava.
Logo, foi a vez de .
Quando meu pai chegou, quase vinte minutos depois, a coisa ficou realmente séria. Claro que, no primeiro momento, nos comportamos como uma família e ele me disse o quanto estava chocado pelo ocorrido com . Que Josh sempre fora um tipo problemático, mas que nunca passou por sua cabeça que chegasse a esse ponto. Contou-me também que Oliver havia lhe dito que Emma pedira o divórcio e que a denúncia de havia acelerado o processo. Mas, depois de todos os assuntos familiares serem postos em dia, a parte que eu temia chegou:
— Estou deixando essa vida de viagens e tudo mais. Agora, é com vocês três — ele falou de um modo tão natural, sem imaginar a bagunça que aquilo me causava.
— Não levo jeito para os negócios e você sabe — riu.
Outro que não fazia ideia de como eu temi aquele dia.
não pode deixar os laboratórios — meu pai falou. — Portanto, é melhor que fique fora das negociações. E, sim, , eu sei que você não tem jeito nenhum com administração, porém, preciso saber o que vai ser da sua vida. Tem mais de trinta anos...
— Achei um lugar legal, vou abrir um restaurante. Eu provei e aprendi muita coisa quando estive fora dos Estados Unidos, portanto, tomei essa decisão. Além do que, ainda vai sobrar tempo para a caridade.
— Quem diria — meu pai riu. — Meu filho problemático agora quer tempo para a caridade.
— Eu era um moleque.
— E se tornou um grande homem — papai bateu no ombro de .
— É... Sobrou para mim — suspirei, derrotado. Talvez, alto demais.
— Sempre soube que teria de fazer isso, não? Dentro de dois meses vamos fechar negócio fora do país. E as visitas às fábricas europeias são mensais, você sabe...
— Não há outra pessoa para fazer isso? — Perguntei, mesmo sabendo que não havia. Eu não queria passar por aquilo agora — nem nunca —, não queria deixar sozinha depois do que acontecera. Tudo ficaria uma bagunça, eu tinha certeza.
Inclusive, dentro de mim mesmo.
— Não há outra pessoa que possa fazer as negociações, . Apenas você — respondeu. — E o cargo do Josh, como ficará?
— Um sobrinho de Oliver irá assumir, só precisa voltar ao país — expliquei. — E Oliver me garantiu que este não é um maníaco.
Rendido, terminei ouvindo as próximas instruções. Depois de todos irem embora, fiquei sozinho naquela sala repensando em tudo o que acontecera. Eu teria que viajar mensalmente, fora o que surgisse no meio do caminho. Teria que deixar sozinha em casa com Olly, teria que viver em guerra com o fuso-horário para que pudéssemos nos comunicar enquanto eu estivesse fora. Aquela situação não era nem um pouco satisfatória.
Tudo o que eu queria, na verdade, precisava, era uma solução para tudo. Naquele ano, a vida parecia uma sequência maluca de loopings, como uma montanha-russa. E eu queria descer. Não estava com vontade alguma de ficar dentro de meu carrinho, fingindo que estava me divertindo. Eu não estava. Até mesmo toda a ligação — frágil — que criei com Olly seria bagunçada. É claro que ela tinha planos de voltar à Itália, portanto, lidaria com a desordem melhor do que qualquer outra pessoa — sua juventude tornava-a totalmente adaptável; como um camaleão.
Não quis sair para comer, então pedi a que me trouxesse algo da rua. Quando ela chegou com um sanduíche da Subway, o comi simplesmente como hábito. E por mais que não pudesse, saí mais cedo naquele dia, deixando duas horas para trás. Eu era meu próprio chefe, faria o que bem quisesse quando necessário fosse.
O trânsito caótico me fez pensar, pensar em como conversar com . Por mais que minha mulher tivesse voltado ao trabalho e estivesse sem nenhum sinal físico, eu ainda tinha a sensação de que estava frágil.
Em casa, eu a encontrei atenta a um livro, mas não consegui ler o título na capa.
— Ei! — Ela me sorriu, animadamente.
Aquilo me deixou meio deslocado.
— Ah, oi, amor — respondi, largando o paletó em cima de uma das poltronas. Sentei-me no mesmo sofá de . Ela deixou seu livro sobre a mesinha de canto onde havia um abajur e colocou as pernas sobre as minhas. Descansei as mãos ali.
— Foi muito complicado com o seu pai? — me analisou, pude notar, apesar de estar de lado para ela.
Sobre isso eu havia falado, não havia — e nem eu queria — como esconder.
Respirei fundo.
— Ele vai parar de viajar — era agora ou nunca. Se eu pensasse muito, talvez fizesse uma besteira: ficaria calado.
— Nossa! Sério? E os negócios do exterior, vão ficar como?
Olhei para ela por meio segundo. Sua expressão sequer desconfiava do que eu tinha para dizer.
— Comigo.
— Como é? Você está me dizendo que vai ficar brincando de nômade, é isso?
ficou séria. Talvez não fosse para tanto, mas, naquela hora, parecia uma pedra pesada demais para duas pessoas carregarem, mesmo que juntas. Virei-me para ela, aproveitando-me do fato de que havia tirado as pernas de meu colo.
— Seria assim cedo ou tarde — respondi. — Eu procurei se havia outra pessoa, mas não tem.
— E você quer que a gente tenha um filho como, se você vai passar mais tempo em um quarto de hotel do que na casa que mora comigo, que sou casada com você, ?!
...
, nada! Por que não me contou antes? — ela não falava alto, mas parecia bastante irritada.
A proporção da notícia como um problema era relativa. , pelo jeito, o viu maior até mesmo do que eu. Num ponto ela tinha razão: eu havia “cozinhado” demais o fato, deveria ter contado, explicado que havia uma maneira maluca de administrar os negócios de fora dos Estados Unidos. Mas, ainda assim, sua irritação não era minha coisa favorita na Terra naquele momento.
— Calma, não é para tanto — tentei ser o mais tranquilo possível.
Não pareceu adiantar.
— Olha, você veja do jeito que quiser — se levantou. — Eu não sou obrigada a te dizer que fiquei contente.
Rápida e visivelmente irritada, deixou a sala e foi até o dormitório. Infelizmente, duraria mais do que eu gostaria.
Rendido e exausto, deslizei os dedos pelo rosto, subindo até o cabelo e bufei, recostando a cabeça contra o encosto do sofá.




Capítulo Trinta e Cinco
Nós nos beijamos
Nós fazemos as pazes.

Hot n’ Cold — Katy Perry

Quando entrei no quarto, parecia estar dormindo. Portanto, apenas acendi o abajur que correspondia ao meu lado da cama. Não gostava de deixá-la daquele jeito, apesar de ter plena consciência de que, naquela briga, nós dois tínhamos nossa parcela de culpa. Porém, era inevitável o modo como me incomodava sua falta de paciência para apenas conversar comigo — e eu tinha dúvidas se ela estava mesmo dormindo ou apenas me ignorando (esta segunda não seria minha coisa favorita naquela noite).
Depois de trocar de roupa e escovar os dentes, me escondi entre os lençóis, ainda pensativo sobre o ritmo de tudo. O novo ritmo de tudo. O ocorrido com Josh era tão recente, o que me deixava bastante receoso sobre deixar sozinha. E ainda tinha Olly, com quem eu começava a realmente criar laços paternais. Dali pouco tempo, eu passaria menos tempo em minha própria casa, passaria menos tempo com minha mulher, menos tempo com a minha família. Sofrendo por antecipação, perguntei-me como meu pai suportava tudo isso até os dias atuais. É claro que, quando os filhos saíram de casa, as coisas devem ter sido mais fáceis para ele, mas piores para mamãe. Era um método maluco e, se pudesse, acabaria com isso tudo num passe de mágica.
Ao acordar, na manhã seguinte, a sensação que tive foi a de que apenas fechei meus olhos e os abri, como quem pisca. Dormir parecia um tipo de especiaria com a qual eu não tivera contato. Enquanto isso, estava diante do espelho, terminando de se aprontar. Passei por ela, desejando-lhe bom dia, rumo ao banheiro. Ela me respondeu, apesar de não ter sido com o humor que eu gostaria.
Eu não tinha fome, tinha pressa porque sem Josh — não que quando ele estivesse na vice-presidência fizesse alguma coisa —, eu tinha trabalho em dobro e sócios apressados demais. Peguei minha pasta, me despedi de Olly e tomei o elevador. Deixaria para comprar café na rua.
Alguns andares depois, Kim subiu. Sempre com seu sorriso enorme, seu inseparável iPhone e seus cabelos castanhos muito bem escovados.
— Olha, só... Bom dia! — ela me disse, deixando seu telefone de lado por um tempo.
— Bom dia, Kim — respondi, talvez, sem muito ânimo, pois os olhos dela sobre mim foram bastante... preocupados.
— Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem com a ? — Questionou, apressada como sempre.
Suspirei.
Talvez, falar com alguém fizesse bem, mas ainda pensei um pouco. Eu não tinha certeza sobre falar ou não.
— Está tudo bem com a — eu disse, tentando mudar minha expressão.
— Hm, mesmo? Quer dizer, é só isso? É ótimo que a esteja bem, não foi isso que eu quis dizer, só... Nós nos conhecemos bem demais, acho que ainda bem lembro quando algo com você não está do jeito que deveria, mas... Tudo bem.
Reencontrar os amigos causava isso. Eles te conheciam. Não havia o que você pudesse esconder.
— São coisas normais — dei de ombros. — Vou começar a viajar no lugar do meu pai e não gostou da ideia, mas sei que vamos dar um jeito.
— Ela devia te apoiar. Casou com você sabendo que tem um emprego que exige milhões de vezes mais que o dela. Amor tem a ver com isso, apoiar, aceitar. Acho que a birra dela não tem fundamento — Kim foi direta, sem rodeios, sem pedidos de desculpas.
— Como eu disse, daremos um jeito — dei de ombros mais uma vez.

Jonas’ POV

Fitei a máquina de refrigerantes e enfiei minha moeda nela, esperando que a lata de Coca-Cola saísse. Como isso não aconteceu, dei um murro na mesma. Certamente, descarregando um pouco da minha tensão.
— A máquina não tem culpa se não foi a Louise que venceu no American Idol — a voz de Clay me assustou.
— Eu não assisto ao American Idol — respondi, olhando-o rapidamente.
— Ah, eu sim, me desculpe — Clay riu.
— Essa porcaria engoliu minha moeda — reclamei baixo.
— Espera — Clay bateu na máquina de novo, fazendo com que a lata de refrigerante finalmente desse as caras. — Aqui — disse, entregando-me a Coca-Cola.
— Obrigada — respondi.
Abri o refrigerante e dei um gole.
— Você parece meio tensa — Clay disse, com seus olhos claros fixos ao meu refrigerante.
— Quer um pouco? — Perguntei, estranhando. — Eu ando só tendo uns dias ruins, só isso.
— Não há nada que comida frita não resolva — ele riu. — Do outro lado da rua, tem um restaurante ótimo. As batatas com bacon ficam prontas bem rápido.
— Hmm... Isso é irrecusável — suspirei, fechando os olhos por um segundo. — Vai ser bom parar de ouvir o Sr. Hastings falando sobre o quão bom caçador ele é e o quão maravilhoso foi seu fim de semana na Califórnia — debochei. — Nova-iorquinos nem gostam da Califórnia!
Clay riu.
— O que é uma maldade porque Santa Mônica é um dos lugares mais bonitos que eu conheço. Então, vai querer ir almoçar comigo ou não?
— Sem dúvidas, estou começando a ficar com fome — concordei.
Durante o almoço com Clay, o restaurante que, apesar do endereço caro, não tinha nada de esnobe, me pareceu uma volta rápida ao Josie’s e , e ) vieram até a minha mente rapidamente. E claro que lembrar-me de me causou uma espécie de mescla de sensações. Pensei em passar menos tempo com ele, mas também pensei em como eu me sentia feliz simplesmente com sua lembrança. Não queria atrapalhar nada, muito menos queria meu relacionamento em crise por uma coisa tão pequena, se eu fosse pesar tudo pelo que já tínhamos passado.
Em casa, eu o esperei chegar, sentada no sofá, como se o esperasse voltar da guerra. Quando apareceu, como sempre, afrouxando a gravata e se livrando do paletó, me levantei.
— Sinto muito — balbuciei prontamente. — Sou meio alérgica a mudanças, me desculpe.
me puxou. Primeiro, para um abraço. Depois, nós nos beijamos.
— Não, tudo bem, já passou, não importa — ele respondeu.
— Só queria ter sabido disso desde sempre, sabe?
— Eu sei que errei, mas você entende que é o meu trabalho, não entende?
— Sim, entendo... Apesar de não gostar.
— Quando falei com Kim, ela disse que sua irritação não tinha fundamento.
— Eu acho que um homem adulto, que tem mulher e uma filha adolescente, não devia sair dando ouvidos para a primeira pessoa que encontrasse — rebati, completamente desgostosa. O que diabos Kim queria dando opinião sobre com o que ou não eu deveria me irritar? Cacete, ela que cantasse para subir!
— Sim, senhora, perdão — ele riu. — Mas, agora, deixemos tudo isso para lá.
Concordei.
— Vou comprar comida mexicana, estou com vontade. O que acha? — propôs .
— Ótima ideia, eu tenho que corrigir umas provas, senão iria com você.
— Não faz mal, vou sozinho — beijou minha testa.
— Vá, estou com fome! — Ri.
Não muito depois de ele sair, Olly surgiu na sala com uma cara bastante... Suspeita, na falta de uma palavra melhor.
— Estava no telefone com o Ethan? — Perguntei.
— Aham — ela assentiu. Não se importou em disfarçar o quanto aquilo a deixava contente. — O saiu?
— Sim, ele foi buscar comida. Você já deve ter se acostumado com a gente, sabe que quando as coisas estão bem, comemos.
Olímpia gargalhou.
— Acostumei sim — respondeu. — Mas, escuta, vocês se acertaram?
Olly sempre sabia quando as coisas não iam bem — e estava sempre na torcida para que elas voltassem para o lugar.
— Por causa das viagens que seu pai vai ter que fazer — estranhamente, eu gostava da palavra pai e gostava de ver como um. — Mas eu prefiro que ele te conte isso depois, tudo bem?
— Sobre as viagens?
— Isso.
Fitei Olly por meio segundo. Aquilo pareceu ser suficiente para que ela entendesse o quanto eu tinha algo entalado bem no meio da garganta.
— Eu estava certa, não estava? — Jogou a ruiva.
Entendi perfeitamente: ela estava falando sobre Kim.
— Sem querer, ouvi o que e você conversaram. O que conversaram bem pouco antes de ele sair. Kim falou sobre vocês como se ela tivesse toda a razão do mundo. Aquela perua velha...!
Eu ri alto.
— Acho que você tem razão. O que ela quis dizer? “Se fosse eu e não a , eu estaria lá”? — rolei os olhos.
Os hormônios ciumentos de andavam ultrapassando minha pele.
De repente, me veio uma ideia um pouco inusitada, mas algo me disse que era aquilo que eu tinha de fazer. Disse à Olly que, caso chegasse antes de eu voltar, ela dissesse que eu fui ajudar a babá dos vizinhos do andar de baixo com o fogão — a garota era nova na cidade, estava sozinha com a criança por alguns dias e acabamos ficando amigas. Ela havia me contado sobre a dificuldade em lidar com o fogão do apartamento.
Olly assentiu, sabendo muito bem que eu iria mesmo até o andar onde Kim morava.
Tomei o elevador com o sangue correndo mais apressado do que nunca pelas minhas veias. Quando o mesmo parou, praticamente saltei de dentro dele.
— 1, 2, 3... Respire fundo, . Respire muito fundo — disse a mim mesma. Assim que respirei, toquei a campainha.
Não demorou muito até que Kim aparecesse. Ela abriu a porta para mim e deu aquele sorriso largo que, naquele momento, eu odiei.
! Que bom te ver! — Ela disse, animada.
— Olá, Kim — respondi. — Será que eu posso entrar? — Acho que fui calma demais, mas tudo tinha um propósito. Eu sabia disso porque me conhecia muito bem.
— Claro, — ela me deu espaço. — Aconteceu alguma coisa?
Passei pelo hall entre a porta e a sala, vendo alguns quadros de arte moderna. A sala dela tinha estofados claros e uma enorme TV estava ligada em algum canal de moda.
— Senta. Eu tenho uns biscoitinhos integrais, quer?
— Calma, Kimberly... Vim depressa porque preciso te dizer algo.
Ela me olhou, meio desconfiada.
— Fala, . Não quer sentar? — disse-me, fechando a porta.
— Não, obrigada. Kim? — Chamei. Ela me fitou, sinal de que eu poderia falar. — Qual é a sua dizendo ao como eu devo ou não devo reagir às coisas? — Fui direta, já cansada de dar tantas voltas.
— Eu só acho que com essas birras infantis, você mete os pés pelas mãos. Eu não falei por mal! — Ela miou, tentando ser fofa. — Eu gosto de você, .
E isso era terrivelmente irritante.
— Eu sei — sorri.
— Sabe? — Ela ainda lutava para ser fofa.
— Sei que calada e no Quinto dos Infernos você ajuda mais — eu disse, já andando para a porta. — Ah, e mais uma coisa — girei a maçaneta.
Kim parecia pálida.
Não respondeu nada.
— Eu odeio biscoito integral, vê se aprende a comer — saí, batendo a porta logo depois. Felizmente, o elevador não demorou e, quando cheguei em casa, ainda estava na rua. Olly não fez perguntas, mas, com uma piscadela, ainda assim, eu respondi.


Capítulo Trinta e Seis
Agora você está ouvindo
O que eles dizem

Remember December — Demi Lovato


Depois daquele episódio na casa de Kim, não a vi mais. Nem eu, nem . A semana passou voando e, quando dei por mim, era sábado à tarde. Eu havia recebido um telefone de dois dias antes. Ela parecia eufórica, e eu tinha minhas desconfianças, mas disfarcei e me segurei para não deixar transparecer a minha suspeita — que soava mais como uma certeza — de que tinha tudo a ver com toda aquela alegria.
Sair com me fez voltar ao Josie’s. Enquanto eu brincava com o canudo do meu milk-shake de Banana Berry, ela fitava as unhas vermelhas várias vezes seguidas e engolia algumas das batatas-fritas com bacon e queijo cheddar que havíamos pedido. Antes do pedido, quando nós nos sentamos ali, conversamos sobre coisas que nada tinham a ver com seu sistema nervoso: minhas aulas, o aumento de salário dela, minha melhora emocional depois do ocorrido com Josh e o novo apartamento alugado onde ela estava morando. Depois, com a comida que chegou, ela usou a desculpa da fome para dar mais algumas voltas.
Baker — falei, dando um gole na minha bebida. — Será que pode me contar o que prometeu no telefone? Fiquei curiosa, cacete!
riu. Não soube dizer se ela riu de nervoso ou porque achou graça de mim.
— Calma, — ela comeu mais uma batatinha. Pôs a mão em frente à boca enquanto engolia. — Hm, calma. Você levou quase dois meses para me contar que saía com o meu chefe.
— Mas era diferente, os tempos eram outros… — justifiquei. — Então quer dizer que tem um cara na jogada?
ficou corada.
Na mosca!
— E esse cara é meu cunhado, acertei? — Despejei de uma vez. Minha língua parecia estar coçando e minha cabeça começava a bolar mil e setecentas frases para expressar minha desconfiança.
Minha amiga quase se engasgou com suas batatinhas. Mas, afinal de contas: para que tantas voltas, tantos ataques de timidez se — ela ainda não tinha dito, mas tinha certeza — eu estava dizendo as coisas certas? As coisas que ela queria contar?
— Ok — rendeu-se , por fim. — Você venceu! — ela deitou a cabeça na mesa, como fizera anos atrás, quando levei e ele ali, e voltou à boa postura, rapidamente. — e eu, bem, estamos namorando.
— Ah, sério?! — Vibrei, animada. — Seu desejo de anos se concretizou! — Lembrei.
riu, um pouco tímida. Nunca escondera de mim que sempre se desmanchara em suspiro desde que começara a trabalhar como secretária de toda vez que ia à fábrica. Nós nos abraçamos, mesmo com a mesa entre nós. Para mim, sempre fora uma garota da minha família, mas, agora, sendo namorada do meu cunhado, isso se tornava ainda mais real.
Moves Like Jagger, anunciando que meu celular estava tocando, fez com que as duas melhores amigas do mundo se separassem.
— Uh, telefone — falei, voltando para minha cadeira.
fez o mesmo.
Peguei o aparelho, em cima da mesa, e vi o nome de no visor.
— Seu patrão — disse à , antes de me levantar e ir atender perto do banheiro feminino, onde o barulho era menor. — Ei, boa tarde! Não me diga que está na fábrica — falei.
Na verdade, estou em outro lugar.Tem cada loira gostosa aqui... — sua risada entregou sua mentira.
— Ora, pare de ser idiota, Jonas — ralhei. — Agora, falando sério: aconteceu alguma coisa?
Estou fechando a compra do novo apartamento. O que vimos juntos e você gostou, lembra-se?
Soltei um suspiro surpreso.
— Ah, , é sério?! — Perguntei, animada.
Eu estava louca pela ideia de morar em um lugar novo, ainda mais porque estava há anos a fim de trocar as cores das paredes.
Sim, é. Eu ia fazer surpresa, mas não resisti e liguei. Acabei de assinar alguns papéis e falta receber os que deverão ficar comigo.
— E poderei vê-lo quando? Digo, o apartamento... Você, eu quero ver hoje.
riu de um jeito maldoso. Como sempre, ele estava pensando besteiras.
Ah, veremos isso depois. Não vai demorar, prometo. Agora eu preciso desligar, o corretor chegou com meus papeis.
— Está certo. Amo você, até depois.
Eu também. Até logo.
Desliguei o telefone e o enfiei no bolso de meu top coat vermelho. Estava um frio atípico para a época. Caminhei de volta para a mesa onde estava com . Como uma boa amiga, ela notou que meu semblante estava diferente.
— Pelo jeito, eu não vou receber um aviso de demissão através de você — brincou.
Eu ri e me sentei logo depois.
comprou um apartamento novo para morarmos. Estamos um pouco apertados, apesar de Olly estar disposta a voltar para Roma na universidade.
— Ah, casa nova! Meus parabéns — ela sorriu.
— Quando nos mudarmos — falei. — Quero chamar você e seu namorado para jantar.
— A gente vai! — Ela riu.

Jonas’ POV

Outra vez, eu estava perto do apartamento de com meu carro. Eu gostava de chamá-la assim: . Era um nome forte, bonito... Era como ela: seguro e cheio de vida.
Quando estacionei, ela estava na portaria, esperando por mim. não parecia o tipo de garota que esperava por um jogo, que ficaria no andar de cima fazendo hora simplesmente para mostrar-se difícil. Não. Ela estava ali, esperando por mim, esperando por aquele segundo encontro tanto quanto eu.
Baixei meu vidro e acenei. Ela veio para mim prontamente.
— Oi, — eu disse, assim que me estiquei para abrir a porta do carona.
— Oi — sorriu para mim. Depois, prendeu seu cinto de segurança e bateu a porta. — E aí, vamos aonde hoje?
— Eu não sei... — ri, batendo as mãos no volante. — Quer comprar mais balas? — Sugeri, brincalhão.
— Desta vez, quero Nerds Wonka — respondeu, num tom adorável.
Dei a partida e saí da rua dela.
Durante o caminho, ouvimos um pouco de música e me contou mais um pouco sobre o Brasil. Eu havia ido a tantos lugares pela Europa e pela Grã-Bretanha, mas nunca havia posto os pés noutra América que não fosse a Do Norte.
— Nunca fui ao Brasil — contei, quando estacionamos perto do Central Park.
havia tido a brilhante — e turística — ideia de ir comer cachorro-quente no Central Park. Além do mais, ela queria ver o minizoo.
Quando descemos, dava pequenos passos.
— Por que não me leva? — Perguntei.
Ela parou, olhando-me, levemente surpresa.
— Levar? Aonde? — Desconversou, timidamente.
— Ao Brasil. Rio, Brasília, São Paulo... Ou algum outro estado. morava no Sul, não sei...
— Brasília?! — Ela riu, surpresa.
— Capital Federal?! — ficava cada vez mais surpresa.
É. Eu tinha falado bobagem, pelo jeito. — É a Capital Federal, não é? — Perguntei, com medo de ter falado uma besteira.
— Como você sabe que Brasília existe? A capital não é São Paulo? — Ela perguntou.
— Ué, sabendo que Brasília existe...
riu. De certo, minha cara era extremamente engraçada.
— Sim, Brasília é a capital — respondeu.
Respirei aliviado; não tinha dito nenhuma bobagem.
— Acontece que nenhum estrangeiro sabe disso. Ok, quase nenhum.
— Eu sou bonito, inteligente e muito sexy — brinquei, sentindo-me tão idiota e egocêntrico quanto .
riu alto.
— Se eu não concordar, você vai me demitir?
Olhei para ela, tornando-nos muito mais próximos.
— Jamais. Vou te demitir se você mentir — minha voz era quase baixa. — Será que consegue esquecer que sou seu superior? Lembre-se: não pode mentir.
riu. Ela estava tão perto que seu perfume de cereja adentrou minhas narinas de um jeito tão atraente que quase me deixou tonto.
— Se isso for importante, eu irei sim — além de falar, ela assentiu com a cabeça.
— É criticamente importante — avisei.
— Muito prazer — ela sorriu, dando dois passos para trás e estendendo sua mão para mim. — Sou .
Apertei sua mão e trouxe-a para perto de novo.
Cereja era um aroma perfeito.
— Eu sou o — respondi.
Ela riu.
Não falei nada. Prendi meus braços ao redor da cintura dela e a beijei, com cuidado, como se pudesse quebrar. Ela curtiu aquilo, viveu aqueles segundos até me dar espaço e me deixar realmente beijá-la. Ouvi os pássaros cantando em bando ao fundo, mas não ousei abrir os olhos ou parar aquilo, eu estava ocupado com algo muito melhor.

Jonas’ POV

Se havia um dia onde eu sentia uma preguiça enorme de dirigir, esse dia era sábado. Por isso, resolvi sair de táxi para resolver a papelada do novo apartamento. Dele até uma Starbucks, precisei andar cerca de quatro quadras, então deixei para pegar um táxi e voltar para casa depois de um bom copo de Macchiato.
Quando entrei na cafeteria, a mesma estava lotada. Mas a fila no caixa era pequena. Eu não tinha pretensão de me sentar, ia pegar o café e voltar para casa, esperando que já tivesse chegado de seu encontro com .
Enquanto esperava, no canto do balcão, um sorriso grande foi reconhecido. Kim estava lá, o cabelo escuro preso num coque e o bom humor de sempre estampado no rosto.
Nós nos cumprimentamos.
— Como vão as coisas com ? — Ela perguntou imediatamente.
Em um primeiro momento, pensei em não dar muitos detalhes, fossem eles positivos ou não. não havia aprovado minha última boa conversa com minha velha amiga.
— Ah, está tudo bem — dei de ombros, como se não tivesse muita importância.
Em seguida, o café de Kim chegou. Antes de falar qualquer coisa, ela deu um gole em sua bebida.
— Sinto muito se pareci intrometida quando falei que ela devia apoiar você. A intenção não era essa.
Olhei para ela, um pouco constrangido. De onde ela havia tirado esse tipo de coisa? Eu não falara nada da última vez em que nos vimos, pelo contrário, inconscientemente, havia dado-lhe razão.
— Não, você só quis ajudar — respondi, esperando que meu café chegasse.
não viu as coisas desse jeito.
? Como assim ? Desde quando Kim e tinham se visto e se falado? E mais, por que eu não sabia disso?
— Você e se viram? — Questionei.
Kim mordeu a boca, como quem fala o que não devia estar falando.
Foi aí que eu realmente me importei em saber o que tinha se passado entre Kimberly e a minha mulher.
— Eu achei que ela tivesse contado — Kimberly tinha o péssimo costume de dar voltas.
Olhei para o balcão da cafeteria, mas meu café estava longe de ser entregue.
Outra vez, Kim deu um gole no dela.
— Kim, eu não estou entendendo — ao contrário dela, eu era direto.
Kimberly pareceu pensar, em dúvida se falava ou não. Mas convenceu-se bem depressa.
foi à minha casa tem poucos dias — confessou. — E ela não parecia nada feliz com o que você e eu conversamos. Eu achei que era uma visita cordial, mas não. Sem rodeios, me mandou calar a boca e ajudar nos infernos.
A minha cara foi parar no chão. tinha ido atrás de Kim e se portado como uma leoa na Savana, brigando pela perna da zebra. Como se não bastasse, tinha mostrado os dentes ensanguentados.
— Ela fez o quê?
Antes que Kim respondesse, meu café foi entregue.
— Olha, eu sei que não foi por mal, sei que ela se sentiu invadida, mas, juro, não quero atrapalhar a vida de ninguém, muito menos a sua...
— Eu sei disso — interrompi. — Kimberly, de verdade, eu sinto muito.
— Não... O que é isso... — ela sorriu, sem jeito. — Já passou.
— De verdade, sinto muito — repeti. — Agora, preciso mesmo ir embora — e eu precisava, ou não conseguiria um táxi, mesmo sendo sábado.
— Não sinta — ela sorriu para mim antes de eu lhe dar as costas. — A gente se vê pelo elevador — brincou.
— Para não perder o hábito.
Kim era uma ótima pessoa. Era uma amiga querida, uma das poucas pessoas da época da Itália com quem eu ainda mantinha contato. não havia feito certo. Não mesmo.

A voz de , ao telefone com a mãe, foi a primeira coisa que ouvi quando pus os pés em casa. Quando ela me viu, desligou o telefone em seguida, para vir falar comigo.
— Tenho uma notícia para te dar, mas não vá contar a ninguém — ela disse, animada.
Larguei a pequena pasta plástica com os papeis sobre a mesa de centro e voltei a prestar atenção em .
— Qual? O modo como falou com a Kim, dias atrás?
me olhou, surpresa.
— Quem o quê? Onde e quando? — Perguntou. — Espera, ela foi te contar?! Ah, coitada, se sentiu mal porque só quis ajudar, aposto.
, você não tem mais doze anos para sair resolvendo as coisas com grosseria — falei, calmamente. — O que fez não foi educado.
— Você não é meu pai, sua filha dorme no quarto ao lado. Eu quero a Kim longe de nós. Ela não quer ajudar, quer nos enfiar mais fundo ainda na lama. Eu a quero longe — soou como uma ordem.
— Nem com Candice, você se portou desse jeito. Não quero que se repita. Nós somos um casal, mais que isso, somos companheiros. Se você faz algo que me incomoda, , posso te pedir para não fazer mais.
Ela ficou em silêncio.
— E temos um compromisso no próximo domingo à noite. Eu sei que você acorda cedo na segunda-feira, mas é inevitável que vá comigo — avisei.
não disse nada, simplesmente caminhou para os fundos do apartamento, acredito eu que tenha se enfiado no quarto ou ido até o banheiro. Joguei-me no sofá e massageei as têmporas, me sentia exausto e a TPM de teria de passar de uma maneira ou de outra.
Olly apareceu na sala não muito depois. Pegou uma maçã no cesto do balcão.
— Oi — ela disse, dando uma mordida em sua fruta.
— Ah, olá, Olímpia.
Ela riu.
— Está tudo bem? Digo, você e a , está tudo bem?
Olly havia mudado da água para o vinho. Agora, até mesmo preocupada com meu casamento ela se mostrava.
— Sim, está tudo no lugar — desconversei, simplesmente por não desejar bater na mesma tecla.
— Sabe o que eu acho?
Ih, lá vinha…
— Vamos, voz da experiência, pronuncie-se — brinquei.
Olly mastigava um grande pedaço de maçã. Engoliu-o, antes de falar:
— Hm — limpou a garganta. — Acho que tem razão. Kim não é minha avó, ou qualquer coisa da sua família, para colocar as garrinhas na vida de vocês.
— Olly, sem ser grosseiro, mas você foi a primeira a cismar com a Kim, então acredito que tenha influência na raiva da . Acho que chega de dar opinião.
— Credo! ‘Tá legal — assim como , Olly andou para os fundos.
As mulheres me deixavam maluco, sem dúvidas.

Jonas’ POV

Aquilo era demais. O passado se enfiando na minha frente. Era como se eu fosse o maquinista; o casamento, o trem e Kim, a maluca que se atirou na frente dos trilhos. Eu me sentia como se tivesse tomado a decisão de frear bruscamente, o que tinha tirado todos os passageiros de meu vagão do lugar.
Puxei um travesseiro e o coloquei sobre o que costumava usar para dormir. De repente, minha cabeça doía e tudo o que eu precisava era de um Paracetamol. Paracetamol e sono.
Havia uma cartela no armarinho do banheiro — não que eu fosse tomar mais de um, eu queria apenas dormir e evitar a dor, não me suicidar — e, quando pensei em levantar para ir até lá, ouvi a batida na porta.
, sou eu, Olly. Tem cinco minutos? — Perguntou a ruiva, com aquele sotaque pesado.
— Claro, entra — respondi.
Eu nunca pensei em ter uma enteada, mas sempre imaginei como seria ter uma irmã mais nova.
— O cara lá na sala está mordendo ainda? — Perguntei, referindo-me a .
— Oh, por favor, não falem da minha querida amiga do passado — Olly debochou, em um tom de voz engraçado. Aquilo me fez rir.
Atirei um travesseiro nela.
— Não ria assim do seu pai, é errado — falei, segurando minha própria vontade de rir.
— Eu sou mais passado do que a Kim — bateu o pé, cruzando os braços.
— Mas e aí, o que quer comigo? — Perguntei, sentando-me na cama com as pernas para fora da mesma, os pés descalços no tapete.
, já te disseram que a sua lasanha é quase tão gostosa quanto a de um restaurante italiano? — Olly se sentou numa das poltronas que havia no quarto.
— Não tenho dinheiro — ri.
— E que sua torta de pêssego é a melhor do mundo inteiro?
— Olly, o que você falou da Kim que fez o bater sua cabeça contra a parede, hein?
Ela riu.
— Eu estava pensando... Será que eu podia chamar o Ethan para jantar aqui? Tipo, amanhã?
— Amanhã?!
Olly riu.
— Ah, , por favor... — ela juntou as mãos, como quem implora.
Aquela cena era memorável, digna de um vídeo no YouTube e uma foto no Instagram.
— Olha, por mim, tudo bem, já que a minha comida é tão boa assim. Mas você precisa saber se o Ethan vai se sentir confortável sentado à mesa de frente para a professora de inglês dele.
— Ah, ele vai, eu garanto! — Animada, Olly me abraçou. — Obrigada, .
— Se me chamar de outra vez, cancelo o jantar e nunca mais faço lasanha.
— Não, . . . . .
Eu ri.
Olly me soltou.
— Agora vá ligar, chamar no Skype, mandar SMS, eu sei lá, para o Hale, enquanto eu vou falar com o lá na sala.
— Tudo bem — ela se levantou, já andando para a porta.
— Ah, ? — Chamou.
— Eu?
— Não faz a felicidade da Kim, não. Vá lá e fique numa boa com o de novo, pode ser?
Eu sorri, meio rendida.
Era engraçado como a Olly irritante e insuportável tinha virado uma Olly que dizia coisas boas e se preocupava com as pessoas ao seu redor. Não tive tempo de responder, Olly saiu do quarto antes disso.
Foi a minha vez de levantar e caminhar até a sala, descalça mesmo.
De longe, parecia que dormia, mas, assim que me aproximei, seus olhos castanhos se abriram para mim.
— Desculpe — eu disse, detrás do sofá, com minhas mãos em seus ombros. — Só me senti invadida. Não é algo bom.
suspirou, fez sinal para que eu desse a volta no sofá e me sentasse ao seu lado.
— Eu lhe entendo — falou, me trazendo para um abraço.
Descansei minha cabeça em seu ombro e senti seu nariz aspirando o perfume do meu xampu.
— Sabe, , eu sei que tudo tem dado voltas rápidas demais, que você ainda está em um período pós-traumático, apesar de Josh não ter conseguido nada além de te machucar e que isso te colocou na defensiva. Mas não precisa atacar as pessoas e, como falei antes, somos companheiros, se algo te incomoda, acaba respingando em mim, então precisa me dizer. Se você se sentiu invadida, sou eu quem pede desculpas por ter lhe causado isso.
Ajeitei-me em seu abraço, olhando-o por um tempo.
— Mas você saiu na defesa da Kim — resmunguei.
Ouvi uma risadinha.
— Isso já é ciúme.
— Rá. Rá! — Debochei. — Até parece que você é tudo isso — fui irônica. Acontece que ele era tudo isso.
— Você, hein, minha — outra risada, abafada desta vez —, não muda nunca.
— E por que eu faria isso? — Sorri.
depositou um beijo em minha cabeça.
— Não faça — pediu.
Neguei.
— Sem mais problemas, está bem?
— Está — concordei.
— Quando algo lhe incomodar, irá falar comigo?
— Sim, eu irei — bati continência.
— Agora, me dê um beijo porque eu não sou de ferro.
E quando nós nos beijamos, tudo sumiu. Tudo fugiu, como era costumeiro. Eu me perdi ali, me perdi naquela sensação boa de ser protegida.
— O que você ia me contar? — perguntou, assim que nós nos soltamos.
— Acho melhor não, não tem a ver comigo... É coisa do seu irmão. Deixa o , contar, está bem?
riu.
— Ele não vai sair viajando pela América Latina de novo, vai? — fez uma cara semelhante à dor.
— Que eu saiba, não, ele não vai — ri.
— ouvi Olly chamar. Virei o rosto sobre o sofá e a vi. Dei a ela um sinal para que falasse. — Ethan vem amanhã — um sorriso nasceu na cara dela.
— Olha que legal, Jonas! — Não pude perder a piada. — Você vai se tornar, oficialmente, sogro de um garoto de dezoito anos amanhã!

Capítulo Trinta e Sete
Eu não sei se eu gosto disso
Sem você, sem você, sem você.

Without You — Pixie Lott



Jonas’ POV


Charlie e eu éramos, oficialmente, um casal. Depois de tudo no sábado, ainda saímos para tomar café da manhã no domingo. Na segunda-feira, fomos extremamente profissionais: “Srta. ” para cá, “” para lá... E ninguém parecia suspeitar de nada.
Perto do primeiro horário de almoço, apareceu no laboratório. O cabelo dele parecia mais comprido e fiquei orgulhoso por vê-lo usando uma camiseta preta que eu havia lhe dado de aniversário no último ano.
— Ei, cara, o que te traz aqui? — Perguntei, assim que ele se sentou na cadeira em frente à mesa, na pequena sala que me pertencia.
— Vim ver a . Buscá-la para almoçar.
— Está saindo com ela? — Perguntei, curioso. e uma garota saindo a sério era uma coisa rara. Eu, pelo menos, nunca tinha visto.
Ele riu.
— E você? Fez o que tinha de fazer?
Isso perguntou baixo. Eu sabia perfeitamente que ele estava falando de Charlie.
— Nós estamos juntos há uns dias. Uns dois, eu acho.
riu de novo.
— Eu sabia que sairiam faíscas cedo ou tarde! — Ele quase falou alto, mas abaixou o tom depressa.
— É, seu linguarudo, agora cale a boca porque trabalhamos aqui. Aliás, falando em trabalhar, seu restaurante vai sair ou não?
esfregou a nuca.
— Eu estou vendo os pontos. O que eu tinha gostado antes foi alugado, portanto preciso encontrar outro tão bom quanto. Talvez no SoHo, eu não sei.
— Isso não é um golpe para estender as férias, não, né? — Brinquei.
— Cala a boca — ralhou. Depois, verificou seu relógio de pulso. — Agora, tenho que ir, senão não consigo falar com .
— Ele anda cheio de trabalho. Não sei como ainda não pirou — comentei.
— Ele já é pirado — riu, levantando-se.
Nós nos abraçamos rapidamente, antes de partir.
— Ei, — meu irmão me chamou, antes de se aproximar da porta.
— O que foi?
— O estágio da garota não vai durar para sempre.
— É, eu sei — respondi, um pouco desgostoso.
Na verdade, eu não tinha pensado naquilo ainda.

Jonas’ POV

— Sra. Jonas, por favor, compareça à sala da Diretora Crayg.
A voz de Leslie, o inspetor, atravessou os autofalantes da sala de aula. Eu estava no meio de uma apresentação dos alunos. Rebecca Dempsey fazia uma análise crítica sobre o livro favorito de outra colega, quando eu a disse para parar porque eu teria de ir à diretoria. Em seguida, ouvi o nome de Clay ser chamado também. Com isso, consegui acreditar que não tinha cometido nenhum crime — e que meu método de dar aulas estava a salvo.
Pedi licença aos alunos sem ter respostas para suas perguntas curiosas a respeito da minha chamada. Encontrei Clay no caminho até à sala de Crayg. Seus óculos estavam perfeitamente limpos e ajeitados no lugar certo do nariz, sua gravata estava perfeitamente alinhada e sua cara tinha a mesma expressão de espanto que a minha.
— Olá — ele me disse. Tive a impressão de que Clay me chamaria pelo nome, mas achara melhor simplesmente dizer “olá”. Nós ainda não havíamos nos visto naquele dia, afinal, Clay só teria aulas a partir do segundo horário.
— Oi — respondi, já em frente à sala de Crayg.
Ela estava sentada com as mãos unidas sobre a mesa, tinha um sorriso sem dentes à mostra no rosto e nos deu bom dia, chamando-nos pelos respectivos sobrenomes. Ruth, sua fiel assistente — uma baixinha magricela que usava sempre ternos azul-marinho com meia calça, fizesse calor ou frio —, estava ao seu lado, segurando uma agenda preta de couro.
— Desculpem-me se interrompi suas aulas — Crayg disse, fazendo sinal para que Clay e eu nos sentássemos nas cadeiras clássicas que ficavam em sua sala. — É que, infelizmente, não estarei aqui no horário do almoço.
— Houve algum problema? — Foi Clay quem perguntou.
Por meio segundo, olhei para ele. Depois, voltei a prestar atenção em Crayg.
— Oh, não, professor, pelo contrário — ela riu baixo, mas até mesmo tentando ser simpática, Crayg era bizarra. — Como vocês sabem, estamos muito próximos da formatura dos alunos do último ano.
Clay e eu assentimos, ao mesmo tempo.
— E, bem, é, por unanimidade, a professora mais querida pelo ano.
Aquilo me fez sorrir, sentindo-me plenamente satisfeita.
Crayg continuou:
— Portanto, irei deixá-la encarregada, junto com os alunos da comissão, pela formatura que acontecerá no final de junho.
— Meus parabéns — Clay olhou para mim.
— Quanto ao senhor, professor — Crayg se pronunciou, sem me dar tempo para agradecer a gentileza de Clay. — Quero que a ajude. Sei que chegou na metade do ano, mas você e têm a mesma idade e o senhor também é próximo dos alunos...
— Eu ajudarei com o maior prazer — Clay disse.
— Então, ótimo! — Crayg comemorou, para variar, assustadora. — As reuniões começarão em breve. Acredito que seus cronogramas cheguem esta noite, por e-mail. Agora, peço desculpas novamente. Voltem para suas salas.
Despedimo-nos de Crayg e voltamos, devagar, jogando um pouco de conversa fora sobre o nosso mais novo papel ali. Na verdade, fiquei extremamente animada com a ideia, pois eu tinha certo afeto por cada aluno para quem dava aula. Antes de entrarmos, cada um em sua sala, Clay e eu acertamos de almoçar no lugar de sempre, para que pudéssemos conversar.
Quando o almoço chegou, acabei encontrando-o, por acaso, no estacionamento. No final das contas, acabamos andando até o restaurante.
— Você parece mesmo animada com a ideia — Clay comentou assim que nós nos sentamos.
— Está brincando? Eu acho que estou enfrentando alguns fantasmas fazendo isso — contei. — Estou feliz por ajudar, acho uma ótima ideia. Ainda mais depois de tudo o que eu passei no colégio.
Depois dos anos, eu sabia que as lembranças estavam lá, mas esta era uma gaveta que eu não precisava mais abrir. Era como se eu a tivesse trancado e atirado a chave fora. No mar, talvez.
— Nem me fale — Clay foi interrompido pela garçonete do lugar. Como sempre, compramos uma porção de batatas-fritas. — Quando me formei, uns caras 50 kg maiores, porque eu era um magricelo, me deram uma surra no banheiro do baile — continuou.
— Que horror! — Arregalei os olhos, chocada. — Na formatura, não me fizeram nada. Fizeram antes dela, o que não me privou de sentir medo.
— Acho que é pior, não? Você fica na defensiva e não aproveita. Tem medo de tudo, está desconfortável. Quer apenas pegar seu diploma e ir embora. Apenas isso.
— Foi o que eu fiz. Na segunda-feira seguinte, saí atrás de emprego, virei a página com força demais, talvez, mas foi necessário.
Conversamos mais um pouco até que a comida chegou, o que não nos privou de falarmos mais e mais. Tínhamos tempo para isso. Compartilhando nossas experiências antes da faculdade, fossem elas boas ou ruins, percebi que Clay e eu éramos muito mais parecidos do que aparentávamos. Havia uma trajetória, quase que, em comum. Momentos ruins na escola, empregos sérios enquanto éramos jovens demais... A única diferença era que: Clay havia ido para a faculdade logo após as férias de verão, sem largar o emprego em um restaurante próximo. Eu não. Eu trabalhei por quase dois anos e meio antes de poder estudar como gostaria. Inclusive, já havia até mesmo me casado.
— Acho que é por isso que gosto tanto dos meus alunos este ano — comentei, comendo a última batata-frita. — É minha primeira turma. É quase impossível não me apegar a eles.
— Lembro-me muito bem da minha primeira turma. Eram extremamente bagunceiros, mas eram divertidos — Clay riu.
— Minha vida é quase uma montanha-russa. Eu estudei, me formei, trabalhei, me casei e fui à faculdade. Tudo completamente fora do padrão americano. Morei com minha mãe até os vinte anos.
— Gosto dessa influência latina em algumas casas: os filhos que não saem de casa às pressas.
— Eu saí às pressas... Uma longa história. Mas saí às pressas com minha mãe e meu irmão, Maison. Quase fui morar em Nova Jersey.
— Sério? — Clay se mostrou surpreso, largando seu copo de refrigerante. — E o que houve para não ir?
— Acabei indo morar com e, poucos meses depois, nós nos casamos.
Estranhamente, depois daquela frase, os olhos de Clay me evitaram. Eles percorreram o restaurante lotado. Ele terminou de beber sua Coca-Cola.
— Acho melhor irmos — disse, limpando a garganta e verificando seu relógio de pulso. — Você sabe como Nova York é: nada de ocupar mesas se já consumiu.
— Tem razão. E também, eu não posso me atrasar porque preciso terminar de fazer a prova da leitura obrigatória e enviá-la à Crayg por e-mail até às duas da tarde.
Clay e eu pagamos a conta e deixamos o restaurante, caminhando até o colégio de novo. Dessa vez, nossa vida pessoal ficou totalmente para trás, falamos apenas sobre alguns alunos e na melhora da postura de Ethan Hale — o que eu acreditava ter forte influência de Olly, afinal, o garoto fora um amor quando estivera lá em casa.
O resto da semana foi normal dentro do colégio, mas, em casa, as coisas iam se mostrando novas. Sem vice-presidente, o trabalho de aumentava um dia após o outro. Cada vez ele chegava mais tarde e explodindo de dor de cabeça. Tudo o que eu ouvia dele era: “Desculpe por isso”, seguido de um: “Você pode me trazer algo para a dor de cabeça?” e, finalmente: “Obrigado, eu amo você”, quando o remédio chegava. Muitas vezes quando eu voltava ao quarto, após ter deixado o copo na pia da cozinha, dormia e sua expressão era exausta. Eu me sentia mal, não por mim, mas por ele, que se sobrecarregava sem opção. Eu não tinha dúvidas de que o ajudava como podia, apesar de ter de chefiar os laboratórios.
Nos dias em que ainda deixei o colégio mais cedo, Olly estava com Ethan e estava ocupado demais para que eu fosse visitá-lo — terminaria atrapalhando. Minha companhia era Tony, o cachorro, que dormia em meu colo, no sofá, enquanto eu assistia à TV. Algumas vezes, sem dúvidas, me senti sozinha, mas espantei os pensamentos egoístas rapidamente.


Capítulo Trinta e Oito
Eu sinto que estou de cabeça para baixo
E eu não quero estar aqui

Mixed Up — Hannah Montana


Jonas’ POV


Era um dia comum no laboratório. Estávamos testando fragrâncias novas, afinal, mais uma cantora country queria lançar uma fragrância conosco. Portanto, estávamos dando mais duro do que de costume, porém nada atípico havia acontecido. Quando ela bateu na porta da sala onde eu estava, me surpreendeu a rapidez com a qual ela veio, logo depois que chamei.
— Houve algum problema? — Ela perguntou, enquanto encostava a porta.
Como de costume, olhou para os outros lá fora.
— Não — respondi, saindo detrás da mesa onde eu estava e ficando próximo a ela. Mas não próximo demais. — Na verdade, tudo o que eu quero é evitar um problema.
desconfiou. Instintivamente, senti vontade de rir.
— Você vai ter que voltar para o Brasil, não? — comentei.
— Sim, em três meses, mais ou menos — respondeu. — Às vezes, parece tempo demais; outras, parece que vai passar rapidinho.
— Bom, eu andei pensando... — ignorando o lugar, peguei as mãos de . — Quero falar com para que ele te admita, assim você poderá ficar comigo. Mas, se quiser voltar, eu respeito isso.
vibrou. Quase pulou em mim para um abraço, mas o ambiente nos impediu. Entendi aquilo como uma resposta “sim” e fiquei contente com a ideia, finalmente, eu estava conseguindo tomar um rumo — emocionalmente falando.

Jonas’ POV

Devido às funções do preparo da formatura, os dias passaram depressa. Logo, uma semana tinha corrido. Era domingo à noite, eu estava no quarto terminando de me maquiar para poder ir com ao tal jantar. Ao contrário do que eu faria, alguns anos antes, agora, eu gostava da ideia de usar maquiagem e até aprendera a delinear as pálpebras superiores. Quando terminei de acertar o tom de meu batom rosa queimado, resolvi colocar meu vestido nude, Alice + Olivia, que havia me dado, cerca de três meses atrás. O único problema era o zíper, que eu não alcançava — eu já havia até calçado os sapatos.
, pode me ajudar aqui? — Chamei, da porta do quarto. Ele havia terminado de pôr seu terno preto, cerca de vinte minutos atrás. Estava na sala, sentado, assistindo à reprise do Saturday Night Live.
Em seguida, ele apareceu.
— Furou o olho com aquele pincel pontudo? — Debochou, rindo. Pude vê-lo refletido no grande espelho.
— Quase — tive de rir também. — Mas, por enquanto, preciso que me ajude com meu zíper — apontei, por cima do ombro.
sorriu, um pouco maldoso.
— Mas já está aberto — riu de lado, nada debochado como há segundos atrás. Pelo contrário, tinha um ar altamente sexy.
— Estou falando sério — respondi, ignorando o quanto seu reflexo no espelho era capaz de me deixar tonta.
— Eu também — retrucou, mas terminou convencido de que precisava fechar o meu zíper. O mesmo subiu depressa, fazendo um pequeno zumbido. beijou minha nuca e meus pelos ali se arrepiaram. — Você está linda — disse, perto do meu ouvido.
— Obrigada — respondi, sem conseguir segurar um sorriso. Eu me sentia bonita, era verdade, mas ouvir dizendo era milhões e milhões de vezes melhor.
— Não há de quê — respondeu, formal, me fazendo rir. — Mas é sério, , você está incrível, a ponto de eu não querer dividir essa visão perfeita.
Para não perder o costume, eu corei.
— Agora você parece um morango.
Como uma música, a frase do passado invadiu os meus ouvidos, docemente.
— Acho melhor a gente ir saindo. Eu não quero que você chegue atrasado demais e cause má impressão — eu falei, virando-me e ajeitando a lapela do terno de . — Uh, que executivo gato!
Nós rimos.
— Hm... Mas... Cadê a Olly? — Perguntei.
— Vai chegar em duas horas — contou. — Era a vez dela de jantar na casa do namorado. E como fica um pouquinho longe, vai demorar.
— Ah, é mesmo! Eu tinha esquecido — peguei a pequena bolsa-carteira sobre a cama. — Vamos?
— Claro, madame estendeu o braço, me dando espaço para caminhar até a porta do apartamento.
— Prometa-me que nós não iremos demorar demais — choraminguei.

A festa ficava em um hotel caro, por isso havia formalidades e mais formalidades a cada passo que dávamos. Os homens todos usavam terno e as mulheres, vestidos elegantes. Eram todas mais velhas e tinham um olhar um pouco severo. Elas me cumprimentavam, elogiavam o vestido, mas era apenas isso. Se eu tentava ter qualquer tipo de conversa com elas, era simplesmente ignorada. Talvez, elas se sentissem incomodadas com alguém da minha idade.
Houve um momento em que eu me cansei e me sentei, numa das cadeiras clássicas e estofadas de branco, da mesa que tinham reservado para e eu. Às vezes, eu o olhava. Eu já tinha sido apresentada a todos e, quando achei que poderia ter cinco minutos com , fui sabotada por um ruivo meio quadrado que deu aquela fala típica dos filmes: “Vou roubá-lo da sua mulher por um instante.” Os dois sorriram e me deram as costas. Acontece que o instante tinha sido há quase duas horas. Fiquei tentada a pegar meu telefone celular — um modelo novinho em folha que eu tinha ganhado de presente — e mandar um SMS para Gabriella, mas aí me lembrei de que ela poderia estar com . E eu não queria estragar tudo.
Depois, pensei que, talvez, Olly pudesse me socorrer, mas ela devia estar dormindo ou então, conversando com Sky ou qualquer outro sobre o jantar na casa de Ethan. Eu estava morrendo de curiosidade sobre isso, mas não quis interromper nada. Vez ou outra, as mulheres me olhavam, eu sorria para elas, tentando parecer incrivelmente animada naquela ocasião — coisa que eu não estava.
chamou, pondo a mão em meu ombro.
Mentalmente, eu desejei que ele dissesse para irmos embora.
— Sim? — Virei-me. — Aconteceu alguma coisa?
Por dentro, eu gritava como uma criança mimada que queria ir para o seu quarto assistir ao Cartoon Network. Mas não demonstrei isso, acho que nem meu rosto deixava tal coisa clara.
— É melhor irmos embora.
— Deus é bom — falei baixinho, levantando-me depressa.
— Perdão, o quê? — perguntou, confuso, aquela expressão tradicional de quem não escutou.
Pelo visto, eu não havia falado tão baixo.
Passei as mãos pelo vestido rapidamente, dando um sorriso qualquer — que saiu de um lugar desconhecido.
— Eu tenho aula amanhã cedo e vou me estender na escola por causa dos preparativos do baile de formatura — falei, ignorando sua pergunta. Peguei minha bolsinha e a abri, procurando meu celular. Verifiquei as horas, por puro hábito, e joguei o aparelho para dentro da bolsa de novo. — Acho melhor nos despedirmos de todos — agora, aconteceu um sorrisinho cínico.
Levamos mais ou menos quinze minutos girando pelo salão do hotel até dizer tchau a todos. Na hora da despedida, as mulheres foram bem mais simpáticas — quem sabe, estivessem serelepes por se despedir de mim —, dizendo que fora um prazer. Um prazer... Sei... Como se eu fosse o jardineiro latino delas...
Quando caí na cama, quem desmaiou fui eu. Eu me sentia exausta, afinal, do hotel até em casa, o caminho era longo. Eu cheguei a ouvir o telefone tocando pouco depois de eu ter dormido — ou chegado muito perto disso —, mas não consegui abrir os olhos e dormi complemente depois que ouvi dizer “alô”. Acordei com um barulho fino e rápido.
Zíper.
Abri os olhos depressa, surpresa, empurrando os lençóis.
Vi uma mala sobre a poltrona... E andando de um lado para o outro, falando ao telefone e procurando como um doido por alguma coisa nas gavetas.
— O que aconteceu? — Perguntei, sonolenta.
Segundo o rádio relógio, faltavam ainda vinte minutos para o meu despertador tocar. Sentei-me na cama.
O celular de foi desligado.
— Acordei você? Sinto muito — pediu, um pouco desapontado. Ele se aproximou, e eu ganhei um beijo rápido.
— Que mala é essa? O que aconteceu? — Perguntei, correndo meus olhos de para a mala.
— Preciso viajar às pressas — explicou. — Problemas na Holanda.
— Viajar? Às pressas? Holanda? — Olhei para ele. — E desde quando você tem visto holandês?
— Há algum tempo — riu. — Eu não queria te acordar. Ia tomar um café e falaria com você quando acordasse.
Minha cabeça rodava. Ao menos, ele não iria sem se despedir de mim. Mas, ainda assim, a surpresa foi algo desgostoso.
— Quanto tempo vai levar? — Perguntei, puxando meus joelhos para perto do abdômen, como uma criança apavorada.
abriu uma última gaveta, encontrando a pasta que procurava. Abriu-a, puxou uns papéis e colocou-os na sua pasta de sempre.
— Umas quatro semanas — disse, olhando para mim. — Certamente, eu precisarei passar por outras cidades...
— Hm, tudo bem — dei de ombros. Quatro semanas. No máximo, passamos três dias afastados desde que eu fora morar ali. — Dê notícias assim que puder, não importa se eu estiver em aula — levantei-me.
— Eu irei — respondeu, me abraçando. Mais um beijo rápido. — Cuide da Olly — me pediu. — E cuide de si mesma. Se você se sentir sozinha, qualquer coisa... Ligue para mim, . E como você diz, “foda-se” o fuso horário. Ligue — ganhei um beijo no topo da cabeça.
— Tudo bem — abracei-o apertado. — Vai ficar tudo sob controle.
Poderia ser drama, poderia ser o que fosse, mas acho que me senti como uma daquelas mulheres cujos maridos vão para a guerra. Senti um nó na garganta, tive uma sensação ruim. Quem sabe — tomara! —, fosse apenas exagero, coisa da minha cabeça. Eu sabia que algo assim aconteceria, cedo ou tarde, estava mais do que na hora de a realidade me dar um tapa no meio da cara. Está tudo sobre controle, repeti para mim mesma. Dessa vez, era eu quem precisava confiar naquela frase, cegamente — mas meu estômago me dizia o contrário.



Capítulo Trinta e Nove
Não, não, não, eu não quero fazer mal a você,
Não, não, não. Espere, não te amo.

No Te Amo — Nikki Clan


Por mais que tenham se passado três semanas, ainda estávamos à frente nos preparativos para o baile de formatura. Eu estava muito animada com a ideia de preparar um, afinal de contas, não havia ido ao meu.
No pequeno jornal que circulava no St. Francis, não se falava em outra coisa. A equipe do livro do ano estava trabalhando mais duro do que nunca e, na minha aula, todos estavam ansiosos para abrir a cápsula do tempo que havíamos feito no começo do ano. Até mesmo eu havia escrito uma carta de quatro folhas e colocado na caixa de metal que ficava trancada a sete chaves. Inclusive, eu costumava deixar a chave dentro do bolso de um casaco que usava raramente.
Olly e Ethan viviam se alfinetando, mas eram “as cabeças” da equipe de alunos. Além do mais, o jeito doce de Sky estava dando trabalho à mente criativa da decoradora — e eu achava isso adorável, afinal, a mulher tinha o nariz quase que batendo numa nuvem. Clay era divertido e vivia empurrando os óculos que escorregavam pelo nariz. Suas piadas sempre arrancavam gargalhadas de todos, e eu me sentia bem por ter de trabalhar com alguém assim e não outro professor neurótico.
Em casa, Olly e eu convivíamos bem — e eu sabia que, se fosse há uns meses atrás, estaríamos em pé de guerra —, e o cachorro era minha maior distração até mesmo antes das séries para adolescentes na TV — que eram uma espécie de vício para mim. Porém, eu sentia falta de .
Era inevitável. Mais forte do que eu, talvez. Eu entendia que aquilo seria algo comum, as viagens seriam uma pedra na estrada e começava a me acostumar, mas não podia dizer a mim mesma para não sentir saudade. Era impossível não sentir saudade. E a saudade não é doce quando se trata de amor — quem sabe, a saudade não seja doce em situação nenhuma. Mas sempre havia um método para driblar: telefonemas, e-mails, Skype. A tecnologia era minha melhor amiga naquele momento.
Deixei os alunos discutindo sobre quem deveria ser chamado para DJ, ou se seria melhor contratar uma banda, e resolvi ir até a cafeteria buscar mais um pouco de chá — eu andava viciada em chá nos últimos dias.
Não tinha ninguém lá, por isso tive que esperar um pouco.
Enquanto eu voltava para a sala, com a caneca de chá nas mãos, vi — pelo relógio que havia acima da porta da biblioteca — que tinha apenas mais uma hora na função do baile de formatura. E eu nunca imaginara, em toda a minha vida, que daria todo aquele trabalho.
Quando voltei à sala, todos davam risadas altas. Olly foi a primeira a olhar para mim.

— Eles parecem bem animados com a formatura... — Clay me disse.
Estávamos organizando alguns papéis e uns móveis que havíamos tirado do lugar. Empurrei uma cadeira com os quadris.
— Sim! E isso é ótimo, é legal de ver. Não tem a ver só com terminar o colégio, não... Querem se divertir — respondi.
Clay devolveu algumas revistas espalhadas sobre a mesa a uma pilha delas, numa espécie de cesta. Reparei que uma das revistas não tinha nada a ver com decoração ou festas, era de economia e o nome de estava no alto, em destaque num fundo amarelo. Não soube se ficava feliz ou nostálgica.
! — Clay chamou.
Ali, me dei conta de que “voei” longe demais.
— Hum, desculpe. Chamou? — Perguntei, voltando a prestar atenção em Clay.
Ele empurrou os óculos que escorregavam pelo nariz.
— Está tudo bem com você? — Perguntou.
Assenti com a cabeça, mas não disse nada. Eu me sentia meio bagunçada, mas não era o tipo de coisa que eu dividiria com Clay. Talvez, não dividisse com ninguém.
. Você tem um minuto?
Gelei. Eu sempre tinha medo quando alguém me pedia um minuto ou dizia que tinha algo para me dizer.
— É... Eu acho que tenho — gaguejei. — Só que Olly está me esperando para irmos para casa. Não posso demorar.
Clay virou-se para mim, tornando-se mais próximo. Inspirei seu perfume amadeirado, mesmo que sem querer.
Seus olhos claros por detrás dos óculos pareciam um pouco assustados, mas eu tinha a certeza de que a grande assustada era eu. Forcei uma careta, esperando que ele começasse a falar — e torcendo para que isso disfarçasse como aquela proximidade, e a necessidade de Clay em falar comigo.
Clay respirou fundo e tenho certeza de que minha cara foi a mais estranha possível. Parei de entendê-lo justamente ali. Ele olhou para as próprias mãos e depois para mim.
— Clay, está tudo legal com você? — Perguntei.
— Está sim, — ele riu.
Eu respirei aliviada.
Não sei o que pode ter se passado pela minha cabeça para ter ficado na defensiva, mesmo que apenas psicologicamente falando.
...
Eu ri.
— Fala, estou escutando.
— Gosto de você.
Um nó se formou na minha garganta.
— Como é?!
— Desde o primeiro dia, . Eu estou apaixonado por você.
Meu queixo caiu. Firmei uma mão na mesa atrás de mim.
Desde quando as pessoas se apaixonavam por mim? E desde quando elas se apaixonavam por mim justamente quando eu tinha um marido e planos de ter filhos? Espera, espera aí... Isso não era justo. Não era justo com Clay.
— Clay, espera... Você está enfiando os pés pelas mãos. Olha, nós nos damos bem trabalhando juntos, mas é só isso...
— interrompeu. — Não posso lutar contra a minha natureza.
— Ai, cacete! — Resmunguei, respirando fundo.
Eu estava partindo corações? Desde quando? Merda! Estava tudo fora do lugar. Eu tinha a sensação de que estava girando dentro de uma sala repleta de círculos de alvo pintados nas paredes. Eu estava zonza. Quase desmaiada, quase vomitando.
— Eu sei que isso pode ser muito direto... Meio torto, eu não sei... Mas eu estava engasgado, precisava dizer!
— Nós trabalhamos aqui! — Falei a primeira coisa que me ocorreu. — E, além do mais, eu não posso estar nessa posição. Você não pode nutrir nada em se tratando de mim.
— Por quê?
— Como assim por quê?! — Olhei-o, meio surpresa. — Eu tenho uma vida, tenho um casamento de quase cinco anos... Eu sou feliz ao lado do e...
— Não é o que parece — outra interrupção.
Será que minha bagunça interna estava estampada bem no meio da minha testa?
— Mas é o que é. — Soou rude demais. — Agora, se você me der licença, Prof. Estmont, Olly está me esperando.
Agarrei minha bolsa na poltrona perto da porta e saí dali — quase que fugida.
Andando pelo pátio do St. Francis, avistei o banheiro feminino. Corri para ele. Larguei a bolsa ao lado da pia e, com um murro, ativei o jato d’água da torneira. Enchi as duas mãos em concha e joguei a água fria no rosto. Quando me vi refletida no espelho, todas as frases de Clay voltaram para a minha cabeça. Outra vez, joguei água no rosto.
— Merda — reclamei.
Peguei duas folhas de papel na parede e me sequei. Joguei o papel no lixo e me olhei no espelho de novo. Parecia menos chocada do que antes.
Ouvi passos e o som alto e abafado de fones de ouvido. Virei-me para ver quem era, dei de cara com Olly e seu volumoso e ondulado cabelo vermelho.
, está tudo bem? — Ela perguntou. — Você está pálida.
Pigarreei.
— Sim, está tudo bem, sim, Olly — menti. — Eu tropecei num cabo e me assustei. Só isso. Você sabe como eu me assusto com facilidade — isso era verdade.
Olly riu.
— Já pegou suas coisas para nós irmos? Eu estou um caco, um lixo! — Ri. — Quero tomar um banho, enfiar um moletom velho e me atirar no sofá.
Olly riu de novo.
— Eu vou me despedir do Ethan e te alcanço no estacionamento, pode ser? É a saída mais próxima do metrô.
— Perfeito — concordei.

A noite refletia na enorme janela da sala. Eu estava atirada no sofá de três lugares, em silêncio. Olly estava ouvindo música no quarto, e eu estava fitando a cidade lá embaixo. Eu estava enrolada numa manta qualquer, curtindo o silêncio e dando um descanso para a minha cabeça. Se antes eu tinha medo que as viagens de fossem uma pedra na minha vida pessoal, agora, eu me preocupava também com o fato de que Clay poderia ser uma pedra no meu trabalho. E tudo isso junto me dava náuseas.
Encolhi-me, colocando as duas mãos embaixo da cabeça e me virando para a janela. Fechei os olhos, como uma criança sonolenta que se ajeita no sofá e cochila. Esperei pelo sono porque eu me sentia cansada, cansada e preguiçosa. Quando minhas pálpebras realmente se mostraram mais pesadas, meu celular tocou na mesinha. Quase caindo do sofá, estiquei meu braço e puxei o aparelho para perto. O número era desconhecido. Rezei para não ser Clay.
— Alô — respondi, ajeitando-me de novo e fechando os olhos.
Acordei você? — Reconheci a voz de imediatamente. Seu tom foi tão doce, tão amável, que sorri instantaneamente.
— Na verdade, não — respondi. — Como você está? Muito trabalho?
Fiquei com medo que sua ligação fosse para avisar que ele ficaria mais dias longe.
Eu estou bem — ouvi sua risada do outro lado da linha. — Sim, eu tenho trabalhado demais. Mal posso esperar para tirar um fim de semana em casa, descansando. E você? Está tudo bem com a Olly? Tudo bem no seu emprego?
Engoli em seco quando o ouvi perguntar sobre meu emprego.
— Tudo bem, claro que sim! — Não soou muito convincente. — Olly deve estar estudando, ou dormindo. São quase onze da noite aqui.
Eu estou bebendo café porque acordei muito cedo e tenho uma reunião, uma videoconferência, em duas horas. Estou em Londres, mas tenho uns negócios com uns empresários asiáticos.
— Eu achei que você ainda estivesse na Holanda — comentei, dando de ombros.
E eu deveria estar respondeu. — Mas adiantei um pouco de trabalho, inclusive, vou voltar alguns dias antes...
Algo dentro de mim acendeu. Minha postura sonolenta ficou para trás. Ajeitei-me no sofá. A manta deslizou pelas minhas pernas e caiu no chão.
— E quando você chega? — A ansiedade e a euforia eram notáveis na minha voz.
Fim de semana que vem. Sábado, às sete e quinze da manhã, pelo horário de NY, estarei desembarcando no JFK.
— É uma ótima notícia! — Disparei, animada. — Estou com saudades... — choraminguei.
Eu também. Eu sinto muito a sua falta. Vou desligar para deixá-la dormir. Diga à Olly que mandei um beijo.
— Eu direi, pode deixar. Boa sorte com os asiáticos — desejei.
Obrigado. Até breve, menina da entrega... Boa noite.
— Até breve, economista — ri, contente. — Não sei se é noite aí — ri.
riu também.
Eu pude imaginar seu rosto numa risada natural, lindo. Perfeito.
— Eu te amo — disse baixinho, meio tímida, como se nunca tivesse dito aquela frase antes. Não entendi porquê.
Eu também. Eu também amo você e mal posso esperar para te ver. Agora eu, realmente, vou deixá-la dormir. Cuide-se.
— Pode deixar. Até lá.
Desliguei.
Pelo menos, eu teria algo muito melhor para me lembrar — como uma adolescente boba — antes de dormir.




Capítulo Quarenta
Agora vejo bem
E descubro quem é quem.

Como Hacer Sufrir — Diego Boneta

Olly foi almoçar com Ethan e os primos dele, que estavam de visita à cidade, no domingo. Fiquei sozinha em casa, então peguei o telefone e liguei para — sentindo muito, caso ela e tivessem planos. Por sorte, os dois não tinham combinado nada, e ela me disse que tinha coisas sobre o novo negócio para resolver. Fiquei confusa, pensando no que ele poderia fazer num domingo, mas, logo, a confusão foi deixada para lá. Depois do “ok” da minha melhor amiga, corri para o closet, peguei um vestido solto e escuro — um pouco fresco demais para o meu gosto, mas confortável e, o mais importante, um presente de — e o vesti junto com um blazer feito de moletom cinza. Soltei o cabelo, deixei um bilhete para Olly — caso ela chegasse antes de mim —, peguei minha bolsa, o dinheiro do táxi e combinei de encontrar no Josie’s, onde ela poderia ir andando.
O telefonema de , na sexta-feira à noite, não saía da minha cabeça. Eu estava dando pulinhos por dentro, iria vê-lo muito em breve e me sentia uma adolescente esperando, ansiosamente, para assistir ao seu primeiro show de sua banda favorita — e a sensação era maravilhosa. Mas, ao mesmo tempo em que a lembrança boa me inundava, a lembrança de Clay me dava um soco na boca do estômago.
Eu só conseguia pensar no que aquele cara havia me dito. E não conseguia esquecer, não conseguia esquecer nem dormindo. Qualquer mulher, qualquer uma mesmo, ficaria eufórica em meu lugar, afinal de contas, Clay era um homem legal, mas não eu. Eu não podia, não devia e, o mais importante: não queria. O ritmo do meu casamento podia estar mais louco do que o da mais alta montanha-russa do Six Flags, mas nem assim eu o colocaria em risco. Nem assim, eu desistiria de seguir minha vida porque eu era feliz e satisfeita com ela — apesar de andar me sentindo uma velha saudosa nos últimos tempos.
Eu me perguntava como deveriam ficar as coisas no colégio a partir de segunda-feira. Assim como me perguntava com que cara eu encararia Clay. Eu tinha uma leve sensação de que havia sido um pouco grosseira na hora de deixá-lo sozinho e isso me incomodava, mas, ao mesmo tempo, queria estrangulá-lo e fazê-lo se convencer de que eu era uma canoa furada. Também me perguntei se devia contar o que acontecera a , mas acabei ficando mais em dúvida ainda. Se não dissesse — futuramente, quando ele estivesse comigo de novo —, me sentiria quase que repetindo o que houve com . Porém, se eu falasse, temia deixá-lo atordoado com isso quando tivesse de viajar de novo e me deixar sozinha. Eu o conhecia, conhecia cada detalhe — bom ou ruim — e sabia que os ruins se sobressairiam sobre os bons quando tivesse de me deixar sozinha em Nova York. Tudo o que eu não queria era um problema.
Durante o trajeto de metrô, consegui pensar em alguma coisa, por mais crua que fosse. Eu iria falar com Clay, dizer a ele que não insistisse com aquilo pelas razões óbvias — e únicas —, pediria desculpas se tivesse sido grosseira e ponto final. Colocaria uma pedra enorme naquilo e seguiria em frente. Talvez, eu nem continuasse no St. Francis no ano seguinte e realizasse o meu desejo de trabalhar com alunos de escolas públicas, com as mesmas poucas oportunidades que eu via quando estava no Ensino Médio. A experiência de substituta e no St. Francis, certamente, me ajudaria.
Quando cheguei ao restaurante, estava sentada, atenta ao celular, talvez, digitando um SMS.
— Oi! — Falei. Puxei a cadeira em frente a ela e me sentei.
Depois da comida, nós relembramos o passado um pouco e deixei um pedaço do nó na minha garganta escapar — foi mais forte do que eu.
— Você sabe se já arrumaram outra pessoa para o lugar do Joshua?
piscou e deu um gole em seu suco de laranja antes de responder.
— Sim, eles arrumaram um sobrinho do Oliver. Afinal, ele também tem interesses nos lucros e tudo mais o que acontece na empresa, mas eu não sei quando ele assume o cargo que era do Josh.
— Eu estou estranhando um pouco ficar sozinha. Ando com medo de não me acostumar — assumi, envergonhada pelo meu egoísmo.
riu, baixinho, mas riu.
— Alguém precisa fazer essa parte do negócio. E eu te entendo, mas sabe quem te entenderia melhor e te ajudaria? Sua sogra. Por que você não fala com a Sra. Jonas?
Aquela foi uma boa ideia. Eu ainda não tinha pensado nisso. Talvez, ela me ajudasse, talvez me fizesse enxergar uma luz no fim do túnel. Qualquer coisa do gênero.
— Eu nunca tinha pensado nisso, cacete!
riu.
— O que seria de nós sem mim? — Ela disse.
Eu sabia que ela havia roubado aquela fala de algum lugar, apenas não sabia de onde.
— Agora — Ouvi . — Pegue a bolsa porque nós vamos até TriBeCa.
— Fazer o que em TriBeCa? — Perguntei, puxando minha bolsa da cadeira ao meu lado.
— Vamos ver o ... Ele me disse que precisa se vingar, então você vai segurar vela para a gente.
Fiz uma careta.
anda tendo contatos com a cocaína?! — Questionei, levantando-me.
levantou-se também, aos risos.
— Não, idiota — respondeu. — está lá também. Ele pediu que estivéssemos todos lá, uma pena que não esteja também. Parece que o arrumou uma namorada...
Eu havia ouvido algo, mas deletado a informação porque já tinha coisas demais na minha cabeça. Além do mais, eu não falava com havia dias e ele não me dissera nada.
— Se ele estivesse, seríamos o quê? — Eu quis saber. — O Sexteto Fantástico? — Falei rindo. — . TriBeCa. Todo mundo junto. Ainda não juntei as coisas.
riu de volta. Pegou sua bolsa e nós saímos — havíamos pagado a conta há tempos.
Depois de quinze minutos de metrô — mais ou menos — outros cinco ou dez caminhando, chegamos a um lugar de tijolos à vista e, visivelmente, em obras. Reconheci o carro de estacionado no meio fio.
— Ritual do acasalamento? — brinquei.
! Eu ouvi sua piada infame! — surgiu do prédio. — Oi, amor — ele disse à .
— Oi — ela o deu um beijo rápido.
— É aqui que você tem se escondido? — Perguntei a , enquanto nós nos abraçávamos.
— Pois é... — ele riu. — Ninguém vai acasalar, mas eu devia te colocar para segurar vela. Ainda me lembro do que você e o meu irmão me fizeram passar no Josie’s.
— Você continua o castiçal mais sexy da América — lembrei. me olhou. — Estou brincando — eu disse. me olhou feio. — Vão à merda, vocês dois — resmunguei, fazendo-os rir.
está lá dentro com , venham — passou o braço ao redor da cintura de e a puxou para dentro. Eu os segui, dando risada de algumas coisas que se lembrou, como o jogo de paintball.
Quando entramos, havia jornais pelo chão e as paredes estavam pintadas em um tom claro, mas havia uma com um vermelho escuro. e uma garota, que não me era estranha, estavam de costas para nós, observando o que deveria tornar-se a cozinha num futuro muito próximo.
— A mobília e o resto deverão chegar na segunda-feira — comentou assim que paramos de andar.
e a menina com ele se viraram.
No momento em que a vi, a reconheci do laboratório. Sorri para ela, que retribuiu.
— Essa é a , minha namorada — a apresentou. — , essa é a , mulher do meu irmão.
— Ah, a gente se conhece — ela disse. — Do laboratório. Como vai?
— Estou bem e você? — respondi. — E você, ? Muito trabalho.
— Tudo sim — sorriu de novo.
E ela tinha uma doçura inexplicável na voz. Aliás, tudo nela era doce. Enquanto eu conversava com , ela não ergueu o queixo ou marcou território, pelo contrário, ela manteve o olhar nele, em suas ações. Como se, além de ouvir, visse suas palavras. Era amor... Estava claríssimo.
— Olhem o que eu achei! — A voz de surgiu dos fundos. Nas mãos, ele tinha uma garrafa de champanhe.
— Eu quero duas taças! — Falei. — Uma para mim e uma pelo seu irmão, que não veio.
Todos riram.
Depois de as taças serem distribuídas — e eu fiquei com uma só, apenas esclarecendo —, nos juntamos para brindar.
— Senhores — brincou. — Tenho algo a dizer...
Seu tom formal me dava vontade de rir.
— Há certos anos atrás, eu cometi alguns erros, alguns não... Muitos erros. E de repente, eu fui puxado para fora do abismo. Senti-me sendo salvo — ele olhou para mim. — Você me tirou do abismo. E eu sempre vi você como uma irmã mais nova, ainda mais com tudo o que você significa para o meu irmão. Porém, naquela época, você foi mais forte do que uma irmãzinha mais nova seria. Você me ajudou, me mostrou que havia gente precisando de ajuda. Ajuda que eu poderia dar... Eu me sinto salvo por você, .
— Ai, seu idiota, está me fazendo chorar — falei, enxugando a lágrima boba que escorreu. As palavras dele eram tão bonitas, palavras de um amigo, de um irmão.
me abraçou de lado.
— E é por isso, por causa dessa chorona que acabou de me interromper, — riu — que eu tomei uma decisão importante: vou batizar meu restaurante com o seu nome. Bem-vindos, ao “”!
Houve um grito de comemoração.
Eu abracei apertado. Não sabia que ele se sentia tão grato assim por eu tê-lo ajudado daquela vez. Agradeci a Deus por ele, por ele e por , que eram pontes entre e eu. Agradeci por todos, agradeci por aquela família inteira. Agradeci pela felicidade que eles me davam, cada um ao seu modo.
Aquilo havia feito o meu domingo. Quando cheguei em casa, contei tudo em detalhes para Olly, que estava animada com ter saído com a família de Ethan, portanto também tinha coisas para contar. Ficou feliz com a notícia de que o pai chegaria antes — o que me surpreendeu um pouquinho — e pediu que eu comprasse tacos para o jantar.
Quando caí na cama, depois de um banho morno, senti meu corpo, minha mente e minha alma leves como uma pluma, tanto que agarrei o travesseiro e dormi, confortavelmente atravessada na enorme cama de casal. Quando o despertador tocou cedo, na segunda-feira seguinte, não quis levantar da cama por pura preguiça.

O St. Francis parecia comum e calmo. Peguei minha xícara de chá de frutas cítricas na cafeteria e rumei direto para a sala do quarto ano, rezando para não encontrar Clay nos corredores — pelo bem de meu humor. Após as minhas aulas, fiquei sozinha na sala dos professores corrigindo algumas redações que eu havia pedido anteriormente. O tempo depois daqueles textos voou e, quando dei por mim, era meu horário de almoço.
Guardei as redações no meu armário, peguei minha bolsa e decidi almoçar fora do colégio. Eu sempre saía pelo estacionamento e o vigia sempre me cumprimentava pelo nome.
— Olá, Sra. Jonas — dizia ele.
— Olá, John — respondia eu.
Caminhei rumo à saída, mas parei quando ouvi meu nome. Virei-me.
Clay estava parado, fazendo sinal para que eu esperasse.
Acabei parando. Era melhor resolver as coisas de uma vez.
Clay correu. Os óculos escorregaram pelo nariz dele. Quando parou diante de mim, vi que o cabelo estava um pouco bagunçado.
, eu...
— O que falamos na semana passada — eu disse. — Morreu na semana passada. Pelo meu bem e pelo seu, acima de qualquer coisa. Esse não é um assunto que uma escola suporte. Nem mesmo minha vida pessoal pode suportá-lo. Eu sou feliz com a minha vida, Clay. Sinto muito se não posso corresponder a você como você gostaria. Eu espero que hoje seja uma pedra em cima de um livro fechado que nunca mais será aberto.
— Sinto muito se a deixei desconfortável. Eu não queria... — Clay tinha certa melancolia nos olhos. Ele deu dois passos para frente. — Mas tudo isso não é algo que eu tenha escolhido.
— Eu sei — disse, talvez baixo demais.
, eu sinto muito.
E dizendo isso, Clay me beijou. Foi tão depressa que eu não tive tempo de pensar ou reagir. Meus olhos ficaram arregalados. Eu estava de costas para a saída, completamente atordoada. Eu sequer me mexia. Levei uma das mãos ao ombro dele, disposta a empurrá-lo, mas, antes que o fizesse, uma voz alta me arrancou daquela situação.
— Mas que merda é essa?
As minhas pernas ficaram moles. Foi como se uma onda de pavor me derrubasse e não houvesse tempo para levantar, uma outra vinha, e eu quase me afogava.
Era .
Foi um choque. E foi inacreditável. Como assim, ele estava ali, parado, olhando para mim como se eu fosse uma leprosa na época de São Francisco de Assis? não ia chegar no domingo?
Corri até ele, quase tropeçando nos meus próprios pés.

Capítulo Quarenta e Um
Você faz com que eu mostre o diabo em mim.

Devil in Me — Kate Voegele


Jonas’ POV


Se você puder, ouça essa música enquanto lê.

Era isso que acontecia por que eu ficara algumas semanas fora? Eu me esforçara para voltar antes, correra, comprara flores, ainda tinha minhas malas no táxi que peguei no JFK e encontrava com outro cara. E, ainda por cima, no colégio! Eu passei por ela, apressado e não a olhei. Olhei para o cara de óculos. O tipo de cara com quem eu a imaginei quando achei que estivesse com outro, antes de me casar com ela.
— As coisas não são desse jeito, eu...
Não o deixei terminar. Minha mão fechada em punho acertou o seu nariz, e eu pude sentir meu rosto ir ficando vermelho de raiva.
— Ai, meu Deus! — Eu ouvi e me virei para ela.
— Sinto muito se interrompi qualquer coisa — falei, andando de volta para a saída.
Ouvi os passos dela vindo atrás de mim.
— Espera! Espera! Espera, cacete! — Gritou.
— O que foi? — Perguntei, irritado.
Mas, na verdade, eu me sentia sob os escombros de um arranha-céu dos Emirados Árabes: dolorido, sufocado, com medo e cansado. Já estávamos na calçada, eu via o táxi em que viera a poucos metros de mim. Parei, atirando as flores que eu comprara no chão.
— Não era nada do que eu pensei? Ah... Não! O que é isso... — despejei com um mix de péssimas sensações correndo pelas minhas veias mais depressa do que meu próprio sangue. — Não era você lá. Não era a minha mulher aos beijos sabe Deus com quem! Era sua gêmea má perdida? Era minha imaginação? Infelizmente, não, . Era você. É você. Bem aqui, na minha frente, tentando me dar uma explicação quando as imagens já foram suficientes! Sinceramente, eu não tenho nada a fazer aqui.
Antes de ouvir sua resposta, eu corri, corri até o táxi do outro lado da rua e subi nele, completamente zonzo, completamente perdido. A imagem de ... Eu não conseguia processar aquilo, eu me sentia ferido. Baleado. E o sangue escorria, lavava o ambiente ao meu redor. O táxi andava, as ruas passavam como um borrão, eu me esforçava para não dar um pontapé no banco do carona — em frente.
Com a parede do elevador vazio, não fui tão generoso. Eu estava sozinho, não havia câmeras, e, instintivamente, eu a esmurrei até chegar ao último andar. Quando entrei em casa, atirei a mala num canto qualquer da sala, vendo-a bater contra uma mesinha onde havia uma foto minha com tirada em Las Vegas. Foi torturante ver que já não dava o mesmo valor a nós dois que eu.
E, outra vez, a imagem vinha. Eu a conhecia tão bem. Eu achava que a conhecia. Será que era a primeira vez? Será que já acontecera? Será que a culpa era minha? Inferno!
A porta abriu-se e bateu depressa. Quando virei, para ver, dei de cara com . O rosto pálido — aquele rosto tão cheio de vida e felicidade que eu deixara em Nova York, semanas antes, era só um borrão do choque.
— Eu preciso que você me escute — ela pediu, a voz saiu de uma maneira que parecia arranhar na garganta.
Dei dois passos para frente, aproximando-me do estofado. Ela também. O móvel era a única coisa que nos afastava.
— Isso tem acontecido há quanto tempo? — Perguntei, engolindo toda a raiva, o sentimento de invasão e a decepção que subiam pela minha garganta. — Você e aquele cara. Vocês se veem há muito tempo?
Naquela hora, eu me dei conta do quão frio eu conseguia ser, algo que me surpreendeu.
... Para! Pelo amor de Deus... Você entendeu errado — insistiu.
— Entendi o que errado, ? — Perguntei de novo. — Se você me flagrasse na mesma situação, saberia que não há nada para entender errado. — A raiva atravessou a barreira na minha garganta, tomou minha voz. — Você não faz ideia do quanto eu lutei para voltar antes — continuei, sabendo que não ia parar de falar. — Porque eu queria te ver, porque eu sentia que você, certamente, não gostava de ficar aqui sozinha. Mas, pelo jeito, o surpreendido fui eu.
passou a mão pelo cabelo.
— Eu não tenho nada com o Clay! — Ela gritou. Sempre fazia isso quando ficava nervosa. E eu sabia. Porque essa era uma das coisas que eu conhecia nela. Mas, agora, eu via que havia mais coisas por debaixo da superfície.
Respirei fundo, tentando controlar a raiva que queria me dominar de um jeito ou de outro. Eu nunca me sentira daquele jeito em toda a minha vida e não conseguia entender o que mais me estrangulava: o que eu vira; ter certeza de que ela já não era minha ou a decepção ao me dar conta de que podia não ser quem sempre eu achei que fosse.
— Você atirou nossos planos no lixo — rebati. — Qual é o problema com você? Onde está o meu erro, ? Eu te ofendi? Eu feri você? Eu amei você demais? Que inferno!
contornou o móvel e ficou diante de mim, suas duas mãos seguraram meu rosto, mas eu as tirei e recuei.
— Eu não tenho nada com o Clay — ela repetiu. — O que aconteceu foi um grande mal-entendido, droga! Eu fui pega de surpresa, entende! — Quase implorou. — Quando dei por mim, ele estava ali, tentando algo que eu não queria. Não há nenhuma razão para que eu queira algo com ele. Eu nem mesmo quero! Eu não atirei nada nosso no lixo. Eu confesso que foram dias difíceis...
Interrompi-a:
— Se havia problemas, você tinha que ter dito para mim! E, eu te conheço... Ou melhor — me corrigi. — Eu achava que te conhecia. Ninguém nunca força você a nada. Se você não quisesse aquele cara, te... Eu nem consigo dizer! Se você não quisesse, teria o empurrado, teria batido nele. , chega!
O olhar dela abaixou. Ela fitou o chão. Depois, quando me olhou, não consegui decifrar sua reação.
— Eu sei — miou, num fiapo de voz.
Aquela foi a pior parte. Porque foi quando eu enxerguei que estava certo. Era possível que nem tivesse se dado conta, mas ela havia querido aquilo. Querido outro afeto, outra atenção... Eu não sabia nem como chamar. E isso arrancava o chão dos meus pés. Era devastador. Fraco, vencido até, acabei me sentando no sofá. Firmei os cotovelos nos joelhos e descansei o rosto nas mãos. Eu me sentia confuso. Como se estivesse no centro de uma grande cidade de idioma totalmente diferente.
O silêncio foi mortal. Apesar de rápido, pareceu durar uma eternidade. Eu não conseguia olhar para , mas sabia que ela estava parada no mesmo lugar, sem saber o que fazer também.
Outra vez, passei os dedos pelo cabelo.
— Eu fui pega de surpresa. Eu não queria, não quero, nem nunca quis aquilo. Apesar dessa mudança louca de rotina, eu só consigo ser feliz aqui. Com você — seu tom foi normal, assustado, mas audível.
Não respondi nada. Olhei para ela.
se aproximou de mim e ajoelhou-se ao meu lado. Suas duas mãos seguraram meu braço.
— Eu devia ter feito algo, eu sei disso — falou. — Aquela não era eu... Olhe, eu sei que você deve estar pisoteado agora, por causa do que viu, mas acredite: foi um mal-entendido — repetiu.
— Um mal-entendido que, no fundo, você queria — respondi irônico.
— É o que pensa a meu respeito? Que eu sou desse jeito? — se levantou, o tom de voz subiu, irritado. — Qual é o seu problema? Vai acertar a minha cara como acertou a do Clay?
Eu jamais faria isso.
— Cale a boca — eu não queria dizer uma grosseria daquelas, mas acabou escapando.
— Não, não mesmo! Agora, você vai me escutar! Você nunca me disse que eu teria de passar por isso... Já não bastou o que eu passei naquele hotel, com aquela gente de nariz em pé? Você estava de malas prontas na manhã seguinte e agora quer me colocar como o monstro da situação... Você acha o quê? Que gosto disso? Que estou satisfeita com ficar sozinha aqui e tudo mais?
— Bastava me dizer! Se tudo se tornou um problema, arrumar outro não era a solução mais honesta! — Rebati, levantando-me. — Essa é você de verdade?
— Eu de verdade? Está dizendo o quê? Que eu encenei? Que te fiz de idiota? Não aconteceu nada hoje! Quantas vezes eu vou ter que repetir?
— Ah, claro! Eu tive visões!
Eram gritos. De ambos os lados.
— Não acredito em você — quando a frase saiu, eu caí sentado, incrédulo sobre as minhas palavras.
O queixo de caiu, mas ela não falou nada.
Outro silêncio mortal. Outro silêncio que pareceu durar uma eternidade.
— O seu capricho atirou todos os nossos planos no lixo — quebrei o silêncio. — Sinto muito se voltei e estraguei seu affair. Mas não se preocupe. Eu vou sair, respirar...
— Aonde você vai? — Mais um fiapo de voz.
— Não é da sua conta. Só me faça um favor — eu disse. — Junte todas as suas coisas. Quando eu voltar, eu não quero nem lembrar que você morou aqui algum dia.
— Está... Está me deixando? — tinha os olhos arregalados, a expressão surpresa e a pele pálida.
— Entenda como quiser. Eu só não quero ficar no meio dos seus problemas e dúvidas. Ligue para o... Como é o nome mesmo? Não interessa... Sem ter onde dormir, você não fica.
Passei ao seu lado, mas ela não se moveu. Aspirei seu perfume uma última vez e um nó se formou na minha garganta. Peguei as chaves onde antes eu as havia jogado e saí, batendo a porta em seguida.
Pela segunda vez dentro do elevador vazio, agora sem raiva, só com a decepção e a sensação de que eu a havia perdido. O nó na minha garganta subiu. Apertei o botão que parava o elevador, deixei-me escorregar e, como uma criança que nunca tinha lidado com a dor ou a perda antes, as lágrimas e os soluços se tornaram meus companheiros por tempo indeterminado. Irônico era pensar que tudo começara dentro de um elevador e que, para mim, tudo se espedaçava dentro de outro.


Capítulo Quarenta e Dois
O que você faz quando está preso
Pois quem você ama
Te afastou
E você não consegue lidar com a dor?

Broken Arrow — Pixie Lott


Jonas’ POV


Eu fiquei parada assim que a porta bateu. Não sei quanto tempo isso durou, mas eu fiquei estática, fitando o nada por tempo indeterminado. Eu sabia que estava chorando porque sentia as lágrimas escorrendo pelo meu pescoço. Aos pouquinhos, minha cabeça assimilava as informações. Tudo tinha acontecido tão depressa.
Junte todas as suas coisas. Quando eu voltar, eu não quero nem lembrar que você morou aqui algum dia”, a frase ecoava na minha cabeça. “Não quero nem lembrar que você morou aqui algum dia.” Não podia ser o fim. Não era justo. Ninguém tinha dito coisa com coisa, tinha apenas posto para fora uma bagunça interna que parecia sufocar.
Enxuguei minhas lágrimas, mas continuei parada, prestando atenção no ambiente ao meu redor. Eu não podia — nem queria — ir embora dali. Para onde eu iria? Onde eu ia passar a noite? Não podia pegar um ônibus ir correndo para o colo da minha mãe em Nova Jersey. Eu tinha que trabalhar no outro dia! Aliás, eu devia estar entrando em sala de aula naquele instante. O que diabos estava acontecendo? Será que era um sonho? Não, era um pesadelo. Só podia ser.
Sentei-me no sofá, exatamente onde antes estivera e descansei a cabeça no encosto. Eu estava me sentindo mal. Tonta, desnorteada.
Estiquei o braço e peguei o aparelho telefônico. Disquei os números do celular de , mas o mesmo estava desligado. Ele não queria falar comigo. E agora, tinha uma péssima ideia sobre mim. Suas palavras tinham me magoado, era verdade. Mas, nem de longe, eram tão pesadas quanto a minha culpa. Eu iria matar Clay quando o visse. Que direito ele achava que tinha de se meter na minha vida, me agarrar e fazer o meu marido me mandar embora de casa? Que merda ele tinha na cabeça? Desgraçado! Uma pena não ter quebrado os dentes dele!
... Ai, droga! Tudo estava tão bagunçado.
Peguei o telefone e liguei para o colégio. Menti que tive problemas familiares fora do estado e que estava a caminho de Nova Jersey. Não sei se Crayg acreditou, mas disse que me dava o resto da semana de folga — agradeci a Deus por isso. Devolvi o aparelho sem fio ao suporte e massageei as têmporas. Pensei em ligar para de novo, mas sabia que ele não iria me atender.
Estiquei o braço mais uma vez. Ele poderia estar na fábrica. Poderia até mesmo se negar em receber minha ligação, mas jamais mentiria que ele não estava lá caso estivesse. Pela discagem rápida, logo ouvi o chamado se repetir duas vezes.
Jonas & Co, presidência — disse , formalmente.
Engoli em seco, empurrando a vontade de chorar que subiu.
, sou eu, — eu disse.
Ah, oi! Está tudo bem? — Seu tom era animado, tratei de mandá-la disfarçar. — Que voz é essa, ? Aconteceu alguma coisa?
— Primeiro, preciso que me diga, sim ou não, se está aí — pedi.
negou.
— Merda! — Ralhei. Para onde ele teria ido?
Não estou entendendo, poderia me explicar? — Minha amiga pediu, do outro lado da linha.
Respirei fundo, procurando uma maneira rápida de resumir a história.
, ele não está mesmo aqui — o tom dela era um pouco decepcionado. — Não há outro meio de ajudar você?
Neguei.
— Não faço ideia de aonde ele foi... Não atende quando ligo para o celular — choraminguei. — E o pior: ele me disse que ia sair, mas que, quando voltasse, não queria nem mesmo se lembrar de que moro aqui.
Como é?! — Não a vi, mas sabia que o queixo de havia caído incontáveis centímetros.
Respirei fundo de novo, mordendo o lábio inferior com força.
— Será que posso dormir na sua casa hoje? — Pedi.
Mas é claro que pode! Eu saio mais cedo porque, segundo o que eu sabia, ainda estaria fora. Dentro de uma hora e meia ou uma hora e quarenta, eu chego em casa. Vá para lá, leve uma bolsa com um pijama e mais uma muda de roupa. Eu estou chegando. Se ele não aparecer aqui, me arrisco até a sair mais cedo.
— Você não existe, ! — Não sei se foi toda a situação, se foi a gentileza dela, mas comecei a chorar de novo. Sem prantos, apenas as lágrimas. — Vejo você depois.
Juntar a muda de roupa foi o mais assustador. Eu não conseguia acreditar que estava mesmo indo embora dali — mesmo sem saber se era definitivo ou não —, não conseguia aceitar. Eu tinha uma vida ali, uma história. Era como se cada parede fosse um telão, um telão onde vários filmes, de várias épocas eram exibidos. Porém, quando eu olhava para a parede da sala, tudo o que eu via era aquela briga de mais cedo: as grosserias, a decepção, os silêncios que intimidaram e constrangeram. E sem saber se era errado ou certo, eu me culpava. Culpava-me por não ter reagido, por não ter acertado a virilha de Clay com um chute, ter falado com ele quando devia evitá-lo, a não ser que estivéssemos perto dos alunos... Eu já havia passado pela dor uma vez, agora, me sentia um trapo por causá-la a alguém, principalmente quando se tratava de alguém de quem eu gostava tanto. Alguém que eu amava realmente.
Quando me vi no espelho do elevador, percebi que a minha cara estava um trapo, que eu estava tão abatida quanto se estivesse doente. Talvez fosse a culpa, sentada em meus ombros, talvez fosse a sensação de solidão e abandono. Eu não sabia lidar direito com a ideia de que não me queria mais e achava que eu o havia traído — ou, pelo menos, sentido vontade de fazê-lo.
O caminho de metrô nunca foi tão longo. Tudo parecia se arrastar, as pessoas pareciam irritantes com suas vozes altas demais. Meu corpo inteiro doía, desde o solado dos pés até o último fio de cabelo. Por dentro e por fora, como se meu sangue tivesse empedrado e tornado-se pesado demais para que minhas veias o suportassem. Quando desci na mesma estação que costumava descer quando trabalhava na Lilac, foi como tomar um soco no meio da cara. Eu estava de volta à minha realidade, sentindo-me como a Cinderela: as doze badaladas já haviam soado. Eu era uma gata borralheira de novo, o príncipe havia ido embora e a carruagem se tornado abóbora.
A Sra. Baker era quem estava na lavanderia. Nós nos cumprimentamos, e ela não foi nem um pouco indiscreta. Disse-me que havia ligado e avisado que eu passaria a noite no apartamento onde agora só a minha amiga morava — os Baker haviam comprado uma casa a dois ou três quarteirões dali. Ela me disse para subir e ficar à vontade. Agradeci, forçando um sorriso e entrei naquele apartamento que eu conhecia bem, onde eu costumava dormir quando éramos adolescentes no Ensino Médio.
Coloquei minha sacola num cantinho da sala e me sentei no sofá, pensando no que deveria fazer. Peguei meu celular, tentei ligar para outra vez, mas ele se negou a me atender. Desta vez, me arrisquei a deixar uma mensagem no correio de voz.
Perto das cinco horas, chegou. Ela largou a bolsa e as chaves sobre o balcão da cozinha e veio até mim. Nós nos abraçamos, e eu me desmanchei em lágrimas, lágrimas de pranto, como não havia chorado ainda. não disse uma palavra, apenas fez esforço para me acalmar. Quando conseguiu, sentou-se no sofá, de frente para mim.
— Eu não acredito que ele possa ter sido tão radical assim — ela disse. — Pôr você para fora... E se eu não te ajudasse, onde você estaria?
— Eu não sei — neguei com a cabeça. — Talvez, num ônibus a caminho de Nova Jersey... Eu estou tão zonza! Completamente desnorteada! E Clay, ah, aquele desgraçado, filho da mãe!
— Calma — ela pediu.
— Eu já tentei ligar para o duas ou três vezes, mas, em nenhuma delas, ele me atende. Será que ele vai realmente me deixar? Será que amanhã ou depois um advogado vai bater aqui com a papelada do divórcio? — Um nó se formou na minha garganta mais uma vez. Eu pensei em tudo, mas não em divórcio propriamente. Quando a ideia se materializou na minha cabeça, era como estar presa num daqueles filmes de terror de péssimo gosto, onde você corre, corre, corre... Mas nunca está, realmente, a salvo.
— Não — tratou de dizer.
Eu não sabia se ela estava dizendo isso para me acalmar ou se acreditava mesmo que meu casamento não era um barco destinado a afundar.
— Nós sabemos como ele é cabeça-quente. Daqui a pouco, ele pensa melhor e vocês se acertam. Não é a primeira vez que brigam, mas, principalmente, não é a primeira vez em que rompem.
Nisso, tinha razão. Houvera aquela vez, quando descobriu sobre e eu e saiu furioso. Mas, depois, acabou voltando e nunca mais tocamos no assunto.
— Só deixe-o pensar com calma, está bem?
— Eu nem sei onde ele está! — A preocupação veio junto com a minha voz. — Pode, sei lá, ter feito uma bobagem, pode estar em algum hotel por aí...
— Ele chegou à empresa quando eu ia saindo — ela contou.
— Você disse algo? Notou algo? perguntou alguma coisa? — Disparei, embolando-me com minhas próprias palavras.
— Não, . E ele passou rápido por mim como uma bala. Só percebi a gravata afrouxada, o ar transtornado e o cabelo desgrenhado.
Ao menos, eu sabia onde ele estava.
— Só que ele me fez um pedido — pelo tom dela, senti que não viria coisa boa.
— Qual?
— Antecipar a viagem dele a São Paulo. Em dois dias. Ele vai depois de amanhã.
— Está mesmo disposto a se livrar de mim — deduzi, rendida.
— Deixe-o ir! — disse. — Deixe-o viajar, esfriar a cabeça... Quando ele voltar, o que não vai levar mais do que uma semana, vá procurá-lo. Dê a desculpa de que foi buscar o resto das suas coisas. Eu dou um jeito de encaixar um dia em que você não trabalhe. Quem sabe, com a cabeça fria, vocês sentem e acertem os ponteiros. Talvez façam terapia, mas, independente do que aconteça, tentarão de novo. Deixe-o pensar, deixe-o sentir sua falta, .
tinha razão, mas eu sentia medo de não procurá-lo e fazê-lo entender tudo errado, fazê-lo achar que eu não o queria mais — quando era tudo o que eu mais queria no mundo.
— De todo jeito, vou tentar telefonar mais tarde — falei, um pouco insegura.
— Você quem sabe, . Apenas, não fique mal, ok? Eu tenho certeza de que tudo vai ficar bem, aposto!
O otimismo de me envolveu. Talvez, a solução estivesse mesmo em dar um pouco de tempo para a poeira baixar. Minha amiga me abraçou, deixando-me mais segura um pouco. Pelo menos, eu tinha a ela em momentos como aquele.


Capítulo Quarenta e Três
Ela subestimou apenas de quem estava roubando.

Better Than Revenge — Taylor Swift


Olly Petroni’s POV


Era o fim do mundo. O Apocalipse. 2012. Qualquer coisa do tipo. havia mesmo posto para fora? Da casa deles? Do lugar onde namoraram escondidos como dois garotos jovens demais? Havia uma história naquelas paredes e, agora, de repente, já não morava mais ali? Era tudo muito confuso e duvidoso. Primeiro, ouviu-se boatos sobre meu pai e brigando no estacionamento. Depois, , supostamente, teria se afastado de Nova York para resolver coisas de família em Nova Jersey. Agora, havia antecipado sua viagem ao Brasil e estava me mandando ficar com por alguns dias, para não ficar sozinha em casa.
Estava tudo de ponta cabeça. Era a única explicação.
Coloquei meus livros na mochila e algumas mudas de roupa — incluindo meu uniforme — numa pequena maletinha de mão. e estavam na sala, conversando sobre algo que não ouvi. Quando apareci, eles se calaram. se levantou, enfiando as mãos nos bolsos. Olhando-o, perguntei-me há quantos dias ele não se barbeava.
— Já juntou suas coisas, Olly? — Ele perguntou.
Segurei a alça da mochila e levantei a bolsa.
— Vai demorar muito em São Paulo? — Perguntei.
— Acho que não — tirou as mãos dos bolsos. — Cuidado com ela — disse para . — E abra o olho com aquele namorado.
Eu ri.
— Vou trancá-la no quarto — debochou.
Ri mais uma vez.
— Quer ir agora? — Perguntou para mim.
— Ah, sei lá... Pode ser — dei de ombros.
— Então, vamos. Vamos aproveitar que domingo o trânsito dá uma folga — disse.
— Eu preciso conferir minha bagagem, meu voo é às oito — disse.
Larguei minha bolsa e caminhei até ele. Quando lhe abracei, bem apertado — como uma criança que ia morrer de saudade —, sorri. Na verdade, não havia saudades naquele abraço, mas eu estava preocupada com ele por causa de tudo o que acontecera, só nunca tive coragem de tocar no assunto.
Fatte un buon viaggio — desejei.
— Obrigado, Olly — meu pai agradeceu quando nos soltamos. — Vejo você no decorrer da semana. Ainda não sei se volto na quarta ou na quinta.
— Tudo bem — dei de ombros. — Sei que vai adorar cuidar de mim, né, ?
Meu tio riu.
Tio. Eu nunca havia pensando nele daquele jeito.
— Como se você precisasse de alguém como babá — riu. — Apenas não quero que se entedie aqui.
— Faça a barba antes de sair — tirou as palavras da minha boca.
— Sim, mamãe debochou.
— Ele tem razão — eu disse.
— Até você? — me olhou. Apesar da breve descontração daquele momento, eu via a névoa nos olhos dele. Por dentro, eu sabia que estava desolado. E isso era assustador.
— Sim, até eu — ri. — Sério, faça a barba e uma boa viagem. Aproveite as longas horas para descansar sua cabeça — aconselhei, me sentindo a mãe dele, não a filha.
Ele não respondeu, talvez sabendo sobre o que eu estava falando. Mas isso não importava, tudo o que eu queria era que ele me desse ouvidos e pensasse melhor, fosse o que fosse.
e se despediram e nós saímos. Quando já estávamos dentro do elevador, longe o suficiente para que alguém nos ouvisse, me arrisquei perguntar a se ele sabia de alguma coisa.
— Nada além do que você sabe — ele respondeu, torcendo a boca. — Houve uma grande briga e ele disse para a ir embora.
— Realmente, nada além do que eu sei — dei de ombros. — Mas o negócio é que meu pai não está legal e só Deus sabe onde a foi parar. Ou melhor, quem sabe ela esteja mesmo em Jersey.
— E onde ela poderia estar? — me olhou, curioso.
— Sua namorada é amiga dela. Ela não sabe? — Perguntei.
riu, esfregando a nuca.
— A não falou nisso — contou. — Aliás, eu preciso passar na casa dela pegar algo que deixei lá. Tudo bem para você?
Assenti com a cabeça, sorrindo para logo depois.
O caminho até a casa da namorada dele foi longo, mas nós conversamos o suficiente para que a paisagem passasse borrada. Por mais que não fosse da minha conta, a história do meu pai com não saía da minha cabeça.
A casa de ficava em cima de uma lavanderia. Era um apartamento espaçoso, pelo que se via de fora. subiu como se aquela fosse a casa dele, eu segui logo atrás, tímida demais numa primeira visita. Ele tocou a campainha e, rapidamente, apareceu na porta. Ela abriu um sorriso imenso quando o viu, deu um abraço nele, seguido de um beijo e me cumprimentou:
— Ei, Olly, olá — disse, simpática como sempre.
Ciao, ! — Eu respondi. Quem sabe, falando com ela, eu conseguisse descobrir alguma coisa sobre .
nos mandou entrar, dando espaço para que e eu passássemos. Ele me deixou ir na frente, e eu quase caí dura quando me deparei com sentada no sofá, anotando algumas coisas em um caderno.
?! — Soltei.
— Oi, Olly — ergueu os olhos, dando um sorrisinho para mim. — Oi, .
me olhou, antes de responder.
— Oi — ele disse.
Perguntei-me se ele sabia que ela estava lá, mas sua expressão deixava claro: não.

Jonas’ POV

A cara de Olly era impagável. Ela estava surpresa de verdade em me ver. Talvez, tenha acreditado que eu estava mesmo em Jersey e não ali, a poucas horas de distância. Naquela situação, a semelhança entre ela e era perturbadora, mas vê-la me deixava um pouco mais tranquila, ela saberia me dar informações mais completas do que as supostas por — e as que ela extraía de .
— É... Por que todo esse espanto? Disseram para vocês que eu havia morrido? — De algum lugar, um fiapo de bom humor surgiu.
riu.
— Ninguém sabia onde você estava — respondeu.
— No colégio, falaram em Jersey, mas eu não acreditei por razões óbvias — Olly completou.
É claro que ela tinha razões para não acreditar, estava vendo quase tudo muito de perto.
— Dei a primeira desculpa que pude. Crayg teve um surto de bondade e me deu dias de folga — contei. — Na segunda-feira, tudo voltará ao normal. Pelo menos, no trabalho. Mas, me contem: o que vieram fazer aqui? — Mudei de assunto, apressada, temendo o rumo que aquela conversa podia tomar.
tratou de responder, apressado como sempre:
— Vim buscar um casaco que eu deixei aqui na semana passada.
— Sério que só se lembrou da jaqueta agora? — parecia surpresa.
Olly e eu rimos.
— Isso é típico de mim — caminhou para os fundos do apartamento, certamente, para onde acreditava que pudesse estar sua jaqueta. o seguiu, deixando a mim e Olly sozinhas.
Senti um pouco de medo. Alguma coisa me dizia que Olly ia fazer aquela pergunta que eu não estava disposta a responder por questões que eu considerava óbvias.
Seja lá de onde essa coisa veio, ela estava certíssima.
, o que está acontecendo?
A garota era tão direta que me dava medo.
Mas eu não tinha que responder — simples assim.
— Nada, Olly.
Ok, era uma mentira esfarrapada e podre, mas esperava que aquilo bastasse. Eu estava completamente errada.
— Qual é, ... Eu não sou boba — o olhar de Olly foi pesado, curioso. Quase me obrigava a falar. — , por que você não mora mais lá?
Outra vez, o modo direto de Olly, por mais previsto que fosse, me assustou.
— Seu pai e eu tivemos uns problemas... Mas eu vou tentar resolver as coisas com ele.
— Quando?
Olly parecia uma menina de sete anos que queria os pais juntos de novo.
— Está tão preocupada assim?
Olly corou. Talvez, fosse estranho para ela preocupar-se com pessoas que ela renegou numa primeira tentativa de aproximação.
está esquisito — ela conseguiu dizer. — Ele volta logo, , vá procurá-lo.
Era o que eu mais queria. Ninguém poderia dizer o quanto.
— Irei. Agora, não se preocupe com isso, certo? Tudo vai voltar para o lugar — sugeri. — Eu espero — sussurrei.
— Seja lá o que houve, porque já vi que você não vai me dizer, torço para que o melhor aconteça.
Olly foi tão doce e sincera que me pegou de surpresa. Quando ela me abraçou, enchi os olhos d’água, mas não chorei. Não havia porquê. Correspondi seu abraço, lembrando-me de que, talvez, Olly nos visse como a família dela. Agora, ela tinha medo de que sua família se espatifasse toda quando ela demorou anos para ter uma.

Era perto das sete horas quando girei a chave na maçaneta da porta do apartamento em Manhattan. Não sabia se podia chamá-lo de meu — e dizer “o apartamento de ” era muito desconfortável —, então, era só “o apartamento em Manhattan". Tudo estava quase do mesmo modo como dias atrás. Tirando a minha foto com em Vegas que não estava na mesinha de sempre. Ignorei aquilo, por mais que me incomodasse, e andei até o quarto.
Continuava igual. Até mesmo o relógio despertador antiquado que eu comprara meses antes estava no criado-mudo que correspondia ao meu lado da cama. Instintivamente, eu me sentei. Por alguns segundos, analisei aquele lugar como se contasse uma história de muitos anos atrás. Era como se eu fosse idosa e estivesse relembrando uma juventude que não ia voltar.
Levantei-me da cama e voltei à sala. Tudo estava tão igual, que era previsível que o livro que eu precisava para a aula de segunda-feira estivesse escondido atrás das portas do rack da TV. Abaixei-me a abri a porta do móvel, fazendo-a correr. O livro era o primeiro de uma pilha. Dei uma conferida na capa e o joguei para dentro da bolsa. Quando me levantei, já tendo fechado a porta do rack, ouvi a campainha.
Quem seria?
Puxei o zíper da bolsa e caminhei até a porta. Quando abri, dei de cara com Kim. Estranhamente, a cara dela era a surpresa. Será que ela sabia que eu não morava ali mais?
— Oi — eu falei, estranhando-a.
Kim deu um jeito de disfarçar a surpresa.
, olá — respondeu.
— Como vai? Aconteceu alguma coisa? Eu estou de saída... — queria me livrar dela. Eu não estava a fim de papo – com Kim, muito menos.
— Oh, , eu soube o que aconteceu. Ouvi sobre a discussão. Você foi embora?
Acho que empalideci.
Como ela sabia? não podia... Não, não mesmo.
— Ahn? — Tentei desconversar.
— Eu vi há uns dias e perguntei de você. Ele disse que você tinha feito outra escolha. Foi vago, mas eu entendi. Sabe, ? Eu não te culpo...
O tom dela me deu nojo. Soava meio superior.
— Eu sei da sua história, sei que você não cresceu aqui e, muito menos, achou que ia passar por essa loucura que são os compromissos de trabalho do presidente de uma multinacional. — Ela continuou.
Por algum motivo, meu sangue ferveu.
— Infelizmente, — Kim não parava de falar. — eu sempre achei que você não se adaptaria. Mas até que durou muito. Eu não sei se você arrumou outro ou não, mas eu sei que, caso sim, espero que seja alguém a quem você se adapte. Não do trabalho, aquilo lá é um colégio caro, você só vai achar mais do mesmo, para pior...
Ela não terminou porque a minha mão aberta acertou seu rosto. Eu senti minha mão coçar, a bofetada fez barulho. E tudo dentro de mim voltou para o lugar. Tudo o que Kim bagunçou.
— Eu não preciso procurar ninguém. Eu achei. E você deveria saber disso, porque não pode ter. Agora, se puder pegar sua cara de pau e dar o fora, eu agradeceria — falei. — Eu não gosto de bater nas pessoas, acredite se quiser.


Capítulo Quarenta e Quatro
Se me pedir para ir embora
Começo a fazer as malas agora
Se me pedir para ficar
Apenas feche a porta, feche a porta.

Hoy Camino – Vanesa Martin


chegaria na quinta-feira. E eu não era capaz de dizer se os dias entre domingo e a dita cuja se arrastaram ou passaram mais depressa do que eu esperava. Foi uma confusão louca, uma mistura louca. Mas, inacreditavelmente, era o que me deixara de pé por todo esse tempo.
Na segunda, no St. Francis, senti um pouco de medo. Medo de um cochicho, de uma bronca da Crayg e — acima de toda e qualquer coisa — medo de Clay. Não que eu pensasse que ele era um maluco depravado como Joshua. Não. Mas eu tinha medo de olhá-lo, vergonha — e raiva também. Ao menos, eu estava aliviada em saber — graças à — que ele não havia feito queixa na delegacia, já que minha amiga tivera cara de pau o suficiente para ir perguntar a se Clay havia feito algo do tipo. “Não, ele não fez”, foram as suas palavras. Como uma adolescente apaixonada pelo garoto popular do colégio, eu fiquei feito uma pata boba, esperando que ele dissesse o meu nome, mas simplesmente perguntou à se havia algo mais em que ele pudesse ajudá-la. Ela quase mordeu a língua na vontade de perguntá-lo se sentia minha falta. Mas, de repente, sua coragem não foi tão grande — o que me soou como um alívio. Afinal, eu tinha medo da resposta.
Dei as três primeiras aulas que eu deveria e tive um intervalo de vinte minutos até a quarta aula, a aula na turma de Olly. A aula antes do almoço. Corri para a cafeteria do St. Francis e comprei uma caneca de chá. Evitei a sala dos professores, não queria dar de cara com Clay, mas tinha a sensação de que era necessário.
Bebi o chá às pressas, quase queimando o céu da boca e corri para a turma de Olly. Faltava pouco mais de um mês até a formatura, portanto tinha apenas uma semana antes de começar a aplicar as provas finais.
A ruiva sorriu para mim quando me viu, seguida dos amigos.
— Bem-vinda de volta — ela disse, animada.
— Muito obrigada, Srta. Petroni — respondi formalmente, por mais que, mesmo brincando, quisesse chamá-la de “Cabelo de Fogo”. — Sinto muito pela minha ausência, mas minha família precisou de mim — menti. — Agora, vocês precisam de mim e da revisão para que todos nós tenhamos um ótimo final de vida escolar, não é mesmo? Bem... Vocês tenham. A minha já acabou há mais de anos!
Todos riram.

, eu preciso falar com você.
A voz de Clay surgiu diante de mim na hora do almoço de quinta-feira.
O fato de eu não ter tido tempo de ter qualquer outro assunto com ele que não fosse a formatura havia ma amortecido nos dias anteriores. Meu estômago apertou, e eu quis mandá-lo para longe, mas não pude. Apenas ergui os olhos e o encarei, não dei uma palavra sequer.
— Eu sinto muito pelo que houve. Eu tenho a impressão de que fiz algo muito errado — ele continuou, puxou uma cadeira e sentou-se à mesma mesa que eu, de frente para mim.
— Eu tenho certeza — respondi um pouco ríspida demais. — Mas espero conseguir consertar minha vida — suspirei, meio entediada.
, eu estou pedindo um milhão de desculpas — insistiu.
— Não quero ser grosseira, Clay, mas suas desculpas... Dane-se! — Resmunguei. Por causa do ambiente, falávamos baixo. — Eu vou resolver a minha vida e espero que saiba que você e eu, bem, nós trabalhamos juntos. Só isso. Você é o professor de matemática, só isso. Sinto muito se você queria que eu visse de outra maneira. Não vejo. Nem vou ver.
— Eu entendo, — soou tão sincero que minha grosseria inicial me fez sentir vergonha de mim mesma. — Eu não sei como ficaram as coisas entre o seu marido e você...
— Quebradas — interrompi. — Mas já disse: eu vou resolver isso. Não é um terreno para você pisar. Clay, — usei o tom mais suave que eu tinha — vá atrás de alguém que possa te dar o que você quer. Eu não sirvo para isso. Sou um barco furado, um frasco fechado... Não há nada que me faça trocar a vida que tenho levado há anos, sentimentalmente falando. Você é um grande amigo para mim, desde o princípio, porque é o mais próximo de mim de todas as pessoas com quem já trabalhei nessa vida. Somos parecidos. Mas não passamos disso: dois lutadores que se compreendem. Eu não sou mulher para você, Clay. Principalmente, porque eu não quero que seja um homem para mim. Entende isso?
Ele assentiu, mas não proferiu nenhuma palavra.
— Com licença, eu preciso procurar a Olímpia.
Levantei-me, deixando Clay ali, cheia de esperança de que tivesse feito a verdade entrar na mente teimosa dele.
Olly estava com Ethan, escondida nos fundos do colégio, debaixo de uma árvore, com um pirulito na boca.
— Sra. Jonas — Ethan se levantou, surpreso, assim que eu cheguei.
— Calma — eu ri. — Sou apenas a madrasta da Olly agora, tudo bem?
Olly bateu a saia, jogando os farelos de batatinha no chão.
— O que houve, ? — Perguntou.
— À que horas o seu pai chega de São Paulo?
— Hm — ela torceu a boca exatamente como fazia. — Às cinco, por quê?
— Ethan, eu vou roubar a Olly por meio segundo, venha cá, made in Italy — falei, puxando minha enteada pelo pulso.
— Sem problemas. Vai lá, made in Italy — ele riu, dando as costas para nós e, provavelmente, acendendo um cigarro.
Eu não devia ter dito que estava lá só como a madrasta de Olly.
— À que horas? — Repeti.
— Às 17h — Olly explicou. — Falando nisso, preciso pegar minhas coisas que ficaram com o . E tenho que estudar História com a Sky. Ai, merda! — Reclamou.
— Diga ao que vai dormir lá mais uma noite. Ou durma na Sky.
Olly deu um sorriso tão maldoso que senti vergonha. Acho que fiquei vermelha.
— O que você pretende? — Sugeriu.
Falar — enfatizei. — Já se passou tempo o bastante. Por alguma razão, acho que agora, vou ser ouvida e resolver tudo.
— Boa sorte — ela me abraçou apertado. — Vá assim que sua aula acabar, do colégio para casa é longe.
— Pode deixar, mas não esqueça que do aeroporto ao prédio também é.
— Ora, , eu sei — ela riu. — Mas o importante é chegar antes do , é como uma quase garantia de que ele poderá ouvir você e tudo vai voltar para o lugar de onde nunca devia ter saído.
não, por favor — relembrei. — Mas, de qualquer jeito, obrigada. Eu vou pegar a minha bolsa e ir para casa agora. Digo qualquer coisa à Crayg. Eu tenho uma vida para salvar — comecei a andar.
— A sua vida para salvar — Olímpia corrigiu.
Continuei andando, eu tinha só a carteira nas mãos. Atravessei a porta, por entre alguns alunos para os quais eu não lecionava e os cumprimentei. Depois, simplesmente, subi as escadas até a sala dos professores. Clay estava lá, ao fundo, jogando conversa fora com outro professor qualquer. Ele me viu, mas não expressou nada, continuou falando com o homem como se eu nem estivesse ali — teria sido tudo diferente se ele tivesse se portado desse modo desde que pôs os pés no St. Francis. Girei o trinque do armário, acertando a combinação, e peguei minha bolsa. Joguei a carteira dentro dela e bati a porta do locker de ferro azul.
Quando passei na diretoria, deixei uma pasta com trabalhos corrigidos para serem entregues, uma folha com páginas de exercícios para serem feitos e disse que teria de sair mais cedo porque tinha dentista. Crayg torceu a cara, mas disse que minha saúde bucal era essencial, já que isso implicava na minha aparência física e o St. Francis era reconhecido tanto nos EUA quanto no Canadá. Ignorei sua crise de superioridade e saí apressada em direção à estação de metrô. Tudo o que eu não precisava era o trânsito caótico que começava a se criar naquele horário mais os taxistas trocando de turno.
Eu estava bastante adiantada — mal seriam três da tarde —, mas eu sabia que não conseguiria me concentrar nas aulas que teria de lecionar. A minha vida inteira estava em jogo. A chance de me explicar e ouvir algo que eu queria muito: um pedido de desculpas.
Procurei não pensar nisso por dias, mas era inevitável. Eu ainda tinha as palavras rancorosas, frias e raivosas de ecoando dentro da minha cabeça como uma música ruim. No vagão de trem, evitei prestar atenção nas pessoas ao meu redor, não queria me distrair, não queria perder a estação perto de casa. Minha casa.
O meu lugar era lá. Eu precisava ficar. Definitivamente.

Ouvi um ruído na porta. O barulho típico de uma chave sendo posta na fechadura. Eu fiz questão de trancar a porta assim que entrara, quase duas horas e meia antes, e, depois, fiquei zanzando pela casa na falta do que fazer, pensando no que ia dizer.
Ouvi os passos, ouvi as chaves sendo largadas na mesinha. E só tive coragem de sair do dormitório quando ouvi: “De onde saiu essa bolsa?”. Por mais que eu já tivesse me dado conta antes, a frase fez a ficha cair. havia chegado.
Era agora ou nunca.
Tímida, mas decididamente, eu caminhei. Minhas mãos repousadas nas minhas pernas, as unhas arrastando pelos jeans. Deus, eu não ficava nervosa assim há séculos! Quando apareci no final do corredor que separava os quartos do resto do apartamento, não consegui dizer uma palavra. Apenas olhei para ele.
não disse nada, simplesmente largou a bagagem de mão que carregava num dos sofás e andou.
Instintivamente, um sorriso atrapalhado quis se formar na minha cara — fosse o que fosse, eu estava maravilhada por vê-lo.
Foram só alguns passos, quatro no máximo; mas foram esses alguns passos que o trouxeram para perto de mim. Como se fosse a primeira vez, aquela vez no passado, quando ele sugeriu que deveríamos tentar ter um relacionamento, meu coração subiu na garganta. Seus olhos sobre mim me levaram com tanta intensidade ao passado que quase levei a mão à cabeça, procurando aquele boné velho e surrado que eu usava quando trabalhava na Lilac.
— Escute, nós... — tentei dizer, já que ninguém dava um piu. Minha voz era um fiapo.
— Shhh — foi tudo o que eu tive em resposta. E então, seus braços me envolveram, me tomaram pela cintura e eu pus meus olhos fixados nos de . Aquele castanho que me deixava tonta. Aquele castanho brincalhão e perfeito.
Prendi meus braços ao redor do seu pescoço e ergui um pouco o queixo, esperando que ele me beijasse. Antes que eu pensasse em fechar os olhos, seus lábios estavam apertados contra os meus. Eu cedi. Nós cedemos. E era bom. Era maravilhoso.

Fechei os olhos e os abri de novo, fitando o tecido alaranjado da minha blusa que mais parecia um borrão de tinta no chão do dormitório. De bruços e sozinha na cama, eu rolei preguiçosamente. Parecia um sonho, mas, se eu entendera bem, as coisas estavam praticamente resolvidas, tirando o detalhe de que e eu ainda não havíamos conversado. Pela janela, vi que já era noite alta lá fora, mas não procurei o relógio. Eu não fazia ideia de quanto tempo ficara naquele quarto — ou por quanto tempo dormi –, não sabia de nada. Só me lembrava do que acontecera e de dizendo que ia tomar banho, comprar comida e já voltava — e então, dormi. Eu não dormia bem havia dias e, ali, vendo as coisas indo para o lugar delas, me senti descansada.
Esfreguei os olhos e contei até três, tomando coragem para pular da cama — mesmo tendo a sensação que não tardaria em voltar para ela. Catei minhas roupas no chão, encontrei roupa íntima na gaveta de sempre do closet e corri para o banheiro. Uma chuveirada deveria me manter acordada. E meu cérebro insistia em lembrar meu coração de que ainda havia uma conversa para ser posta em dia.
Saí do banheiro secando o cabelo com a toalha. No mesmo instante, a porta da sala bateu.
, estou de volta! — gritou.
— Aqui! — Respondi, atirando a toalha no cesto de roupa suja do banheiro.
Não muito depois, apareceu à porta do quarto. Já não vestia os mesmos jeans com camisa num tom claro, mas sim, calça de abrigo e uma camiseta qualquer, com a estampa desbotada.
— Eu comprei comida indiana — contou.
— Hm, obrigada, eu acho — falei, fitando minhas mãos por meio segundo.
O telefone tocou na sala.
— Eu tenho que atender, só um minuto — pediu, saindo do meu campo de visão antes que eu respondesse.
Dei de ombros e andei para a sala.
De repente, toda a euforia inicial foi caindo por terra — eu não me esquecia, de modo algum, do fato de que tínhamos que conversar.
—... Isso é uma ótima notícia — disse animado ao telefone. — E que bom que ele não vai demorar.
Quando se virou, ele me viu.
Sorri fraco e apontou para as sacolas.
O cheiro que vinha delas era muito bom.
— Preciso desligar. Obrigado por avisar — pausou. — Foi uma ótima viagem, financeiramente falando. Até breve.
O telefone sem fio voltou para o suporte.
— Era o Oliver — ele me explicou. — Desculpe.
— Não tem problema, de verdade — assenti.
se aproximou de mim de novo e me abraçou.
Coloquei as palmas das minhas mãos contra seus ombros.
— Hey, que foi? — ele perguntou, docemente.
— Nós ainda temos que conversar. Eu preciso explicar o que houve aquele dia. Você tem que me ouvir — falei tudo de uma vez.
— Mas, , depois de hoje — empurrou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. — Você veio me procurar, mesmo depois das coisas que falei, do modo cego como me portei. Poucas pessoas fariam isso. Você não tem nada para dizer. Mas eu sim, eu preciso que me perdoe pelo modo como tratei você, pelas coisas horríveis que eu disse. Aquilo foi um susto para mim...
Ouvi-lo me deixou aliviada. Mais do que isso, me fez dar um sorriso enorme. Daquela vez, eu o beijei — rapidamente.
— Amo você — eu disse.
— Amo você também — respondeu-me. — Mas, se tem algo que precise realmente me dizer, diga.
— Eu ainda tenho certo tempo pela frente dando aula no St. Francis, ainda organizo a formatura com os alunos e com Clay. Vai poder lidar com isso?
Houve silêncio.
Só me faltava essa: dizer que não podia.
Um bipe alto e demorado ecoou pela sala. Reconheci como o sinal de SMS do meu celular.
— Garanto que é a querendo saber como ficaram as coisas — riu, esticando a mão até a minha bolsa, já ele que estava mais perto dela. Ele pegou meu telefone. — Olha, ainda há uma foto de família no plano de fundo — falou, referindo-se ao plano de fundo: éramos eu, ele, mamãe e Maison no último aniversário dela, dezembro passado.
Ouvi o som típico de quando o teclado era desbloqueado. Com certeza, era , curiosa como de costume. Quando fez uma cara intrigada, eu estranhei: se não era minha melhor amiga, quem poderia ser?
Silêncio de novo. Mas pude ver pelos olhos dele que lia o SMS. E eu não sabia se a mensagem era longa ou se ele estava lendo de novo. Tentei puxar seu braço e trazer o telefone para mim, mas o homem parecia congelado e a diferença de altura ajudava.
Que droga estava acontecendo?
— É a ou não? — Perguntei sem saber o que viria depois.
Mantive meus olhos em , que começou a ler em voz alta:
— “Hoje foi tudo o que eu precisava. E entendo que não haja espaço para mim. Sinto muito ter causado qualquer adversidade. Espero que possamos ainda ser amigos, mas vou entender caso não. Clay”. — A expressão de continuou a mesma de quando ele pegou o aparelho celular.
Eu gelei. E me arrependi instantaneamente de não ter ouvido qualquer coisa que Clay poderia ter desejado dizer mais cedo. Agora, nada impedia aquele SMS de soar como não deveria.
Imediatamente, saltei na defensiva. Na minha defensiva.
— Eu não sei o porquê desse SMS. Bem, eu sei. Mas ele soa muito contrário ao que realmente é — me embolei nas minhas próprias palavras, apavorada.
— Não quero uma explicação — apesar da resposta, o tom de não era bom. Suspirei. — Tome o seu telefone — continuou, dando o aparelho na minha mão.
Seu olhar era frio e, mesmo direcionado a mim, parecia realmente distante.
— Você faz ideia do quanto as palavras soam duvidosas? — questionou, mas continuou falando. Não houve tempo para uma resposta minha. — Você me diz que soa contrário ao que é e, bem, meu inconsciente vê como soa cada palavra dessa mensagem de texto. E eu tenho a obrigação de acreditar em você depois de tudo o que houve hoje, depois de você ter vindo até aqui.
Eu quis abrir a boca para falar, mas não o fiz. As palavras de iam me deixando confusa rapidamente.
— Só que eu simplesmente não posso me impedir de pensar que ele e você possam ter tido alguma coisa enquanto eu estive fora...
— Não recomece, por favor — implorei.
— É aí que está o problema, . Deixá-la aqui, lidar com o fato de que você não se sente confortável com isso e saber que tem um cara, no mínimo, atraído por você... É muito para mim. É muito para como eu me sinto.
— Desculpe, mas eu não entendo — falei.
suspirou, os dedos escorregaram pelo cabelo castanho. Eu observei cada movimento, apreensiva. Dei dois passos para trás, quase caindo quando me deparei com a ponta do tapete.
— É difícil de dizer, mas agora vejo que é o necessário — ele disse. Houve outro suspiro. E de distantes, seus olhos se tornaram uma névoa fixa em mim. Fixa de um modo que me deixou apreensiva.
Abracei meu próprio corpo por um segundo, meio assustada.
— Pense em tudo que já vivemos, — seu tom foi baixo, quase cantarolado, mas havia um peso tão grande acompanhando-o... — Pense nos dias em que nos víamos nos horários de almoço, os sábados, a vida depois que nos casamos... Pense em tudo isso.
— Foi a época mais feliz da minha vida. Você é a parte mais feliz da minha vida — enfatizei.
— Até mesmo quando deixo você aqui?
Um nó subiu e desceu na minha garganta.
— Você não precisa se transformar numa espécie de super-herói — eu esperava que minha resposta tivesse sido rápida o bastante. — Somos gente real, , não personagens de comercial de margarina! Não vamos ser perfeitos, vamos tropeçar. Mas, ainda assim, alguém vai dar a mão para o outro e iremos levantar. — Dei dois passos para frente e segurei seu rosto com as duas mãos. — Você pode ir parar na Finlândia, pode haver seiscentos caras como Clay ao meu redor, mas, no fim do dia, eu ainda vou querer você.
— É difícil — delicadamente, tirou minhas mãos do seu rosto. — Eu não consigo. Não quero ter que matar um leão diferente a cada volta. Não quero sair daqui desconfiado, não quero brigar com você... Mas do jeito que tudo tem andado... Deus, parece impossível!
Sua respiração foi pesada e ele andou alguns passos.
Permaneci exatamente onde estava.
— Da última vez, foi um beijo roubado. Agora, uma mensagem de texto. Sabe o quanto eu estou me segurando para não explodir? — Perguntou.
Ali, eu tive a dimensão do quão ciumento e inseguro poderia ser. Completamente estranho para o homem incrível e protetor que ele se mostrara por todos esses anos.
— Você mesmo disse que sabe que as coisas não são o que parecem. Você me aceitou aqui, nós dormimos juntos... Não pode brigar por algo que, lá no fundo, você sabe que não existe — argumentei.
Por um longo tempo, não houve resposta. Nós apenas nos olhamos.
— Eu sei — respondeu. — Mas, hoje ou não sei quando, esse tipo de coisa poderá acontecer de novo. Eu ainda vou precisar me afastar daqui algumas vezes... E vou com a sensação de que irei chegar e ser surpreendido. Qualquer coisa mínima vai parecer o iceberg do Titanic — tomou ar, falava muito depressa. — Isso vai nos destruir aos poucos, igual a um veneno em pequenas doses. O primeiro mal estar já aconteceu e, internamente, estou lutando contra um segundo. Até onde iremos? Até o momento em que eu fique tão cego e te diga coisas que você não merece e jamais merecerá ouvir? Daí, então, vamos terminar odiando um ao outro ou nós dois a mim?
— Aonde você quer chegar? — de repente, meu corpo doía. Doía de medo.
— Não posso deixar a nossa vida juntos terminar desse modo — eu tive a impressão de que sua voz estava embargada, mas não pude ter certeza.
— Pelo amor de Deus, aonde você quer chegar? Será que pode ser claro? Estou zonza, confusa... — sem querer, meu tom soou mais severo do que eu gostaria.
— Estamos a um passo de outra discussão severa — sua resposta soou alheia a tudo.
— Porque você não diz o que quer dizer. — Afirmei.
Senti vontade de me mexer. De andar pelo cômodo, mas não mexi um músculo.
— É difícil dizer isso.
Ali, eu congelei.
— Você não está pensando em... — não terminei. A simples ideia me dava calafrios.
— Talvez não possamos mais ficar juntos — completou, me desmoronando completamente. — Talvez, não. Nós não podemos. Não desse jeito, não nessa bagunça, não comigo agindo como um adolescente inexperiente, não com você tendo de ouvir as coisas estúpidas que eu falo quando discutimos feio.
— Dê um jeito em si mesmo! — Ordenei, suplicante. — Não vire a página. Não somos dois namorados, nós nos casamos. Nós estávamos bem até meia-hora atrás!
deu outro suspiro.
— Considere como uma despedida — falou. — Estamos saindo do ritmo e, depois de tudo o que a gente viveu, não posso deixar que as coisas ruins se sobressaiam sobre as boas. Não quero que me odeie diante de um juiz ou pense que jogou sua juventude fora ao meu lado. Esse é o momento, . Depois que a dor for embora, ainda vai restar a lembrança de que fomos felizes.
Eu não podia acreditar no que estava escutando. Não podia ser sério. Era piada. Uma onda de raiva, misturada com melancolia, me invadiu. Meu corpo todo tremeu internamente, eu pude sentir. As lágrimas se prepararam para escapar dos meus olhos, mas, com uma força absurda, eu as segurei.
— Está se escutando? — Consegui perguntar. Soou mais firme do que eu imaginei que soaria.
— Infelizmente, sim.
Era só isso o que ele tinha para dizer? Que se ouvia? Decepcionante.
— Quer o caminho mais fácil ao invés de aprender a lidar consigo mesmo... Tudo bem — apertando os lábios, eu assenti. — Se termina aqui, termina aqui. Não espere que eu me torne sua amiguinha, nem ouse se lembrar de que eu existo. Porque é exatamente assim que eu vou fazer. — Peguei minha bolsa no móvel bem ao lado de . — Quer que eu carregue as lembranças boas?
...
— Vou levar todas, menos o dia de hoje. Porque o que houve ali — apontei para a porta do quarto —, agora soa como uma mentira. Virei buscar minhas coisas antes da sua mudança e quando você não estiver. Agora, eu preciso ir embora ou se torna mais perigoso do que já é — comecei a andar para a porta. — Passar bem — de costas para , enxuguei uma lágrima pesada e teimosa.
— Eu amo você, .
Instintivamente, eu me virei.
— E de que isso adianta?
— Só quero que se lembre — respondeu.
Não disse nada. Dei as costas de novo e abri a porta, batendo-a logo depois de sair.
Fim da linha. Tudo era pesado demais agora.
Talvez, e eu tenhamos passado tempo demais dentro de uma bolha e a realidade era demais para nós. Deixou-nos tão doentes a ponto de fazermos mal a nós mesmos. Ele, por tanto medo de me perder, me fazia mal, mas terminava me mandando embora para não me machucar mais. Eu, porque insistira em procurá-lo quando deveria tê-lo deixado com suas próprias teorias do que era bom ou não quando se dividia a vida com outra pessoa.
Agora, realmente havia caído a ficha de que era o fim da linha. De que os dias em que esperei para reencontrá-lo e tudo o que houvera até eu acordar, um pouco antes, foi um desperdício. Eu havia nadado, nadado e nadado. Mas morri na praia. Eu, literalmente, morri na praia.


Capítulo Quarenta e Cinco
E eu nunca serei como eu era
O dia que eu conheci você
Muito ingênua, sim, eu era,
Rapaz, por isso que eu te deixei entrar,
Use sua memória como uma mancha
Não é possível eliminar ou amenizar a dor
Ficará comigo para sempre.

Ghost Of You — Selena Gomez & The Scene


Nas seis semanas que se seguiram, pedi abrigo na casa de — só para não perder o costume. Eu fiz o máximo de esforço para não me lembrar do que acontecera na última vez em que e eu nos vimos. Se ele queria uma página virada, bem, haveria uma página virada.
No colégio, ao contrário do que eu esperava, não senti nada quando dei de cara com Clay. Simplesmente nos cumprimentamos e ele nem mesmo perguntou sobre o SMS. Se ele tivesse perguntado, não faço a mínima ideia de como eu reagiria. Olly tentou fazer perguntas, mas eu evitei respondê-las — e, em muitos casos, ouvi-las —, apenas tratei com ela o que tivesse relação com o baile de formatura.
Numa conversa com , mais ou menos uma semana depois do ocorrido, ela me disse que, talvez, o chefe tivesse razão: era preferível parar antes que tudo se tornasse maior; as feridas se tornassem maiores. Eu me sentia deslocada, verdade, mas enfiei a cabeça no trabalho, como sempre fui acostumada a fazer. E os dias foram passando. Mais do que isso, os dias foram escorregando pelos meus dedos.
Olhei-me no espelho, fazia um bom tempo desde a última vez em que me maquiei e pus um vestido. Agora, tive que fazê-lo, afinal, junto com Clay, eu entregaria os diplomas na formatura.
— Você está linda, ! — A voz animada de veio acompanhada de seu reflexo atrás de mim no espelho de corpo inteiro. Ela também iria à formatura, havia sido convidada por , que havia sido convidado por Olly.
— Obrigada, você também — eu sorri.
Para mim, sempre ficava linda com qualquer coisa que vestisse.
— Você vai de carona comigo e com ? — Perguntou, saindo de trás de mim e andando até o banheiro. Fechou a janela do cômodo.
— Não. Eu preciso chegar mais cedo — expliquei. — Vou pegar um táxi porque estou quase me atrasando — ri, saindo da frente do espelho e pegando a pequena bolsa em cima da cama. — De metrô seria mais rápido, mas eu não vou conseguir descer toda aquela escadaria de salto alto.
A gargalhada de ecoou no pequeno apartamento.
— A gente se vê no St. Francis — falei, despedindo-me.
— Certo — voltava ao quarto.
Para minha sorte, consegui um táxi assim que cheguei à calçada da lavanderia. Subi no veículo e pedi ao homem que fosse o mais depressa possível para o St. Francis. Algo me dizia que Crayg iria me matar por causa do atraso, mas, como eu havia passado mal durante o almoço, resolvi tirar um cochilo.
Assim que pus os pés em frente à entrada do estacionamento do St. Francis, rumei para o pátio, onde a entrega dos diplomas aconteceria. Quando cheguei, Clay e os alunos responsáveis pela organização estavam lá, terminando de testar o som dos microfones.
— Eu me atrasei, me desculpem! — Pedi.
— Não tem problema, — Olly respondeu.
— Crayg esteve aqui agora pouco. Eu disse a ela que você pegou trânsito, mas que estava a caminho — Clay contou.
Suspirei, aliviada.
— Muito obrigada! — Eu disse honestamente.
Mas eu iria me livrar de Crayg assim que a formatura terminasse. Definitivamente.
— Ficou lindo, não acham? — Sky suspirou, naquele jeito doce de sempre. O cabelo liso e preto estava solto e parecia mais brilhante do que nunca.
— Sim, ficou ótimo — respondi.
— Você precisa ver o ginásio que Ethan e eu arrumamos — a ruiva me puxou pelo pulso, quase que me arrastando até o lugar.
— Calma, Olly, calma — eu ri, seguindo-a.
Dei de cara com um ginásio lindo. Havia mesas decoradas com renda e pequenas velas, assim como um globo dourado na pista de dança. Havia outro palco que, apesar de já ter toda a aparelhagem do DJ, também tinha um microfone num pedestal. Tudo estava tão bonito!
— Está lindo! Uau! Fizeram tudo isso ontem? — Perguntei, passando as mãos pelas paredes, onde havia várias fotos de várias situações. Inclusive, dos preparativos.
— Sim, ontem à noite — Olly explicou, animada. — Estou ansiosa, . Muito ansiosa!
— Eu estou vendo — ri, observando a ruiva num vestido preto. — Eu não tive um baile, então... Peço a você para aproveitar o seu por mim.
...
Seu tom foi cuidadoso. Senti medo. Eu sabia que uma pergunta viria. Era a cara da Olly.
— Pergunte logo, Cabelo de Fogo — não resisti. — Não dê voltas.
— Hey! — Ela deu uma careta.
Tive que rir.
— Não começa, Consuelo! — Deveria soar cruel, mas Olly riu.
Eu nunca pensei que teria uma enteada. Quando conheci Olly, nunca pensei que poderia me dar bem com ela. Agora, eu via que estava completamente errada. Em algum momento, por alguma razão, ela se esforçou e acabou ganhando um pedacinho de mim.
— Você e o meu pai, não... Não tem mais volta? — Olly ficou sem jeito, mas perguntou.
Respirei fundo. Corri os olhos pelo ginásio, esforçando-me para achar uma resposta que, além de convencer Olly, convencesse a mim mesma.
— Não, Olly. As razões que ele me deu são claras e, querendo ou não, decidi que vou respeitar isso. Agora, — mordi o lábio — vamos voltar para lá porque, daqui a pouco, os outros estarão aí. Cadê o Ethan, falando nisso?
Olly e eu continuamos conversando sobre a formatura enquanto voltávamos para o pátio principal. Ela estava tão animada que não fez mais nenhuma pergunta, simplesmente me disse que jamais imaginou que teria uma formatura como as de filme.
— O que você fez foi muito legal — falei quando estávamos quase chegando.
— O que foi que eu fiz? — Olly riu.
Já avistávamos as cadeiras de novo.
— Dar a viagem de presente para a Sky. Eu não tive tempo de falar com você sobre isso. Foi a quem me contou.
Olly sorriu de um jeito doce.
— Sky é a minha melhor amiga aqui. Achei que deveria retribuir já que, de todos nós, ela era a única que não ia poder pagar a viagem. E se fôssemos só Ethan, Jimmy e eu, sei que Jimmy não ia gostar de segurar vela.
Eu ri.
— Espero que façam uma boa viagem — desejei.
— Obrigada, mas acho que nos vemos antes de eu ir — Olly supôs.
Bem, talvez nos víssemos.
Instintivamente, acho eu, Olly me deu um abraço apertado.
— Sinto muito por qualquer problema que eu possa ter causado, alguns meses atrás — pediu.
— Para com isso, Olly, já passou — eu sorri, retribuindo o abraço dela. Situações como essa, geralmente, pareciam surreais. Mas, naquela hora, foi totalmente normal. Talvez Olly e eu tivéssemos nos tornado amigas. Talvez eu fosse a irmã mais velha que ela não teve e ela, bem, ficava cada vez mais claro que ela se parecia comigo no último ano do colégio e no tempo que ficou até eu me casar. Não que eu tenha me perdido de mim mesma com os anos, jamais! Eu apenas havia conseguido aprender a crescer em todos os sentidos, não apenas como a filha que levava dinheiro para casa no final do mês. Só agora eu via isso, ali, naquele abraço com Olly.
Por muito tempo, perguntei-me se eu estava perdida, tentando ser o tipo de pessoa que aquela fase da minha vida pedia. Agora, eu me dava conta de que não era assim. Eu sempre fui a mesma pessoa, apenas amadureci um pouquinho, porque, lá no fundo, eu ainda era a mesma desbocada, entre outros detalhes mais que preferia não me lembrar, que saiu apressada da cafeteria e teve a vida mudada completamente depois de um esbarrão.

Os alunos se colocaram nas cadeiras da frente. Crayg, sua assistente, Clay e eu ficamos à esquerda do palco, esperando que todos os pais chegassem. Estranhei o fato de estar atrasado — geralmente, ele era extremamente responsável com seus compromissos. Olhei para Olly, que acabara de levantar-se e procurar atrás de si, mas a mesma balançou a cabeça negativamente. Assim que a ruiva se sentou, apareceu. Como ainda havia sol, ele usava sua roupa formal de sempre, mas sem gravata. Os botões da gola estavam abertos, assim como os dois primeiros da camisa.
Estava lindo.
Discretamente, apontei para ele com um aceno de cabeça, avisando à Olly que o pai havia chegado. Rapidamente, a ruiva se levantou, fazendo sua beca vermelha dançar no ar. Segurou uma das pontas do chapéu, virando-se. acenou e, segundos depois, Kim apareceu ao seu lado.
Acho que fiquei branca.
O que diabos ela fazia lá? Por que a trouxera com ele?


Capítulo Quarenta e Seis
Eu vou endurecer meu coração
Eu vou engolir minhas lágrimas
Eu vou dar as costas... E... Deixar você aqui.

Harden My Heart (Rock of Ages Version) – Julianne Rough & Mary J. Blige


me deu um abraço apertado, e eu segurei a vontade de chorar. Era incrível como ele e tinham um espaço especial dentro do meu coração. Nós estávamos no restaurante de , que seria inaugurado no sábado seguinte. Haviam se passado quase dez dias desde a formatura, e eu aproveitei para pedir demissão do St. Francis.
Em silêncio, ainda naquele abraço apertado, rezei baixinho para que fosse com ele me visitar em Nova Jersey.
— Vai mesmo embora, ? — perguntou assim que nós nos soltamos.
— Não há mais nada para eu fazer aqui, — respondi, enxugando uma lágrima fugitiva.
Eu era uma chorona de merda!
— Se é por causa do seu casamento com o , olha, eu acho que vocês ainda têm...
Interrompi-o:
— Mais do que página virada, , o livro foi fechado — enfatizei.
Desde o rompimento, não houve um telefonema, não houve nenhuma indireta através de ... Nada. E Kim na formatura ainda era um enigma na minha cabeça. Vai ver, estava seguindo em frente. Portanto, eu devia fazer isso também — mas em Jersey.
não disse nada. Deu de ombros.
— Vou morrer de saudade sua — me abraçou, quase esmagando os meus ombros. Não me importei, tentei abraçá-la com a mesma intensidade. Nós nunca havíamos nos separado antes.
— Não seja por isso. Ligue para mim, mande e-mails quando o trabalho estiver um tédio... Pegue o e vá me visitar — respondi, forçando uma risadinha. Olhei para . — Isso vale para você também — apontei. — Acho que a vai gostar de conhecer uma pequena cidade americana.
deu um sorriso sincero.
— Vou adorar — ela disse.
Soltei-me do abraço de sem a mínima vontade de fazê-lo. Era a minha melhor amiga, quem havia me dado “exílio” em sua casa há mais de um mês.
Foi a vez do abraço de . Quase que como uma criança, corri para ele. Seus braços me envolveram, e eu segurei seus ombros com força. Ninguém nunca me entendera tão bem quanto ele, ninguém nunca me ouvira e me ajudara tanto. A palavra amigo podia ser levada ao pé da letra ali.
— Ainda acho que deve ficar e tentar resolver tudo — ele disse, abraçado a mim.
estava bem à minha frente, mas não havia nada desgostoso em seu rosto, não havia ciúme... Só por isso, por ela entender, desejei mais ainda que os dois fossem felizes juntos. Afinal, tinha feito uma escolha acertada.
— Se você quiser, — continuou — posso falar com o . Ele sempre me escuta, mesmo que por livre e espontânea pressão — riu fraco.
Era verdade. Mas já tinha passado tempo demais. Agora, não havia um mal entendido, como houvera anos antes. Agora, tinha sua opinião formada sobre não ficar ao meu lado. Mudar isso parecia impossível.
— É como falei para o : o livro está fechado — respondi, soltando-me do abraço dele. — Mas... Obrigada, mesmo assim. Obrigada por tudo desde que nos conhecemos e nos tornamos amigos — sorri.
— Eu faria tudo de novo se preciso fosse — me sorriu de volta.
— Foi um prazer conhecer você, — eu disse assim que caminhei para abraçar a garota. — Vá me visitar também — repeti.
— Eu irei, . Foi um prazer conhecê-la também.
Soltamo-nos.
— Bem, eu preciso arrumar um táxi ou não chego a rodoviária a tempo — dei de ombros, tentando parecer feliz. Talvez eu tenha convencido, talvez tenha sido um grande fracasso.
As expressões de todos ali não me deixaram descobrir.
— Se é o que você quer... — suspirou, meio derrotado. — Mas volte, sim? Eu acho que ainda te devo uma revanche no paintball — ele riu.
— Vá à Jersey — respondi. — Quero vencer você e o Maison no videogame.
e riram.
Puxei uma das malas de rodinha, colocando a bolsa no ombro. pegou a outra mala, segurando-a pela alça. Eu já havia despachado algumas caixas dias antes.
— Sua mãe vai estar te esperando na rodoviária? — perguntou enquanto todos nós andávamos para fora, em busca do meu táxi.
— Sim, vou ligar para ela quando estiver perto — expliquei.
O assovio de foi alto. Logo, o táxi amarelo parou.
— Bem, — suspirei — está na hora.
— Ah, me abraçou de novo. — Ligue assim que chegar.
— Pode deixar — garanti.
Vi , e o taxista pondo minhas malas no bagageiro.
— Cuide-se, desejou, tocando o meu ombro.
— Darei notícias — informei, já subindo no táxi.
Cumprimentei ao taxista enquanto fechava a porta do banco de trás. Abri o vidro de minha janela. Acenei enquanto o veículo partia.
Eu estava mesmo voltando para Nova Jersey.
— Aonde devo levá-la, moça? — O taxista barbudo me perguntou.
— Para a rodoviária, por favor — eu respondi, ajeitando-me no banco.

Havia sol quando o ônibus parou na estação rodoviária, já no estado de Nova Jersey. De dentro do ônibus, pude ver mamãe e Maison esperando por mim. Eu havia dormido quase que o trajeto inteiro e bebido apenas água. A comida e eu não éramos as melhores amigas em todas as refeições. Na noite anterior, acabei vomitando durante o jantar. dissera que podia ser por causa da comida mexicana que havíamos comido, já que era apimentada. Durante os dias anteriores a formatura, tudo era uma correria. E, como eu comia mal, quase nada parava no meu estômago.
Eu já havia visto aquela cena antes. Talvez tivesse a ver com meu sistema nervoso e o fim do casamento; afinal de contas, quando meu pai morreu, a maior parte dos alimentos me fazia vomitar.
Entreguei o ticket ao motorista, esperando que ele me desse as minhas malas. Logo, Maison e minha mãe vieram até mim.
, que saudades suas! — Minha mãe me abraçou. — Você está bem?
Eu sabia o que ela queria dizer com aquela pergunta, só que eu não tinha uma resposta. Eu estava confusa. A resposta veio automática:
— Estou sim — falei.
— O que é que você tem nessas malas para pesarem tanto? — Maison brincou, apenas não me abraçou porque tinha todas as minhas malas nas mãos.
— Bom te ver também — ironizei. — Dá uma aqui — estendi a mão, na direção de uma das malas de rodinha.
Acho que era o calor porque fiquei zonza. Minha visão embaçou e, de repente, tudo parecia como várias luzinhas brancas desfocadas e claras demais contra os meus olhos. Pisquei, olhando para o meu irmão. Tudo rodou. Rodou e ficou escuro.

, — uma voz desconhecida me chamou.
Inicialmente, essa voz era baixinha como uma música nos fones de ouvido no meio da madrugada. Depois, foi se tornando mais alta.
Devagar, abri meus olhos. Piscando um pouco contra a claridade que os invadia. Era uma sala com paredes mal pintadas de branco, havia alguns cartazes explicativos e um cara magro, de grandes olhos verdes, me olhava.
— O que foi que aconteceu? — Perguntei. Só ali me dei conta de que eu estava em uma cama de hospital.
Então, forcei minha memória. Eu havia me sentido mal na rodoviária. Agora, com certeza, eu deveria estar na emergência que ficava a duas quadras.
— Você desmaiou, querida — minha mãe explicou. — Então, Maison e eu achamos melhor trazê-la para cá.
— Sua pressão baixou — o cara dos olhos verdes explicou. — Eu sou o Dr. Rivers e fui eu quem atendeu você.
— Hum — dei de ombros. — Eu acho que foi por causa do calor. Já me sinto bem, quero ir para casa — falei, levantando-me e sentando-me na cama. Meus pés descalços quase tocando o chão.
— Calma... — o Dr. Rivers riu. — Eu pedi uma amostra do seu sangue para saber o que você tem. Deve ficar pronto em uma hora.
— Eu já disse que é só uma baixa de pressão — insisti, teimosa. — E eu comi mal hoje. Estou só com um sanduíche de manteiga de amendoim no estômago.
— Isso explica, já que são quase seis da tarde — O médico se afastou de mim, anotando algo em uma espécie de ficha.
Eu não ia há um médico há quase seis meses — e tinha sido à ginecologista, para pedir a receita do anticoncepcional.
O anticoncepcional que eu havia parado de tomar desde que tinha voltado do Havaí.
Foi como um balde de água gelada. Seguido de um balde de água quente. E mais um de água gelada.
Eu não tomava os remédios há muito tempo. e eu havíamos dormido juntos e minha menstruação estava atrasada. Eu não estava enjoada por causa do meu estado emocional, muito menos porque a comida mexicana não havia caído bem. Eu estava enjoada porque estava grávida. E isso explicava eu, praticamente, ter me deitado para conseguir subir os jeans nos quadris. Eu ia ter um filho. Justo agora, justo quando tudo tinha desandado, e eu já estava longe o suficiente de Nova York.
Era muita coisa para uma mulher só.
Meu queixo caiu, e eu levei a mão aos lábios.
Se eu estivesse mesmo grávida — e eu tinha 99% de certeza de que estava —, isso apareceria no exame de sangue que o médico pedira.
, está tudo bem? — Minha mãe perguntou.
— É claro — respondi, me recompondo.
Era melhor não dizer nada. Era mais seguro esperar pelo exame.

Eu fiquei em silêncio o tempo todo e agradeci por minha mãe não ter feito nenhuma pergunta durante o tempo em que ficamos sozinhas no quarto da emergência. Quando o médico voltou, com um papel nas mãos, supus que se tratasse do meu exame.
Ajeitei minha postura, ainda sentada na beirada da cama.
— É o meu exame, doutor? — Perguntei.
O homem assentiu, abrindo o envelope.
Minha mãe olhou para mim, um pouco apreensiva. Depois, correu o olhar para o médico.
— Ela tem o quê? Está anêmica? — Perguntou.
Era muito a cara da minha mãe perguntar se era anemia.
O médico riu.
— Não, Sra. , a sua filha não está anêmica. Está plenamente saudável — respondeu ele, olhando para mim logo depois.
— E então, doutor? — Minha voz soou tímida. Meus olhos sem saber direito para onde olhar. Eu sempre quis ser mãe, mas justo naquela situação era difícil de lidar.
— Você vai ter um bebê, . Seus exames apontaram gravidez — a voz do médico era satisfeita. — Meus parabéns.
— Ai, meu Deus! — Gritei, eufórica.
Tudo bem, não era a situação exata para isso, mas eu ia ser mãe.
Eu ia ter um filho. Um filho.
— Ouviu isso, mãe? Você vai ser avó! — A alegria transbordava pela minha voz. Não havia mais espaço para choque.
Saí de onde estava sentada e caminhei até a minha mãe. Ela me abraçou.
Eu ia ter um bebê. Eu ia. Finalmente.

Jonas’ POV

O restaurante de estava pronto. A poucos passos de ser inaugurado e era fascinante. Ao mesmo tempo em que parecia muito moderno, era completamente aconchegante. Olly estava viajando com os colegas e o namorado, então não quis ficar sozinho em casa. Peguei a carteira, o carro e resolvi ir até lá. Para minha sorte, o trânsito estava de bom humor.
Estacionei no meio-fio e peguei o celular para verificar as horas. estava lá. Eu sabia por que tinha ligado antes de sair. Bati na pequena porta de madeira, na lateral direita do prédio, e meu irmão apareceu em seguida.
Nós nos abraçamos rapidamente.
Quando entrei, prestei atenção na decoração: havia quadros modernos, mas cadeiras clássicas e escuras. apontou para uma das mesas; eu me sentei. Ficamos de frente um para o outro.
— Você quer beber alguma coisa? — Perguntou.
Neguei com a cabeça.
— Está sozinho?
— Uhum — respondeu. — precisava ir para casa porque ia jantar com os pais, e estão atrás de um novo apartamento para ela... Acabei ficando sozinho aqui. É bom — constatou. — Tirar um tempo sozinho.
— Quer que eu vá embora? — Brinquei, fazendo com que risse.
— Claro que não, cara — negou, divertido. — Na verdade, eu quero mesmo falar com você.
Tamborilei os dedos na mesa. Que diabos ele queria comigo?
— Eu não sei cozinhar — adiantei.
sacudiu a cabeça.
— Por que foi com a Kim na formatura da Olly?
Às vezes, eu me esquecia de que sabia mesmo como ir direto ao ponto.
Para aquela pergunta, bem, nem eu mesmo tinha uma resposta sensata. Acho que não tinha resposta nenhuma.
— Foi por causa da ? — disparou.
Droga! Eu não sabia! Talvez, tivesse sido.
Respirei fundo, procurando uma maneira de explicar. Acho que foi uma tentativa falha.
— Não sei. Eu simplesmente a convidei de manhã. Não queria ir sozinho. Não tem a ver com a — sabia que estava falando depressa. — e eu não temos mais nada um do outro.
— Isso não quer dizer que tenham se esquecido — a voz de soou tão sábia que me deu medo. Era ele mesmo?
— Esquecer e não amar mais são duas coisas completamente distintas — rebati. — Não vou me esquecer dela nunca. De como fomos felizes e tudo mais. Mas as circunstâncias nos sufocaram.
— E o que isso tem a ver com a suposta diferença entre esquecer e não amar mais? — O olhar de era sério.
Geralmente, eu tinha esse tipo de conversa com , já que ele era o melhor amigo da .
— Quer que eu acredite que não a ama mais? Em questão de dias, quando quase atirou um cara de uma janela para defendê-la?
É claro que eu a amo! — Quase gritei, pondo para fora algo que estava entalado na minha garganta há tempo demais. — Mas eu... Droga, é porque eu a amo que fiz as coisas do modo como fiz.
— Eu sei o que aconteceu. contou à , que contou a mim — confessou sem o mínimo de vergonha ou qualquer sentimento semelhante.
Meu casamento parecia um telefone sem fio.
— Sei o que falou para ela. E eu entendo o seu lado, mas... Ela nunca te trocaria nem pelo... Johnny Depp.
O exemplo de me fez rir.
— Mas... Não fuja do assunto — prosseguiu. — O que te fez levar a Kim?
Eu já não tinha respondido?
— Kim é uma doida — despejei. — Sempre interessada demais nisso ou naquilo. Fixada se e eu éramos felizes ou não, se ela me traiu ou não, se eu aprontei algo durante as viagens. E sempre tentando se mostrar prestativa, sempre preocupada em deixar claro que caberia perfeitamente na minha vida... Como se não tivesse uma própria, como se tivesse sempre que ocupar o lugar de alguém. Sabe o que mais, ?
— Hum?
— Olly e tinham razão. Kim não é mesma garota que estudou comigo anos atrás. Na verdade, não sei nem se a conheci de verdade naquela época, apesar de ela ter estado ao meu lado como uma boa amiga deveria fazer.
bateu em meu ombro.
— Você pode se enganar sobre as pessoas, às vezes. É normal — confortou-me. — Só não se engane sobre si próprio. A verdade vai bater na sua cara sempre.
— E quando eu me engano? — Eu quis saber.
— Quando diz que ter a longe de você é o melhor a ser feito.



Capítulo Quarenta e Sete
E eu não tenho um plano
Não vou justificar
Para permanecer onde eu estou.

24 Hours — Alexz Johnson


Jonas’ POV


Acordei na manhã seguinte à grande notícia quando meu celular vibrou no criado-mudo. No primeiro momento, eu, obviamente, estranhei o quarto. O sol atravessava as cortinas de um tom escuro de rosa e a mobília toda era antiquada e antiga — bem diferente da de Gaby, que era clara.
Esfreguei os olhos e me sentei na cama. Eram quase onze horas da manhã, segundo o relógio no meu celular. Era um e-mail — e eu não fazia ideia de quem pudesse ser. Dois cliques na tela e o e-mail abriu. Era Olly. Surpreendentemente, sorri ao ter notícias dela.

De: Olímpia Petroni
Para: Jonas < jonas@stfrancis.com>

Oi, !
Como você está?
Eu pensei em te ligar, mas cheguei à conclusão de que ia sair muito caro, portanto sejamos felizes com um e-mail.
Só queria saber notícias suas, se está tudo bem. Eu falei com meu pai ontem — e ele está bem —, então, ficou faltando você. Não sei se ainda usa esse e-mail, mas era o único que eu tinha. Ethan, Jimmy, Sky e eu te mandamos um abraço grande. Responda-me! Nós nos vemos quando eu voltar a NY antes de vir para Roma de novo.
Um abraço,
Olly.
PS: Não sei se você sabe, mas a mudança está marcada. Espero ver você no novo apartamento. Desculpe por bater tanto nessa tecla, sabe? Ah, dane-se! Eu sou Olly, bato na tecla quantas vezes achar que devo bater, haha.


Tratei de responder imediatamente, ocultando o fato de que eu não estava em NY. Disse a Olly que esperava que ela estivesse curtindo Roma com suas companhias favoritas, matando a saudade de sua terra-natal — e quase sugeri a ela que fosse até onde a mãe estava enterrada, mas achei melhor não me meter nisso. Lá no fundo, fiquei aliviada por ela não ter ligado, mas queria dizer a ela que ia ter um irmão. O grande problema era que eu não sabia se devia contar isso a ou não. E se contasse à Olly, era impossível que não caísse nos ouvidos dele.
Lá no fundo, eu sabia que era errado esconder de um homem que ele ia ter um filho, mas minha cabeça criava tantas suposições que comecei a ficar confusa. Imediatamente, pensei em pegar o telefone e pedir a para vir a Jersey. Depois, achei que ele se sentiria na obrigação de reatar comigo e voltei atrás: em alguma parte silenciosa, mas rebelde de mim, eu queria mais do que tudo que reatássemos, mas não nessas circunstâncias.
Ouvi uma batida na porta.
? — mamãe chamou.
— Oi? Estou acordada — respondi.
Minha mãe apareceu no quarto com seu habitual avental marrom e cor-de-rosa, onde se lia o nome da loja de cupcakes que ela havia aberto há dois anos. Sorriu para mim.
— Será que pode me ajudar com a loja? Maison foi fazer umas entregas, eu preciso terminar uma nova encomenda e vem um homem buscar duas centenas de bolinhos de morango para o primeiro aniversário da filha.
— Claro, mãe. Eu vou só mudar de roupa e comer alguma coisa, certo?
— Coma direito — ela apontou direto para a minha barriga.
Bati continência.
— Pode deixar. Hm, Olly me mandou um e-mail — contei, saltando da cama e indo até o armário, aí me lembrei de que minhas roupas ainda estavam nas malas. Abri uma delas e puxei um vestido liso e azul escuro que eu havia comprado algumas semanas antes.
— Que bonitinha! — Minha mãe sorriu. — E como ela está?
— Está bem, está em Roma. Foi com os amigos de férias — contei. — Ela queria saber como eu estou e tudo mais...
— É engraçado, não? — Minha mãe esfregou o queixo. — Essa menina vivia infernizando a sua vida e, agora, vocês parecem duas irmãs. Ou até duas amigas.
— Olly estava meio atormentada, só isso — dei de ombros. — Ela cresceu sem pai, se sentia infeliz nessa condição.
— Você viu no que pode dar uma criança sem pai, não viu?
A indireta de minha mãe entrou áspera pelos meus ouvidos.
— Quando vai contar ao que vão ter um bebê?
Quase me atirei na cama de volta e me cobri até a cabeça.
— Não sei — respondi, sentindo-me um pouco encurralada. — Nem sei se vou contar. Minha cabeça está rodando, eu estou confusa... Cacete! As coisas acontecem tão de repente... Ter esse bebê era algo que eu queria tinha tanto tempo, mas ele veio justo agora, quando meu casamento foi pelo ralo.
— Você precisa contar. Ou quer um replay da história da Olly? — Minha mãe me olhou seriamente. — E outra: nada foi pelo ralo enquanto você não assinar os papéis. Não seja boba, . Talvez o neném coloque as coisas no lugar. Ou você acha mesmo que passou tudo o que passou anos atrás para as coisas terminarem assim? Candice desistiria, não você.
— Não fui eu quem desistiu — rebati, num fiapo de voz.
— Querida — minha mãe se aproximou de mim, tocando meu rosto. — Se ele foi atrás de você uma vez, poderá fazer isso de novo.
— E me pôr para fora de novo também. Já se foram duas vezes.
Minha mãe deu um suspiro alto.
— Quanto a isso, bem, eu não tenho uma resposta agora. Porém, você conhece o homem com quem se casou muito melhor do que eu conheceria. Se não quiserem voltar à vida de casal, não voltem, mas não privem ninguém do direito de ter uma mãe e um pai.
— Eu só quero mudar de roupa e tomar café agora — disse a primeira coisa que me passou pela cabeça.
Eu não tinha como rebater com a minha mãe. Ela tinha razão. Eu não podia ser tão egoísta. Tudo bem, talvez eu e não tivéssemos mais uma solução como casal, entretanto, eu não podia tirar de uma criança o direito de ter sua família. Olly me parecia tão infeliz quando chegou, meses atrás, e eu me perguntara como a mãe dela tivera coragem de fazer isso com a própria filha. Eu não podia repetir, não devia. Nem queria! Então, qual era a coisa certa a fazer? Ir a Nova York? Ou pegar o telefone e dizer a que eu precisava muito falar com ele?
Eu só queria ter tempo para pensar... Tempo para colocar minha cabeça no lugar... Agir como uma boa mãe faria. Não era por mim, era pelo bebê. Mas mexeria comigo de um jeito ou de outro. Passaram-se só umas semanas desde tudo. Era como um caderno no começo das aulas: ainda tinha cheiro de novo, por mais que eu tentasse transformá-lo em algo comum.
— 24 horas — falei a mim mesma enquanto acertava as alças do vestido. — Amanhã, no horário do almoço, eu vou ligar. Não por mim, mas pelo meu bebê.

Jonas’ POV

A minha cabeça doía como se eu tivesse passado a noite anterior completamente bêbado. Tudo a fazia latejar: o bip do celular quando uma mensagem de texto chegava, o barulho do elevador, o latido do cachorro de Olly, as buzinas no trânsito... Até o desejo de bom dia de Gabriella me fez ter vontade de bater com a cabeça na parede até ela parar de doer. O detalhe era que eu não havia tomado um mísero gole de álcool. Em casa, noventa por cento das coisas estava encaixotada. Eu me mudaria no sábado seguinte para o novo apartamento. No começo, havia pensado em cancelar a compra, já que seria apenas eu morando nele, mas, depois, achei melhor não fazer isso — mesmo porque, eu já havia pagado.
Quando cheguei à perfumaria, Gabriella estava sentada no lugar de sempre, digitando novos contratos. Assim que me viu, levantou-se.
— Bom dia, Gabriella — eu disse.
— Olá, Sr. Jonas, bom dia — respondeu formalmente. — Há uma visita para o senhor na sua sala e Oliver St. Monique pediu que ligue para ele assim que puder.
— Hm, tudo bem. Ligo depois que atender quem está me esperando, obrigado — e, dizendo isso, rumei até a minha sala.
Acontece que a visita de “visita” não tinha nada. Era .
— Ei, bom dia — desejei, tentando parecer animado. Eu apenas não estava. Minha cabeça latejava, e eu me sentia uma bagunça.
— Eu preciso que você desça ao laboratório para aprovar uma nova fragrância. Bom dia.
Eu ri.
— Perto do almoço eu desço, ok?
apenas assentiu.
— O que aconteceu? Por que você chegou tão cedo? — Questionei, tomando meu lugar em minha cadeira. Abri o MacBook prateado e o liguei.
— Dormi mal — ele deu de ombros. — Achei melhor vir de uma vez.
— Está tudo bem? — Questionei, ficando realmente preocupado.
— Está. Só... Os meus vizinhos tiveram neném. A criança chora no andar de cima, e eu acordo — riu. — Não sei porque dei para ter o sono tão sensível justo agora.
Ri de novo.
Ter um neném. e eu havíamos falado disso, mas, apesar de tentarmos, não conseguimos. E agora fazia sentido do porquê. Eu vinha me esforçando para não me lembrar muito dela, mas era inevitável, ainda mais naquele apartamento. Tudo me trazia a lembrança porque não havia um centímetro daquele lugar onde ela não estivera um dia. O modo como sempre derrubava alguma coisa quando se levantava de madrugada, e eu fingia não ouvir o barulho; como reclamava que a porta do box no banheiro emperrava e que o armário da pia era alto demais. Tudo voltava para a minha cabeça a qualquer momento. Mas quando eu olhava para o lugar dela no sofá da sala, não a encontrava ansiosa pelo começo de temporada das séries adolescentes, algo tradicional naquela época do ano. Às vezes, no máximo, eu dava de cara com o cachorro da Olly dormindo. Isso quando ele não “comia” alguma das minhas gravatas.
E aí eu me dava conta de que seria isso dali em diante e que talvez eu terminasse sozinho, já que Olly poderia querer levar o cão com ela algum dia. Mas a solidão não era o pior: a falta que fazia, sim. E eu nem sabia onde ela estava para, nem que fosse, vê-la de longe.
, seu celular — estalou os dedos diante de mim, roubando-me do transe onde eu havia me escondido.
Enfiei a mão no bolso do paletó procurando pelo aparelho, mas o mesmo parou de tocar assim que olhei seu visor. Não reconheci o número. Nem o código de área. Quem sabe fosse Olly, da Itália.
— Desistiram — larguei o telefone sobre a mesa.
— Você está legal? — perguntou, deslizando meu telefone sobre a mesa com a ponta dos dedos. Estava ficando tão inquieto quanto .
— Eu acho que sim, eu preciso ligar para o Oliver. Quase que me esqueço disso — respondi, sem nem entender direito o que dizia.
— Ah, vou te dar licença, então — parou de deslizar o telefone.
, espera — chamei, mesmo que ele não tivesse se mexido.
— Hm, que foi?
— Tem notícias da ? Vocês eram amigos, eu pensei que soubesse alguma coisa...
pareceu engolir em seco. Esfregou a nuca. Ali, tive certeza de que ele sabia. Mas não sabia se deveria me dizer. Só que ele deveria.
... — insisti.
Ele suspirou e esfregou a nuca mais uma vez.
Não falei nada, esperei por ele.
foi embora para a casa da mãe, . está em Nova Jersey. Definitivamente.
Se eu não estivesse sentado, certamente, cairia sobre minha cadeira. Ela havia partido. E a culpa disso era minha. Totalmente minha e da minha ideia equivocada do que seria melhor.


Capítulo Quarenta e Oito
A única coisa de que nossos corações são feitos
São os atos de perdão e amor
A única coisa real quando o momento exige
São os atos de perdão e amor
Pois no final ninguém ganha ou perde
As histórias começam e recomeçam
Com o perdão e o amor.

Forgiveness And Love — Miley Cyrus


Jonas’ POV


Era fim de tarde e minha mãe havia saído de novo logo depois do almoço, por isso fiquei na loja atendendo ao telefone e entregando as encomendas. Felizmente, o cheiro do doce não me enjoava e, apesar de o calor ser forte, os ventiladores todos me faziam sentir melhor. Meu vestido era solto e confortável e os pés ainda não haviam inchado, então eu podia usar meu tênis Converse, o que me dava mais mobilidade ainda.
A loja era um retângulo e, bem ao fundo, era onde eu ficava, atrás do balcão, em frente a algumas prateleiras de madeira onde ficavam as caixas e alguns dos livros. O balcão era enorme e envidraçado, perfeitamente climatizado para que os bolinhos não estragassem. Algumas crianças haviam estado ali menos de meia hora atrás, comprando uma dúzia de bolinhos de chocolate para o que, acredito eu, tenha sido uma festinha de bonecas.
O telefone tocou, e eu atendi. Uma senhora pediu oito bolinhos de limão e disse que estava indo buscá-lo. Assim que desliguei, subi na pequena escada de dois degraus para pegar uma das caixas cor-de-rosa onde os cupcakes eram colocados. Ali, naquela cidade pequena, os bolinhos de minha mãe davam muito certo. Peguei a caixa numa das últimas prateleiras e desci. Quando me virei para o balcão, quase me segurei nas prateleiras de volta.
— Oi.
— Como você soube que eu estava aqui? — Perguntei, largando a caixa em cima do balcão.
me contou — aos poucos, atravessou a loja. Eu quase pensei que devia estar alucinando, mas me lembrei de que não estava com febre e, muito menos, havia bebido. Ele estava lá mesmo. Mas, pela hora, deveria estar trabalhando e, inclusive, ainda vestia o terno. — Ele fez mal? — Havia alguma coisa em seu tom que me confundia; se parecia tímido, ao mesmo tempo, parecia querer me intimidar.
Como defesa, me abaixei, procurando a bandeja onde ficavam os bolinhos de limão. Assim que a encontrei, estiquei o braço e peguei a caixa. Comecei a pôr os cupcakes nela. Eu havia planejado procurá-lo pela manhã, eu ainda me lembrava disso, mas não imaginei que seria tão desconfortável. E por que ele viera atrás de mim? Será que sabia alguma coisa? Mas não havia como. Ele não sabia... Eu não dissera nem para o meu irmão. Então, talvez, ele estivesse lá com os papéis do divórcio.
A simples hipótese me deixou nauseada.
Fechei a caixa e levantei-me de novo, largando a encomenda no balcão.
— Eu preciso falar com você — disse.
— Agora não dá — saiu num fiapo de voz.
Eu estava com medo dele? Ou com medo de suas razões para lagar o trabalho e vir atrás de mim?
— Minha mãe deve estar chegando — Pigarreei. — Então, ficará na loja. Se puder esperar...
— Não me importo em esperar — ele deu de ombros e deu dois passos para trás. Enfiou a mão nos bolsos e pareceu analisar a vitrine, fez uma careta. — Eu quero um bolinho de laranja, por favor.
— São três dólares — a resposta saiu automática.
Abaixei-me de novo e peguei o bolinho que me pediu com a ajuda de um pegador de inox. Peguei também um guardanapo, larguei-o sobre o balcão e pus o bolinho em cima.
— Pronto — disse, esfregando as mãos no vestido. Atônita, olhei para a porta, na esperança de que minha mãe aparecesse e acabasse com aquele clima pesado, com a dor de estômago que o nervosismo estava me dando. Sem saber o que fazer direito, cruzei os braços e evitei olhar para ele — por mais que estivesse lindo com a barba por fazer.
voltou para perto do balcão e pegou seu bolinho, largando o dinheiro ao lado. Três notas de um dólar.
— Tenho tomado café amargo tem dias — justificou-se, antes de dar uma mordida e se sujar com o glacê que tinha a mesma cor do céu naquele final de tarde.
— Hm — dei de ombros, agora, finalmente, tomando coragem de olhá-lo. Pude vê-lo passar o guardanapo na parte suja do rosto e dar mais uma mordida, quase acabando com o bolinho de uma vez por todas.
Uma senhora loira entrou na loja. Não tive dúvidas de que se tratava da do telefonema, ainda mais quando ela sorriu animadamente para mim.
— Vim buscar os bolinhos de limão! — Ela disse, já perto do balcão. Olhou para e depois para mim. Como se percebesse alguma coisa, me deu uma piscadela. Uma risada fraca escapou.
— Volte sempre — falei quando a mulher já ia saindo.
— Ela vai voltar, eu garanto — disse, colocando o guardanapo e o pequeno papel na lixeira prateada ao lado dele.
Não falei nada. A situação estava esquisita e pesada demais. Por trás do balcão, aproveitando-me de que não poderia me ver, toquei a barriga com as duas mãos. Eu queria saber o que se passava com ele, mas pessoas só leem mentes em filmes de realismo fantástico.
— Você veio dirigindo? — Perguntei.
— Vim. Eu deixei algumas coisas com e vim, mas depois nós falamos disso.
— Certo...
Não demorou muito até que minha mãe apareceu, adentrando a loja com um sorriso na cara. Eu não sabia se tinha a ver com o que ela fora fazer na rua ou com parado feito um segurança perto do balcão.
— Olá, querido — ela disse a ele.
— Marie, como vai? — respondeu.
Era estranho até hoje vê-la chamando de querido, quando eu podia lembrar perfeitamente que, quando tudo começou, talvez mamãe quisesse o fígado dele.
— Eu preciso sair — falei.
— Claro, pode ir. Daqui a pouco vou fechar.
Dei a volta no balcão e saí, controlando-me para que a minha ansiedade não fosse notada.
— Onde eu posso falar com você?
— Lá em casa. Eu tenho que falar com você também — consegui dizer naturalmente, surpreendendo-me comigo mesma.
não disse nada. Seguiu meus passos, saindo da loja.
Para chegarmos à casa, tínhamos de atravessar uma rua e passar por uma pracinha, onde algumas crianças brincavam e davam risada. Havia um escorregador, com uma casinha em cima dele, de onde uma menina de cabelos escuros escorregou. Imediatamente, pensei que, em pouco tempo, talvez eu levasse meu bebê ali. Isso me fez sorrir, mas acho que não viu. Ele vinha atrás de mim, o paletó balançando em uma das mãos. Eu não o via, mas podia supor que havia afrouxado a gravata também.
A casa de minha mãe era pequena e amarela. Girei a chave na porta e dei espaço para que entrasse. Quando passou, notei que meu palpite estava correto: a gravata estava frouxa. Ele conhecia a casa bem, portanto simplesmente bati a porta e comecei a andar na direção do quarto onde eu dormia. Meu irmão poderia chegar a qualquer instante, e eu não queria que ele nos interrompesse. Independente de estar com a papelada do divórcio ou não, eu tinha o que falar com ele e, talvez, isso demorasse.
— Acho que aqui a gente não corre o risco de ser interrompido — falei, fechando a porta do quarto e apontando para uma cadeira que havia perto da cama.
sentou-se, largou o paletó no colo e dobrou as mangas até os ombros.
— E, então, o que quer falar comigo?
Ele suspirou e olhou para mim. Eu me mantive de pé, em frente a ele.
... Eu quero que você volte — respondeu, respirando depois como se tivesse tirado um peso de toneladas das costas.
— Hein? — Aquilo me pegou de surpresa. Talvez, eu tenha empalidecido. Cheguei a cogitar a ideia de que poderia ter ouvido errado, mas isso era quase impossível. Caminhei até a cama e sentei, ainda chocada. — Eu ouvi direito?
— Disse que quero que você volte. Eu cometi um erro. Achei que fosse o melhor para nós, mas, pelo menos, isso não é o melhor para mim.
Uma parte de mim gritou. E uma espécie de coro ecoou, dizendo-me para dizer sim e voltar para ele, mas, pela primeira vez em muito tempo, a razão deu um soco na minha emoção e a deixou ali, nocauteada por um tempo.
— As coisas não são tão simples. Você não pode me tirar e me colocar na sua vida como se eu fosse um bonequinho de Lego — respondi. Isso pareceu desapontá-lo. — Eu achei que tudo ficaria bem quando voltou de São Paulo, mas você recuperou a razão para pisar nela e atirá-la longe de novo. Eu não sei se posso voltar para você sem o temor de ser jogada para fora de novo. Eu entendo o que quis fazer naquele dia, mas não é o tipo de coisa que eu queira encarar outra vez na vida.
— Você tem razão, mas... Mas será que não pode simplesmente me dar mais uma oportunidade? Eu sei que pareço estar jogando ou qualquer coisa assim, só que as coisas não são desse jeito. Eu te amo, ! Eu sempre amei você. E duvido muito que essa condição vá mudar algum dia.
Outra vez, eu fui pega desprevenida. Agora, foi minha emoção quem deu um soco certeiro na razão, que caiu deitada no ringue. Nem mesmo pude responder, tamanha a sensação extasiante que aquelas palavras me causaram. Fui invadida por uma felicidade doce e pura. Doce, pura e maravilhosa.
— Só tenho medo, entende? — Quase sussurrei, abaixando os olhos por um segundo.
levantou-se da cadeira e aproximou-se de onde eu estava, ajoelhou-se diante de mim e levantou meu rosto com a ponta dos dedos.
— Não vou te mandar para longe nunca mais, por favor, acredite. Eu sinto muito. Mais do que isso, se terminarmos aqui, definitivamente, nunca vou me perdoar. Mas eu entenderei você, juro que entenderei.
Senti-me um pouco encurralada. Minha razão recuperava-se aos poucos, mas meu emocional ainda se mostrava imponente.
— Vai entender mesmo? — Perguntei.
encolheu os ombros. Quase se levantou, mas permaneceu como estava.
— Eu juro — respondeu.
— Há uma coisa sobre a qual não contei, mas descobri há pouco tempo, na verdade — não sei de onde, mas a coragem para puxar aquele assunto pulou diante de mim, metendo-se no ringue entre o meu emocional e o racional. — Eu descobri, assim que cheguei aqui, que eu vou ter um bebê. Um bebê seu.
Uma risada eufórica saiu dos lábios de .
— Eu não falei antes porque... Porque eu não sabia se você ia querer saber, mas, depois, cheguei à conclusão de que eu deveria falar e iria a NY assim que pudesse.
— E por que eu não ia querer saber? Nós planejamos isso por um longo tempo. Eu te consolei nos alarmes falsos...
— Porque me atirou para fora da sua vida.
— Estou tentando te puxar de volta — rebateu. — Agora mais do que nunca, pela família que seremos.
— Não está bravo por eu ter pensado em não te dizer? — Meu tom soou frágil demais e me odiei por isso. Eu ainda estava uma confusão, sem saber se ouvia meu coração ou minha razão. Mas agia como se os gritos do meu emocional fossem a única coisa que eu ouvia.
— Não tenho esse direito. E entendo você — ele sorriu para mim, passando o polegar na minha maçã esquerda. — Vou entender qualquer decisão que tome, dadas as circunstâncias... Inclusive, se eu voltar sozinho para Nova York.
Suspirei.
Era agora ou nunca.
O último round. O último golpe.
Coração, o cinturão é seu.
— Minha mãe vai me matar por ter que guardar tudo de novo — eu ri. — Obrigada por não desistir de mim. Não desistir de nós.
— Eu nunca desistiria.
Eu o beijei. E quando isso aconteceu, eu me dei conta de que todo o medo, as despedidas doloridas e quaisquer outros problemas eram uma página virada. Uma vez, li em algum lugar que o amor era paciente, mas que também era posto à prova. Eu esperava que aquelas provas todas terminassem ali porque eu me sentia no direito de experimentar um estágio novo da felicidade.
Tudo estava no lugar certo, finalmente.
Durante a viagem de carro de volta à NY, nós conversamos um pouco mais sobre tudo. me explicou sobre ter ido com Kim à formatura de Olly. Eu, inclusive, disse a ele que não trabalharia mais no St. Francis. afirmou respeitar a minha decisão, mas, acima de tudo, confiar na minha capacidade profissional. A felicidade me invadiu de novo e me peguei pensando que todos nós havíamos, de uma vez por todas, achado o rumo correto de nossas vidas: tinha o sobrinho de Josh na vice-presidência, o mesmo era quem faria as viagens porque tinha dois filhos na Holanda, do primeiro e único casamento; o relacionamento de e ficava mais firme a cada dia e e tinham planos de morar juntos depois do Ano-Novo. Olly estava se divertindo com os amigos, mas também já havia sido aprovada na faculdade de Moda em Milão e estava eufórica porque Ethan iria estudar cinema em Paris... Dali para frente, deveríamos simplesmente aproveitar as mudanças. Porque todas elas eram positivas, de um modo ou de outro. E eu só me dava conta disso agora.
Quando chegamos à Nova York, senti-me aliviada por ainda ser o mesmo apartamento de sempre — mesmo que só por pouquíssimos dias. De uma maneira ou de outra, havíamos começado ali. Fossem os almoços ou a vida como casados. E era bom voltarmos às boas ali também. Eu amava e estava grata a Deus por ele me amar também, por ter lutado por mim, por não ter que encará-lo diante de um juiz ou ter de ir à sua casa com hora marcada quando nosso filho nascesse. Este foi um pesadelo que não vivi, felizmente.
Para não perder o costume, jantamos fast food — ainda mais comigo grávida, todas as minhas vontades deveriam ser atendidas. Depois do jantar — e da louça lavada —, simplesmente caímos no sofá e fizemos planos, planos sobre ser uma família, sobre batizar a criança como Nathan. até fez piada: pelas minhas contas, eu deveria dar a luz bem perto de seu aniversário, então ele dizia que o garoto nasceria no mesmo dia que ele. Eu ri, dizendo que o menino poderia se adiantar e nascer junto com Olly — a diferença era de um mês exatamente. Ele ligou para os irmãos e para os pais, disse que estávamos juntos novamente e, merecidamente orgulhoso, contou que seria pai. Hormônios devidamente malucos me fizeram encher os olhos d’água.
Quando ele desligou, eu me ajeitei, firmando as mãos contra os seus ombros. Sem dizer uma palavra, simplesmente o observei. Enquanto eu olhava para , parecia que tudo se passava diante de mim como um filme: quando esbarrei nele, quando nos beijamos no elevador, o parque em Long Island, o piquenique no Central Park, o fim de semana em sua casa. O modo como foi atrás de mim na Lilac, o casamento em Las Vegas. O Havaí, quando cuidou de mim depois do incidente com Josh, quando reatamos pela primeira vez, quando aceitei voltar para casa. Toda aquela felicidade tinha cor, cheiro de perfume caro, falas e imagens... Tudo até ali era especial. E seria mais ainda de agora em diante. Eu não tinha dúvida alguma, dúvida alguma de nada.
Pelo contrário, eu estava rodeada por certezas.
— Eu amo você — eu disse, antes de beijá-lo.
— Eu amo você também. Mais do que tudo na minha vida — respondeu.
Muitas pessoas acreditam que só se tem certeza sobre a morte. Sobre a vida acabar algum dia. Eu não. Eu tinha certeza disso, é claro, mas tinha certeza de outra coisa: o economista e menina da entrega seriam felizes para sempre.


FIM


Nota da Duda: (beta) Eu passei algum tempo pensando no que escrever aqui, até perceber que eu não deveria pensar, mas deixar o que estou sentindo falar por si só. E o que eu estou sentindo, neste momento, é orgulho. Orgulho por ter sido a beta de MFTS I e de MFTS II, por ter feito sugestões e as visto serem transformadas em cenas e, acima de tudo, por ter feito parte dessa história incrível e extremamente original. Eu não só tive a chance de ler tudo em primeira mão, como também de ver a escrita de uma autora amadurecer e melhorar ainda mais. E eu ganhei uma amiga. Principalmente por este motivo – e para que outras pessoas possam ler esta história – eu torço para que ambas as partes se tornem livros e, quem sabe, filmes. Assim, eu vou poder dizer que eu tive a sorte de conhecer Manhattan From The Sky quando ela ainda era uma fanfic e que eu fiz parte, nem que seja de um por cento, da história do economista e da menina da entrega. Parabéns, Madds Amélia. Não nos veremos na continuação, mas estou aqui para o que você precisar. Xx


Nota da Amélia: Escrever um último capítulo é fácil. Difícil é postá-lo, sabendo que pela última vez posso mexer com o coração e a imaginação de quem leu até aqui. Amanhã não vai ter ninguém ansioso pelo que virá depois. O que me conforta é saber que nunca escrevi nada de modo tão honesto. Nada me fez crescer tanto como "escritora" quanto "Manhattan From The Sky". Espero poder colher muitos e muitos frutos disso num futuro próximo e alimentar corações tão sonhadores quanto o meu. Então… acabou! E eu fico feliz por ter contado uma história tão bonita, modéstia à parte, hahaha. Eu só preciso dizer um enorme obrigada para todas vocês leitoras e para a minha beta, a Duda! Vocês todas foram espetaculares apesar das pedras pelo caminho, sou grata. Sou #blessed! Hahaha. Bem, sem rodeios; obrigada de novo. Até uma próxima. E não se esqueçam de passar no tumblr da fanfic pra ouvir a trilha sonora! Um milhão de beijos para todas vocês, “meninas da entrega”.
Com amor,
Maddie/Amélia Martins


Comente no tumblr da fanfic. No meu tumblr pessoal, através do meu twitter: @ameliamartins ou do meu twitter-fan: @NeedingMyJoBros. E mais uma vez: obrigada por ler as minhas histórias, vocês alimentam meus sonhos!


PS:
Quero deixar claro que não conheço NY, apenas me baseei em alguns filmes e séries para falar sobre a cidade. Qualquer erro, ignore ou me corrija, por favor.
Eu, infelizmente, não falo italiano, tudo aqui foi "concebido" pelo Google quase eficiente Tradutor.
Se não conheço NY, que dirá o Havaí! A Wikipédia me deu uma base, muito crua, mas 99% saiu da minha cabeça.

Outras Fanfics :: Tópico :: Manhattan From The Sky :: Team Olly (por Blue) :: Tumblr da Fanfic (digam na ask ou tópico quais quotes querem ver *-*)

Iniciada: 03/02/12
Finalizada: 07/12/12